{"id":603,"date":"2012-01-15T12:36:22","date_gmt":"2012-01-15T11:36:22","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2012\/01\/15\/cresce-a-tensao-entre-o-irao-e-o-imperialismo\/"},"modified":"2012-01-15T12:36:22","modified_gmt":"2012-01-15T11:36:22","slug":"cresce-a-tensao-entre-o-irao-e-o-imperialismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2012\/01\/15\/cresce-a-tensao-entre-o-irao-e-o-imperialismo\/","title":{"rendered":"Cresce a tens\u00e3o entre o Ir\u00e3o e o imperialismo"},"content":{"rendered":"<p>De cabe\u00e7a para baixo. Foi assim que o retrato da rainha Elisabete, nas m\u00e3os de um militante iraniano pendurado no muro da embaixada brit\u00e2nica em Teer\u00e3o, percorreu o mundo e virou um s\u00edmbolo do caminho para o qual as tend\u00eancias mundiais v\u00eam apontando. Sobretudo um s\u00edmbolo das rela\u00e7\u00f5es cada vez mais tensas entre o imperialismo ingl\u00eas e americano e o regime de Ahmadinejad, no Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>No final de novembro, numa justa rea\u00e7\u00e3o contra as san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas impostas pelo imperialismo ingl\u00eas ao Ir\u00e3o, um grupo de iranianos invadiu a embaixada brit\u00e2nica em Teer\u00e3o, levando a Gr\u00e3-Bretanha a retirar o seu pessoal diplom\u00e1tico do pa\u00eds e a expulsar os representantes do Ir\u00e3o que estavam em solo ingl\u00eas. A recusa do governo iraniano em abandonar o programa nuclear vem fazendo com que as press\u00f5es imperialistas fiquem cada vez mais intensas.<\/p>\n<p>Por enquanto elas se restringem a san\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e econ\u00f3micas, mas j\u00e1 amea\u00e7am partir para o campo militar. Ocorre que o governo israelita, um dos maiores aliados do imperialismo na regi\u00e3o e tamb\u00e9m um dos maiores interessados em impedir que o Ir\u00e3o fabrique qualquer tipo de bomba nuclear, j\u00e1 come\u00e7ou a levantar a hip\u00f3tese de atacar militarmente o pa\u00eds caso n\u00e3o abra m\u00e3o do seu direito de desenvolver um programa nuclear. Se Israel, o \u00fanico pa\u00eds que tem bombas nucleares na regi\u00e3o, resolver atacar o Ir\u00e3o, isso poderia significar uma guerra de consequ\u00eancias imprevis\u00edveis no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>As press\u00f5es imperialistas<\/strong><\/p>\n<p>Mas at\u00e9 agora o governo iraniano n\u00e3o esteve disposto a curvar-se diante das press\u00f5es israelitas, apesar de toda mostra de confian\u00e7a e servilismo que vem dando ao imperialismo em outros terrenos. Os EUA n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos e exigem que o Ir\u00e3o abandone seu programa nuclear, como forma de tirar de suas m\u00e3os toda poss\u00edvel condi\u00e7\u00e3o, por mais remota que seja, de amea\u00e7ar Israel ou mesmo defender-se frente a uma poss\u00edvel agress\u00e3o israelita. Israel quer continuar a dispor do poder de press\u00e3o sobre os pa\u00edses \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos que lhe d\u00e1 o monop\u00f3lio regional do armamento nuclear.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica do Ir\u00e3o \u00e9 manter-se firme em seu programa nuclear, justamente para se fortalecer com o chamado poder de dissuas\u00e3o para evitar uma poss\u00edvel agress\u00e3o por parte de Israel, ou seja, \u00e9 uma pol\u00edtica defensiva. O Ir\u00e3o n\u00e3o teria hoje, mesmo que j\u00e1 tivesse constru\u00eddo a bomba nuclear, a menor condi\u00e7\u00e3o de atacar Israel, mas isso n\u00e3o \u00e9 garantia de tranquilidade para o imperialismo, cuja pol\u00edtica \u00e9 manter apenas Israel com poderio nuclear capaz de assegurar o controlo da regi\u00e3o ajudado por uma chantagem nuclear sobre os povos do M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o chegou a um limite de tens\u00e3o nas \u00faltimas