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“O corpo é que paga” – cortes na Saúde vão matar

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PS, carrasco do Sistema Nacional de Saúde

António Bessa Monteiro, director de Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital de São João, no Porto, manifestou no dia 19 de Novembro a sua preocupação ao jornal Sol quanto à construção da Unidade de Queimados Pediátricos: “Só espero que os cortes do Governo não alterem o que está previsto”.

Nesta frase está expresso um receio com fundamento: António Bessa Monteiro reforça-o ao Sol: “Uma criança é um ser em desenvolvimento, com especificidades próprias, e as suas queimaduras vão durar muitíssimo mais tempo do que as de um adulto”. Ou seja, as 200 a 250 crianças por ano que beneficiariam desta unidade e que teriam um aumento nos seus tratamento e, provavelmente, na sua sobrevivência, não o farão porque o Governo tem de cortar e pagar aos bancos a crise que os ricos criaram.

Tão simples quanto isto: se um miúdo, no Porto, ficar queimado e não tiver a hipótese de ir para a dita Unidade devido a cortes orçamentais, este rapaz ou rapariga tem menos hipótese de sobreviver porque o capitalismo assim ordena. A dura realidade do fim do Estado Social baterá, então, à porta de milhares e milhares de trabalhadores: o capital mata. Directamente, em guerras que nos parecem longínquas (Afeganistão, Iraque, Gaza), mas também indirectamente, mesmo ao nosso lado.

Bem pode Ana Jorge clamar, no seu estilo educado e mais discreto (para que ninguém se lembre do anterior Ministro da Saúde Correia de Campos), que os cortes na Saúde, uns módicos 100 milhões de euros, não vão por em causa a qualidade de saúde dos doentes, mas a verdade será demasiado evidente.

Por exemplo, só os três hospitais açorianos terão que cortar 14 milhões de euros em despesas, o que já motivou uma carta dos médicos da região onde estes se manifestam “preocupações médicas” em relação aos “cuidados de saúde que vão prestar aos açorianos”.

Manuel Pizarro, Secretário de Estado da Saúde, apressou-se a dizer que estes cortes em nada afectarão os doentes, mas conseguirá Manuel Pizarro dizer-nos como pode uma pessoa com ordenado mínimo pagar o aumento dos medicamentos? E pagar mais por fazer um exame complementar de diagnóstico? Estarão “mantidos” os “cuidados de saúde” de um doente psiquiátrico cuja medicação deixará de ser comparticipada?

É óbvio que ao Partido Socialista (PS) e aos seus boys cabe o hipócrita papel de partido de “esquerda moderna” que arrasa o estado social ao mesmo tempo que lhe faz em elogios no Telejornal da noite. Cabe-nos a nós responder-lhes.

Cortar, cortar, cortar.

Nos hospitais, a pressão é já evidente. São muitas as histórias de pressões administrativas para um corte radical nos cuidados de saúde. Na área oncológica, onde os medicamentos são mais caros, sente-se no terreno a má vontade das administrações em despender milhares de euros em medicamentos em doentes mais idosos, por exemplo. É aqui que se sente o lado mais negro, mais violento e pernicioso destes cortes: as administrações hospitalares – nomeadas pelos Governos – farão a população pagar os cortes com a sua saúde. Não serão “despesismos administrativos” ou “burocráticos” que pouparão 100 milhões de euros. Serão vidas.

Como sempre, será a população mais pobre a pagar. Os cuidados de saúde cairão a pique e só quem não pode recorrer ao privado continuará a ter que ir a um Sistema Nacional de Saúde (SNS) cada vez mais moribundo.

Se um doente psiquiátrico se suicidar porque não teve dinheiro para o seu anti – psicótico porque este já não é comparticipado é mais que certo que esse doente não será um accionista maioritário da PT. Será um trabalhador.

Se uma pneumonia não for diagnosticada num idoso porque este não quis fazer aquela radiografia de tórax que o médico do centro de saúde recomendou, esse idoso – cuja reforma foi cortada, que paga mais IVA – correrá risco de vida porque os bancos estavam primeiro que ele.

Quando um médico não puder prescrever o melhor fármaco porque é pressionado para isso pelo seu director de serviço que é pressionado pela direcção do hospital que tem ordens para poupar, de quem é a culpa?

Quando um doente morrer num internamento porque faltam enfermeiros no serviço – existindo milhares no desemprego – de quem é a culpa?

A queda de qualidade do SNS será o golpe para a entrada das seguradoras e para um sistema ainda pior.

Ou pagamos nós ou pagam eles

O capitalismo, com as suas crises cíclicas, faz-nos caminhar para uma barbárie. Indirectamente, mesmo ao nosso lado, morrerão pessoas devido a estes cortes. Não será essa, concerteza, a causa de morte que constará na certidão de óbito. Mas uma análise fria dos factos prova que sim, que foi essa a causa.

Para que não seja a classe trabalhadora (a que não tem dinheiro para um médico privado) a sofrer estes cortes na pele e no corpo, é urgente que esta se organize. É urgente que doentes e profissionais de saúde se juntem nos centros de saúde, nos hospitais e nas associações de doentes e comecem um combate sem tréguas contra um governo que sacrifica a sua saúde pelos lucros de uma minoria. É necessário levantar a bandeira do SNS gratuito, de qualidade e universal bem alto. Em cada urgência hospitalar, no centro de saúde mais escondido do país, é preciso que os doentes do SNS iniciem a defesa dos seus direitos.

Diz a canção que “o corpo é que paga”. No entanto, unida, a classe trabalhadora do SNS e a que usufrui do mesmo pode fazer o capitalismo pagar. Basta que se una e que grite bem alto que devem ser os ricos a pagar a sua crise.

M.N.

 
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