{"id":569,"date":"2011-11-14T17:52:49","date_gmt":"2011-11-14T16:52:49","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2011\/11\/14\/mario-monti-e-a-rocinha\/"},"modified":"2011-11-14T17:52:49","modified_gmt":"2011-11-14T16:52:49","slug":"mario-monti-e-a-rocinha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2011\/11\/14\/mario-monti-e-a-rocinha\/","title":{"rendered":"Mario Monti e a Rocinha"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">O que t\u00eam em comum o sucessor de Berlusconi e a maior favela do Brasil? Aparentemente nada, mas ambos protagonizam duas das maiores farsas estimuladas pela imprensa nos \u00faltimos dias. Mario Monti \u00e9 apresentado como um tecnocrata competente, \u00edntegro e acima das disputas partid\u00e1rias, o \u201csuper mario\u201d que enfrentou a Microsoft quando chefiou o comissariado europeu para a Concorr\u00eancia, o \u201cnegativo absoluto\u201d do seu antecessor e o homem capaz de restaurar a confian\u00e7a dos mercados numa It\u00e1lia a naufragar. Mas este \u00e9 apenas um ponto de vista, justamente aquele defendido pela troika (Comiss\u00e3o Europeia, Banco Central Europeu, Fundo Monet\u00e1rio Internacional), pela banca e a burguesia italiana.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">H\u00e1 outras leituras poss\u00edveis que interessam mais ao cidad\u00e3o comum, isto \u00e9, o trabalhador de quem est\u00e3o a retirar sal\u00e1rios, direitos e, em muitos casos, a pr\u00f3pria capacidade de sobreviver. Mario Monti n\u00e3o \u00e9 um tecnocrata neutro (como, ali\u00e1s, n\u00e3o o \u00e9 a tecnocracia), n\u00e3o \u00e9 um intelectual acad\u00e9mico distante do comezinho mundo do poder, mas um homem de m\u00e3o da burguesia. O seu curr\u00edculo fala por si: diretor europeu da Comiss\u00e3o Trilateral, uma esp\u00e9cie de estado-maior informal do imperialismo mundial criado por David Rockefeller em 1973; presidente honor\u00e1rio da <em>think-tank<\/em> Bruegel; assessor internacional do Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento do mundo, e membro do conselho consultivo da Coca-Cola.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">Mario Monti  \u00e9 agora, acima de tudo, o interventor da troika na It\u00e1lia para conseguir aplicar planos de austeridade semelhantes aos j\u00e1 em curso na Gr\u00e9cia, Espanha, Irlanda ou Portugal. Berlusconi, ap\u00f3s 17 anos no poder, estava suficientemente desgastado para ser-lhe imposs\u00edvel levar a cabo tal tarefa. Por isso, foi for\u00e7ado a renunciar para que outro, com mais credibilidade, pudesse continuar o trabalho sujo. Uma situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica \u00e0 ocorrida em Portugal, com a demiss\u00e3o de S\u00f3crates, na Espanha, com a sa\u00edda antecipada de Zapatero, e na It\u00e1lia, com a ren\u00fancia de Papandreu. Berlusconi e Monti n\u00e3o s\u00e3o opostos, como a imprensa quer fazer crer, mas duas faces da mesma moeda pol\u00edtica da burguesia, cujo atual objetivo \u00e9 for\u00e7ar os trabalhadores a pagar a crise do capitalismo.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>Choque de paz?<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">A outra parangona dos \u00faltimos dias relaciona-se com a incurs\u00e3o policial na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, numa opera\u00e7\u00e3o autodenominada \u201cChoque de Paz\u201d, cujos fant\u00e1sticos resultados teriam sido a pris\u00e3o do chefe do tr\u00e1fico local e a sua ocupa\u00e7\u00e3o por 3 mil soldados sem um disparo em apenas duas horas. Tal fa\u00e7anha est\u00e1 a ser \u201cvendida\u201d pela imprensa como um fato not\u00e1vel que ter\u00e1 como consequ\u00eancia a erradica\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de drogas daquela favela com 101 mil habitantes. \u201cO que temos de concreto \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o dessas pessoas do jugo do fuzil\u201d, assegurou o secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro. A frase \u00e9 sonante, mas est\u00e1 muito longe da verdade.