{"id":309,"date":"2010-10-04T01:41:29","date_gmt":"2010-10-04T00:41:29","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/10\/04\/mocambique-a-revolta-dos-famintos\/"},"modified":"2010-10-04T01:41:29","modified_gmt":"2010-10-04T00:41:29","slug":"mocambique-a-revolta-dos-famintos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/10\/04\/mocambique-a-revolta-dos-famintos\/","title":{"rendered":"Mo\u00e7ambique: a revolta dos famintos"},"content":{"rendered":"<p>Nos primeiros dias de Setembro, milhares de mo\u00e7ambicanos manifestaram-se nos sub\u00farbios de Maputo contra os brutais aumentos de pre\u00e7os de bens de primeira necessidade decretados pelo governo: 25% no pre\u00e7o do p\u00e3o, 13% na electricidade; aumentou tamb\u00e9m o arroz e a \u00e1gua. <\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rios dias de confrontos, a pol\u00edcia, que atirou a matar, fez 13 mortos e dezenas de feridos. Cinicamente, o governo da Frelimo apelidou os revoltosos de &#8220;delinquentes&#8221; e &#8220;criminosos a soldo do estrangeiro&#8221;. Mas \u00e9 o governo mo\u00e7ambicano que obedece o FMI e ao capital estrangeiro para aplicar as pol\u00edticas que servem os interesses destes. Basta dizer que o presidente Gebuza e muitos outros ministros e pol\u00edticos s\u00e3o <span style=\"text-decoration: underline;\">accionistas<\/span> de algumas das principais empresas estrangeiras do pa\u00eds&#8230;<br \/>A par dos privil\u00e9gios da classe pol\u00edtica e dos empres\u00e1rios vive um dos povos mais pobres de \u00c1frica (e do mundo). O sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 o equivalente a 53\u20ac. Quase metade da popula\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana \u00e9 extremamente pobre \u2013 46,8%, de acordo com a ONU. A \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 acess\u00edvel apenas a 42% da popula\u00e7\u00e3o. Os aumentos salariais est\u00e3o congelados e o c\u00f3digo do trabalho dos primeiros anos do governo da Frelimo, que era muito progressivo, foi desmantelado. A partir da d\u00e9cada de 90 o governo da Frelimo abandonou qualquer resqu\u00edcio da via socializante (mesmo que burocr\u00e1ticamente controlada) dos primeiros anos da independ\u00eancia e enveredou pela pol\u00edtica ultra-liberal de privatiza\u00e7\u00f5es e desregulamenta\u00e7\u00e3o, e pela subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es impostas pelo FMI. Foi este ali\u00e1s que, &#8220;<em>para controlar o endividamento (&#8230;) imp\u00f4s os aumentos<\/em>&#8221; (palavras do director do Instituto Portugu\u00eas de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Seguran\u00e7a, Paulo Gorj\u00e3o, em entrevista publicada no DN de 3\/Set.)<br \/>A alta dos pre\u00e7os n\u00e3o ocorre s\u00f3 em Mo\u00e7ambique. A 7 de Setembro a \u00cdndia estava em greve geral contra a alta do pre\u00e7o do arroz, base da alimenta\u00e7\u00e3o da grande maioria do povo. Trata-se de um fen\u00f3meno que se tem vindo a agravar nos \u00faltimos anos. Em 2008 a alta dos produtos alimentares causou conflitos sociais em 33 pa\u00edses. Entre Mar\u00e7o de 2007 e Mar\u00e7o de 2008 o trigo aumentou 130%, o arroz 74% e o milho 53% (dados da FAO).<br \/>No entanto, sabe-se que desde 1950 o volume da produ\u00e7\u00e3o mundial dos alimentos cresce a um ritmo superior ao da popula\u00e7\u00e3o mundial&#8230; <strong>Se a produ\u00e7\u00e3o cresce, porque aumentam os pre\u00e7os? Porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alimentar a popula\u00e7\u00e3o mundial condignamente e a pre\u00e7os acess\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O &#8220;agrobusiness&#8221; e a especula\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os<\/strong><br \/>Vivemos numa sociedade capitalista. E, tal como Marx j\u00e1 descrevia no <em>Capital<\/em>, o capitalismo caracteriza-se por uma tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de riqueza num p\u00f3lo \u2013 a burguesia \u2013  e \u00e0 mis\u00e9ria crescente no outro p\u00f3lo \u2013 a maioria da humanidade. A agricultura e a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos n\u00e3o escapam a esta lei. Se a ind\u00fastria est\u00e1 nas m\u00e3os dos grandes monop\u00f3lios, a agricultura \u00e9 cada vez mais dominada pelo agrobusiness, que se baseia &#8220;<em>no uso intensivo de terras, capitais e maquinaria para conseguir uma produ\u00e7\u00e3o maci\u00e7a<\/em>&#8221; (ver A crise dos Alimentos, de A. Iturbe, na revista &#8220;Marxismo vivo&#8221; n\u00ba 18). Esta produ\u00e7\u00e3o em larga escala pode inclusive ser armazenada por certo tempo sem se estragar e tornar-se assim objecto de especula\u00e7\u00e3o.