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Síria: cinco anos de guerra, cinco anos de revolução

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Manifestacao Siria

Nesta terça-feira, 15 de Março de 2016, passaram cinco anos desde o início da revolução do povo sírio contra o regime ditatorial de Bashar Al-Assad.

O que começou por ser a luta de um povo para exigir liberdade, democracia e justiça, influenciada pelo levante popular da chamada Primavera Árabe, transformou-se num teatro de guerra onde vários intervenientes actuam para defender os seus próprios interesses, menos os do povo sírio.

Enquanto durar a resistência do povo da Síria, que se organiza através de comités de coordenação locais/regionais, dos quais o Exército Livre da Síria (ELS) faz parte, todos lutarão pela derrota da revolução. Todos os diferentes actores “externos” que intervêm no processo querem sobretudo uma coisa: parar a revolução. Isto é certo para Bashar Al-Assad e os seus aliados, como a Rússia e o Hezbollah, assim como é verdadeiro para o Daesh (conhecido por “Estado Islâmico”). Também os EUA, tal como o Governo turco, Assad, Rússia ou o EI, querem terminar com a revolução do povo Sírio, só se diferenciam de Putin e dos seus aliados porque defendem a saída de Assad como medida para conter a revolução em curso. A forma como o povo Sírio se mantém mobilizado e resistente após todos estes anos é, por si mesmo, a prova que estamos perante uma revolução real. Nenhum povo manipulado externamente teria esta tenacidade e resiliência para suportar uma guerra dura e prolongada como a que o regime de Assad move contra o seu próprio povo.

A verdade é que o povo sírio está a ser atacado por todos os lados: pelo regime de Assad, que é fortemente apoiado pelo arsenal de guerra da Rússia, pelo Irão e pelo Hezbollah (Líbano); pela União Europeia (UE) e pelos Estados Unidos, que bombardeia a região com a justificação de estar a destruir as forças do Estado Islâmico (EI) no país e pelo EI e pelas forças da Al-Qaeda na região, que aproveitaram a instabilidade que se vive na Síria para avançar no terreno.

Comités de coordenação locais organizam resistência e suprem necessidades básicas das populações

A única força bélica que defende e está verdadeiramente do lado do povo é o ELS, formado sobretudo por desertores do Exército do regime de Assad, que se recusaram a matar o seu próprio povo em nome do ditador, e pela população civil.

O ELS está integrado em estruturas mais alargadas e democráticas formadas pela população da síria que são os denominados Comités de Coordenação Locais/regionais, os quais funcionam como um governo local/regional autónomo que organiza a resistência contra o regime de Assad e as outras forças que estão no teatro de guerra, ao mesmo tempo que supre as necessidades básicas das populações, segundo revelou uma refugiada síria na Europa com quem o MAS falou.

Os comités de coordenação locais/regionais criaram, por exemplo, cantinas comunitárias para alimentar o povo; distribuem lenha para a população usar para aquecimento e fazer alimentos (visto que o regime de Assad destruiu as fontes de energia que abasteciam muitas cidades); permitem e protegem a passagem de ajuda humanitária para as zonas cercadas pelo regime; criam hospitais de campanha e ajudam na recuperação dos feridos de guerra; asseguram a actividade escolar e lúdica para as crianças em caves protegidas, e cumprem muitas outras funções.

Segundo revela a refugiada, é a actuação desses comités de coordenação locais/regionais e do ELS que tem permitido ao povo sírio sobreviver e resistir na luta contra o regime sanguinário de Assad e as outras forças que estão no terreno, como o EI e a Al-Nusra (apoiada pela Al-Qaeda), que, actualmente, são, por enquanto, forças frágeis e minoritárias na região; e ainda contra os ataques das forças internacionais.

As atrocidades do regime de Assad

Se alguém ainda tinha (ou tem) dúvidas sobre as atrocidades cometidas pelo regime de Assad, os relatos feitos em primeira pessoa pela refugiada não deixam margens para questionamentos: o regime de Assad prendeu, torturou e matou o jovem Hamza Al Khatib que pintou frases contra o regime num muro em Daara, bem como a sua família, evento que fez despoletar a revolta do povo; colocou (e coloca) tanques na rua e mandou atirar a queima-roupa contra os manifestantes matando milhares de pessoas em vários protestos realizados desde o início da revolução no país, a própria refugiada perdeu familiares nessas manifestações em que assistiu à chacina; cerca cidades e não deixa passar ajuda humanitária, atirando milhares de sírios para a morte ao usar a tática do “ou te rendes ou morres”; coloca atiradores furtivos nas ruas para matar civis que resistem contra o regime, a própria refugiada sobreviveu a um desses ataques ao atirar-se para o chão dentro da sua própria casa; destrói infraestruturas que asseguram serviços básicos para a população e mata também os animais para que não sirvam de alimento para as populações; executa toda e qualquer pessoa que seja suspeita de estar contra o regime, mesmo que queira apenas dar ajuda humanitária ao povo; mata civis indiscriminadamente, etc. É uma verdadeira traição ao povo sírio e aos trabalhadores de todo o mundo a postura de uma parte importante da esquerda – como o PCP e outros partidos ditos comunistas pelo mundo fora – que continua a defender o ditador sanguinário Bashar Al-Assad.

Não há saída possível com Assad no poder

Enquanto o povo sírio tem lutado de forma hercúlea e resistido durante estes cinco anos contra o regime ditatorial e sanguinário de Assad, a ONU (e por conseguinte a UE e os EUA), o Governo de Assad e os representantes das forças da oposição síria tentam orquestrar uma solução negociada para a guerra no país. A ONU nem sequer coloca em causa a continuação de Assad no poder como ponto de partida para as conversações.

Pensar que a solução para a guerra na Síria passa por sentar à mesma mesa os representantes do regime sírio, que querem manter Assad no poder a todo o custo; a oposição, que o quer fora; e a ONU, que finge estar em cima do muro, é no mínimo cómico, para não dizer trágico.

Já todos sabemos como acabam essas negociações de gabinete: ou não resolvem nada, permitindo que Assad continue no poder a matar o povo sírio, ou servem para colocar governos fantoche dos imperialismos ou do próprio regime no poder.

Só há uma forma de a revolução na Síria sair vitoriosa, de o povo vencer e de tirar Assad do poder: acabar com os bombardeamentos e a interferência directa de países terceiros no país e ajudar o povo sírio na luta contra o regime, fornecendo todo o tipo de apoio aos comités de coordenação locais/regionais, desde armas, a alimentos, medicamentos, etc. O povo Sírio pode autogovernar-se a partir dos Comités Locais, que podem e devem eleger um governo soberano que represente os trabalhadores e o povo sírio, independentemente da sua nacionalidade ou religião. No norte da Síria isso já acontece, após a vitória dos lutadores curdos contra Assad e o EI. O mesmo pode e deve acontecer em todo o território sírio.

O povo sírio, que luta organizado através desses comités, é o único que não tem apoio directo de nenhuma força, nem conta com a solidariedade internacional. É urgente reverter essa situação para que a população da síria deixe de ser massacrada e seja ela a decidir sobre o seu futuro.

Fora Assad, Rússia, UE, EUA e EI da Síria!

Pela solidariedade internacional com o povo sírio!

Não à saída negociada, pela vitória da revolução!

Por um governo democrático dos Comités Locais e do Exército Livre da Síria!

Maria Castro

 
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