{"id":873,"date":"2012-09-09T11:31:10","date_gmt":"2012-09-09T10:31:10","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2012\/09\/09\/o-massacre-de-marikana-um-divisor-de-aguas-na-epoca-pos-apartheid\/"},"modified":"2012-09-09T11:31:10","modified_gmt":"2012-09-09T10:31:10","slug":"o-massacre-de-marikana-um-divisor-de-aguas-na-epoca-pos-apartheid","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2012\/09\/09\/o-massacre-de-marikana-um-divisor-de-aguas-na-epoca-pos-apartheid\/","title":{"rendered":"O massacre de Marikana: um divisor de \u00e1guas na \u00e9poca p\u00f3s-apartheid"},"content":{"rendered":"<p><!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">As imagens sobre o massacre de 34 mineiros por policiais fortemente armados suscitaram uma forte rea\u00e7\u00e3o em todos aqueles que conservam na mem\u00f3ria uma das lutas mais justas do s\u00e9culo XX, que foi a batalha de d\u00e9cadas dos trabalhadores e da maioria negra da \u00c1frica do Sul contra o <em>apartheid<\/em>.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Todos aqueles que t\u00eam alguma viv\u00eancia no movimento dos trabalhadores, mesmo sem ter pleno conhecimento das reivindica\u00e7\u00f5es e do desenrolar concreto da luta, naturalmente fica imediatamente do lado dos mineiros, brutalizados por uma pol\u00edcia que veio ajudar a companhia mineradora a quebrar a sua greve. Mas o estranho em tudo isso \u00e9 que o principal sindicato mineiro, mesmo sem dirigir a luta, n\u00e3o denunciou os perpetradores desse b\u00e1rbaro crime, dedicou-se a atacar o sindicato rival que deu apoio \u00e0 luta e n\u00e3o se colocou inteiramente solid\u00e1rio a uma luta que, no momento de escrever esta nota, ainda persiste e envolve cerca de 3 mil mineiros, com a participa\u00e7\u00e3o ativa das comunidades em que moram.<\/p>\n<p> <!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\"><strong>O <\/strong><em><strong>apartheid<\/strong><\/em><strong> econ\u00f3mico se<\/strong> <strong>mant\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">For\u00e7oso \u00e9 verificarmos o contexto em que se d\u00e1 essa greve e os factos que a envolveram. O marco \u00e9 dado pela transi\u00e7\u00e3o negociada por Mandela e o Conselho Nacional Africano (CNA), que permitiu que as estruturas b\u00e1sicas de poder econ\u00f3mico ficassem nas m\u00e3os das grandes empresas. Mais do que isso, nesses 18 anos desde o final do <em>apartheid<\/em>, o CNA aderiu entusiasticamente aos preceitos neoliberais e favor\u00e1veis ao mercado e liderou uma onda privatista que vendeu por pre\u00e7os rebaixados algumas das principais empresas do pa\u00eds, despediu centenas de milhares de empregados p\u00fablicos, autorizou as grandes empresas sul-africanas a transferirem as suas matrizes deslocadas para Londres, ficando ao abrigo da lei do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Um programa de promo\u00e7\u00e3o dos negros do pa\u00eds (o BEE &#8211; Black Economic Empowerment) e que, entre outras coisas, exigia a participa\u00e7\u00e3o de negros na dire\u00e7\u00e3o das empresas, permitiu que uma pequena elite negra tivesse acesso para participar de algumas grandes empresas. No entanto, as condi\u00e7\u00f5es em que a maioria negra vive continuam muito, mas muito distante mesmo da elite branca e seus poucos parceiros negros.<\/p>\n<p> <!