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Uma outra visão sobre o currículo de Guterres e a sua eleição para líder da ONU

Ontem (5 de Outubro), António Guterres confirmou-se como o favorito para liderar as Nações Unidas (ONU). Desde que se avançou com esta noticia que as televisões se encheram de debates e comentários de vários quadrantes com elogios e loas a António Guterres.

O presidente da República disse inclusive que seria bom para Portugal ter um português à frente da ONU, o Governo congratulou-se e todos os partidos parlamentares da esquerda à direita seguiram-lhes o exemplo.

Se dos partidos da direita, do presidente da república, do governo, de ex governantes (como Cavaco Silva e Passos Coelho) e dos comentadores de serviço já estávamos à espera deste tipo de reacção no que toca ao BE e PCP ficamos surpreendidos. Tanto PCP como BE mostraram simpatia pela notícia e depositaram esperanças que a eleição de Guterres contrariasse a “instrumentalização das Nações Unidas” e demonstrando, esta, ”ser imune a manobras”.

Não se entende esta reacção de PCP e BE, talvez só explicada pela progressiva aproximação ao PS e às instituições do estado desde que se iniciou a ‘gerigonça’. Como pode PCP e BE apoiarem e ficarem satisfeitos com Guterres para líder da ONU? Elencamos aqui alguns aspectos do currículo de Guterres que por estes dias ou mesmo últimos meses têm sido esquecidos:

1. Guterres foi primeiro-ministro do Governo que mais privatizações fez em Portugal (sobretudo no 1º mandato – 1995/1999), atingindo assim este tenebroso título à frente, imagine-se, de um governo que talvez mais más recordações trazem ao país como o de Passos Coelho.

Alguns exemplos das empresas privatizadas pelo Governo liderado por Guterres: PT, a EDP, a Cimpor, a Brisa, a Portucel, a Tabaqueira, a Setenave, a Quimigal, a linha de caminhos-de-ferro Fogueteiro/Ponte 25 de Abril/Lisboa e a 2ª e 3ª fase da privatização da EDP.

2. No referendo pela despenalização do aborto realizada em 1999, Guterres enquanto primeiro-ministro posicionou-se ao lado das forças mais conservadoras e reaccionárias do nosso país pelo NÃO à despenalização tendo tido um impacto decisivo para que a lei não tivesse sido alterada.

3. Foi Guterres quem reintroduziu as propinas no ensino superior abrindo caminho assim à progressiva elitização e privatização das universidades. Reafirmando o desígnio cavaquista do fim da gratuitidade no ensino superior.

4. Guterres presidiu ao conselho de ministros da União Europeia onde se consagrou a agenda de Lisboa, uma agenda profundamente neoliberal onde as privatizações, flexibilidade/precariedade no mundo laboral e poder das multinacionais foram o seu conteúdo.

Estas posições de Guterres fazem com que nós do MAS não entremos no coro de elogios, de aclamação e de satisfação pela sua possível eleição como líder da ONU. E lamentamos que BE e PCP apoiem uma figura que atentou contra os trabalhadores, os estudantes e as mulheres.

Não vemos inclusive que esta eleição traga nenhum benefício para o país como tem sido afirmado por inúmeras personalidades. Aliás, este foi o mesmo argumento utilizado quando Durão Barroso foi para líder da comissão europeia, com os resultados que conhecemos que demonstram de forma clara que não existe qualquer benefício para o país a não ser para os próprios e quem os apoia.

Por último, verificar que ao contrário do que tem sido dado a entender principalmente por BE e PCP, a eleição de Guterres nada tem que ver com uma vitória contra as manobras ou instrumentalização da ONU pelas grandes potências. É verdade que Guterres não teve o apoio de Merkel mas quem o apoiou? Por exemplo E.U.A., Rússia e China…podemos chamar à eleição de Guterres uma vitória contra as grandes potências? Não nos parece.

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