{"id":1499,"date":"2014-03-19T12:57:30","date_gmt":"2014-03-19T11:57:30","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2014\/03\/19\/os-revolucionarios-diante-do-referendo-na-crimeira\/"},"modified":"2014-03-19T12:57:30","modified_gmt":"2014-03-19T11:57:30","slug":"os-revolucionarios-diante-do-referendo-na-crimeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2014\/03\/19\/os-revolucionarios-diante-do-referendo-na-crimeira\/","title":{"rendered":"Os revolucion\u00e1rios diante do referendo na Crimeia"},"content":{"rendered":"\n<p>O curso da revolu\u00e7\u00e3o ucraniana \u00e9 amea\u00e7ado por duas grandes for\u00e7as contrarrevolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Por um lado, os bandidos imperialistas, norte-americanos e europeus, n\u00e3o poupam nenhum esfor\u00e7o para consolidar o novo governo fantoche de seus des\u00edgnios e apostam todas as suas fichas no desvio do processo revolucion\u00e1rio pelo beco sem sa\u00edda da reconstru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e da realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es no quadro da democracia burguesa.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Este plano contrarrevolucion\u00e1rio \u00e9 desenvolvido ao mesmo tempo em que as pot\u00eancias mundiais refor\u00e7am a cadeia de domina\u00e7\u00e3o semicolonial sobre o pa\u00eds, por meio de novos acordos e empr\u00e9stimos com o FMI, Banco Mundial e a Uni\u00e3o Europeia (UE) e seus consequentes &#8220;planos de ajuste&#8221;.<\/p>\n<p>Por outro lado, o futuro da revolu\u00e7\u00e3o ucraniana enfrenta-se \u00e0 ofensiva contrarrevolucion\u00e1ria do reacion\u00e1rio governo russo de Vladimir Putin, o qual, com a queda de Yanukovich pela mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas, sofreu uma derrota ainda mais direta que a do bloco imperialista, devido a que o ex-presidente ucraniano era um agente direto do Kremlin no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como sabemos, imediatamente depois desse primeiro triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, o governo de Putin come\u00e7ou uma agress\u00e3o militar \u00e0 soberania ucraniana, invadindo com suas tropas a pen\u00ednsula da Crimeia, onde milhares de soldados russos tomaram aeroportos, edif\u00edcios p\u00fablicos e cercaram as principais bases militares ucranianas.<\/p>\n<p>Paralelamente a isto, Putin impulsa, atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de novas autoridades completamente servis aos seus interesses, a separa\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia e sua anexa\u00e7\u00e3o \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Russa mediante um fraudulento referendo que realizado em 16 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Neste sentido, em 11 de mar\u00e7o, as autoridades separatistas da Crimeia aprovaram no Soviete Supremo local (Parlamento) uma declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia unilateral, dando mais um passo \u201clegal\u201d no sentido da anexa\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Estas medidas ser\u00e3o combinadas com o resultado do fraudulento referendo, sustentado numa ocupa\u00e7\u00e3o militar estrangeira, que sem nenhuma d\u00favida ser\u00e1 amplamente favor\u00e1vel aos interesses de Putin. N\u00e3o \u00e9 casual que a Crimeia seja escolhida como centro da reac\u00e7\u00e3o contra a revolu\u00e7\u00e3o ucraniana, tentando arrastar nesta linha outras prov\u00edncias do leste ucraniano, como Lugansk, Donetsk, J\u00e1rkov e Odessa.