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Uma série contra o regime

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Três ativistas residentes no Porto - Ana Garcia, Cíntia Regala e Inês Santos Moura - iniciaram neste ano a produção da webserie independente "Das duas uma".

Este projecto de crítica política e social conta até agora com três episódios, disponíveis no YouTube e no FacebookO Movimento Alternativa Socialista entrevistou-as.

MAS: Falem um pouco sobre vocês.

Cíntia Regala (personagem “Sofia”) – Sou licenciada em Teatro (Interpretação) e em Inglês e Alemão (ensino). Resido no Porto. Sou também formadora de Inglês, actriz e vocalista de Anarchrist. 

Ana Garcia (personagem “Simone”) – Considero-me uma inconformada, resmungona, mas simpática. Sou do Porto, onde sempre vivi, com exceção dos dois anos em que estive a viver e trabalhar na Irlanda. Sou Licenciada em Produção Artística e Cultural, tenho formação em Interpretação Teatral, Expressão Dramática e Musical, Pedagogia, Animação Sociocultural... Neste momento, estou a terminar o Mestrado em Ciências da Educação – ramo Educação Social e Intervenção Comunitária. Sou professora de Expressão Artística e Animadora Educativa.

Inês Santos Moura (realizadora/editora) – Sou natural de Valongo e atualmente resido no Porto. Finalizei em 2013 o curso superior de Tecnologia da Comunicação Audiovisual (TCAV) e neste momento estou a concluir o Mestrado em Comunicação Multimédia – ramo Audiovisual Digital. Co-criei o projeto MAI – Produções Criativas e através deste desenvolvo trabalhos na área Audiovisual e no âmbito da Animação Educativa.

MAS: Como surgiu a ideia para o vosso projecto?

CR: A ideia do projecto “Das Duas Uma” surgiu à mesa da casa onde foram gravados os 3 primeiros episódios, pela necessidade de um inconformismo e insurgimento perante este governo corrupto que despreza o seu povo, retirando-lhe direitos básicos para uma vida digna.

AG: Nós as 3 sofremos com este sistema, tal como muita boa gente. Reclamamos, vamos a manifestações, intervimos socialmente sempre que podemos. Em conversa informal, surgiu a ideia de usarmos a via artística – o filme – para mostrarmos o nosso descontentamento e fazermos as pessoas pensar.

ISM: Em 2013 já tinha trabalhado com a Ana e a Cíntia numa curta-metragem de ficção – “Os Inconformados”. A partir daí, foram surgindo ideias para projetos audiovisuais, como é o caso da Web série “Das Duas Uma...”. Esta Web série foi criada com o propósito de expressarmos a nossa insatisfação relativamente ao atual contexto social e político.

MAS: Que reacções têm obtido por parte do público?

CR: Até agora as reacções que tivemos foram positivas, evidenciando um caso de uma pessoa (relativamente ao 3º episódio) que referiu estar arrependida de ter votado neste governo.

AG: As pessoas acham piada e sinto que, em certo ponto, identificam-se com aquilo que falamos… Felicitam-nos e pedem mais episódios.

ISM: As reações têm sido simpáticas e motivadoras. Normalmente, as pessoas visualizam os episódios e perguntam quando é que vai estrear o próximo.

MAS: Que meios têm para produzir os vossos episódios? Gostariam de ter mais ou acham que têm o necessário?

CR:  De momento o local de gravações tem sido em casa da “Sofia”; maquilhagens, roupas, acessórios de cada uma de nós. É tudo com os nossos recursos.

AG: Como não somos ricas, não filmamos em nenhum estúdio de cinema e não temos uma equipa enorme a trabalhar connosco nem agentes pessoais. A nossa cena é verdadeiramente independente. Usamos os meios que temos, uns mais rudimentares do que outros, mas não deixamos de fazer. A Inês, a realizadora, é formada na área do audiovisual e trabalha como realizadora de vídeo, por isso tem algum material profissional que ajuda a termos uma imagem melhor. Mas claro que gostaríamos de ter mais e melhores recursos, que dignificassem mais o nosso trabalho.

