{"id":545,"date":"2011-10-14T12:03:46","date_gmt":"2011-10-14T11:03:46","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2011\/10\/14\/a-crise-das-dividas\/"},"modified":"2011-10-14T12:03:46","modified_gmt":"2011-10-14T11:03:46","slug":"a-crise-das-dividas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2011\/10\/14\/a-crise-das-dividas\/","title":{"rendered":"A crise das d\u00edvidas"},"content":{"rendered":"<p><!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tTD P { margin-bottom: 0cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Fech\u00e1mos este artigo em plena turbul\u00eancia financeira, que reflete um forte recrudescimento da crise econ\u00f3mica mundial. Em 8 de agosto, as bolsas mundiais despencaram, \u201cevaporando-se\u201d US$ 2,5 trili\u00f5es num dia, que afetaram especialmente as a\u00e7\u00f5es dos bancos. Em agosto, os principais bancos da zona euro perderam entre 20% e 30% do pre\u00e7o de suas a\u00e7\u00f5es. Os grandes bancos revivem as cenas de p\u00e2nico de quando o Lehman Brothers afundou. A d\u00edvida p\u00fablica norte-americana perdeu a avalia\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de cr\u00e9dito, em meio a uma aguda crise pol\u00edtica em Washington. Todos os dados indicam que a claudicante recupera\u00e7\u00e3o da economia mundial se estanca e surge nova amea\u00e7a de uma recess\u00e3o geral. Na Europa, a crise da d\u00edvida acelerou-se a ponto de o fantasma da fal\u00eancia j\u00e1 ter alcan\u00e7ado a Espanha, B\u00e9lgica e It\u00e1lia (30% da economia da zona do euro) e ter come\u00e7ado a contagiar a Fran\u00e7a, segunda economia europeia.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>A crise da d\u00edvida soberana<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Com efeito, a crise da d\u00edvida soberana europeia est\u00e1 descontrolada e amea\u00e7a seriamente a sobreviv\u00eancia da zona do euro e da pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia (UE). Esta crise \u00e9 parte central da crise capitalista mundial. Na realidade, agora \u00e9 seu elo mais fr\u00e1gil.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A origem mais imediata da crise da d\u00edvida deve ser buscada no estouro da enorme bolha que, em 2007, p\u00f4s um fim abrupto a anos de desenfreada especula\u00e7\u00e3o financeira mundial. O estouro p\u00f4s o sistema financeiro global a um passo do abismo e a economia \u00e0 beira de uma nova \u201cGrande Depress\u00e3o\u201d. Os governos imperialistas lan\u00e7aram, naquele momento, uma opera\u00e7\u00e3o massiva, historicamente in\u00e9dita, de salvamento dos banqueiros, comprometendo enormes somas de fundos p\u00fablicos, que superaram 20 % do PIB mundial.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Com isto, conseguiram ganhar tempo, impedir que a situa\u00e7\u00e3o afundasse e que o controle sa\u00edsse de suas m\u00e3os. O que n\u00e3o conseguiram foi reverter a crise. Para consegui-lo, o capitalismo n\u00e3o inventou outra solu\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser a destrui\u00e7\u00e3o massiva de capitais, a paralisa\u00e7\u00e3o e o desmantelamento do n\u00edvel de vida e dos direitos dos trabalhadores. S\u00f3 assim pode recuperar as taxas de lucro que permitiriam abrir um novo ciclo hist\u00f3rico de crescimento.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A interven\u00e7\u00e3o dos Estados, no entanto, deu lugar a uma nova fase da crise: a da d\u00edvida p\u00fablica, que afeta em particular os grandes pa\u00edses imperialistas, EUA (com um ter\u00e7o do total mundial), Europa e Jap\u00e3o. Concentra-se com muita viol\u00eancia na Europa, em especial em sua periferia.