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Legionella: capitalismo mata

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O surto de Legionella é já o terceiro maior de sempre do mundo (notícia do Expresso, 12 de Novembro de 2014). O número de infectados atingia, à data da escrita deste texto, mais de 300 doentes, já com sete óbitos confirmados (com forte suspeita de mais dois) e muitos internamentos, cerca de 40 deles em unidades de cuidados intensivos.

O surto

O surto, um acontecimento raro e que está alegadamente relacionado com a fábrica Adubos de Portugal, localizada no concelho de Vila Franca de Xira, além de poder vir a ser considerado crime ambiental, pôs a nu as fragilidades do sistema nacional de saúde (SNS), com capacidade de resposta cada vez menor, fruto das políticas de um governo.

 

O contexto do SNS

O plano inicial da troika para o SNS era um corte de 550 milhões de euros, mas o governo PSD-CDS resolveu subir a parada e cortou 710 milhões. As consequências não se fizeram esperar: a emigração de enfermeiros, médicos e técnicos de saúde é uma realidade diária do SNS. A degradação dos serviços, os casos de falta de material e a desmoralização dos trabalhadores do sector causou um significativo decréscimo de qualidade nos serviços prestados. Pagaram os doentes: o relatório do Observatório Português do Sistema de Saúde (OPSS) de 2013 era devastador: de 2011 para 2012 o aumento de depressões chegava aos 30%, o aumento de suicídios foi de 35% nos homens e 47% nas mulheres.

Os enfermeiros viram aumentar o seu horário de trabalho (com o mesmo ordenado) e, sendo cada vez menos, desdobram-se em turnos. Segundo a Ordem dos Médicos, até cerca de final do ano, cerca de 400 médicos terão emigrado. Paulo Macedo, que se auto-proclama um salvador do SNS, não é mais do que um carrasco e mal disfarçado.

O caos nos hospitais e uma provocação do ministro

O surto de Legionella, nas condições precárias do SNS, tem feito tremer os hospitais da região afectada. As descrições do Hospital de Vila Franca de Xira aquando do início do surto são terceiro-mundistas. A capacidade de resposta só foi possível graças ao trabalho (de graça e por amor à camisola) que muitos profissionais de saúde tiveram: horas a mais, folgas de que abdicaram, etc. A gestão de camas tornou-se um caos: as vagas em cuidados intensivos tapadas, camas que tiveram de ser abertas em hospitais da área (camas essas que tinham sido fechadas por este ministério). Estamos a falar do terceiro maior surto mundial da bactéria e o SNS estava a trabalhar com menos 710 milhões de euros em orçamento para material, profissionais e infra-estruturas. Se a capacidade de resposta não foi maior, a culpa é de quem cortou no investimento na saúde como se estivesse a cortar na lista de compras para a mercearia.

Não deixa também de ser irónico que tenha sido o sistema público a aparecer na linha da frente para ajudar os infectados. Não dizem os liberais que o público é mau? Que há que continuar a privatizar o SNS? Mas quando a corda apertou, 99% (100%?) do trabalho e das despesas assumidas foi pelo sistema público, que, apesar de todos os esforços do governo, ainda mantém a sua universalidade de cuidados como bandeira.

O caos da Legionella surge ainda numa altura mais delicada: está anunciada para dia 21 de Novembro uma greve dos enfermeiros. Paulo Macedo, perdendo completamente a vergonha, decidiu pedir aos enfermeiros para não a convocarem, porque estão em causa “necessidades em saúde indispensáveis e inadiáveis”. O que estas afirmações pretendem é culpar os enfermeiros pelo que venha a acontecer devido ao surto. É fazer com que a população acredite que os enfermeiros são uns grandes bandidos que não querem é trabalhar e que vão, numa altura delicada, abandonar os seus postos de trabalho. Mas o que deve ser sublinhado nestas declarações é a incompetência de Paulo Macedo (além, obviamente, do seu cinismo, ao qual os profissionais de saúde são cada vez mais imunes). O que Paulo Macedo está a dizer é que precisa dos mesmos enfermeiros que se recusa a contratar, aos quais aumentou o horário de trabalho, aos quais paga menos 300 a 500 euros por mês do que deviam ganhar legalmente e que emigram todos os dias do nosso país. Os mesmos enfermeiros que, por dedicação ao SNS, estão nas urgências de Santa Maria e de Vila Franca de Xira a cumprirem turnos a mais, devem abdicar da greve que fazem pelos seus direitos ou é o governo que deve voltar atrás nos seus ataques e na destruição do SNS?

O pedido de Paulo Macedo só podia ser mais ridículo se tivesse pedido aos enfermeiros que emigraram para voltarem nesta hora de aperto para fazer uma perninha (mas, convenhamos, no Governo de Crato, de Paula Teixeira Cruz e do Citius e de Miguel Relvas, o ridículo e a falta de vergonha são já quotidianos).

Por um SNS para todos

O surto de Legionella, que lamentamos e cujos responsáveis devem ser apurados (tanto por quem o praticou como por quem não foi capaz de o fiscalizar), veio por a nu o falhanço total, inadmissível e criminoso das políticas de saúde do governo. Aos trabalhadores do SNS que estão na linha da frente a trabalhar em prol dos doentes, o nosso agradecimento. E a todos aqueles, trabalhadores da saúde e doentes, que lutam contra o governo e que pugnam por um SNS gratuito e universal, a nossa solidariedade. Por último, o MAS envia as suas condolências aos familiares e amigos das vítimas da doença.

MN, médico

 
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