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Os \u00edndices sociais do pa\u00eds demonstram que o <em>apartheid<\/em> permanece em sua ess\u00eancia, e o pa\u00eds \u00e9 um dos recordistas mundiais em termos de desigualdade social: 39% da popula\u00e7\u00e3o vive com menos de 432 rands por m\u00eas (8 rands equivalem a cerca de 1 d\u00f3lar americano) e o desemprego chega a cerca de 35-40% , sendo maior entre mulheres e jovens. Outro dado importante \u00e9 que 5% da popula\u00e7\u00e3o apropriam-se de 43% da renda do pa\u00eds. Como era de se esperar numa economia que segue nas m\u00e3os dos grandes grupos capitalistas brancos, a rela\u00e7\u00e3o entre a renda de negros e brancos continua quase a mesma dos tempos do infame <em>apartheid<\/em>: se em 1993 os brancos tinham uma renda 8,5 vezes maior que a dos negros, em 2008 essa rela\u00e7\u00e3o era de 7,68 vezes. (ver em <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1080\/0376835X.2012.645639\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1080\/0376835X.2012.645639<\/a>, visto em 29\/08\/12) O \u00edndice de Gini, um dos que mede a desigualdade aumentou de 0,66 para 0,70 no mesmo per\u00edodo. Mas talvez a melhor medida da perman\u00eancia e agravamento da desigualdade na \u00c1frica do Sul p\u00f3s-<em>apartheid<\/em> \u00e9 que a parte correspondente aos lucros na economia passou de 40% para 45% entre 1993 e 2009.<\/p>\n<p> <!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\"><strong>Como se corrompe um sindicato<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Um dos setores mais importantes na economia sul-africana sempre foi a minera\u00e7\u00e3o, tradicionalmente as minas de ouro e cada vez mais as minas de platina, utilizada para joias e  catalisadores de carros. As condi\u00e7\u00f5es de vida sempre foram muito duras: se durante o <em>apartheid<\/em> os trabalhadores viviam em dormit\u00f3rios comuns nas pr\u00f3prias minas, agora vivem em barracos miser\u00e1veis nas comunidades ao redor das minas, com suas fam\u00edlias, sem condi\u00e7\u00f5es de saneamento, e sempre sujeitos \u00e0s doen\u00e7as profissionais caracter\u00edsticas da profiss\u00e3o: a tuberculose e a silicose que, aliadas aos acidentes, reduzem drasticamente a vida desses trabalhadores. Na \u00e9poca do <em>apartheid<\/em> havia uma diferen\u00e7a salarial grande entre trabalhadores negros e brancos. Com o final do regime, a desigualdade n\u00e3o deixou de existir e \u00e9 estimulada principalmente por meio da subcontrata\u00e7\u00e3o, a fim de diminuir os sal\u00e1rios m\u00e9dios, utilizando trabalhadores das regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds e incont\u00e1veis trabalhadores migrantes, perfazendo cerca de 1\/3 da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">O sindicato mais importante que representa historicamente os mineiros, o NUM (National Union of Mineworkers) foi fundado em 1982 e foi pe\u00e7a central na luta contra o <em>apartheid<\/em> e para construir a principal central sindical do pa\u00eds, a COSATU. No entanto, com o final do regime do <em>apartheid<\/em>, a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o do NUM com o governo do CNA e a sua pol\u00edtica determinou mudan\u00e7as importantes no seu papel. S\u00e3o crescentes as cr\u00edticas \u00e0s suas rela\u00e7\u00f5es com as empresas mineiras, n\u00e3o \u00e9 de admirar que seu \u00faltimo congresso em 2012 tenha recusado a luta pela nacionaliza\u00e7\u00e3o das minas, bandeira hist\u00f3rica do movimento na \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Por outro lado, a sua estrutura tornou-se uma via de ascens\u00e3o social para os delegados sindicais e dirigentes. H\u00e1 um mecanismo para promover isso, o NUM criou uma empresa em 1995, a Mineworkers&#8217; Investment Trust, que em 2011 possu\u00eda ativos de 2,8 mil milh\u00f5es de rands (quatorze vezes mais do que o ingresso anual advindo dos seus s\u00f3cios) e que possui investimentos inclusive nas empresas de minera\u00e7\u00e3o, como a Lonmin. Esse fen\u00f3meno estimulou o enriquecimento de seus dirigentes. O exemplo mais gritante, mas n\u00e3o o \u00fanico, \u00e9 Cyril Ramaphosa, ex-dirigente m\u00e1ximo do NUM, que se tornou um milion\u00e1rio e acionista minorit\u00e1rio da pr\u00f3pria Lonmin.