{"id":748,"date":"2012-05-18T11:45:28","date_gmt":"2012-05-18T10:45:28","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2012\/05\/18\/notas-sobre-a-situacao-na-grecia\/"},"modified":"2012-05-18T11:45:28","modified_gmt":"2012-05-18T10:45:28","slug":"notas-sobre-a-situacao-na-grecia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2012\/05\/18\/notas-sobre-a-situacao-na-grecia\/","title":{"rendered":"Notas sobre a situa\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia"},"content":{"rendered":"<p><!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">1. Depois do fracasso das negocia\u00e7\u00f5es para formar governo, das press\u00f5es para integrar a Syriza num mal-chamado gabinete de \u201csalva\u00e7\u00e3o nacional\u201d com os partidos do rotativismo ao centro e das manobras de instaurar um poder de tecnocratas, a Gr\u00e9cia vai novamente a elei\u00e7\u00f5es no pr\u00f3ximo m\u00eas de junho.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">2.  Tendo boa parte dos trabalhadores e do povo grego compreendido que o extremismo e a viol\u00eancia est\u00e3o do lado da troika, do \u201cmemorando\u201d, dos partidos do rotativismo ao centro (PASOK e Nova Democracia) e do aparelho repressivo das for\u00e7as policiais, a chave da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds est\u00e1 agora nas m\u00e3os da esquerda anticapitalista agrupada na Syriza. As sondagens para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es colocam a Syriza como primeira for\u00e7a, dando-lhe entre 20 a 27% \u00e0 escala nacional (picos acima dos 30% na \u00e1rea metropolitana de Atenas).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">3.  Aparentemente, o partido liderado por Alexis Tsipras capitaliza o descontentamento por defender intransigentemente um governo unit\u00e1rio das esquerdas (basicamente Syriza, KKE e DIMAR), por colocar um programa imediato relativamente adequado \u00e0s circunst\u00e2ncias (rutura com a troika e o memorando da austeridade; morat\u00f3ria no pagamento da d\u00edvida e auditoria; nacionaliza\u00e7\u00e3o da  banca; anula\u00e7\u00e3o da lei que impede o processo judicial contra os ministros) e por se negar a formar qualquer governo cuja fun\u00e7\u00e3o passe pela execu\u00e7\u00e3o do programa de austeridade acordado  com a troika. Al\u00e9m disso, a gest\u00e3o cautelosa da quest\u00e3o do euro, que, na perspetiva da Syriza, deve permanecer como moeda do pa\u00eds, tamb\u00e9m parece favorecer a imagem do partido (nas sondagens, mais de 2\/3 da popula\u00e7\u00e3o pretende continuar no euro).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">4. Diante da quadratura do c\u00edrculo que \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o da troika\/memorando\/austeridade e o desejo de continuar no euro ou que se vislumbra igualmente na proposta gen\u00e9rica do europe\u00edsmo de esquerda a levar a cabo dentro de uma UE essencialmente neoliberal (mesmo com eurobonds, maior controlo pol\u00edtico do BCE e t\u00edmidas medidas de crescimento, tal ess\u00eancia continuaria a existir e, a abrandar temporariamente, ressurgiria fortalecida pouco depois), o espa\u00e7o da Syriza \u00e9 algo reduzido.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">Para j\u00e1, o ritmo \u00e9 dado pela defesa da alternativa real de poder das esquerdas, pela rutura com o triplo garrote troika\/austeridade\/d\u00edvida e pela necessidade imediata de nacionalizar a banca sem indemniza\u00e7\u00e3o e na totalidade do capital para colocar o dinheiro pago aos usur\u00e1rios e os 165 000 milh\u00f5es de euros depositados no pa\u00eds a servi\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 do crescimento da economia e do emprego, mas tamb\u00e9m da revers\u00e3o dos cortes feitos nos sal\u00e1rios, nas pens\u00f5es e no Estado Social. Esse \u00e9 o melhor caminho para salvaguardar os dep\u00f3sitos dos pequenos e m\u00e9dios aforristas, para fazer crescer a economia e para garantir o pagamento dos sal\u00e1rios a quem  trabalha, conforme sugest\u00e3o deixada por Dimitris Stratouli, deputado da Syriza.