semanas, quando um avi\u00e3o americano n\u00e3o tripulado caiu em territ\u00f3rio iraniano e o governo do Ir\u00e3o acusou os EUA de espionagem. Os EUA negaram, mas o fato \u00e9 que o aparato, normalmente usado justamente para espionar, foi encontrado dentro do Ir\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A discuss\u00e3o no Saban Forum<\/strong><\/p>\n<p>O Ir\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds-chave para a pol\u00edtica imperialista na regi\u00e3o, e, por isso, desde a revolu\u00e7\u00e3o de 79, o imperialismo vem tentando liquidar qualquer veleidade de independ\u00eancia por parte do regime iraniano, para mant\u00ea-lo totalmente sob seu controle. No entanto, a pol\u00edtica de \u201cguerra ao terror\u201d levada por George W. Bush no M\u00e9dio Oriente, somada ao p\u00e2ntano em que os EUA se envolveram no Iraque e Afeganist\u00e3o, tornaram essa estrat\u00e9gia do imperialismo muito mais dif\u00edcil. Impedido de fazer uma press\u00e3o mais dura ou mesmo uma nova interven\u00e7\u00e3o militar, o governo Obama teve de partir para a negocia\u00e7\u00e3o com os governos locais.<\/p>\n<p>Encontrou no governo iraniano um bom interlocutor, mas, como sempre, os EUA querem um vassalo submisso, n\u00e3o um parceiro que tenha for\u00e7a de negocia\u00e7\u00e3o. Que o seu gendarme sionista tenha superioridade incontest\u00e1vel no campo militar e nas &#8220;armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva&#8221;. Por isso, a recusa iraniana em abandonar o seu programa nuclear representa uma amea\u00e7a concreta a esses planos imperialistas na regi\u00e3o. At\u00e9 agora o imperialismo n\u00e3o conseguiu sequer provar que o Ir\u00e3o esteja violando alguma das normas internacionais nesse tema, inclusive o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o vigente. Tampouco conseguiu provar que o Ir\u00e3o tem capacidade real de produzir uma bomba nuclear. No entanto, os EUA n\u00e3o podem se arriscar a que isso ocorra e, ao mesmo tempo, usam a press\u00e3o diplom\u00e1tica contra o Ir\u00e3o como forma de acalmar os israelitas e manter o Ir\u00e3o sobre controle e vigil\u00e2ncia permanente.<\/p>\n<p>No entanto, a pol\u00edtica americana de fazer press\u00e3o diplom\u00e1tica sobre o Ir\u00e3o n\u00e3o vem agradando Israel, que exige uma posi\u00e7\u00e3o mais dura por parte do imperialismo. Para apertar o cerco ainda mais, \u00e9 preciso provar antes que o programa nuclear iraniano n\u00e3o \u00e9 para fins pac\u00edficos, e, sim, b\u00e9licos; \u00e9 o que o imperialismo, sobretudo Israel, est\u00e3o tentando fazer. E desafiam o governo iraniano a provar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do m\u00eas, o Secret\u00e1rio de Defesa americano, Leon Panetta, durante a reuni\u00e3o do Saban Forum, organismo formado por oficiais americanos e israelitas que discutem os interesses comuns dos dois pa\u00edses, falou sobre isso. O tema deste ano do f\u00f3rum foi \u201cDesafios Estrat\u00e9gicos no Novo M\u00e9dio Orientes\u201d. Robert Grenier, que trabalhou muitos anos na CIA, escreveu em um artigo publicado no site da Al Jazeera, que o secret\u00e1rio de defesa americano disse nesse f\u00f3rum que a determina\u00e7\u00e3o do governo Obama de impedir que o Ir\u00e3o adquira armas nucleares \u00e9 um dos pilares da pol\u00edtica americana na regi\u00e3o. Ressaltou a import\u00e2ncia e efic\u00e1cia das san\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e econ\u00f3micas contra o Ir\u00e3o, mas cuidadosamente alertou que o recurso da for\u00e7a militar pode ser usado, ainda que n\u00e3o como primeira op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso poderia ter s\u00e9rias consequ\u00eancias: uma crise regional cujo resultado final seria o cerco total ao Ir\u00e3o geraria um apoio popular generalizado para seu regime clerical, tanto dentro como fora do pa\u00eds; ataques contra as empresas e tropas militares americanas na regi\u00e3o; e \u201cseveras consequ\u00eancias econ\u00f3micas\u201d \u2013 disse ele, como aumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo \u2013 que poderia piorar ainda mais as j\u00e1 debilitadas economias dos EUA e Europa. Finalmente, ele disse, o in\u00edcio das hostilidades poderia produzir \u201cuma escalada de viol\u00eancia que poderia envolver muitas vidas, e tamb\u00e9m consumir o Oriente M\u00e9dio em um confronto que n\u00e3o nos interessa\u201d. (fonte: site da Al Jazeera, 11\/12).