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Mas a pr\u00f3pria estrutura sindical mudou: tornar-se um delegado sindical no NUM significa um aumento salarial importante, mesmo para os que n\u00e3o t\u00eam libera\u00e7\u00e3o sindical, auferindo um sal\u00e1rio de 3 a 4 vezes do que recebia como mineiro. Fica registado como empregado do setor de pessoal e quando deixa de ser delegado sindical n\u00e3o mais retorna para o subterr\u00e2neo. (fonte: Sakhela Buhlungu)<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Os seus m\u00e1ximos dirigentes ganham sal\u00e1rios milion\u00e1rios pagos pelo sindicato O sal\u00e1rio que o sindicato paga ao atual secret\u00e1rio-geral, Frans Baleni, \u00e9 de105 mil rands, ou seja, cerca de vinte e cinco vezes o que ganha um britador. \u00c9 bastante \u00f3bvio que esses fatos determinam uma mudan\u00e7a na atividade e na representatividade do NUM, especialmente entre os setores mais mal pagos, os subcontratados (somente 10% de seus membros s\u00e3o subcontratados), mesmo que ainda seja o principal sindicato mineiro do pa\u00eds. Em 2001, alguns dirigentes expulsos do NUM em 1998, sem acusa\u00e7\u00f5es claras, fundaram um novo sindicato, o AMCU (<em>Association<\/em>ofMineworkersandConstruction <em>Union<\/em>), que passa a fazer parte do movimento sindical mineiro. Com a perda de prest\u00edgio do NUM, especialmente na regi\u00e3o das minas de platina, por conta de seu papel nas greves dos \u00faltimos anos, o AMCU come\u00e7a a se fortalecer e a conquistar o direito de representar os trabalhadores em algumas minas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ainda predizer o caminho que adotar\u00e1 o AMCU, mas o fato \u00e9 que \u00e9 parte do panorama sindical dos mineiros e n\u00e3o um sindicato criado pelas companhias mineiras como alega o NUM. Ali\u00e1s, seria uma p\u00e9ssima ideia das mineradoras a de criar um sindicato que agora apoia uma greve que paralisa j\u00e1 por 22 dias o complexo de 28 mil mineiros de Marikana&#8230;<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\"><strong>O conflito de Marikana<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Com a crise mundial a partir de 2008, diminuiu a procura por platina por parte das empresas automobil\u00edsticas e as companhias mineiras procuraram diminuir ainda mais seus custos salariais. Com isso, v\u00e1rias greves e ocupa\u00e7\u00f5es se desenvolveram na regi\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o de platina, com milhares de demitidos e alguns mortos. A viol\u00eancia policial \u00e9 uma constante na \u00c1frica do Sul p\u00f3s-<em>apartheid<\/em>: a pol\u00edcia mudou a cor de seus agentes, mas n\u00e3o as suas pr\u00e1ticas, como pudemos acompanhar nos v\u00eddeos sobre o massacre e na justificativa posterior a este pelas autoridades policiais. A inseguran\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao emprego, os aumentos dados a um setor de trabalhadores em detrimento de outros, os aumentos conquistados por outras minas vizinhas, s\u00e3o o combust\u00edvel que levou 3 mil mineiros, os britadores, que com o corpo parcialmente coberto pela \u00e1gua, com britadeiras de 25kg, sob o risco de desabamentos e esmagamento por rochas, ganham cerca de 4000 rands l\u00edquidos (ou seja, cerca de 500 d\u00f3lares), a entrarem em greve (e permanecem ainda quando este artigo est\u00e1 sendo escrito).<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">N\u00e3o conseguindo resolver o conflito, a mineradora apela ao seu recurso tradicional: chama a pol\u00edcia. A a\u00e7\u00e3o policial foi claramente a de \u201cdar uma li\u00e7\u00e3o\u201d nos mineiros. Entrou em campo com armamento pesado, helic\u00f3pteros, encurralou os mineiros e os massacrou covardemente quando estavam em uma colina que n\u00e3o era propriedade da empresa. Como disse a rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da pol\u00edcia momentos horas antes do massacre, \u201cinfelizmente, hoje \u00e9 o dia-D\u201d. O NUM e a COSATU em nenhum momento expressaram sua solidariedade incondicional com os mineiros massacrados