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Ucrânia: Fora Yanukovich! Nem UE nem submissão a Putin!

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No dia 28 de janeiro, a Rada Suprema (parlamento) reuniu-se com carácter de urgência para anular as draconianas leis repressoras que ela mesma, a pedido do presidente Víctor Yanukovich, do direitista Partido das Regiões (PR) e com apoio parlamentar do Partido Comunista, havia aprovado menos de duas semanas antes, com o objetivo de travar os protestos.

As imensas mobilizações populares na Ucrânia, iniciadas no final de novembro passado, conquistaram as suas primeiras vitórias parciais.

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro Mykola Azarov anunciou sua demissão, desencadeando a queda de todo seu gabinete.

Há mais de dois meses a situação está marcada por uma extrema instabilidade política. Milhares de pessoas, com temperaturas de 23 graus abaixo de zero, ocupam as principais ruas de Kiev e cerca de dez mil acampam na Maidán, principal praça da capital e atual centro nevrálgico dos protestos contra o governo de Yanukovich. A abolição das leis repressoras radicalizou ainda mais os protestos e abriu um novo momento no conflito.

O saldo da brutal repressão policial é de dezenas mortos e centenas de feridos e presos políticos. Os manifestantes bloquearam as principais estradas e iniciaram uma onda de ocupações de ministérios e edifícios públicos em 14 das 25 províncias do país, abrindo um processo de aproximação com as manifestações no leste do país, onde ocorreram protestos e confrontos em Zaporoyie (leste) e Dniepropetrovsk (centro-este)1.

Importa mencionar que existem diferenças culturais marcantes, históricas e políticas entre o oeste e o leste da Ucrânia. A região leste é mais industrializada, fala o idioma russo e é onde Yanukovich tem sua maior base de apoio social em comparação com a região ocidental, mais rural, de idioma ucraniano e maiores conexões culturais com a Europa. Este início de “nacionalização” dos protestos começa a gerar uma situação ainda mais preocupante para o poder da burguesia local e os interesses estrangeiros radicados no país.

A anulação das leis repressoras e a queda do gabinete significam uma importante vitória da mobilização popular contra um governo repressor, entreguista e oligárquico. Mas o poder mantém-se nas mãos de Yanukovich e da repugnante oligarquia ucraniana, sempre disposta a vender-se aos abutres, tanto russos como europeus. Por isso, esta vitória deve ser um ponto de partida para continuar a ofensiva do povo explorado, que acabe derrubando o governo, liquide o poder dos oligarcas e coloque a economia do país nas mãos da classe trabalhadora, conquistando a absoluta e definitiva independência do país.

Yanukovich não se dará por vencido. Tenta e continuará tentando desmobilizar a Maidán. E se não conseguir, a alta cúpula do Exército ucraniano (o segundo maior da Europa depois do russo) já comunicou que intervirá para “estabilizar a situação no Estado” e recompor a “concórdia social”, pois declara “intolerável” a ocupação de edifícios públicos. “Os altos cargos e os funcionários do Ministério da Defesa apoiam o presidente da Ucrânia no que se refere à necessidade de estabilizar a situação no Estado"2 advertiram os generais.

Diante desta situação, é urgente que a esquerda internacional assuma uma posição de inequívoco apoio às mobilizações, combatendo a direção burguesa e pró-imperialista, assim como os sectores de extrema-direita e neonazistas que tentam controlar o processo; ao mesmo tempo, é necessário expressar um claro repúdio às ameaças dos militares de reprimir o movimento da praça Maidán.

 

Entre a opressão do chauvinismo russo e a do imperialismo

A Ucrânia, ex-república soviética, atualmente com 45 milhões de habitantes, sempre sofreu a opressão nacional por parte da Rússia. Antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Ucrânia era dominada pelos impérios austro-húngaro e russo, e cabia à vil autocracia czarista, o controle da maior parte do seu território. Com a vitória da revolução socialista russa de 1917, o país conquistou um período de independência, até que em dezembro de 1922 foi uma das repúblicas fundadoras da antiga União Soviética (URSS).

Durante a década de 1920, antes da consolidação da burocracia stalinista no poder, os bolcheviques tiveram uma política de respeito aos direitos nacionais ucranianos, que se expressou em um florescimento da arte e da cultura e no uso amplamente permitido do idioma local (antes proibido pelo czarismo). Os primeiros anos da URSS foram também os de maiores conquistas quanto a direitos sociais relativos à saúde e educação públicas, habitação, acesso à terra e direitos das mulheres.

