1. Gostaríamos de começar este artigo sobre o balanço das eleições autárquicas sinalizando a derrota das direitas e extremas-direitas. Era o que mais gostaríamos de assinalar e comemorar. Mas a realidade é a realidade e não aquela que gostaríamos que fosse. O PSD ou a coligação AD ganhou em quase toda a linha nos últimos 2 anos. Se somarmos a extrema-direita, a trauliteira fascista (do Chega), mais a supostamente “educada”, mas tão neo-liberal quando a AD e o Chega, falamos da IL, todos estas contra-revoluções juntas (por isso gostam tanto do 25 de novembro e odeiam o 25 de abril de 1974) ganharam em toda a linha: mais câmaras, mais votos, enfim um desastre para os trabalhadores e a juventude que nos próximos tempos vão pagar caro em pacotes laborais (corte nos direitos, e estagnação nos salários e pensões) e, obviamente, em aumentos constantes no custo de vida, nas rendas de casa e, não menos importante, nas … propinas para estudar.
2. Montenegro e a AD ganharam uma vez mais eleições, pese as corrupções evidentes do primeiro-ministro e o escândalo do Moedas, em Lisboa, na sequência das mortes no “acidente” do elevador da Glória. Não só não se demitiu como o deveria ter feito, e mesmo assim, ainda é reeleito com mais votos. Inacreditável. Mas estes factos, por mais duros que sejam de encarar, têm de ter uma explicação e não é a que a esquerda integrada ao regime (BE e PCP) têm dado. Mas já lá vamos. A AD ganha pela terceira vez em dois anos (legislativas e autárquicas) porque a esquerda quando foi governo, incluindo o período da Geringonça (de “esquerda”), não resolveu nenhum problema estrutural dos malefícios que gera governar um país em economia capitalista, onde a busca permanente de mão de obra barata (para se obter sempre lucros milionários) requer até imigração em massa, se o país não tem trabalhadores disponíveis (pois estes também emigram) ou pelo mesmo para ser explorada desenfreadamente. E à custa da degradação progressiva do SNS, do encerramento permanente de urgências em hospitais, os preços elevadíssimos das casas, onde ninguém com os salários mínimo s e médios em Portugal consegue pagar, tudo isto nas ‘barbas’ e com o começo das governações “socialistas”, levaram água à boca da demagogia das extremas-direitas, dizendo que o ‘socialismo’ é isto tudo, que a culpa de todos os males é da esquerda (toda), confundindo o PS ou mesmo talvez o PS, o BE e o PC, como se fossem toda a esquerda no apaís e, à boleia, desta campanha demagógica mas proporcionada pelo PS sim, até pelo PNS e mesmo com uma Geringonça com o BE e o PC a se colarem ao PS, todos eles contribuíram fortemente para que sectores de massas das classes trabalhadoras e das classes médias castigassem sucessivamente tudo o que é esquerda em eleições, iludindo-se que com Montenegros, Venturas e Cotrim o país irá para melhor. É evidente que irá para pior, mas foi a esquerda integrada ao sistema e ao regime, que abriram as portas à AD e até à extrema-direita. Mas isto não está em nenhum balanço de nenhuma força política à esquerda, nem sequer das diversas “alas” (se é qu e elas existem) que aberta ou encapotadamente compõem os respectivos partidos.
3. Pedro Nuno Santos, supostamente a ala esquerda do PS, comentou que o PS perdeu, não por se ter coligado à esquerda (diz ele que tal facto só ocorreu em 8 listas das 308 que o PS apresentou ao escrutínio), portanto o que faltou para o PS ter melhor resultado (ficar em segundo para ele já não é mau) foi os outros partidos não terem concentrado mais votos no … PS. Ou seja, a crise da esquerda globalmente falando nada tem que ver com as políticas seguidas pelos governos PS nem por quem os apoiou nos últimos (praticamente) 10 anos mas da não concentração de votos no PS. Enfim.
4. Mas à esquerda do PS, as explicações são melhores? O que nos disse o BE, o PCP, ou o Livre? É óbvio que o resultado quase miserável das esquerdas (em particular do BE e PCP) nas autárquicas já se estava à espera. Perguntamos, essas esquerdas deram uma explicação convincente das causas das sucessivas hecatombes nos últimos anos? Voltamos a perguntar, O BE ou o PC explicam bem os porquês das sucessivas derrotas, em particular nos últimos dois anos e em 4 eleições seguidas (legislativas duas -2024 e 2025, e europeias em junho de 2024), mais uma eleição para as autarquias no domingo 12 de outubro? Não. Nenhuma explicação séria. E porquê? Porque teriam que admitir que são partidos enfeudados ao regime, que vivem dele há anos através das milionárias subvenções. Que não são nenhuma alternativa anti-sistémica, nem sequer verdadeiramente anticapitalista. Retórica têm muita, mas na hora certa estão todos ao lado do PS (como nos governos de António Costa). O PC continua a ensaiar que ele não, ele vai sozinho na sua bicicleta a ver se faz esquecer que fez parte da sustentação dos governos PS. Só depois da experiência com a Geringonça de “esquerda” é que surgiu o demagogo e fascista Ventura e o seu partido. A explicação não é que os ‘ventos sopram a favor da extrema-direita’, ou que existe um ‘novo ciclo político à direita’, como se tudo isto fossem fenómenos naturais imprevisíveis, talvez como os terramotos ou os tornados. Não, não é assim. O que cada partido faz, principalmente ambos, o PC e o BE contam muito. Foi em quem as pessoas apostaram. BE e PCP, já tiveram juntos um milhão de votos e 36 deputados (o BE 19 e o PC 17). E não foi há um século, foi em 2015. Por que raio as centenas de milhares de trabalhadores lhes viraram as costas? Foram ‘inteligentes’ um dia e ‘estúpidos’ 10 anos depois? Esta não é, obviamente a verdade, é até uma grande mentira que desculpabiliza as direções dos respectivos partidos em quem milhares e milhares de trabalhadores e de classes médias depositaram esperanças e confiança. Faz falta renovar à esquerda, reconstruir uma esquerda combativa, revolucionária mesmo (que nunca esteve efectivamente representada no parlamento), pois já se provou 50 anos de PCP/CDU no país e de outros 25 anos de BE, deu no que estamos a viver hoje: o fascismo à porta. O Livre não é nenhuma alternativa, pois ainda aspira mais que o BE e o PC, de governar com o PS. A dicotomia válida é: ou uma esquerda nova, revolucionária anti-sistémica ou o regresso tenebroso e em força de regimes cada vez mais ditatoriais ao poder à boleia de ADs, Chegas e Ils. O MAS será parte dessa reconstrução à esquerda, junta-te a nós.