<\/p>\n<p>A pen\u00ednsula da Crimeia \u00e9 a regi\u00e3o da Ucr\u00e2nia onde existe uma clara maioria de origem e cultura russas, sendo que este idioma \u00e9 falado por quase 60% da popula\u00e7\u00e3o de pouco mais de dois milh\u00f5es de habitantes. Al\u00e9m disso, a R\u00fassia tem interesses estrat\u00e9gicos na Crimeia, n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f3micos (como os gasodutos) mas tamb\u00e9m militares, pois na cidade de Sebastopol reside sua poderosa e hist\u00f3rica base naval \u00e0s margens do Mar Negro.<\/p>\n<p>N\u00f3s, como j\u00e1 declaramos<a href=\"#a1\"><sup>1<\/sup><\/a>, condenamos a ocupa\u00e7\u00e3o militar russa da Crimeia e o referendo separatista, impulsionado pelo Kremlin e sustentado por esta agress\u00e3o russa \u00e0 soberania territorial ucraniana.\u00c9 uma clara reac\u00e7\u00e3o de Putin ante a derrota que o movimento de massas lhe assestou em Kiev.<\/p>\n<p>Da perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de um ataque ao direito \u00e0 independ\u00eancia do povo ucraniano, o separatismo na Crimeia n\u00e3o passa de uma tentativa reacion\u00e1ria de dividir a classe trabalhadora, pela amputa\u00e7\u00e3o do elemento prolet\u00e1rio fundamental (mais concentrado no leste) do processo revolucion\u00e1rio que se est\u00e1 desdobrando com mais clareza em Kiev e no ocidente do pa\u00eds.No entanto, \u00e9 um facto ineg\u00e1vel que a popula\u00e7\u00e3o russa ou de origem russa \u00e9 majorit\u00e1ria na Crimeia e, ao mesmo tempo, \u00e9 evidente que este sector deseja separar-se da Ucr\u00e2nia e ser parte da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Ante esta realidade, seria poss\u00edvel perguntar: Os marxistas n\u00e3o deveriam defender o \u201cdireito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional\u201d deste sector \u00e9tnico e cultural (russo) na Ucr\u00e2nia? Embora n\u00e3o concordemos com sua separa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 o caso de apoiar o seu \u201cdireito\u201d de decidir sobre tal quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Para responder a esta quest\u00e3o fundamental, como orientava Lenin na hora de encarar qualquer debate que envolvesse a chamada \u201cquest\u00e3o nacional\u201d, \u00e9 necess\u00e1rio analisar cada caso espec\u00edfico de forma concreta.<\/p>\n<p>Por isso, para entender este problema particularmente complexo e poder definir uma posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria frente ao referendo convocado na Crimeia, \u00e9 indispens\u00e1vel conhecer e analisar, mesmo que em tra\u00e7os gerais, o processo hist\u00f3rico que determinou a atual composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, lingu\u00edstica e cultural da pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Dos cim\u00e9rios ao imp\u00e9rio russo<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos VIII a.C. e VII a.C., o atual territ\u00f3rio da Crimeia foi habitado por civiliza\u00e7\u00f5es cim\u00e9rias e escitas. De facto, o pr\u00f3prio nome da regi\u00e3o deriva de <em>Kymeria<\/em> ou Cim\u00e9ria (pa\u00eds dos cim\u00e9rios).<\/p>\n<p>Posteriormente chegaram os gregos, que fundaram muitas cidades e conheceram o lugar como <em>Chersonesus Taurica<\/em>, nome proveniente de Tauri, uma tribo descendente dos cim\u00e9rios.<\/p>\n<p>Em 438 a.C. os gregos mil\u00e9sios formaram no local o chamado reino de B\u00f3sforo, o qual, em 114 a.C. foi governado por Mitr\u00eddates VI Eupator, rei do Ponto e um dos mais fascinantes inimigos do imp\u00e9rio romano. Quando o rei Mitr\u00eddates foi derrotado pelos romanos (ao redor de 64 a.C.), a pen\u00ednsula passou a formar parte das possess\u00f5es de Roma, inaugurando um per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o de quase tr\u00eas s\u00e9culos.