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">Caso contr\u00e1rio, e independentemente das oscila\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Stratouli ao ser atacado pelos \u201cmass media\u201d, o caminho \u00e9 o da Argentina de 2001: os potentados financeiros expatriam os capitais e os pequenos\/m\u00e9dios depositantes ficam espoliados, o dinheiro para pagar \u00e0 Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica escasseia e o desemprego dispara ainda mais.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">5.  Em princ\u00edpio, o KKE e o DIMAR tamb\u00e9m deveriam ter capitalizado o afundamento do rotativismo ao centro e a radicaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, mas  isso n\u00e3o aconteceu ou apenas se deu em escala reduzida.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">O KKE n\u00e3o se fortaleceu praticamente nada devido ao impressionante sectarismo da sua dire\u00e7\u00e3o: recusa de qualquer passo no sentido de uma frente eleitoral, de um governo de unidade ou de um apoio parlamentar a um poder das for\u00e7as da esquerda antimemorando e anti-troika; obstina\u00e7\u00e3o em n\u00e3o reconhecer as tend\u00eancias progressistas inscritas no movimentos dos \u201cIndignados\u201d, das \u201cBatatas\u201d (venda direta do produtor ao consumidor com elimina\u00e7\u00e3o da cadeia de intermedi\u00e1rios e baixa substancial do pre\u00e7o de produtos agr\u00edcolas de primeira necessidade) ou do \u201cN\u00e3o pagamos\u201d (boicote ao pagamento de portagens ou transportes) em nome de uma leitura que os afirma erradamente na contram\u00e3o do poder oper\u00e1rio-popular, que remete tudo o que o KKE n\u00e3o dirige para o campo de correntes pequeno-burgueses e que propagandeia em abstrato a revolu\u00e7\u00e3o sem apresentar nenhuma alternativa de poder concreta. Por isso, no contexto da maior crise econ\u00f3mica que o pa\u00eds tem atravessado desde o fim da II Guerra Mundial, o KKE s\u00f3 teve mais 13. 946 votos e 1% do que em 2009, descendo mesmo em votos e percentagem nas duas maiores concentra\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias (\u00e1reas metropolitanas de Atenas e Sal\u00f3nica). Agora continua inclusive a descer nas sondagens para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es (4, 4% na \u00faltima sondagem).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">Por sua vez, o DIMAR, que mistura elementos provindos de uma rutura de direita da Syriza com quadros provenientes do PASOK, perdeu a lideran\u00e7a da esquerda oposicionista que alcan\u00e7ou durante algumas semanas e passou de inten\u00e7\u00f5es de voto de 18% a um resultado de apenas 6% por causa de uma  linha oportunista. Ao n\u00e3o se fechar a poss\u00edveis acordos com o PASOK, ao n\u00e3o ser consequente na den\u00fancia da totalidade do memorando e ao estar colado a uma imagem demasiado europe\u00edsta, delapidou parte do prest\u00edgio alcan\u00e7ado. Ali\u00e1s, a sua abertura p\u00f3s-eleitoral a um governo de unidade nacional aberto ao PASOK e \u00e0 Nova Democracia confirmou essas suas tend\u00eancias centristas regressivas. O tempo parece estar mais para clarifica\u00e7\u00f5es do que para hibridismos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">6. Deixamos sem desenvolvimento de maior o papel da esquerda revolucion\u00e1ria reunida na Antarsya, cuja aparente senha de identidade \u201cPor uma sa\u00edda anticapitalista do euro\u201d talvez esteja ainda um pouco deslocada para ser o principal eixo agitativo e cujos resultados foram largamente penalizados pelo voto \u00fatil na Syriza, mas com ativo j\u00e1 importante de presen\u00e7a na cena pol\u00edtica e na expectativa de ver a poss\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o entre a gest\u00e3o governamental de um governo unit\u00e1rio das esquerdas e as necessidades objetivas do movimento laboral\/popular.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">7. Tamb\u00e9m n\u00e3o desenvolvemos o aspeto mais preocupante do cen\u00e1rio pol\u00edtico grego: o crescimento dos neonazis da Aurora Dourada. N\u00e3o se sabe ao certo a capacidade militante e o n\u00famero de quadros minimamente experientes do grupo, mas sabe-se que, pelo menos por ora, a burguesia grega ainda n\u00e3o decidiu apostar seriamente neste trunfo contra-revolucion\u00e1rio atrav\u00e9s de amplo financiamento, proje\u00e7\u00e3o das suas figuras nos \u201cmass media\u201d e armamento generalizado. Nem sequer se sabe se a maior parte do voto no grupo n\u00e3o foi simplesmente uma atitude passageira de protesto antisistema. Nas sondagens est\u00e3o a descer, mas para os enfrentar ser\u00e1 de incentivar amplas frentes unit\u00e1rias e participa\u00e7\u00e3o das comunidades estrangeiras num combate essencialmente pol\u00edtico (pontualmente, pode ser mesmo f\u00edsico).