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António Santos Júnior, um dos nossos

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Morreu no dia 27 de Janeiro, com 73 anos de idade, aquele que foi o mais destacado militante sindical na resistência antifascista. António Santos Júnior, que a generalidade da imprensa teve artes de esquecer, foi, por um momento, protagonista da grande História.

Mas, quando a ribalta política foi ocupada por renegados e oportunistas de toda a espécie, ele regressou discretamente à base, a partilhar o destino dos seus companheiros. Esta é a parte menos conhecida, e talvez a mais heróica, da sua história.

A biografia de Santos Júnior, adolescente, jovem adulto e homem feito, é razoavelmente conhecida. Nascido numa aldeia ribatejana, veio para Lisboa aos 14 anos, começando a trabalhar como aprendiz de pintor. Trabalhou e estudou, foi recrutado para o serviço militar, adquiriu na Força Aérea a especialidade de mecânico de aviões, e escapou da guerra colonial graças ao talento invulgar que revelava nessa profissão.

Em 1968 foi admitido na TAP, onde em breve se tornou um dirigente natural das reivindicações esboçadas pelos seus companheiros. Em 1970, não surpreendeu que fosse escolhido, entre um núcleo muito consciente e combativo, como o nome óbvio para encabeçar a lista B, que concorria à direcção do Sindicato dos Metalúrgicos na primeira eleição realizada sob a ditadura. A lista esmagou nas urnas os burocratas fascistas e Santos Júnior tornou-se presidente do sindicato, logo da federação dos metalúrgicos e depois, ainda, cofundador da Intersindical.

 

Da resistência à revolução

A nova direcção do sindicato tratou de dinamizar as reivindicações da contratação colectiva e de promover a eleição de delegados combativos em cada local de trabalho. Combinou esse árduo trabalho de base com uma iniciativa visionária e ambiciosa: realizar uma assembleia geral dos metalúrgicos no Estádio da Luz. O SLB cedeu o Estádio para o efeito, mas o ministro fascista Baltazar Rebelo de Sousa, pai do actual PR, mandou proibir a assembleia.

Em breve, o mesmo Rebelo de Sousa intervencionou o sindicato, fez destituir a sua direcção e entregou-o a uma comissão administrativa – escárnio descarado das promessas da “primavera marcelista”. Santos Júnior foi detido pela PIDE no hângar 4, onde trabalhava, e os seus companheiros imediatamente anunciaram que entravam em greve. E assim fizeram, até ele ser libertado hora e meia depois.

O núcleo combativo em que Santos Júnior continuava a ter papel destacado reorganizara-se entretanto, com a sigla “Comissão Operária de Unidade Metalúrgica” (CUOM), de carácter semi-clandestino. Continuava a animar as reivindicações dos trabalhadores, nomeadamente as que estavam sobre a mesa de negociações do acordo colectivo da TAP. Em 11 de Julho de 1973, depois de duas assembleias gerais na Voz do Operário, com participação cada vez mais massiva, uma terceira foi reprimida pela polícia. Os trabalhadores dispersaram, com a palavra de ordem de afluírem ao aeroporto, onde se manifestaram nessa mesma noite e enfrentaram a polícia.

No dia seguinte, a força de choque da PSP invadiu as oficinas, abrindo fogo e fazendo vários feridos. Os trabalhadores resistiram em terreno conhecido, alvejaram a polícia com fisgas improvisadas, com esferas de rolamentos, com material de escritório arremessado do alto dos edifícios administrativos. À porta do hângar 6, a polícia recuou, com receio de cair numa emboscada – que efectivamente poderia ter sucedido. E retirou das oficinas debaixo de uma chuva de projécteis. Era meio caminho andado para uma meia vitória, que finalmente viria ao fim de mais uma semana de greve. Esta foi a luta operária mais importante que houve numa só empresa durante toda a ditadura e aquela que teve mais profundas repercussões políticas.

O eco diferido da meia vitória de julho foi a nova eleição para o sindicato, em dezembro do mesmo ano. A lista apoiada por Santos Júnior voltou a ganhar, embora ele próprio estivesse proibido de recandidatar-se. A polícia fazia-lhe uma marcação cerrada, que finalmente o levou a emigrar para o Canadá. Aí foi surpreendido pelo 25 de Abril, tendo embarcado quase imediatamente de regresso a Lisboa.