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>A situa\u00e7\u00e3o europeia<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">N\u00e3o \u00e9 por acaso que a crise da d\u00edvida se concentra na zona do euro. A Uni\u00e3o Monet\u00e1ria Europeia surgiu com base na hegemonia do capitalismo alem\u00e3o, em conjunto com o capitalismo franc\u00eas (principal s\u00f3cio e concorrente). Mas a zona do euro tamb\u00e9m agrupa em seu interior pa\u00edses da periferia europeia economicamente muito mais fr\u00e1geis e subordinados comercial e financeiramente. O euro n\u00e3o \u00e9 a moeda de um Estado \u00fanico, mas sim a divisa de uma associa\u00e7\u00e3o de Estados tremendamente desiguais entre si, com seus pr\u00f3prios interesses, prioridades e or\u00e7amentos. O or\u00e7amento europeu n\u00e3o chega sequer a 2% do PIB da UE.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Nessas condi\u00e7\u00f5es, a moeda \u00fanica se tornou um instrumento privilegiado dos capitalismos alem\u00e3o e franc\u00eas para refor\u00e7ar seu dom\u00ednio na Europa. A periferia da zona do euro consolidou-se como um grande mercado para a exporta\u00e7\u00e3o de suas multinacionais e o destino de enormes investimentos financeiros de seus bancos, que serviram para sustentar os grandes deficits comerciais, inflar a bolha imobili\u00e1ria (Espanha e Irlanda) e inclusive para facilitar os investimentos das multinacionais espanholas na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>O papel da Alemanha<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">O euro foi decisivo para consolidar a Alemanha como a grande pot\u00eancia europeia. Isso est\u00e1 associado \u00e0 sua reafirma\u00e7\u00e3o como grande economia exportadora e, paralelamente, a um processo de forte degrada\u00e7\u00e3o de seu mercado de trabalho e de sua situa\u00e7\u00e3o social. Os sal\u00e1rios reais est\u00e3o estagnados desde 1991 e ao n\u00edvel de desemprego oficial (7,6 % ou 2,9 milh\u00f5es de pessoas) devem ser adicionados mais de 5 milh\u00f5es de trabalhadores que recebem assist\u00eancia social porque n\u00e3o chegam ao fim do m\u00eas com seus sal\u00e1rios; 1,2 milh\u00e3o de trabalhadores tempor\u00e1rios subcontratados com sal\u00e1rios reduzidos pela metade e ramos inteiros, como seguran\u00e7a e limpeza, relegados a \u201csal\u00e1rios de lixo\u201d. A Alemanha exporta mais de 40 % de sua produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis, m\u00e1quinas e ferramentas, e de 50 % a 60 % da produ\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias eletr\u00f3nica e farmac\u00eautica. Do total de suas exporta\u00e7\u00f5es, 60 % destinam-se \u00e0 UE, com cujos pa\u00edses seu superavit comercial foi multiplicado por cinco desde o surgimento do euro. Nos \u00faltimos quatro anos, o decl\u00ednio das exporta\u00e7\u00f5es para a periferia europeia, devido aos planos de austeridade, foi compensado com vendas para a China, que dobraram. A fortaleza exportadora alem\u00e3 \u00e9 tamb\u00e9m sua grande fragilidade, pois uma recess\u00e3o internacional, em especial se afetasse a China, traria enormes efeitos para o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>A espiral da d\u00edvida <\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">As multinacionais alem\u00e3s e francesas e seus grandes bancos fizeram neg\u00f3cios extraordin\u00e1rios com a periferia da zona do euro durante os anos de vacas gordas. Parecia que os grandes deficits comerciais e a bolha do endividamento privado n\u00e3o tinham limites. Tudo ia bem enquanto as rodas continuavam girando\u2026 at\u00e9 que a grande bolha estourou em 2007, veio o salvamento estatal massivo dos bancos e apareceu o problema da d\u00edvida p\u00fablica (enquanto a massa da d\u00edvida privada permanecia). A festa havia acabado dramaticamente.