<\/p>\n<p>William A Galston, que participa h\u00e1 anos desse f\u00f3rum, disse que a amea\u00e7a do uso da for\u00e7a aparentemente n\u00e3o est\u00e1 destinada a causar efeito sobre os iranianos, mas sim sobre os israelitas. De acordo com Galston, entre muitos israelitas de diferentes correntes pol\u00edticas com os quais falou na confer\u00eancia, nenhum acredita que a administra\u00e7\u00e3o Obama utilizaria a op\u00e7\u00e3o militar para evitar que o Ir\u00e3o adquira armas nucleares. Essa posi\u00e7\u00e3o seria completamente inaceit\u00e1vel para os israelitas.<\/p>\n<p>No entanto, para eles, uma ascens\u00e3o nuclear do Ir\u00e3o n\u00e3o poder\u00e1 ser tolerada. Esse fato \u00e9 reconhecido pelo governo Obama e, sobretudo, pelo Departamento de Defesa americano, com o qual potenciais hostilidades com o Ir\u00e3o, se iniciadas, seriam de sua responsabilidade resolver. J\u00e1 o general Martin Dempsey, das For\u00e7as Armadas americanas, deixou claro que, por enquanto, os EUA v\u00eam as san\u00e7\u00f5es economizas e as press\u00f5es diplom\u00e1ticas como um caminho prudente para convencer o Ir\u00e3o. \u201cEu acho que os israelitas n\u00e3o concordam com nosso ponto de vista, porque para eles se trata de uma amea\u00e7a existencial; por isso, acho que \u00e9 o caso de dizer queas nossas expectativas s\u00e3o diferentes neste momento\u201d.<\/p>\n<p><strong>De onde vem a verdadeira amea\u00e7a nuclear?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a pergunta chave que deve ser feita: quem amea\u00e7a quem no M\u00e9dio Oriente hoje? Os Estados Unidos t\u00eam um arsenal nuclear em condi\u00e7\u00f5es de destruir o mundo inteiro. Na regi\u00e3o do M\u00e9dio Oriente, s\u00f3 existe um pa\u00eds armado at\u00e9 os dentes com armas at\u00f3micas, e \u00e9 Israel, com mais 300 bombas nucleares! Os dois \u00fanicos pa\u00edses que n\u00e3o assinaram o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares foram Israel e Paquist\u00e3o. O Ir\u00e3o \u00e9 um dos signat\u00e1rios desse Tratado e at\u00e9 agora ningu\u00e9m provou que esteja violando qualquer uma de suas cl\u00e1usulas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode ignorar o fato de que o programa nuclear israelita recebe incentivos milion\u00e1rios e continuados por parte dos americanos, o que joga por terra qualquer discurso \u201cpacifista\u201d de Obama e dos militares americanos. Diante de tudo isso, a press\u00e3o sobre o Ir\u00e3o aparece como uma enorme hipocrisia. Todos esses dados bem concretos revelam que a capacidade dos iranianos de ter armas nucleares \u00e9 m\u00ednima diante da verdadeira amea\u00e7a nuclear que Israel significa: um pa\u00eds que n\u00e3o hesita em bombardear Gaza, assassinar crian\u00e7as e tratar os palestinianos como p\u00e1rias. Esse sim \u00e9 um perigo real para toda a humanidade, um pa\u00eds assentado sobre 300 bombas nucleares e constru\u00eddo em base ao \u00f3dio contra os palestinianos e todos os povos \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Quanto aos Estados Unidos, o mundo j\u00e1 sabe do que s\u00e3o capazes. J\u00e1 deram mostras concretas de que usam as bombas nucleares que possuem quando se sentem amea\u00e7ados ou precisam referendar a sua domina\u00e7\u00e3o. Foi assim em Hiroshima e Nagasaki, no final da Segunda Guerra, quando lan\u00e7aram as bombas sobre essas duas cidades do Jap\u00e3o, mesmo sabendo que o Jap\u00e3o j\u00e1 estava derrotado. Esses ataques nucleares que os americanos inscreveram em sua trajet\u00f3ria s\u00e3o como tatuagens na hist\u00f3ria da luta de classes: imposs\u00edveis de apagar.