<\/p>\n<p>En 250 d.C., a atual Crimeia foi conquistada pelos godos, a primeira de uma s\u00e9rie de invas\u00f5es, que se estenderam por um mil\u00eanio e nas quais se sucederam hunos, alanos, \u00e1varos, j\u00e1zaros, pechenegas, varengos, romanos e genoveses.<\/p>\n<p>Neste processo, durante a Idade M\u00e9dia, uma mistura \u00e9tnica entre cl\u00e3s genoveses, venezianos e turcos, que haviam conseguido assentar-se nesse territ\u00f3rio, deu origem aos chamados <strong>t\u00e1rtaros da Crimeia<\/strong>, grupo \u00e9tnico-lingu\u00edstico que finalmente pode consolidar-se como uma popula\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>Os t\u00e1rtaros da Crimeia, mu\u00e7ulmanos sunitas, com o tempo dominaram todo o territ\u00f3rio e formaram um Estado pr\u00f3prio, o chamado <strong>Kanato da Crimeia<\/strong>, que governou a regi\u00e3o de 1441 at\u00e9 1783, sendo parte do antigo imp\u00e9rio otomano.<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio otomano, atrav\u00e9s do Kanato da Crimeia, perde o dom\u00ednio da pen\u00ednsula como consequ\u00eancia da derrota militar ante o imp\u00e9rio russo (1768-1774), facto que marcou o come\u00e7o do controle <em>de facto<\/em> de todo esse territ\u00f3rio por parte da dinastia Romanov.<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio russo, ent\u00e3o, imp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es leoninas aos vencidos, como o pagamento de pesadas indeniza\u00e7\u00f5es e a constru\u00e7\u00e3o de portos e de uma base naval no Mar Negro, com a qual conseguiram uma sa\u00edda ao mar Mediterr\u00e2neo, e que permanece at\u00e9 nossos dias.<\/p>\n<p>Depois desta guerra, o Kanato da Crimeia sobreviveu s\u00f3 formalmente, dividido entre fac\u00e7\u00f5es que apoiavam a R\u00fassia ou a Turquia, situa\u00e7\u00e3o que deu in\u00edcio a uma guerra civil. Esta situa\u00e7\u00e3o se desenvolveu at\u00e9 que, finalmente, em 1783, os russos ocuparam a Crimeia sob a ordem da imperatriz Catarina II, chamada a Grande, anexando definitivamente a pen\u00ednsula ao imp\u00e9rio dos czares.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed come\u00e7a um processo de russifica\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio, que teve uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica para o czarismo. A Crimeia foi a ponta de lan\u00e7a do expansionismo imperial russo na regi\u00e3o, fundamentalmente contra interesses do imp\u00e9rio otomano, que come\u00e7ava a manifestar sua decad\u00eancia.<\/p>\n<p>De Sebastopol, onde instalaram a base naval que actuou como posto militar avan\u00e7ado, os Romanov conseguiram intimidar os otomanos e garantir o dom\u00ednio russo em toda a regi\u00e3o circundante, inclusive o C\u00e1ucaso e os estreitos turcos para sair ao Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Foi justamente o expansionismo russo e, portanto, a defesa dos interesses das principais pot\u00eancias europeias, sobretudo o Reino Unido, que via seu controle no M\u00e9dio Oriente (a rota \u00e0 \u00cdndia) amea\u00e7ado, o elemento central que detonou a conhecida <strong>Guerra da Crimeia<\/strong> (1853-1856), uma esp\u00e9cie de ensaio de contenda mundial que colocou os russos contra uma entente brit\u00e2nico-francesa, turco-otomana e piemontesa, e que terminou com a derrota do imp\u00e9rio russo ap\u00f3s onze meses de um feroz cerco a Sebastopol, episodio b\u00e9lico que ficou imortalizado nos escritos de Tolstoi.