No entanto, no final dessa década e início de 1930, a burocracia comandada por Stalin atacou brutalmente todas essas conquistas, como parte da contrarrevolução política triunfante na URSS. O Kremlin negou o direito de autodeterminação nacional, garantido à Ucrânia pela Revolução de Outubro de 1917, e passou a exercer uma crescente opressão nacional. A coletivização forçada empreendida por Stalin, por exemplo, atingiu de forma brutal os camponeses ucranianos. O Exército Vermelho confiscava terras e grãos e impunha metas de produção inalcançáveis aos camponeses, que não recebiam grãos e nem alimentos se não as cumprissem. Esta política brutal levou, durante essa década, à fome generalizada em todo o território soviético e, somente na Ucrânia, morreram mais de cinco milhões de camponeses.

No mesmo período, a grande perseguição dos Processos de Moscovo (1929-1934 e 1936-1938) também afectou enormemente a população ucraniana, especialmente a oposição política, a intelectualidade e os artistas. Calcula-se que durante os processos foram assassinados milhares de oposicionistas ucranianos. De facto, dos mais de cinco milhões de prisioneiros levados à morte nos campos de concentração estalinistas (Gulags) na Sibéria, pelo menos 20% eram ucranianos.

Esses são apenas alguns dos factos que demonstram que a opressão nacional exercida pela Rússia sobre a Ucrânia, que remonta ao império dos czares e passa pelo regime do terror estalinista, é um elemento central para entender as causas da situação atual.

Por outro lado, a crise atual, que tem essas raízes mais históricas, também é explicada pelo brutal processo de colonização ao qual a Ucrânia foi submetida desde a restauração do capitalismo em todo o leste europeu.

Nestes mais de 20 anos, a Ucrânia passou por um processo tremendo de desindustrialização e desnacionalização da sua economia, com um aumento enorme dos investimentos estrangeiros e, consequentemente, da dívida externa com o imperialismo – fundamentalmente europeu – e pela dependência ao preço do gás imposto pela Rússia.

Com a restauração capitalista, a antiga burocracia governante tornou-se multimilionária, beneficiando-se das privatizações selvagens em todos os sectores da economia. Assim, constituiu-se uma oligarquia mesquinha, corrupta e com a firme decisão de governar o seu “feudo” com mãos de ferro. Esta oligarquia burguesa hoje detém enormes complexos industriais e financeiros. Além disso, existe outra característica da elite ucraniana: o entreguismo. Setores da burguesia têm seus negócios mais voltados nas relações com a Rússia, enquanto outros dirigem seus nexos com a União Europeia, sobretudo com a Alemanha. No entanto, isso não impede que ambos os blocos estejam sempre dispostos a entregar-se ao melhor comprador.

Com isso, dependendo de qual sector da burguesia estiver no governo, a economia e a política do país oscilam entre a influência da Rússia, para onde exporta 25,6% de sua produção e importa 32,4% de seu consumo interno, principalmente gás natural, e a do “ocidente”, sobretudo da União Europeia e dos EUA, de quem recebe empréstimos principalmente para pagar o gás russo, e onde a oligarquia ucraniana possui activos importantes. Dessa forma, a Ucrânia é uma semicolónia, onde o bloco imperialista UE-EUA e a Rússia de Putin disputam influência económica e política e tentam saquear a maior quantidade possível das suas riquezas. Em outras palavras, o gás do leste e os créditos do oeste são os pilares em que se assenta a Ucrânia burguesa.

Em síntese, essas duas vias de exploração e opressão nacional por parte do imperialismo europeu e norte-americano e da Rússia, que é uma submetrópole regional que, apesar de também estar sendo colonizada pelo imperialismo tenta conservar a qualquer custo sua área de influência herdada da ex-URSS, estão na base da turbulência política na Ucrânia.

A atual crise económica e o impacto das políticas entreguistas e neoliberais dos sucessivos governos foram deteriorando o nível de vida das massas, até atingirem níveis insuportáveis. Desde a dissolução da URSS em 1991, a Ucrânia passou de 51,4 milhões de habitantes para 45 milhões, fruto da queda da natalidade e do aumento da mortalidade, sobretudo devido ao desmantelamento da saúde pública. O êxodo ao exterior chega a quase 7 milhões de pessoas, que remetem ao país anualmente cerca de 3 mil milhões de dólares. A pobreza, segundo o próprio governo, chega a 25% da população, sendo que a pobreza extrema flagela 16% dela, registando-se os índices mais altos no oeste rural. Os trabalhadores do Estado estão há meses sem receber seus salários e o país não consegue pagar o gás que importa da Rússia. O desemprego chega “oficialmente” a 8% e o salário médio é de 332 dólares (245 euros), quase três vezes inferior ao da Rússia e da Bielorússia, sem falar da UE.