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">8. Ao inv\u00e9s do que alguns pol\u00edticos da esquerda portuguesa antitroika afirmam, as li\u00e7\u00f5es gregas n\u00e3o apontam para o caminho que as duas principais correntes da nossa esquerda t\u00eam vindo a seguir at\u00e9 agora.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">Assim, a Syriza abandonou a posi\u00e7\u00e3o recuada de renegociar e reestruturar a d\u00edvida (ali\u00e1s, tal renegocia\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o foi levada a efeito pelo governo grego e pela troika com o mal-chamado perd\u00e3o de uma parte da d\u00edvida em fevereiro) e passou a ousar um programa mais avan\u00e7ado de morat\u00f3ria para canalizar o dinheiro a despender com a usura financeira no crescimento da economia e na cria\u00e7\u00e3o de emprego.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">Assim, a Syriza n\u00e3o defende uma esquerda grande em abstrato ou em alian\u00e7a com quadros de dire\u00e7\u00e3o do social-liberalismo do PASOK, como fez e faz o Bloco de Esquerda, mas faz, isso sim, desde h\u00e1 mais de um m\u00eas, campanha sistem\u00e1tica por um governo das esquerdas (Syriza\/KKE\/DIMAR) com exclus\u00e3o dos  dirigentes socialistas mais ou menos amarrados \u00e0 troika.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">Assim, o PCP e o BE ainda n\u00e3o se abriram seriamente \u00e0 perspetiva de uma frente eleitoral ou de um governo das esquerdas que inclua tamb\u00e9m dissidentes de esquerda do PS, ativistas dos novos movimentos sociais e independentes, parecendo n\u00e3o se afastar muito do caminho sect\u00e1rio do KKE grego.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\">9. Para concluir, diga-se que o foco grego est\u00e1 atualmente num plano mais pol\u00edtico-eleitoral, de crise governativa e de instabilidade, mas talvez seja conveniente n\u00e3o esquecer que no quotidiano continua a haver alguns organismos de duplo poder em f\u00e1bricas e empresas, que o problema concreto do fim dos contratos coletivos de trabalho est\u00e1 em cima da mesa (os trabalhadores de v\u00e1rios ramos da atividade econ\u00f3mica est\u00e3o agora \u00e0 merc\u00ea da arbitrariedade patronal e de novas baixas salariais de 15 a 40%) e que os cortes de 11.000 milh\u00f5es de euros previstos no acordo com a troika est\u00e3o previstos para breve. Algo que poder\u00e1 colocar novamente as lutas sociais no primeiro plano e radicalizar ainda mais todo o panorama politic\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\" lang=\"pt-PT\"><strong>Jo\u00e3o Lopes<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Depois do fracasso das negocia\u00e7\u00f5es para formar governo, das press\u00f5es para integrar a Syriza num mal-chamado gabinete de \u201csalva\u00e7\u00e3o nacional\u201d com os partidos do rotativismo ao centro e das manobras de instaurar um poder de tecnocratas, a Gr\u00e9cia vai novamente a elei\u00e7\u00f5es no pr\u00f3ximo m\u00eas de junho. 2. Tendo boa parte dos trabalhadores e do povo grego compreendido que o extremismo e a viol\u00eancia est\u00e3o do lado da troika, do \u201cmemorando\u201d, dos partidos do rotativismo ao centro (PASOK e Nova Democracia) e do aparelho repressivo das for\u00e7as policiais, a chave da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds est\u00e1 agora nas m\u00e3os<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":747,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-748","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/popicinio1.jpg?fit=500%2C333","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=748"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/748\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/747"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}