<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"margin-bottom: 0cm;\">A verdade \u00e9 que os governos do Rio de Janeiro e do Brasil est\u00e3o a empenhar-se em \u201climpar\u201d com <em>show-off<\/em> a imagem da cidade e do pa\u00eds para o Mundial de Futebol de 2014 e os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016. Para isso, h\u00e1 alguns anos, iniciaram a \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d das favelas, com a expuls\u00e3o dos traficantes e a sua ocupa\u00e7\u00e3o por Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP). Na Rocinha, isso significa que 1.100 policiais militares ir\u00e3o ocup\u00e1-la permanentemente, isto \u00e9, no lugar de traficantes armados haver\u00e1 policiais militares igualmente armados. Quem conhece minimamente o historial da Pol\u00edcia Militar (PM) no Brasil sabe bem o que isso significar\u00e1 em termos de inseguran\u00e7a para os seus habitantes.<\/p>\n<p class=\"western\">A PM no Brasil \u00e9 uma pol\u00edcia militarizada com foros privilegiados que teve origem na ditadura militar e se constitui numa das for\u00e7as policiais mais violentas do mundo, com registo de corrup\u00e7\u00e3o, tortura e assassinatos. O massacre no pres\u00eddio do Carandiru, em S\u00e3o Paulo, em 1992, quando 111 presos foram mortos por policiais militares, \u00e9 apenas um dos exemplos mais conhecidos.<\/p>\n<p class=\"western\">\u00c0 popula\u00e7\u00e3o carioca, nomeadamente a que vive nas favelas e convive de perto com a ditadura do tr\u00e1fico, certamente agradar\u00e1 a expuls\u00e3o dos traficantes, mas n\u00e3o haver\u00e1 qualquer vantagem na sua substitui\u00e7\u00e3o por outro bando armado. As favelas s\u00e3o a s\u00edntese da violenta desigualdade social existente no Brasil, na qual o tr\u00e1fico de drogas encontra terreno f\u00e9rtil para se expandir. S\u00f3 uma pol\u00edtica radicalmente oposta \u00e0 implementada pelos sucessivos governos brasileiros, inclusive os do Partido dos Trabalhadores, poder\u00e1 de fato erradicar a pobreza e a criminalidade das favelas e do \u201casfalto\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\">Mas n\u00e3o \u00e9 esse o objetivo da opera\u00e7\u00e3o pacificadora na favela da Rocinha e nas outras favelas do Rio. Basta verificar o que pensam das favelas os respons\u00e1veis por tal opera\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quatro anos, o governador do Rio de Janeiro, S\u00e9rgio Cabral, associou a fecundidade das mulheres da Rocinha a uma \u201cf\u00e1brica de produzir marginal\u201d. A grande maioria dos habitantes das favelas do Rio s\u00e3o trabalhadores e n\u00e3o marginais, v\u00edtimas, e n\u00e3o c\u00famplices, dos traficantes. Assim como s\u00e3o v\u00edtimas de governantes como S\u00e9rgio Cabral, para quem militarizar as favelas \u00e9 a f\u00f3rmula ideal para mostrar servi\u00e7o aos burocratas da FIFA e do Comit\u00e9 Ol\u00edmpico e simular o fim da criminalidade no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que t\u00eam em comum o sucessor de Berlusconi e a maior favela do Brasil? Aparentemente nada, mas ambos protagonizam duas das maiores farsas estimuladas pela imprensa nos \u00faltimos dias. Mario Monti \u00e9 apresentado como um tecnocrata competente, \u00edntegro e acima das disputas partid\u00e1rias, o \u201csuper mario\u201d que enfrentou a Microsoft quando chefiou o comissariado europeu para a Concorr\u00eancia, o \u201cnegativo absoluto\u201d do seu antecessor e o homem capaz de restaurar a confian\u00e7a dos mercados numa It\u00e1lia a naufragar. 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