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>O genoc\u00eddio dos t\u00e1rtaros por Estaline<\/strong><\/span><\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, depois da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa e da vit\u00f3ria sovi\u00e9tica na guerra civil que lhe sucedeu, a Crimeia converteu-se em uma rep\u00fablica aut\u00f3noma para os t\u00e1rtaros, no marco do respeito aos direitos nacionais que caracterizou os primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas esta pol\u00edtica, como sucedeu com todas as nacionalidades n\u00e3o russas do antigo imp\u00e9rio czarista e da ex-URSS, mudou com o triunfo da contrarrevolu\u00e7\u00e3o estalinista na d\u00e9cada de 20, que voltou a impor uma pol\u00edtica chauvinista gran-russa brutal \u00e0s nacionalidades oprimidas.<\/p>\n<p>Em 1941, a Crimeia foi invadida pelo Ex\u00e9rcito alem\u00e3o. Em junho de 1942, depois de cruentas batalhas e ao custo de um terr\u00edvel cerco de 10 meses e mais de 170 mil mortos, os alem\u00e3es conquistaram Sebastopol e a base naval russa. A ocupa\u00e7\u00e3o nazi prolongou-se at\u00e9 1944, quando as suas tropas foram expulsas pelo ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o gerada pela ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 foi aproveitada por Estaline para dar um salto qualitativo na russifica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da Crimeia. O ataque come\u00e7ou com o rebaixamento da categoria de Rep\u00fablica Aut\u00f3noma da Crimeia para a de <em>oblast<\/em> (prov\u00edncia).<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o foi o pior. A russifica\u00e7\u00e3o brutal da Crimeia impulsionada por Estaline tomou a forma de uma das mais brutais e criminosas limpezas \u00e9tnicas da hist\u00f3ria moderna. Referimo-nos \u00e0 pol\u00edtica de exterm\u00ednio dos t\u00e1rtaros, a popula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>Foi assim que, em 1944, com a acusa\u00e7\u00e3o de que os t\u00e1rtaros da Crimeia haviam colaborado de forma generalizada com o ocupante nazi, Estaline simplesmente declara que essa nacionalidade estava \u201cabolida\u201d e come\u00e7a um processo de assassinatos e deporta\u00e7\u00f5es em massa dos t\u00e1rtaros e, em menor medida, de outras minorias gregas, b\u00falgaras e arm\u00e9nias com destino \u00e0 \u00c1sia central e outras regi\u00f5es da URSS.<\/p>\n<p>Este terr\u00edvel desterro e limpeza \u00e9tnica \u00e9 conhecido, entre os descendentes dos t\u00e1rtaros da Crimeia como o <em>S\u00fcrg\u00fcn <\/em>(ex\u00edlio, em t\u00e1rtaro). O <em>S\u00fcrg\u00fcn <\/em>come\u00e7ou a 17 de maio de 1944 em todas as localidades da Crimeia. Participaram da opera\u00e7\u00e3o mais de 32 mil efetivos da sinistra NKVD. Desta forma, foram deportados mais de 190 mil t\u00e1rtaros (fala-se em 250 mil) para o Uzbequist\u00e3o, Mari, Cazaquist\u00e3o e a outros <em>oblasts<\/em> russos.<\/p>\n<p>Entre maio e novembro de 1944, mais de 10 mil t\u00e1rtaros da Crimeia morreram de inani\u00e7\u00e3o no Uzbequist\u00e3o (ao redor de 7% dos deportados para essa ex-rep\u00fablica sovi\u00e9tica). Do total de desterrados, aproximadamente 20% morreram no ex\u00edlio durante o ano e meio seguinte, segundo dados da pol\u00edcia pol\u00edtica sovi\u00e9tica. No entanto, segundo activistas t\u00e1rtaros, o n\u00famero real de mortes representaria 46% dos deportados.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, embora estes factos sejam pouco conhecidos, que o estalinismo aplicou uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica n\u00e3o s\u00f3 de segrega\u00e7\u00e3o, mas de exterm\u00ednio f\u00edsico da na\u00e7\u00e3o t\u00e1rtara. De facto, as organiza\u00e7\u00f5es de descendentes de t\u00e1rtaros da Crimeia reivindicam que o <em>S\u00fcrg\u00fcn <\/em>seja reconhecido oficialmente como um genoc\u00eddio pelos organismos internacionais.