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Qual a resposta do movimento sindical docente a mais uma ofensiva do governo?

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Para que mais uma vez os professores não sejam logrados pelas suas direções, é preciso que discutam nas escolas como levar a greve para a frente e impor aos dirigentes o respeito pela base que os elegeu.

O anúncio de Passos Coelho, no dia 3 de maio, de mais cortes e austeridade para cima dos trabalhadores e pensionistas, só não caiu que nem uma bomba porque deste governo já nenhum trabalhador, desempregado ou reformado espera seja o que for de bom.

Coincidiu esse anúncio com o primeiro dia do XI Congresso da Fenprof, a maior federação sindical dos professores portugueses. No segundo dia, 4 de maio, seria de esperar que o secretário-geral Mário Nogueira se dirigisse, do palco do Fórum Lisboa, não só aos professores e funcionários públicos do país – mais diretamente atingidos pelas medidas – mas a todo o povo português: afirmando que a situação é insustentável, e que cada dia que este governo está no poder já é um dia a mais para quem trabalha ou trabalhou; animando as pessoas com propostas mobilizadoras; propondo discussão nas escolas e noutros locais de trabalho, em plenários com elevada participação da base para preparar lutas necessariamente duras e prolongadas; para que este governo se demita, levando consigo a troika.

Mas não foi isso que fez Mário Nogueira.

Demitir o governo, mas como?

A resolução de luta que colocou à votação o secretário-geral da Fenprof foi uma manifestação de professores (nem sequer propondo unidade com os outros trabalhadores da Educação) para as calendas do dia 22 de Junho... Inclusive uma proposta de greve geral de dois ou mais dias, apresentada por um professor da Guarda, foi assobiada pelas hostes do aparato. A de greve às avaliações e exames, subscrita por sócios da corrente Autonomia Sindical, obteve uma votação ínfima (embora essa forma de luta fosse integrada na Resolução final, sob a forma de apelo a outros sindicatos para “em convergência, ser convocada greve ou greves, a realizar este ano letivo, coincidentes ou não com períodos de exames ou avaliações”).

Se é verdade que durante os dois dias do congresso os professores presentes (a maioria deles ligados às direções, pois a eleição dos delegados foi muito controlada por elas) gritaram continuamente “Governo para a rua! Demissão!”, muitos outros perguntavam entre si: “Sim, estamos todos de acordo que o governo tem que ir embora, mas como se faz isso? Como vamos forçá-lo a demitir-se? É essa a questão…”.

A decisão de uma manifestação marcada para o final de junho, com os professores sozinhos e sem sequer um apelo a outros setores da Função Pública, ou mesmo outros sindicatos de docentes, não deixou ninguém empolgado.

Reviravolta surpreendente…

Já depois do congresso, no dia 16 de Maio, reuniram num hotel de Lisboa nove organizações sindicais de professores, entre elas as duas maiores, Fenprof e FNE. Numa reviravolta surpreendente decidem “unir-se para lutar” e radicalizam as propostas de luta: a manifestação de professores é antecipada de dia 22 para 15, e será convocada uma greve às avaliações de 11 a 14 de Junho, e uma outra para o dia 17 de Junho, coincidente com o 1º dia dos exames nacionais.

De modo nenhum discordamos da radicalização das formas de luta, mas, sim, que ela seja decidida completamente por cima da base dos professores. Os mesmos dirigentes que nem 15 dias antes vaiavam formas de luta combativas decidem de repente ficar super-radicais? Dá que pensar… A decisão não deixa de ser burocrática e é isso que pode matar a própria luta, por mais forte que pareça.

Lutar com democracia de base

Aconteceu no passado, com demasiada frequência, que os dirigentes sindicais levantaram greves nas vésperas do seu início, só porque o Ministério da Educação acenou com reuniões de negociação, das quais aliás pouco ou nada acabou por resultar. Prometem-se mundos e fundos de luta, “agora é que é”, e num ápice o ministério diz que está disponível para reunir com as direções – e lá se levanta a greve. Unilateralmente, claro está, sem nenhuma consulta à base.

Esperamos que não seja esta a agenda escondida desta plataforma de sindicatos de professores: fazer barulho com uma luta muito forte só para exercer pressão para a negociação. Mas numa situação em que o governo não tem seja o que for para negociar com os professores, nada para oferecer em troca, visto que está completamente subordinado à austeridade da troika e às exigências do pagamento da dívida, que se pode esperar do “diálogo” com o Ministério da Educação?

Desejamos o maior sucesso desta greve, mas para isso ela tem que ser preparada cuidadosamente, com reuniões nas escolas, plenários descentralizados para todos, sindicalizados e não-sindicalizados, etc. Senão poderá ser um fiasco, e depois os dirigentes vêm culpar os professores! Também já assistimos a isto. As direções não consultam ninguém, não preparam as mobilizações, e depois queixam-se de que a classe “não se mexe”.

Para que mais uma vez os professores não sejam derrotados, é preciso que reúnam nas escolas e regiões e discutam, não só a maneira de levar a greve para a frente com eficácia, como também de a controlar, de decidir do seu curso e de impor aos dirigentes o respeito pelas decisões que tomarem.

Ana Paula Amaral (professora)

 
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