ISM: Como sou freelancer na área audiovisual, disponho de algum material profissional. Os meios que temos ao nosso dispor para a produção dos episódios, provêm da partilha entre o grupo. Gostaríamos de ter mais recursos para a realização da Web série. Com mais e melhores meios técnicos e de produção, conseguiríamos transmitir as nossas ideias e pensamentos mais facilmente.

MAS: A cultura e a produção artística têm sido afectadas pela austeridade. Como vêem esta realidade? De que forma isso vos prejudica?

CR: Tudo o que poderá traduzir a libertação de um imaginário/real, tendo, consequentemente, efeitos catárticos, terapêuticos, de reflexão, introspecção, etc., é uma forma de expressão que não é defendida por este governo. Infelizmente, e a propósito da austeridade, muitos projectos artísticos, companhias de teatro e afins sofreram graves cortes de apoio, tendo, por exemplo, algumas desaparecido e outras terem que recorrer a outros meios. Por outro lado, quanto menos se reflete sobre algo, mais será provável a influência de uns sobre outros…

AG: O desinvestimento nas artes e na cultura é dramático! Um país que despreza a cultura é um país pobre, vazio, sem identidade, sem liberdade e, obviamente, isso deixa-me terrivelmente desolada. Um povo precisa de saber as suas origens, a sua história, precisa de espaços para ter voz, para se manifestar, para expressar as suas emoções, ideias, pensamentos, um espaço para sentir, refletir e conscientizar-se da realidade. Só um povo atento, desperto e consciente do que o rodeia é que pode emancipar-se e caminhar para uma mudança positiva.

ISM: É triste e revoltante pensar que, neste momento, não existe qualquer apoio do estado para a produção cinematográfica e nem sequer tenhamos um Ministério da Cultura. Sinto que estou no filme “Regresso ao Futuro” ou melhor dizendo “Regresso ao Passado”. Na minha opinião, a produção artística é muito importante para estimular a reflexão e o desenvolvimento individual e coletivo. A nível pessoal, sinto-me prejudicada e, muitas vezes, desvalorizada, uma vez que tenho formação e experiência artística e sinto falta de oportunidades e meios para trabalhar na área.

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MAS: O vosso projecto baseia-se na crítica às medidas do governo e ao estado do país. Porque seguiram este caminho?

CR: Única e exclusivamente porque não estamos de acordo com essas medidas que fizeram com que o país chegasse ao estado de miséria a que chegou.

AG: Porque na mesma medida em que o governo optou pelo caminho da austeridade e do descalabro social, nós optamos pela rebelião. Não me vejo submissa face a este sistema cinzento, eu acredito em revoluções.

ISM: Como artista audiovisual, penso que o vídeo e o cinema são formas importantes de comunicação. A expressão artística tem a capacidade de pôr em causa algo de forma criativa e inovadora, permitindo assim novos pontos de vista sobre um determinado tema. Como somos contra as medidas de austeridade, que o governo nos tem imposto, decidimos manifestar essa opinião através da arte audiovisual. Resumidamente, a Web série “Das Duas Uma...” pretende criticar, provocar a reflexão e transmitir aquilo que pensamos sobre a realidade social que nos rodeia.

MAS: No 2° episódio, por exemplo, recorrem à Declaração Universal dos Direitos Humanos para denunciar o desemprego e a exploração laboral. Como vêem esses problemas no actual contexto, apesar da baixa da taxa de desemprego?

CR: As alterações feitas no código de trabalho beneficiam cada vez mais os patrões/empregadores, que consequentemente exploram os trabalhadores. A meu ver foram criadas outras pseudo-soluções, como as formações em massa, que “minimizam” as estatísticas e daí a suposta “baixa da taxa de emprego”. Como formadora estou plenamente de acordo com a existência de formação, mas que não sirva como forma de “trabalho”, nem para baixar a taxa de desemprego.

AG: Eu não acredito na maior parte dos números avançados pela comunicação social, sobretudo porque os media são cada vez mais manipulados pelo sistema… Nessa contabilização não constam as pessoas desempregadas que nem sequer estão inscritas nos Centros de Emprego e as tantas outras que emigraram. Gostaria que fosse diferente, mas acho que essas notícias são areia para os olhos para tentar justificar medidas que arrasam com as vidas das pessoas. Como é que o desemprego desce se o governo continua a anunciar medidas de despedimentos na função pública, por exemplo?