<\/p>\n<p><strong>A invas\u00e3o das embaixadas<\/strong><\/p>\n<p>As press\u00f5es dos Estados Unidos e de Israel contra o Ir\u00e3o v\u00eam fazendo com que o sentimento anti-imperialista cres\u00e7a entre as massas iranianas. Lembrando a ocupa\u00e7\u00e3o da embaixada americana em 79 e a crise dos ref\u00e9ns, explode agora uma nova luta anti-imperialista, desta vez contra a Inglaterra. No final de novembro, a embaixada da Gr\u00e3-Bretanha em Teer\u00e3o foi invadida por manifestantes que protestavam contra as san\u00e7\u00f5es de Londres contra o Ir\u00e3o por seu programa nuclear. Janelas foram quebradas a pedradas, e as bandeiras brit\u00e2nicas e israelitas foram queimadas.<\/p>\n<p>O governo brit\u00e2nico respondeu ao que chamou de \u201catos de vandalismo\u201d com o fechamento de sua representa\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica no Ir\u00e3o e com a expuls\u00e3o do pessoal diplom\u00e1tico iraniano de Londres. No dia seguinte \u00e0 invas\u00e3o, Inglaterra, Estados Unidos e Canad\u00e1 decidiram impor mais san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas ao Ir\u00e3o. No entanto, a Inglaterra avisou que vai continuar cumprindo o acordo que tem com o Ir\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, n\u00e3o porque seja um pa\u00eds que costuma cumprir os seus compromissos, mas por uma raz\u00e3o mais pragm\u00e1tica: o pa\u00eds precisa do petr\u00f3leo para tocar a sua economia. As san\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m tiveram como base um relat\u00f3rio da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f3mica (AIEA) que, obedecendo as ordens dos chefes, diz ter encontrado evid\u00eancias das suspeitas dos ocidentais de que o Ir\u00e3o tenta produzir armamento nuclear, apesar dos desmentidos por parte do governo de Ahmadinejad.<\/p>\n<p>No dia 4 de novembro de 1979, estudantes iranianos invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teer\u00e3o e fizeram 52 ref\u00e9ns, exigindo que o x\u00e1 Reza Pahlevi, que estava nos EUA, fosse extraditado para ser julgado no Ir\u00e3o. Pahlevi era um antigo aliado dos Estados Unidos, que, em 1953, haviam apoiado o golpe que derrubou o o chefe de governo nacionalista iraniano Mohammad Mossadegh.<\/p>\n<p>A crise dos ref\u00e9ns dominou os 14 meses restantes do governo Jimmy Carter (1977-1981) e marcou o rompimento diplom\u00e1tico entre Teer\u00e3o e Washington. Em 20 de janeiro de 1981, 20 minutos ap\u00f3s o discurso de posse de Ronald Reagan, os ref\u00e9ns foram libertados. Haviam ficado 444 dias detidos.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o da Embaixada foi o \u00e1pice da escalada de nacionalismo deflagrada nove meses antes, quando a Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica derrubou o x\u00e1 e colocou o aiatol\u00e1 Khomeini no poder. O fracasso de duas miss\u00f5es americanas de resgate dos ref\u00e9ns, em 1980, foi comemorado pelo povo iraniano fortalecido pela derrota imperialista na sua tentativa de resgate e aumentou o ressentimento contra os Estados Unidos. O ent\u00e3o governante da rep\u00fablica isl\u00e2mica, o aiatol\u00e1 Khomeini, chamava os EUA de \u201cgrande sat\u00e3\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cresce o sentimento anti-imperialista entre as massas<\/strong><\/p>\n<p>Em meio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em todo M\u00e9dio Oriente e Magrebe, as san\u00e7\u00f5es do imperialismo contra o Ir\u00e3o s\u00f3 fazem aumentar o sentimento anti-imperialista entre as massas