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Ruptura 117 - Julho 2011
É a política, estúpido (a propósito dos resultados do Bloco de Esquerda) PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 09 Maio 2012

DE OLHOS BEM ABERTOS, Gil Garcia

Há uma nefasta tendência da esquerda, quando obtém maus resultados eleitorais, de culpar a “burrice” do povo. Um dirigente local do Bloco de Esquerda, ao comentar para a imprensa as razões pelas quais, no seu distrito, não se conseguiu reeleger o respectivo deputado bloquista, disse, mais coisa menos coisa:
“É nestas ocasiões que me apetece dizer: desculpem que eles não sabem o que fazem”, insinuando a suposta ignorância popular, para justificar a perda (no caso do BE) de perto de 300.000 votos, nas eleições legislativas de 5 de Junho.
É um argumento fraco, pois o (mesmo) povo não passa de inteligente (em 2009, quando concedeu meio milhão de votos e 16 deputados ao Bloco) a “burro” em cerca de 18 meses. O que aconteceu então que explique o tsunami de desgraças ao nosso Bloco de Esquerda?
Todos referem, analistas independentes inclusive, que a apresentação da moção de censura foi um erro, que a recusa da ida à reunião com a troika foi um desastre, e até o próprio e insuspeito Luís Fazenda, recentemente na TV, avançou com outro “erro”: a reunião com o PC pouco antes das eleições. Pode ser que tudo isto tenha alguma razão de ser, e tem certamente, mas estes erros, se o foram, têm uma génese. E é esse processo que os dirigentes do BE pretendem ocultar. E por uma simples razão, vão continuar a persistir no “erro”.
E colocámos entre aspas “erro” porque, se persistirem nele, então não é mais um erro, mas sim uma orientação deliberada, pensada há muito tempo e que agora, sem tibiezas e hesitações vão levar consequentemente à prática. Do que falamos? Das anteriores (António Costa, na Câmara de Lisboa, e Manuel Alegre, nas eleições presidenciais deste ano) e, principalmente, das futuras alianças (e governos) com o … PS.
Na verdade, o principal erro, não só do BE (façamos justiça), mas também do PCP, que contribuiu para a vitória da direita nestas eleições legislativas residiu na orientação comum a estes dois partidos de se negarem sistematicamente (quando ambos tinham ainda há ano e meio cerca de 20% do eleitorado) a criar uma plataforma de unidade. Uma plataforma de esquerda que convidasse socialistas descontentes com Sócrates para que a incorporassem e muitos independentes, certamente disponíveis, de modo a que à esquerda se visualizasse uma possibilidade, por mais remota que fosse, de alternativa ao vira ao disco e toca o mesmo (há mais de 30 anos), ora de governos PS, ora de governos PSD (ou PSD/CDS).
O BE seguiu o conselho (de Jerónimo de Sousa), que afinal também era a sua orientação, como se veio a verificar, de “cada um ir na sua bicicleta”(o que já fazem há cerca de década e meia), e o resultado ficou à vista. Como em 2009 também cada um foi na sua bicicleta, o povo (inteligente, dizemos nós) retirou a maioria absoluta ao PS. E agora como os partidos de esquerda de novo se apresentaram divididos e não estiveram à altura dos desafios que a situação lhes impunha, o povo teve que votar PSD para correr com Sócrates do poder.
E ainda há quem diga que o apoio ao Manuel Alegre, candidato de Sócrates nas presidenciais e apoiante activo deste a um terceiro mandato na última campanha, nada teve que ver com o desastre eleitoral do Bloco. É caso para dizer, o pior cego é aquele que não quer ver. Sabemos pela imprensa que outras vozes próximas da direcção do BE consideram que o BE devia mais cedo se ter mostrado disponível para governar com o PS (talvez por isso, Fernando Rosas tenha dito que tal não correu não porque não quisessem, mas porque este partido teria subscrito o programa da troika para Portugal), deixando antever que essa será a orientação futura.
Com efeito, o que mais tememos não é (já) não se reconhecer que o BE “errou” em toda a linha. A moção de censura e ausência à reunião com a troika, tudo não passou de tentativas desesperadas de o BE descolar da imagem de partido que “esteve ao lado” do governo durante mais de 6 longos meses. Se não tivesse sido este factor o mais importante para a queda do Bloco nestas eleições porque razão o partido mais penalizado foi o BE, mais ainda do que o próprio PS? Se o povo queria Sócrates fora do poder, quais os partidos que tinha que penalizar? O do governo e o que mais lhe esteve próximo? Qual? O BE, naturalmente. É certo que sabemos que o BE fez uma oposição cerrada nos últimos meses contra o governo do engenheiro Sócrates e as medidas da troika, mas já veio tarde de mais. O leite já tinha sido derramado há muito.
Agora há que mudar de rumo. Convocar-se uma convenção, no mínimo antecipada (se não se quiser uma extraordinária), de modo a devolver a voz a todos os militantes. Se não se abre caminho nesse sentido é porque se quer persistir nas mesmas políticas.
Talvez agora se percebam as palavras de Francisco Louçã, ao Diário de Notícias, a cinco dias das eleições (DN,31/5). Pergunta do jornalista: “Está indisponível para um governo socialista. O Bloco vai ser sempre um partido de protesto?” Resposta de Louçã: “Não, a nossa grande aposta dos próximos anos é abrir caminho para que haja um governo de esquerda”. Pergunta de novo o jornalista: “(…) como é que prefigura esse governo [de esquerda]? Resposta de Louçã: “(…) Nesse contexto, vai ser preciso uma esquerda de enorme capacidade, competência e combatividade que ponha omo objectivo chegar ao governo, disputar o governo, ter cargos governamentais, orientar a política económica e financeira do país …”.
Está tudo dito. Foram declarações antes de se saber a hecatombe eleitoral que aí vinha. Ou talvez ele até soubesse o que aí vinha. Não pensava é que era tanto. Não que o não tivéssemos avisado.