Essas são as profundas bases sociais e económicas que estão no fundo do descontentamento popular e impulsionam a mobilização atual, independente das questões sobre o relacionamento com a UE ou com a Rússia.

 

O acordo com a UE e a crise atual

A crise económica mundial foi deixando mais tensas as relações de exploração nacional e a Rússia começou a aumentar o preço do gás vendido à Ucrânia.

Os preços altíssimos do gás natural (superiores aos que a Rússia cobra da UE) prejudicam os negócios da burguesia ucraniana e minam as finanças do Estado. Isso levou o governo a recorrer, desesperadamente, aos empréstimos em forma de eurobónus e empréstimos do FMI (a dívida ucraniana quintuplicou nos últimos 5 anos; até o final de 2014 a Ucrânia tem que pagar cerca de 10 mil milhões de dólares em serviços da dívida externa), o que empurrava a oligarquia burguesa e toda a política ucraniana cada vez mais para os braços do imperialismo.

Metida num círculo infernal, não era raro que a Ucrânia pagasse as dívidas com a Gazprom3, a empresa que exerce o monopólio do gás natural russo, com os empréstimos do imperialismo. Mas essa situação de pagar imponentes somas de dinheiro tanto para a Rússia como para os credores imperialistas levou o Estado à beira da falência e a burguesia ucraniana tomou a decisão de vender o país à UE, em troca de mais “ajuda financeira”. Mencionemos que, de acordo com a Standard & Poors, hoje a Ucrânia tem 50% de possibilidades de ir à bancarrota.

Foi assim que Yanukóvich começou a propaganda maciça em favor de um Acordo de Associação e Livre Comércio com a UE, esperando a entrada de dinheiro europeu. Mas o acordo preparado pela UE, que está passando por uma crise brutal conhecida por todos, não garantia o financiamento esperado pelo governo e nem dava à Ucrânia o direito de pertencer a esse bloco económico continental. Só garantia, para os imperialistas europeus, o mercado interno ucraniano e a possibilidade de aprofundar o saque, quase sem nenhuma medida compensatória.

O regime russo, vendo a possibilidade de perder bruscamente sua influência na Ucrânia, inclusive sua base militar em Sebastopol, Crimeia, fundamental para a presença militar de Putin no mar Negro, começou a pressionar mais activamente o governo ucraniano. Ofereceu reduzir em 30% o preço do gás e outorgar um empréstimo de 15 mil milhões de dólares, com o único objetivo de manter a Ucrânia dentro de sua “órbita de influência”. Da mesma forma, Putin redobrou seus esforços para incorporar a Ucrânia na chamada União Aduaneira, que é comandada pela Rússia e inclui o Cazaquistão e a Bielorússia.

No meio desta situação de extrema pressão por parte de Putin, em 21 de novembro de 2013, Yanukovich, contra toda a propaganda precedente, negou-se a firmar o acordo com a UE, o que provocou as primeiras manifestações, a ofensiva da oposição burguesa pró-ocidente e toda a crise atual.

 

O caráter do processo

A imprensa internacional informa com insistência que o objetivo das manifestações é exigir a entrada da Ucrânia na UE. A propaganda russa e seus difusores da esquerda castro-chavista também insistem nesse assunto e agregam o fato de que as manifestações estariam sendo dirigidas por “fascistas” financiados pela UE e pelos EUA para “orquestrar um golpe de Estado” contra Yanukovich e acabar com “a integração da união fraternal de povos da antiga URSS”4.

É verdade que existem ilusões em amplos setores de massas, sobretudo na Ucrânia ocidental, de que uma aproximação com a UE poderia ser uma solução à sufocante situação económica e uma alternativa “mais democrática” contra o bonapartismo da brutal oligarquia governante. No entanto, devemos entender que essas ilusões e o engano por parte de um sector de massas em relação à UE tem, como vimos, uma base muito concreta, que é a opressão histórica por parte da Rússia e o ódio que sentem em relação a Putin, que veem, com razão, como o tirano russo que encarna os séculos de exploração, humilhações e abusos contra o povo ucraniano.

O ódio ao opressor russo é progressista; o erro (alentado pela oposição pró-ocidente e o imperialismo) está em pensar que um acordo de “livre” comércio com a UE seria a solução para tantos anos de exploração.