ISM: O desemprego, principalmente entre os jovens, só tem fomentado cada vez mais a necessidade de emigrar. Isso trará consequências negativas num futuro próximo para a sociedade portuguesa, porque a energia dos jovens, as suas novas ideias e perspetivas são fundamentais para o desenvolvimento do país. Em relação à exploração laboral, esta existe porque muitos dos empregadores se aproveitam da atual conjuntura económica. Os empregadores exploram os trabalhadores e estes submetem-se a tal situação pelo medo de ficarem desempregados. Penso que é importante combater esse medo, através da tomada de consciência por parte dos trabalhadores, de que podem e devem protestar contra situações de discriminação ou exploração laboral.

MAS: A esquerda parlamentar apela muito ao cumprimento da Constituição para defender os direitos fundamentais. Acham isso suficiente?

CR: Acho necessário, mas não é suficiente. Há direitos humanos, por exemplo, que nem são contemplados na Constituição.

AG: É uma base importante, mas acho que existem outros documentos essenciais que também poderiam ser usados como suporte na defesa desses direitos, por exemplo, a Convenção dos Direitos das Crianças (quem em muito têm sido afetados pela pobreza), que foi proclamada pelas Nações Unidas e tem caráter universal.

ISM: É importante esse apelo ao cumprimento da Constituição, mas seria também essencial recorrerem a outros documentos, como é o caso da Declaração dos Direitos Humanos.

MAS: Para além dos governos e dos partidos que os apoiam, como avaliam o actual sistema político em que estamos? Isso influencia o vosso discurso?

CR: Honestamente o sistema político é uma valente mxxxx… qual democracia, qual quê – isto já é uma ditadura encapuzada. Quanto aos restantes partidos políticos, sinceramente, nem vale a pena comentar… são uma minoria, alguns a tentar fazer uma mudança, outros a regredirem para um pré-25 de Abril.

AG: Penso que estamos num sistema político cansado, insensível, viciado, despótico e claro que isso nos influencia. As pessoas têm cada vez menos voz e ânimo e são sugadas pela rotina autómata, a que são sujeitas todos os dias para sobreviver. É necessária uma libertação coletiva e a anulação dessa apatia e tiranismo diário que nos querem impor. É sobretudo isso que queremos passar.

ISM: Para mim, é um sistema político dominado pelo dinheiro e o poder e indiferente às questões sociais. Essa insensibilidade e frieza perante o desemprego e a pobreza é revoltante e perturbadora. Ao ter consciência desses acontecimentos é óbvio que isso influencia a minha opinião e aquilo que pretendo transmitir às pessoas.

MAS: O que faz falta para mudar a actual situação em que vivemos?

CR: Consciencialização, respeito, honestidade vs abuso de poder, “brainwashing”, corrupção, censura, entre outros. Quando se respeita o próximo, quando cada qual tem consciência dos problemas em seu redor e age, sendo honesto consigo e os seus pares – “está-se bem!” Pessoalmente, “não estou bem”, porque vejo valores universais serem deturpados. Apercebo-me da miséria a crescer, do oportunismo a aumentar, pessoas que procuram incansavelmente trabalho e pelo seu aspecto/idade nada lhes “cabe”…

AG: Conhecimento dos factos, consciência da realidade e ação. Faz falta mais amor, mais partilha, mais união, mais solidariedade, mais ecologia, mais criatividade… O capitalismo já provou que é um sistema falhado, o neoliberalismo selvagem é incompatível com a justiça social, portanto, a mudança seria no sentido de uma alforria geral contra o poder, a autoridade e o domínio patriarcal.

ISM: Na minha opinião, e ao observar o que tem ocorrido a nível social, parece-me que nem sempre as pessoas estão bem informadas sobre o que está de facto a acontecer. Muitas vezes os media “distorcem” essa realidade e existe alguma falha de informação. Penso que será necessário encontrar novas formas de veicular esses factos. Falta coragem para mudar! Parece que a maioria da sociedade portuguesa está “adormecida”, apática e totalmente esquecida de que “o povo unido jamais será vencido”. Concluindo, falta uma REVOLUÇÃO para quebrarmos com todos os paradigmas atuais!

Entrevista por Diogo Trindade

 
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