e com a sua luta (at\u00e9 hoje n\u00e3o apoiam a luta, pois esta \u00e9 pretensamente ilegal segundo as leis do estado capitalista da \u00c1frica do Sul), cobrindo de vergonha a gloriosa tradi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora sul-africana, que sempre se guiou pelo princ\u00edpio de que \u201can injury to one is an injury to all\u201d (no Brasil se usaria o dito, \u201co mineiro \u00e9 meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo\u201d). O mesmo fez o Partido Comunista da \u00c1frica do Sul, que \u00e9 parte do governo do CNA (al\u00e9m de participar da chamada Alian\u00e7a Tripartite que governa o pa\u00eds, formada pela COSATU, CNA e o pr\u00f3prio PC) e que tem o Ministro de Educa\u00e7\u00e3o, que preferiu atacar o sindicato dissidente e n\u00e3o se dissociar do governo que enviou a pol\u00edcia e muito menos prestar sua solidariedade aos mineiros em luta.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Pior, ap\u00f3s o massacre dedicaram-se a atacar o sindicato rival, dizendo que os oper\u00e1rios tinham sido enganados, que eram atrasados, que a greve era demag\u00f3gica. Quanta dist\u00e2ncia do heroico sindicato mineiro que defendia os trabalhadores negros superexplorados durante o <em>apartheid<\/em>. E desconhecem que a onda de greves no setor mineiro segue um padr\u00e3o em que os oper\u00e1rios se organizam, come\u00e7am uma luta e pedem aos sindicatos que os apoiem. Por isso, vimos como o l\u00edder do AMCU foi ao local conflito no dia do massacre e pediu que desocupassem a colina e se retirou ap\u00f3s a negativa. E a greve continuou ap\u00f3s o massacre, organizada nas comunidades do entorno da mina e se estendeu a outras minas. Ap\u00f3s o massacre foi como se todo um enredo ainda um pouco obscuro se fizesse evidente no pa\u00eds: a pol\u00edcia \u00e9 a mesma, as mineradoras s\u00e3o as mesmas, o sistema econ\u00f3mico essencialmente o mesmo, com a pequena adi\u00e7\u00e3o de uma elite negra.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">O governo tenta dissimular sua responsabilidade indicando uma comiss\u00e3o por ele controlado para investigar os eventos, ao mesmo tempo em que o aparato judicial-policial parece uma c\u00f3pia dos tempos apartheid: 259 mineiros grevistas foram presos pela pol\u00edcia, espancados e torturados, e agora foram acusados de assassinato dos seus colegas mortos! Em vez de prender e acusar os policiais implicados na opera\u00e7\u00e3o e incriminar o Ministro respons\u00e1vel e o presidente Zuma como mandantes do crime, utilizam preceitos da \u00e9poca do <em>apartheid<\/em> para criminalizar aqueles que lutam pelos seus direitos!(<a href=\"http:\/\/mg.co.za\/article\/2012-08-30-18-lonmin-miners-charged-with-murder\">http:\/\/mg.co.za\/article\/2012-08-30-18-lonmin-miners-charged-with-murder<\/a>) At\u00e9 agora o NUM n\u00e3o se manifestou sobre isso, nem o PC (este \u00faltimo somente pediu a pris\u00e3o dos dirigentes do AMCU pelas mortes antes do massacre policial). A COSATU fez uma t\u00edmida declara\u00e7\u00e3o, em que reclama de supostos maus-tratos aos oper\u00e1rios presos, mas em nenhum momento pede a sua liberta\u00e7\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.cosatu.org.za\/show.php?ID=6446\">http:\/\/www.cosatu.org.za\/show.php?ID=6446<\/a>), e chama a confiar nas investiga\u00e7\u00f5es na comiss\u00e3o criada por Zuma. V\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es sindicais e democr\u00e1ticas criaram um organismo em Joanesburgo para coordenar a solidariedade com os mineiros: \u00e9 a Marikana Solidairty Campaign.