Também é certo que a oposição burguesa e pró-imperialista, expressa no partido Udar (Aliança Democrática Ucraniana Pela Reforma), do ex-boxeador Vitali Klitschko; o partido pró-UE Batkivschina (A Pátria) da ex-primeira ministra Julia Timoschenko e atualmente liderado por Arseni Yatseniuk (a quem Yanukovich ofereceu ser primeiro ministro quando Azarov renunciou) e setores abertamente fascistas, como o partido Swoboda (Liberdade), liderado por Oleg Tiagnibok (que tem aproximadamente 10% do eleitorado), participam e tentam controlar os protestos em Maidán, com o beneplácito aberto dos diplomatas europeus e norte-americanos.

Existem também, na praça e na ocupação de edifícios públicos, grupos de extrema-direita e xenófobos, agrupados no chamado Pravy Sektor (Sector de Direita), que se aliaram a várias organizações, também ultranacionalistas, de veteranos da campanha soviética no Afeganistão (1979-1989), para “proteger” os acampamentos na Maidán.

Andréi Tarasenko, um dos líderes do Sector de Direita, pertence a uma organização chamada O Tridente de Stepán Bandera, em memória ao líder rebelde do Exército Insurgente Ucraniano (UPA) que lutou contra as autoridades soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial e inclusive na década de 1950. Tarasenko diz que o Sector de Direita baseia-se em “princípios do cristianismo tradicional da Ucrânia e na ideologia do nacionalismo ucraniano”. Declaram-se também antirrussos (“porque os russos não são europeus”) e anticomunistas. Apesar de se oporem ao governo de Yanukovich e à entrada na UE (uma “estrutura supranacional” que, segundo Tarasenko, pretende a “desnacionalização” e a “descristianização” da Europa), defendem uma estratégia xenófoba de sociedade pautada por “uma Lei superior, a lei de Deus e a lei da Vida Cotidiana da Nação Ucraniana”. Esses grupos também estão contra a eutanásia e o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, porque “para o cristianismo a sodomia é um pecado que deve ser castigado”5.

Sendo profundamente reacionárias, tanto a ilusão na UE como o caráter das direções do movimento na Maidán, defendemos que a esquerda não pode confundir esse caráter reacionário e pró-imperialista da direção do processo com o carácter do processo de conjunto.

Opinamos que o processo de mobilizações que agita a Ucrânia actualmente é progressista, apesar de sua direção e de inúmeras outras contradições. Tem um curso progressista porque enfrenta um governo ultrarreacionário e bonapartista, repressor e entreguista como o de Yanukovich, e porque enfrenta, embora de forma distorcida pela propaganda pró- UE e as confusões das massas nesse sentido, a histórica opressão russa sobre a Ucrânia.

Ainda que no início do processo o eixo das mobilizações tenha sido o repúdio à suspensão do acordo com a UE, a dinâmica da mobilização e a brutal repressão por parte de Yanukovich fizeram com que o centro dos protestos passasse a ser a queda do governo e o fim das medidas repressoras, algo claramente progressista.

Esse curso acentuou-se depois da aprovação das “leis ditatoriais”, análogas às que reinam na Rússia de Putin, aplicadas por Yanukovich, o que acabou sendo um tiro pela culatra para o governo. Esta afronta e a resposta do movimento de massas abriram um novo momento no desenlace da situação. Os protestos iniciais, em que predominavam estudantes universitários e setores de classe média, foram dando lugar à incorporação de mais sectores de trabalhadores, expandindo-se de Kiev para outras cidades, algumas no leste do país.

Diante da ofensiva bonapartista, os ucranianos responderam com novas manifestações maciças e cada vez mais radicalizadas, com confrontos ferozes com a polícia e a ocupação de prédios públicos6. E a exigência ilusória da “euro-integração” passou a décimo plano, sendo que o eixo atual é Fora Yanukovich!7

Os acontecimentos actuais, se antes geravam dúvidas e confusão, agora mostram claramente que o desejo dos ucranianos é ajustar contas com o governo que levou o país à falência e que despreza o povo abertamente. Por outro lado, o governo ficou praticamente paralisado e incapaz de aplacar a raiva popular, perdendo cada vez mais o controle do país.