iranianas, expresso agora na invas\u00e3o da embaixada inglesa. No entanto, a pol\u00edtica contradit\u00f3ria de Ahmadinejad representa um obst\u00e1culo para que esse sentimento se transforme em uma grande luta anti-imperialista e leve o Ir\u00e3o a somar-se ao ascenso revolucion\u00e1rio que comove diversos pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que desafia as ordens dos Estados Unidos e Israel para que abandone o programa nuclear, Ahmadinejad vem se mostrando cada vez mais servi\u00e7al ao imperialismo, aberto a todo tipo de negocia\u00e7\u00e3o e disposto a apoiar os governos mais pr\u00f3-imperialistas na regi\u00e3o. Nesse sentido, mostrou at\u00e9 que ponto foi c\u00famplice da ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque pelos EUA, ajudando a sustentar o governo t\u00edtere de al-Maliki todos esses anos. Aconselhou os setores xiitas mais radicais, como o liderado por Moqtada al-Sadr, a submeter-se ao ocupante. Assim que se come\u00e7ou a discuti a retirada das tropas americanas do territ\u00f3rio iraquiano, o Ir\u00e3o se ofereceu para, apesar de tudo o que o imperialismo fez no Iraque, dar sustenta\u00e7\u00e3o ao governo apadrinhado por Obama. Trata apenas de obter uma parte, ainda que menor, do saque das imensas riquezas do pa\u00eds pelo imperialismo. Com isso, o regime de Ahamadinejad passou por cima da montanha de destro\u00e7os em que o Iraque se transformou nos tempos da invas\u00e3o e, sobretudo, revelou um profundo desprezo pela mem\u00f3ria das centenas de milhares de iraquianos mortos no verdadeiro banho de sangue que significou a invas\u00e3o do Iraque pelos EUA.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica do governo iraniano de buscar uma conviv\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo e, ao mesmo tempo, reprimir o movimento de massas, acaba por enfraquecer a luta anti-imperialista, porque ajuda os pa\u00edses imperialistas a levarem at\u00e9 o fim seu projeto de controle e domina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses \u00e1rabes, sem encontrar pela frente a resist\u00eancia das massas.<\/p>\n<p>Por isso, apesar de defendermos o direito de o Ir\u00e3o desenvolver o seu programa nuclear para se defender contra um poss\u00edvel ataque militar por parte dos EUA e Israel, chamamos as massas a n\u00e3o confiarem em Ahamadinejad como dire\u00e7\u00e3o dessa luta contra o imperialismo. A situa\u00e7\u00e3o no Ir\u00e3o deve ser entendida como parte de um processo que vem desde 1979, quando a classe trabalhadora iraniana protagonizou uma das mais impressionantes revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX. Ela p\u00f4s abaixo o governo de Reza Pahlevi, mas, carente de um partido revolucion\u00e1rio que levasse as massas a tomar o poder e implantar um governo dos trabalhadores, assistiu \u00e0 subida da burguesia encabe\u00e7ada por um clero isl\u00e2mico reacion\u00e1rio. Essa burguesia, a cavalo da revolu\u00e7\u00e3o e com um discurso populista e supostamente anti-imperialista, nacionalizou o petr\u00f3leo e o com\u00e9rcio exterior, mas, ao mesmo tempo, desatou uma violenta repress\u00e3o contra as massas para se consagrar no governo e reconstruir o poder burgu\u00eas, estabilizar o capitalismo e colocar uma p\u00e1 de cal na situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Com essa grande revolu\u00e7\u00e3o em sua mem\u00f3ria hist\u00f3rica, que lhe conferiu uma qualidade superior, o movimento oper\u00e1rio iraniano est\u00e1 acostumado a lutar sob forte repress\u00e3o. Ao longo de sua hist\u00f3ria recente, isso lhe deu grande experi\u00eancia em mat\u00e9ria de organiza\u00e7\u00e3o, o que foi decisivo na revolu\u00e7\u00e3o que derrubou o X\u00e1. Os comit\u00e9s oper\u00e1rios (shoras) foram a base fundamental da revolu\u00e7\u00e3o, bem como os seus sindicatos, que eram t\u00e3o fortes e combativos que, durante os primeiros anos no poder, os aiatol\u00e1s os substitu\u00edram pelas chamadas Casas de Trabalho, entidades totalmente controladas pelo regime.