Chegou ao aeroporto da Portela no dia 1º de Maio, quando centenas de milhares de pessoas já afluíam ao antigo Estádio da FNAT. Os dirigentes do MES, na altura em formação, esperavam-no no aeroporto. Santos Júnior saíu dali directamente para o Estádio, com o mandato de pronunciar um discurso em nome do partido nascente. Mas, chegado aí, viu ser-lhe barrado o acesso à tribuna por militantes do PCP: o próprio PCP, o PS e o MDP iam ser os únicos partidos com direito à palavra. O incidente era um primeiro aviso à navegação, sobre o método estalinista de ostracizar toda a esquerda que não apoiasse o primeiro Governo Provisório.

Mas outros incidentes se lhe seguiram, principalmente nos conflitos laborais da TAP. Muitos anos depois, Santos Júnior continuava a contar com o seu humor inconfundível o diálogo que com ele manteve o comandante de uma força de páraquedistas enviada numa dessas ocasiões para ocupar as instalações da TAP. O militar procurou obter o acordo de Santos Júnior para normas a observar durante a ocupação e este respondeu-lhe que os dirigentes não poderiam comprometer-se sem primeiro consultarem as bases. Perplexo, o oficial só se lembrou de replicar: “Mas das bases [da Força Aérea] vimos nós!”  Não lhe passava pela cabeça que representantes eleitos cumprissem mandato dos representados. Até o português que falava o proletariado parecia aos militares uma língua muito estrangeira.


Depois da derrota, a classe operária continua a lutar

No anos de refluxo, o Grupo de Activistas da TAP (GATAP) continuou a ser um fermento de lutas e reivindicações dos trabalhadores. Foi nessa recta final que conheci Santos Júnior e é dela que dou testemunho. A organização em que eu próprio militava na altura, a Esquerda Revolucionária (ER, mais tarde componente da FER), tinha iniciado a partir de 1987, em várias grandes empresas, um trabalho de agitação com os boletins quinzenais “Luta de classes”. Eram boletins feitos quase sempre a partir de notícias internas das fábricas, a partir de relatos de pessoas que aí trabalhavam.

Assim que estabelecemos contacto com o grupo de Santos Júnior, estivemos de acordo para fazer em conjunto o “Luta de Classes” da TAP. O grupo de traballhadores começou a reunir-se regularmente connosco. Discutíamos os temas do boletim seguinte e, uma semana depois, Santos Júnior encontrava-se comigo a entregar-me o que ele próprio e outros companheiros tinham escrito. Era a única empresa para a qual a ER praticamente não precisava de escrever uma linha, porque tudo era feito por aquele núcleo com incomparável experiência de luta e grande argúcia política. A ER pouco tinha a oferecer àquele núcleo e muito aprendeu com ele. O boletim manteve durante vários anos uma publicação regular.

Aquilo que o filho de António Santos Júnior, Paulo, definiu como a mais longa luta de seu pai – uma luta contra a doença, longa de 31 anos – tinha entretanto começado e obrigou-o a reformar-se da TAP. Já depois disso, numa visita em que o acompanhei dentro das instalações da empresa, pude verificar como a sua passagem por qualquer hângar ou oficina era um acontecimento emocionante, que logo fazia suspender as actividades em curso e fazia afluir à sua volta dezenas de pessoas de cada vez.

António Santos Júnior foi sepultado numa tarde chuvosa, segundo as três recomendações que deixara: em campa rasa, vestido de ganga e sem nenhum padre a dizer missa. Mas a simplicidade da cerimónia não impediu que uma multidão de pessoas amigas, principalmente companheiros da TAP, tivesse encontrado o caminho daquela aldeia perdida do Ribatejo para lhe prestar um última homenagem.

Depois da sua militância no MES, não voltara a ter qualquer envolvimento partidário. Não se despolitizou nem desdenhava de lutar ombro a ombro com pessoas e organizações identificadas com a classe trabalhadora. Fê-lo sempre com a integridade, o trato fraterno e generoso que, de há muitos anos, tinham feito dele um gigante do movimento operário. Permito-me citar aqui, em jeito de conclusão, as palavras que escrevi no começo de um livro, publicado há precisamente duas décadas, sobre grandes negociatas da Segunda Guerra Mundial: “Onde se fala de bancos e de poder económico, logo algum cínico aparece a dizer que todo o ser humano tem um preço. Dedico este livro ao António Santos Júnior, dirigente operário que não tem preço”.

 

António Louçã

 
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