Por tratar-se de um processo cujo sentido é essencialmente progressista, é fundamental que todas as organizações que se dizem de esquerda e o movimento operário e social de todo o mundo expressem seu apoio e solidariedade à tenaz luta do povo ucraniano. É preciso combater e denunciar o papel reacionário cumprido pelas direções do movimento da Maidán, mas a partir de dentro do processo. É necessário o apoio da esquerda, pois uma queda de Yanukovich provocada pela mobilização popular seria, sem dúvida, uma importante vitória política, que aprofundaria a crise do regime e seria um passo valioso para a estratégia de tomada do poder pela classe operária e o povo.

 

O castro-chavismo apoia Yanukovich-Putin

Infelizmente, como já dissemos, esta não é a visão da maioria da esquerda. A propaganda oficial de Yanukovich e, sobretudo, a russa, absolutizam as ações da extrema-direita. Quando se referem aos manifestantes, os jornais russos enchem-se de frases como “fascistas”, “membros de bandos criminosos”, “vândalos”, “organizadores de pogroms”, “radicais”, “grupos ultranacionalistas” ou “golpistas”. Os protestos são apresentados como fruto de uma “conspiração da UE e dos EUA”, e a esquerda internacional, em sua maioria, caiu novamente nas malhas desse discurso nada original.

É o mesmo discurso usado por Assad e Putin, com todo o castro-chavismo fazendo coro, na guerra civil síria. Nesse caso, a ditadura tenta apresentar todos os rebeldes que lutam pela queda do regime, sem distinção, como “terroristas” e “jihadistas”, valendo-se da presença de grupos ligados à Al Qaeda, como o Estado Islâmico do Iraque e Síria e a Frente Al Nusra. No caso ucraniano, Yanukovich e Putin utilizam o elemento (real) da presença de setores pró- imperialistas e de extrema-direita nas manifestações para deslegitimar e debilitar o processo de conjunto.

Opinamos que, ao contrário do que defende a maioria da esquerda, a melhor forma de combater os grupos fascistas como Swoboda e o Sector de Direita é justamente intervindo nas mobilizações para construir, no seu seio, uma alternativa independente e de classe, que combata tanto o governo entreguista e pró-russo de Yanukóvich quanto a oposição burguesa e a extrema-direita, que querem atar ainda mais o país aos ditames do imperialismo europeu e que, se as mobilizações chegarem a ameaçar seriamente a dominação capitalista, não terão pudor em concordar com uma “saída negociada” com o próprio Yanukovich.

A tarefa não é negar, mas disputar a fundo o processo de mobilizações da Maidán. Contra a extrema-direita, que quer dar à mobilização um sentido nacionalista-xenófobo, devemos opor uma política de aprofundar a luta incorporando a classe operária organizada, a juventude precarizada e sem futuro, as mulheres e a esquerda em geral. É necessária uma política de democratização do movimento e de criar, inclusive, organismos de auto-defesa contra a repressão, desmentindo o discurso dos fascistas com o qual tomam para si a tarefa (que ninguém votou) de “defender a praça e os protestos”.

Com a esquerda omissa ou contra a mobilização em Maidán se faz o jogo do governo de Yanukovich, da opressão nacional exercida pela Rússia e também dos grupos pró-imperialistas e de extrema-direita, pois deixa-lhes o caminho livre para levar esta heróica luta das massas à derrota segura.

O único antídoto para o crescimento da extrema-direita é uma luta tenaz pela entrada em cena da classe operária, com as suas organizações e métodos, dentro da Maidán, a partir da construção de um terceiro campo que apresente um programa claro para o país, sob a perspectiva dos trabalhadores.

Participar na Maidán com a perspectiva de construir um terceiro campo de classe contra o governo de Yanukóvich, a UE e a submissão à Rússia!


Sintetizamos assim a nossa posição:

1. Participação activa nas mobilizações da praça Maidán. Total solidariedade com a luta do povo ucraniano em sua luta contra o governo assassino e entreguista de Yanukóvich e contra a opressão histórica russa.

2. Nós, revolucionários, devemos intervir no processo propondo claramente as bandeiras de Abaixo o governo de Yanukovich! Nem União Europeia, nem submissão a Putin! Nenhuma “saída negociada” com Yanukovich!

A solução não está em entrar na UE (onde o destino imediato é a tragédia social que vemos na Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda) nem apoiar os oligarcas que estão saqueando o país, sejam “opositores” ou do governo, nem nos acordos com a Rússia.

Ao mesmo tempo, o movimento deve repudiar qualquer tentativa de negociar “por cima” um possível “governo interino” integrado pelos atuais governantes com membros da oposição de extrema-direita. A saída está na derrota do governo pela força das ruas.