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o t\u00e1rtara na Crimeia foi dizimada e expulsa de sua pr\u00f3pria terra, para depois ser substitu\u00edda por colonos russos. Portanto, podemos afirmar que a actual \u201cmaioria\u201d russa na Crimeia vem daquele processo de russifica\u00e7\u00e3o iniciado no fim do s\u00e9culo XVIII e, especificamente, do atroz genoc\u00eddio de 1944-45.<\/p>\n<p>Com a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS, os remanescentes da di\u00e1spora t\u00e1rtara foram retornando \u00e0 sua terra de origem, mas sob uma nova composi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, na qual n\u00e3o superam 12% da popula\u00e7\u00e3o da Crimeia e, ao lado dos ucranianos (24%), s\u00e3o atualmente uma minoria em sua pr\u00f3pria p\u00e1tria, e por isso se op\u00f5em \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia, seus verdugos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a base objetiva do permanente separatismo da popula\u00e7\u00e3o de origem russa na Crimeia, o qual se acentuou quando, em 1954, o ex-l\u00edder sovi\u00e9tico Nikita Kruschev \u201cpresenteou\u201d a pen\u00ednsula \u00e0 Ucr\u00e2nia, em teoria para comemorar o tricenten\u00e1rio do tratado de 1654 que uniu a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Na realidade, esta medida era uma necessidade do Kremlin para equilibrar rela\u00e7\u00f5es e atenuar tens\u00f5es a n\u00edvel da pr\u00f3pria burocracia governante no per\u00edodo imediato \u00e0 morte de Estaline, onde um dos problemas latentes eram as tend\u00eancias separatistas na Ucr\u00e2nia sovi\u00e9tica. Nesse sentido, com aquele \u201cgesto\u201d, Kruschev buscava aplacar certos \u00e2nimos hostis em sectores da burocracia, sem deixar de controlar a pen\u00ednsula atrav\u00e9s da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p><strong>Em s\u00edntese:<\/strong><\/p>\n<p>1. Os revolucion\u00e1rios n\u00e3o podem apoiar em nenhum sentido a pol\u00edtica separatista concretizada no referendo que o Kremlin e seus representantes na Crimeia realizam, devido a que a popula\u00e7\u00e3o russa ou de origem russa na pen\u00ednsula, em primeiro lugar, n\u00e3o constitui uma <strong>nacionalidade oprimida<\/strong>. Ao contr\u00e1rio, historicamente \u00e9 o chauvinismo gran-russo que oprime a Ucr\u00e2nia como um todo e as demais ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas n\u00e3o russas.<\/p>\n<p>2. No caso concreto da Crimeia, a atual \u201cmaioria\u201d russa se deve a um processo agressivo de \u201crussifica\u00e7\u00e3o\u201d desse territ\u00f3rio h\u00e1 mais de dois s\u00e9culos e que inclui a abomin\u00e1vel limpeza \u00e9tnica (atrav\u00e9s de um genoc\u00eddio e deporta\u00e7\u00f5es massivas) que foi realizada por Estaline contra a popula\u00e7\u00e3o t\u00e1rtara origin\u00e1ria e outras minorias \u00e9tnicas.<\/p>\n<p>Esse processo de \u201crussifica\u00e7\u00e3o\u201d na Crimeia \u00e9 insepar\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 da pol\u00edtica geral de opress\u00e3o nacional exercida tanto pelo czarismo quanto pelo estalinismo, mas da necessidade de garantir o controlo total do territ\u00f3rio sede da base naval em Sebastopol, hist\u00f3rico posto militar avan\u00e7ado dos interesses russos na regi\u00e3o e que actualmente conta com treze mil soldados.<\/p>\n<p>Devido ao exposto anteriormente, conclu\u00edmos que os sectores russos ou pr\u00f3-russos na Crimeia n\u00e3o t\u00eam nem podem ter o direito democr\u00e1tico \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional (separa\u00e7\u00e3o) que as nacionalidades oprimidas t\u00eam.