 
Eleições derrotaram Sócrates, agora é Lutar contra a dívida e os ataques do governo da troika PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 09 Maio 2012

Editorial do Ruptura de Julho 2011

Sem alternativa credível de mudança à esquerda, centenas de milhares de trabalhadores mostraram o seu repúdio ao governo do PS/Sócrates com um voto na direita, PSD e CDS. Nas eleições de 5 de Junho, mais do que uma “viragem à direita”, o que aconteceu foi uma massiva contestação ao governo do PS/Sócrates, que executou durante seis anos uma política de direita e de grandes ataques aos trabalhadores e aos sectores mais pobres da população. Uma política para salvar os lucros dos banqueiros, dos Espírito Santo, dos Mello, dos Mota Engil e de muitos outros grupos capitalistas, injectando-os com milhares de milhões de euros e entregando-lhes outros tantos através dos negócios das PPP, o que levou as finanças públicas a uma situação deficitária enorme.
Deste repúdio eleitoral a Sócrates resultou uma maioria parlamentar de direita, do PSD e do CDS, que irá governar com a continuação e agravamento da política já preconizada pelo memorando assinado por Sócrates com a troika (UE/BCE/FMI) e apoiado pelo PSD e CDS. Mais uma vez, a crise em que o capitalismo colocou a economia vai ser aproveitada pelos governantes para proceder a mais ataques aos trabalhadores e aos seus direitos laborais e sociais. Mais uma vez as propostas de alteração das leis laborais no sentido de retirar direitos contratuais e diminuir remunerações salariais vão ser apresentadas como a solução para o desemprego e a competitividade da economia.
É mais do mesmo, para encher as contas bancárias e os lucros dos donos da economia, à custa do empobrecimento (e mesmo da miséria) de milhões de trabalhadores e da maior precariedade para a vida de centenas de milhares de jovens que ficarão ainda mais “à rasca”.
É em torno do pagamento da dívida pública que os governantes argumentam a necessidade da política de austeridade. O que é preciso questionar é como e porquê a dívida cresceu, a quem beneficiou, quem ganhou e quem vai continuar a ganhar com ela e com o seu pagamento. Nós respondemos que a maior parte da dívida foi para pagar negócios a favor dos grupos capitalistas que há dezenas de anos vivem à custa do dinheiro público, para apoiar os banqueiros, para cobrir as dívidas dos patrões à Segurança Social, para cobrir os custos das PPP. Por outro lado, o pagamento da dívida destina-se precisamente a pagar aos que já ganharam com ela, aos banqueiros nacionais e internacionais que compraram os títulos da divida para continuar a ganhar à nossa custa através dos juros que iriam receber.
Neste contexto, a primeira medida que devemos exigir é a suspensão do pagamento da divida e a recusa aos planos do memorando com a troika. De seguida há que exigir uma consulta popular, um Referendo como fizeram os islandeses, antecedido de um grande debate nacional sobre a divida e da sua auditoria. É esse Referendo que deve decidir sobre o “Sim” ou o “Não” ao pagamento da dívida, uma dívida que não é dos trabalhadores nem da imensa maioria da população.
Uma política de esquerda tem as prioridades de combater a anunciada ofensiva do governo PSD/CDS no campo laboral e social, bem como a dívida e o seu pagamento. Neste combate, a unidade de todos os sectores políticos e sindicais que se opõem ao governo e ao memorando da União Europeia e FMI afigura-se fundamental. A união de esforços entre a esquerda parlamentar (PCP e BE) e os movimentos sindicais e de jovens para constituir uma ampla frente de luta contra a política do governo e da troika, propondo um plano de medidas anticapitalistas e de corte com esta União Europeia que se construiu ao serviço do capital e nos trouxe o maior desemprego, os maiores ataques ao salário, aos direitos sociais e aos serviços públicos, é o caminho a seguir.

 


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