3. Pelo fim imediato da repressão às mobilizações: Nenhuma intervenção militar no processo! Castigo aos repressores! Liberdade para todos os trabalhadores e lutadores presos!

4. Estamos pelo desenvolvimento e a posterior centralização de comités populares a partir dos grupos que existem na praça Maidán. Que sejam esses comités democráticos que organizem maciças assembleias para decidir os rumos da luta.

As propostas políticas e de autodefesa devem ser decididas em assembleias, para limitar as ações dos grupos neofascistas. Esses comités e assembleias na praça seriam um bom ponto de partida para a formação de comités por locais de trabalho, de estudo, por bairros etc., completamente independentes de qualquer tipo de organização burguesa.

5. O movimento da Maidán deve ter uma política de atrair o movimento operário para a luta contra o governo, incorporando reivindicações como o aumento geral de salários, a redução da jornada de trabalho e o emprego digno, com salário igual para trabalho igual para todos e todas.

6. Pela imediata convocatória de uma Assembleia Nacional Constituinte, democrática, livre e soberana, para decidir sobre as relações com a UE e com a Rússia. Neste sentido, nossa posição parte da luta por uma Ucrânia independente e soberana. Por isso, é necessária uma Assembleia Constituinte que rompa os laços políticos e econômicos com o imperialismo (UE e FMI) e com a histórica dominação russa: Abaixo os pactos com a UE e com a Rússia! Não ao pagamento da dívida externa com a Rússia e a UE/FMI!

7. Mas, para que essa Assembleia Constituinte seja realmente democrática e soberana, não pode ser convocada pelo governo oligárquico atual de Yanukovich nem pela oposição pró-imperialista e a extrema-direita. O único governo que pode garantir uma Assembleia Constituinte livre e soberana, para conquistar a independência do país e nacionalizar todas as riquezas (fábricas, terras, bancos, meios de transporte) a serviço das necessidades do povo trabalhador, é um governo operário e popular, apoiado nas organizações democráticas da classe operária e do povo pobre.

8. Só um governo operário e popular será capaz de garantir a independência nacional da Ucrânia, a nacionalização da economia, a vigência das liberdades democráticas, a revolução agrária, o pleno emprego e a melhoria real das condições de vida do povo, expropriando os oligarcas, o imperialismo, a oligarquia russa e colocando toda a economia a serviço do país. Que o povo seja o dono de todas as riquezas do país e não um punhado de milionários vendidos à UE ou à Rússia!

9. Para concretizar a luta por um governo socialista dos trabalhadores é indispensável que, no calor da luta atual, criem-se as bases e se construa um partido marxista revolucionário, operário e internacionalista, que dispute a direção política das mobilizações no sentido do combate pela revolução socialista internacional.

 

I. Razin e R. León


NOTAS:

1. Ver: http://www.lavanguardia.com/internacional/20140126/54399582462/maidan-extiende-kiev-toda-ucrania.html


2. Ver: http://internacional.elpais.com/internacional/2014/01/31/actualidad/1391168402_796348.html


3. A dívida da Ucrânia para com a Rússia pela compra de gás chega a aproximadamente 3,3 bilhões de dólares.


4. Como exemplo, ver a declaração do PC da Armênia: http://jscomin.blogspot.com.br/2014/01/en-ucrania-el-eurofascismo-no-pasara.html


5. Ver entrevista em: http://internacional.elpais.com/internacional/2014/02/07/actualidad/1391782485_090616.html


6. Para ver uma mostra da coragem dos manifestantes em seus confrontos com a polícia, convidamos os leitores a ver este vídeo: http://www.abc.es/internacional/20140126/abci-video-brutal-paliza-manifestantes-201401261710.html. E estas fotos sobre “a batalha de Kiev”: http://www.malgusto.com/cosas-del-mundo/la-batalla-de-kiev-fotos-del-conflicto-en-ucrania/#more-62880


7. Segundo dados de G. Kriuchkov, membro do CC do Partido Comunista Ucraniano, a popularidade de Yanukóvich caiu de 30,8%  para 10,9% e da Rada, de 14,2% para 4,6%. Diz também que 82,7% dos ucranianos consideram que o governo não resolve os problemas sociais e mais de 68% está convencido de que o governo não defende os interesses nacionais nem reforça a unidade e a concórdia na sociedade.  Ver: http://prensapcv.wordpress.com/2014/01/20/pc-de-ucrania-que-fuerzas-politicas-estan-detras-de-maidan/

 
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