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Para financiar a d\u00edvida soberana dos Estados, o Banco Central Europeu (BCE) vem emprestando, h\u00e1 tr\u00eas anos, dinheiro ilimitadamente a 1 % ou 1,5 % de juros aos mesmos grandes bancos \u201cresgatados\u201d para que esses, por sua vez, emprestem-no aos pa\u00edses perif\u00e9ricos a taxas de juros muito mais altas. Ent\u00e3o, come\u00e7aram os primeiros planos de ajuste com os quais os governos roubavam o povo para pagar aos bancos credores. Nesse processo, os pa\u00edses perif\u00e9ricos da zona do euro se encontram de m\u00e3os e p\u00e9s atados, sem nenhuma independ\u00eancia para agir. N\u00e3o podiam recorrer ao procedimento tradicional de desvalorizar a moeda, atacar os sal\u00e1rios e aumentar as exporta\u00e7\u00f5es. Agora dependiam das decis\u00f5es do BCE e da Alemanha e a \u00fanica receita era a \u201causteridade\u201d, enquanto a d\u00edvida se tornava cada vez maior, at\u00e9 impossibilitar seu pagamento.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>Os \u201cplanos de resgate\u201d <\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Isso foi o que aconteceu com os pa\u00edses mais fr\u00e1geis. E quando eles j\u00e1 n\u00e3o podiam pagar, \u201cos mercados\u201d n\u00e3o lhes emprestavam mais, e quando era iminente a suspens\u00e3o do pagamento, apareceram os \u201cplanos de resgate\u201d, que agravaram muito mais o problema. Agora, quem concede os novos empr\u00e9stimos s\u00e3o a UE e o FMI diretamente. \u00c9 a \u201ctroika\u201d (a Comiss\u00e3o Europeia, o BCE e o FMI) que imp\u00f5e diretamente os draconianos planos de ajuste que sangram com selvageria os trabalhadores e as classes m\u00e9dias e fazem a economia retroceder d\u00e9cadas. Assim ganham tempo e garantem o ganho e os lucros dos bancos, enquanto estes v\u00e3o se desfazendo de seus t\u00edtulos da d\u00edvida perif\u00e9rica e repassando-os aos governos, por interm\u00e9dio das institui\u00e7\u00f5es europeias e do FMI.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Tivemos o primeiro plano de \u201cresgate\u201d grego em maio de 2010. Em outubro, foi a Irlanda que se incorporou ao clube dos \u201cresgatados\u201d e, mais recentemente, em junho de 2011, Portugal. Esses planos, longe de serem uma \u201cajuda\u201d, s\u00e3o cordas para que os pa\u00edses se enforquem. Sua ess\u00eancia \u00e9 a pilhagem. Por isso mesmo s\u00e3o planos destinados ao fracasso.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>O segundo \u201cresgate\u201d da Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Um ano depois de seu primeiro \u201cresgate\u201d, a Gr\u00e9cia, brutalmente golpeada, n\u00e3o podia garantir os pagamentos do m\u00eas de julho e s\u00f3 faltava declarar-se falida. Todos os cr\u00e9ditos do primeiro \u201cresgate\u201d foram utilizados para pagar empr\u00e9stimos anteriores, e quanto mais pagava, mais dinheiro devia. Desta vez, diferentemente do momento do primeiro resgate, o \u201ccont\u00e1gio\u201d (expresso no \u201cpr\u00e9mio de risco\u201d ou \u201crisco-pa\u00eds\u201d: a diferen\u00e7a entre a taxa de juros da d\u00edvida paga pelo pa\u00eds e a paga pela Alemanha) n\u00e3o s\u00f3 afetou Portugal e Irlanda como tamb\u00e9m atingiu em cheio a Espanha e, pela primeira vez, a It\u00e1lia, unindo os destinos da d\u00edvida destes dois Estados e colocando o conjunto da zona do euro ante uma grav\u00edssima crise.