<br \/>Os pre\u00e7os das principais mat\u00e9rias-primas, incluindo as agr\u00edcolas, s\u00e3o fixados internacionalmente nas bolsas chamadas de &#8220;<em>commodities<\/em>&#8221; e de acordo com o jogo especulativo. N\u00e3o s\u00e3o os pequenos camponeses que decidem os pre\u00e7os do que produzem tendo em conta os custos, a rela\u00e7\u00e3o entre oferta e procura, etc..  Quando os camponeses colocam a sua produ\u00e7\u00e3o no mercado \u2013 trigo ou milho, por exemplo \u2013 t\u00eam que se sujeitar ao pre\u00e7o fixado na bolsa internacional de Chicago (que estipula os pre\u00e7os dos cereais), o qual muito dificilmente cobrir\u00e1 os custos reais da sua produ\u00e7\u00e3o de pequena escala.<br \/>Sem condi\u00e7\u00f5es para competir com a produ\u00e7\u00e3o intensiva do agroneg\u00f3cio e nenhuns ou poucos subs\u00eddios estatais \u2013 em resultado tamb\u00e9m da pol\u00edtica implementada internacionalmente de &#8220;livre concorr\u00eancia&#8221; e de cortes nas despesas p\u00fablicas \u2013 os camponeses pobres acabam por vender as suas terras aos grandes propriet\u00e1rios e empresas do agroneg\u00f3cio, e v\u00e3o engrossar as fileiras dos pobres e desempregados das cidades. O que arrasta como consequ\u00eancia um aumento exponencial dos que necessitam de alimentos, pois at\u00e9 a\u00ed os camponeses alimentavam-se, e \u00e0s suas fam\u00edlias, duma parte do que cultivavam. Milhares e milhares de pobres dos campos v\u00e3o assim acentuar a press\u00e3o sobre os pre\u00e7os dos alimentos, devido ao aumento da procura nas cidades.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Concentra\u00e7\u00e3o nas culturas lucrativas<\/strong><br \/> O modelo actual implica que a produ\u00e7\u00e3o se concentre em culturas com maior procura e pre\u00e7os mais atractivos nas bolsas interncionais, que se armazenem mais facilmente, etc.. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola n\u00e3o est\u00e1 assim determinada pelas necessidades reais da humanidade, mas t\u00e3o s\u00f3 pela procura do maior lucro. Em 2008 as culturas &#8220;da moda&#8221; eram a soja, a cana do a\u00e7ucar e o milho; hoje s\u00e3o os vegetais e cereais destinados aos biocombust\u00edveis.<br \/>Na entrevista citada acima, Paulo Gorj\u00e3o explica que, na \u00c1frica em geral e Mo\u00e7ambique em particular, &#8220;<em>h\u00e1 tend\u00eancia de desinvestimento na agricultura tradicional e aposta de grupos internacionais em cereais usados no dom\u00ednio energ\u00e9tico. A Galp tem l\u00e1 projectos, assim como os chineses e os sul-africanos. Solos de primeira qualidade est\u00e3o a ser usados dessa forma<\/em>.&#8221;. Ou seja, o capital (inclusive o capital portugu\u00eas) destr\u00f3i n\u00e3o s\u00f3 a agricultura tradicional, como a possibilidade de os bons solos serem utilizados para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das popula\u00e7\u00f5es.<br \/>Sim, o povo mo\u00e7ambicano tem raz\u00e3o de lutar contra um governo que, para satisfazer as necessidades dos grandes neg\u00f3cios e manter os privil\u00e9gios da classe pol\u00edtica, n\u00e3o se co\u00edbe de deixar a maioria do povo morrer \u00e0 fome, e inclusive de matar!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos primeiros dias de Setembro, milhares de mo\u00e7ambicanos manifestaram-se nos sub\u00farbios de Maputo contra os brutais aumentos de pre\u00e7os de bens de primeira necessidade decretados pelo governo: 25% no pre\u00e7o do p\u00e3o, 13% na electricidade; aumentou tamb\u00e9m o arroz e a \u00e1gua. Depois de v\u00e1rios dias de confrontos, a pol\u00edcia, que atirou a matar, fez 13 mortos e dezenas de feridos. Cinicamente, o governo da Frelimo apelidou os revoltosos de &#8220;delinquentes&#8221; e &#8220;criminosos a soldo do estrangeiro&#8221;. Mas \u00e9 o governo mo\u00e7ambicano que obedece o FMI e ao capital estrangeiro para aplicar as pol\u00edticas que servem os interesses destes. 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