O desenvolvimento do caso das gémeas e a (não) intervenção do Presidente da República

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Numa altura em que o nosso SNS está um caos, com muitas urgências de hospitais fechadas, com 1,7 milhões de portugueses sem médico de família, e as lutas de doentes para terem medicação eficaz para (por exemplo para a) a fibromialgia e a hepatite C, espantosamente são gastos 4 milhões de euros, no medicamento mais caro do mundo para o tratamento de duas crianças luso-brasileiras.

Em 2019, duas gémeas luso-brasileiras, vieram para Portugal para fazerem um tratamento contra a atrofia muscular espinhal, uma doença rara e cujo tratamento no nosso país (em teoria), é feito de forma gratuita, usando o medicamento mais caro do mundo, o Zolgensma. As suspeitas começam quando a nacionalidade portuguesa foi atribuída a estas meninas em tempo record, 14 dias, e a autorização especial para a administração deste medicamento concedida apenas em dois dias, num sábado. Foram também adquiridas rapidamente duas cadeiras de rodas topo de gama e, também em tempo record, foi-lhes atribuída consulta no Hospital Santa Maria. A nenhum dos mortais em situação normal isto seria concedido como todos sabemos.

O caso foi divulgado primeiro pela TVI, onde se alegava interferência do Presidente da República. E porquê? Porque os pais das duas meninas são amigos do filho do presidente, Nuno Rebelo de Sousa. As primeiras revelações do presidente negam ter tido desenvolvimento no caso e agora, Marcelo já admite ter recebido um e-mail do filho que enviou, de forma neutra para a Casa Civil.

A desculpa do “não tive interferência” para o “afinal, lembro-me de…” também tem efeitos noutras personagens desta história. Como no caso de Lacerda Sales, que também afirma “não ter tido interferência” para o “não me lembro, tenho que ir ver aos papéis”, o que nos faz considerar graves problemas de memória aqui, já que se esqueceu que reuniu com o filho do presidente no Ministério da Saúde. Marta Temido também afirma não ter tido interferência (que posição governamental ocupava ela na altura?), o Infarmed também não se pronuncia sobre o assunto, mesmo tendo concedido autorizações em tempo record num sábado, dia que não trabalham, o silêncio da administração do Hospital Santa Maria, que também se deve ter “esquecido” que os neuropediatras deste hospital foram contra a administração deste medicamento.

Tudo isto num país onde os doentes vão para a porta de um centro de saúde às 4, 5 da manhã e sem garantia de terem consulta. Num país onde há exames que demoram anos a serem realizados. Num país onde grávidas com um bebé morto no seu útero têm que aguardar 4 dias para que lhe retirem o corpo. Num país onde dezenas e dezenas de pessoas aguardam dias em corredores por uma cama de internamento. Tudo devido à degradação do Serviço Nacional de Saúde, onde se podem mostrar a inaugurar muitos centros de saúde, quando há falta de médicos no país. Quando as pessoas são empurradas para serviços privados no país. Quem ganha dinheiro com tudo isto?

Afirma o presidente que tem condições para continuar no cargo. Então são agora os corruptos que decidem se têm condições? Com toda esta rede de corrupção que afecta PS e também PSD (e outros partidos de extrema-direita), com todos estes tráficos de influência que ocorrem nestes casos, ainda gozam com o povo trabalhador, achando que estão “acima da justiça”, talvez por terem nomeado vários membros para essas posições de poder (ex: Lucília Gago).

O Governo demitiu-se por se ter afundado nas suas negociatas. Com todos estes casos, exigimos também a demissão do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E, naturalmente, eleições antecipadas para este órgão de poder. Apoiemos a luta dos trabalhadores do SNS, de todos os profissionais da saúde, desde médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, assistentes operacionais e demais trabalhadores para quem esses 4 milhões seriam muito úteis. Lutemos por um melhor serviço público de saúde.

É necessária uma (nova) alternativa à esquerda no campo político que seja expressão desta luta séria pelos serviços públicos e pelo respeito das condições de vida dos trabalhadores.

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