<\/p>\n<p>3. Neste sentido, n\u00e3o existe compara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com os casos das nacionalidades catal\u00e3 ou basca, citando os exemplos mais conhecidos, que s\u00e3o oprimidas pelo Estado espanhol. Em tais casos, embora os marxistas possam discordar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 separa\u00e7\u00e3o dessas nacionalidades do Estado espanhol, expressam o reconhecimento incondicional ao seu leg\u00edtimo direito de decidir livremente sobre sua autodetermina\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>4. Se o fundamental para definir uma posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria se encontra nas considera\u00e7\u00f5es anteriores, n\u00e3o se pode deixar de assinalar que, em qualquer caso, o referendum que est\u00e1 em marcha na Crimeia carece de qualquer tipo de legitimidade por estar sendo imposto por uma <strong>ocupa\u00e7\u00e3o militar estrangeira<\/strong>, neste caso o ex\u00e9rcito de Putin. Esta agress\u00e3o militar, al\u00e9m de violentar a soberania ucraniana, \u00e9 uma reac\u00e7\u00e3o directa \u00e0s primeiras vit\u00f3rias do processo revolucion\u00e1rio com epicentro em Kiev, e tem um car\u00e1ter profundamente contrarrevolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Neste sentido, apresentar este referendo como um exerc\u00edcio democr\u00e1tico de express\u00e3o popular quando as botas russas pisoteiam a soberania ucraniana e Putin extorque o pa\u00eds aumentando o pre\u00e7o do g\u00e1s e amea\u00e7ando com o corte de fornecimento, \u00e9 um absurdo que n\u00e3o merece uma qualifica\u00e7\u00e3o menor que a de farsa.<\/p>\n<p>5. Estamos ao lado do povo ucraniano na defesa de sua soberania e sua revolu\u00e7\u00e3o. Exigimos a imediata retirada de todas as tropas russas e seus representantes pol\u00edticos da Crimeia, assim como a invalida\u00e7\u00e3o do fraudulento referendo.<\/p>\n<p>Estamos ao lado dos que, na pra\u00e7a <em>Maid\u00e1n<\/em>, gritam: <em>Unidade! A Ucr\u00e2nia \u00e9 indivis\u00edvel! A Crimeia \u00e9 a Ucr\u00e2nia!<\/em> Estamos ao lado, na Crimeia, das minorias t\u00e1rtara e ucraniana, que lutam contra o separatismo reaccion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Reafirmamos que a \u00fanica sa\u00edda para que o processo revolucion\u00e1rio avance, partindo da enorme vit\u00f3ria com a queda de Yanukovich, \u00e9 a retomada das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es e das ocupa\u00e7\u00f5es de pra\u00e7as e edif\u00edcios p\u00fablicos. Estas mobiliza\u00e7\u00f5es devem ser democraticamente organizadas por organismos oper\u00e1rios e populares, que por sua vez estejam unidos por um plano de luta nacional, ao qual se incorporem as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e econ\u00f3micas mais sentidas do povo, das minorias e, sobretudo, do proletariado ucraniano.<\/p>\n<p>Neste sentido, a tarefa mais urgente do momento \u00e9 a luta pela expuls\u00e3o do invasor russo e a defesa da soberania e da unidade territorial da Ucr\u00e2nia. Nesta luta, o movimento de massas ucraniano s\u00f3 deve confiar na for\u00e7a de sua pr\u00f3pria mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode confiar nem por um momento no novo governo liderado por Yatseniuk-Turchinov, que assiste impass\u00edvel \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es de Putin na Crimeia e, fundamentalmente, apesar dos seus discursos \u201cnacionalistas\u201d e frases como \u201cn\u00e3o cederemos um cent\u00edmetro de terra ucraniana\u201d, est\u00e3o vendendo o pa\u00eds aos capitais imperialistas europeus e estadunidenses.<\/p>\n<p>Os sectores neonazis e de extrema-direita t\u00eam a mesma posi\u00e7\u00e3o, como o \u201cSector de Direita\u201d e o <em>Svoboda<\/em>: enquanto enchem a boca de \u201cnacionalismo\u201d, integram o novo governo servil e apoiam integralmente a entrega do pa\u00eds \u00e0 UE e ao FMI.