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Nesse contexto, o NUM est\u00e1 frente a uma encruzilhada: ir\u00e1 se consolidar como um sindicato amigo das mineradoras e cada vez mais representante dos trabalhadores de colarinho branco e dos que n\u00e3o est\u00e3o no subsolo e ser superado por outros sindicatos ou retomar\u00e1 suas gloriosas tradi\u00e7\u00f5es? Da mesma forma a COSATU, que ter\u00e1 seu congresso em setembro, ter\u00e1 que examinar a sua alian\u00e7a com o governo do CNA e seu crescente peso nos setores mais bem pagos dos trabalhadores do pa\u00eds e o crescente distanciamento dos setores mais combativos e explorados dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">O governo entrou em transe, desconcertado, tenta evitar a \u00f3bvia associa\u00e7\u00e3o entre o massacre e a longa hist\u00f3ria do <em>apartheid<\/em> e de ser associado ao que j\u00e1 est\u00e1 se denominando o Sharpeville do CNA (refer\u00eancia ao massacre de 69 negros que se manifestavam pacificamente em 1960 contra a Lei do Passe, que impedia a livre circula\u00e7\u00e3o dos negros durante o <em>apartheid<\/em>, confinando-os nos bantust\u00f5es e favelas imensas, como Soweto). Os representantes do NUM n\u00e3o podem pisar nas comunidades mineiras vizinhas, os 2 milh\u00f5es de rands oferecidos por Cyril Ramaphosa para o enterro das v\u00edtimas foram rejeitados (graficamente os mineiros sabem inclusive que essa triste figura comprou recentemente um b\u00fafalo por 18 milh\u00f5es de rands).<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\"><strong>A rebeli\u00e3o dos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">O massacre de Marikana tamb\u00e9m se insere em um contexto de lutas importantes nas comunidades mais pobres que aumentaram significativamente a partir da assun\u00e7\u00e3o de Jacob Zuma como presidente. Essas mobiliza\u00e7\u00f5es se contam aos milhares, segundo as estat\u00edsticas da pr\u00f3pria pol\u00edcia sul-africana, e s\u00e3o \u00e0s vezes chamadas de protestos pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os pelas comunidades pobres ou mais genericamente de rebeli\u00e3o dos pobres. V\u00e1rios ativistas morreram nas m\u00e3os da pol\u00edcia, como Andries Tatane, professor, ativista, que participava de uma mobiliza\u00e7\u00e3o de 4 mil pessoas da cidade de Ficksburg no ano passado.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\" align=\"JUSTIFY\">Come\u00e7a a se cristalizar uma busca por explica\u00e7\u00f5es e alternativas a uma lideran\u00e7a nacionalista que, como tantas outras no continente africano, ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o nacional e\/ou racial, come\u00e7ou a desenvolver uma pol\u00edtica de manter as estruturas do capital e de criar uma burguesia negra a partir das estruturas do estado. \u00c9 um processo doloroso, mas que ir\u00e1 se desenvolver no pr\u00f3ximo per\u00edodo no pa\u00eds e do qual depende o futuro de milh\u00f5es de trabalhadores sul-africanos.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>Waldo Mermelstein <\/strong>(PSTU\/Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As imagens sobre o massacre de 34 mineiros por policiais fortemente armados suscitaram uma forte rea\u00e7\u00e3o em todos aqueles que conservam na mem\u00f3ria uma das lutas mais justas do s\u00e9culo XX, que foi a batalha de d\u00e9cadas dos trabalhadores e da maioria negra da \u00c1frica do Sul contra o apartheid. Todos aqueles que t\u00eam alguma viv\u00eancia no movimento dos trabalhadores, mesmo sem ter pleno conhecimento das reivindica\u00e7\u00f5es e do desenrolar concreto da luta, naturalmente fica imediatamente do lado dos mineiros, brutalizados por uma pol\u00edcia que veio ajudar a companhia mineradora a quebrar a sua greve. Mas o estranho em tudo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":872,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-873","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/marikana.jpg?fit=600%2C395","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=873"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/873\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/872"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}