<\/p>\n<p>Desde o final dos anos 90, os trabalhadores v\u00eam retomando as suas lutas e construindo instrumentos independentes de organiza\u00e7\u00e3o. Entre eles, os motoristas de autocarro de Teer\u00e3o e os metal\u00fargicos da f\u00e1brica de autom\u00f3veis Khodro, que sempre foram setores muito combativos. Foi retomada tamb\u00e9m a sua tradi\u00e7\u00e3o de fazer grandes atos de Primeiro de Maio, com um car\u00e1ter de luta e protesto. Em 2009 ocorreram v\u00e1rias greves pelo pagamento de sal\u00e1rios em atraso nas ind\u00fastrias t\u00eaxteis e tamb\u00e9m entre os professores, uma classe na qual 80% s\u00e3o mulheres, com sal\u00e1rios de fome, que fizeram massivas manifesta\u00e7\u00f5es contra o regime, mesmo com toda a repress\u00e3o e o preconceito que existe contra as mulheres.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio iraniano \u00e9 rica em experi\u00eancias n\u00e3o apenas restritas \u00e0s lutas econ\u00f3micas e sindicais, mas inclui tamb\u00e9m as lutas pol\u00edticas, tanto democr\u00e1ticas, contra a ditadura, como anti-imperialistas. Mesmo com os seus sindicatos totalmente controlados, os trabalhadores lutaram contra as fraudes que deram a vit\u00f3ria a Ahmadinejad em 2009. Logo depois de conclu\u00eddo o processo eleitoral e comprovada a ocorr\u00eancia de fraudes, uma gigantesca onda de protestos tomou conta do pa\u00eds, com mais de tr\u00eas milh\u00f5es de manifestantes ocupando por v\u00e1rios dias as ruas de Teer\u00e3o e outras importantes cidades.<\/p>\n<p>Assim, o governo Ahmadinejad j\u00e1 subiu em meio a uma enorme oposi\u00e7\u00e3o e agora tenta utilizar os atritos com o imperialismo para tentar aumentar seu prest\u00edgio junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e se manter no poder. Mas os trabalhadores iranianos n\u00e3o devem confiar nem um minuto nessa dire\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 consequente sequer nas medidas contra os agressores imperialistas. \u00c9 preciso prosseguir a luta contra o governo e, ao mesmo tempo, exigir que o imperialismo e as suas empresas se retirem imediatamente do Ir\u00e3o. S\u00f3 a classe trabalhadora, com as suas organiza\u00e7\u00f5es, poder\u00e1 defender, de fato, a independ\u00eancia do pa\u00eds e decidir sobre o programa nuclear iraniano, sem qualquer inger\u00eancia dos pa\u00edses imperialistas, dos aiatol\u00e1s e da burguesia do Ir\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cec\u00edlia Toledo \u2013 PSTU<\/strong><br \/>22\/12\/2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De cabe\u00e7a para baixo. Foi assim que o retrato da rainha Elisabete, nas m\u00e3os de um militante iraniano pendurado no muro da embaixada brit\u00e2nica em Teer\u00e3o, percorreu o mundo e virou um s\u00edmbolo do caminho para o qual as tend\u00eancias mundiais v\u00eam apontando. Sobretudo um s\u00edmbolo das rela\u00e7\u00f5es cada vez mais tensas entre o imperialismo ingl\u00eas e americano e o regime de Ahmadinejad, no Ir\u00e3o. No final de novembro, numa justa rea\u00e7\u00e3o contra as san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas impostas pelo imperialismo ingl\u00eas ao Ir\u00e3o, um grupo de iranianos invadiu a embaixada brit\u00e2nica em Teer\u00e3o, levando a Gr\u00e3-Bretanha a retirar o seu pessoal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":602,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[35],"tags":[],"class_list":["post-603","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-medio-oriente"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/ahmadinejad.jpg?fit=980%2C651","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/602"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}