<\/p>\n<p>O povo ucraniano tampouco deve confiar na falsa ret\u00f3rica sobre a \u201cdefesa da soberania\u201d ou o \u201crespeito ao direito internacional\u201d de Obama e dos l\u00edderes da UE. Estas pot\u00eancias s\u00f3 querem colonizar a Ucr\u00e2nia, sujeit\u00e1-la com mil cadeias a seus des\u00edgnios e, portanto, s\u00e3o inimigas irreconcili\u00e1veis do povo ucraniano.<\/p>\n<p>Os l\u00edderes imperialistas da UE mant\u00eam negocia\u00e7\u00f5es com Putin e, nos factos, est\u00e3o \u201cdeixando correr\u201d a vergonhosa anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia \u00e0 R\u00fassia, pois n\u00e3o se animam sequer a aplicar reais san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas ao Kremlin, devido \u00e0 depend\u00eancia europeia ao g\u00e1s de Putin<a href=\"#a2\"><sup>2<\/sup><\/a> e aos investimentos dos oligarcas russos nos pa\u00edses europeus. Isto, sem falar do temor de prejudicar os numerosos investimentos de capitais imperialistas na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Por seu lado, neste conflito Obama prefere mover-se com cuidado, para n\u00e3o romper o pacto contrarrevolucion\u00e1rio que tem com Putin para derrotar a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria e estabilizar o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Por isto, a luta contra a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia e a bandeira hist\u00f3rica de uma <strong>Ucr\u00e2nia independente e unida!<\/strong> recai nas m\u00e3os da classe oper\u00e1ria e do povo pobre, que ao calor do processo revolucion\u00e1rio necessita urgentemente construir uma dire\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria que combine esta luta democr\u00e1tica com a estrat\u00e9gia de uma Ucr\u00e2nia oper\u00e1ria e socialista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>R. Le\u00f3n<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Notas:<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"a1\"><\/a>1 Ver: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/litci.org\/artigos\/53-ucrania\/4262-ifuera-putin-de-ucrania-ipor-uma-ucrania-independiente-e-unida\" rel=\"noopener\">http:\/\/litci.org\/artigos\/53-ucrania\/4262-ifuera-putin-de-ucrania-ipor-uma-ucrania-independiente-e-unida<\/a><br \/><\/span><\/em> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"><br \/><a name=\"a2\"><\/a>2 A depend\u00eancia europeia do g\u00e1s russo \u00e9 enorme e resume-se em tr\u00eas cifras: uma quarta parte da energia consumida pelos europeus tem o g\u00e1s como fonte, um ter\u00e7o deste g\u00e1s \u00e9 russo e 15% de todo o g\u00e1s europeu chega atrav\u00e9s do gasoduto que atravessa a Ucr\u00e2nia.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O curso da revolu\u00e7\u00e3o ucraniana \u00e9 amea\u00e7ado por duas grandes for\u00e7as contrarrevolucion\u00e1rias. Por um lado, os bandidos imperialistas, norte-americanos e europeus, n\u00e3o poupam nenhum esfor\u00e7o para consolidar o novo governo fantoche de seus des\u00edgnios e apostam todas as suas fichas no desvio do processo revolucion\u00e1rio pelo beco sem sa\u00edda da reconstru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e da realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es no quadro da democracia burguesa.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1498,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-1499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/ocupacao_crimeia.jpg?fit=450%2C347&ssl=1","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1499\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}