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Durante tr\u00eas semanas tensas, os governos e as institui\u00e7\u00f5es da UE enfrentaram-se publicamente acerca do \u201cresgate\u201d grego e da crise da d\u00edvida, at\u00e9 que chegaram a um acordo em 21 de julho. Quando as diferen\u00e7as foram resolvidas, exigiram do parlamento grego que aprovasse (enfrentando o rep\u00fadio massivo e uma onda de protestos reprimida com selvageria) o novo plano de ajuste, com novos cortes de direitos econ\u00f3micos e sociais, de empregos p\u00fablicos, mais aumentos de impostos e um programa massivo de privatiza\u00e7\u00f5es. Um plano que os jornais gregos qualificaram de \u201c<em>como\u00e7\u00e3o e terror<\/em>\u201d e que o <em>Financial Times<\/em> definiu como \u201c<em>provoca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e vandalismo econ\u00f3mico<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>A \u201clatino-americaniza\u00e7\u00e3o\u201d da periferia europeia<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Antes de discutir esses acordos, \u00e9 preciso avaliar o significado profundo do plano da \u201ctroika\u201d para a Gr\u00e9cia, o lugar onde foram mais longe e de onde j\u00e1 podemos entrever o futuro preparado para Portugal ou Irlanda. \u00c0s v\u00e9speras de seu segundo \u201cresgate\u201d, a Gr\u00e9cia utilizava 29 % de sua receita para pagar os juros. Se somarmos a amortiza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida, sobe para mais de 50 %. No entanto, sua d\u00edvida \u00e9 cada vez maior, enquanto a fuga de capitais para a Su\u00ed\u00e7a prossegue sem freios. A situa\u00e7\u00e3o grega \u00e9 como se tivesse sido devastada por uma guerra. O pre\u00e7o do \u201cresgate\u201d supera o das indemniza\u00e7\u00f5es de guerra \u00e0s quais a Alemanha foi submetida no Tratado de Versalhes, depois de perder a I Guerra Mundial. Bairros inteiros de Atenas encontram-se em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria e a expectativa de vida come\u00e7a a baixar. Assistimos a um empobrecimento s\u00fabito do povo, dos trabalhadores e das classes m\u00e9dias da Gr\u00e9cia. Agora, para completar a pilhagem, vem a opera\u00e7\u00e3o do segundo \u201cresgate\u201d: a apropria\u00e7\u00e3o massiva do que resta do patrim\u00f3nio nacional (infraestruturas de turismo, portos, aeroportos, telecomunica\u00e7\u00f5es, correios, energia, ferrovias, companhias de \u00e1guas, bancos, loterias\u2026) a pre\u00e7os de liquida\u00e7\u00e3o (o valor atual das a\u00e7\u00f5es \u00e9 30 % do de 2009) e em benef\u00edcio dos mesmos bancos e multinacionais que arruinaram o pa\u00eds, em especial alem\u00e3es e franceses.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A Gr\u00e9cia est\u00e1 sendo submetida a um processo acelerado de \u201clatino-americaniza\u00e7\u00e3o\u201d. De um lugar de pa\u00eds sub-imperialista (imperialismo de terceira divis\u00e3o) dentro do imperialismo europeu, est\u00e1 se tornando um pa\u00eds semicolonial governado diretamente pela \u201ctroika\u201d, sem soberania nacional. A \u201ctroika\u201d for\u00e7ou a Gr\u00e9cia a renunciar aos \u201cdireitos de imunidade\u201d, que historicamente impediram os credores de expropriar ativos de um Estado insolvente. O presidente do Eurogrupo, Juncker, declarou \u00e0 revista alem\u00e3 <em>Focus<\/em>: \u201c<em>a soberania dos gregos ser\u00e1 limitada de forma massiva<\/em>\u201d<em>.<\/em> A aplica\u00e7\u00e3o do plano de austeridade e do programa de privatiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob o controle direto da \u201ctroika\u201d. A pr\u00f3pria arrecada\u00e7\u00e3o fiscal grega ser\u00e1 privatizada, segundo declarou \u201cJeffrey\u201d Papandreu.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">N\u00e3o \u00e9, pois, casual que os manifestantes gregos comparem sua situa\u00e7\u00e3o \u00e0 da Argentina de 2001 e escrevam em seus cartazes: \u201c<em>Teremos uma noite m\u00e1gica como na Argentina: quem ser\u00e1 o primeiro a fugir de helic\u00f3ptero?<\/em>\u201d. Estamos diante de um problema que n\u00e3o se limita \u00e0 Gr\u00e9cia, mas que j\u00e1 atinge pa\u00edses como Irlanda e Portugal. O assessor da Comiss\u00e3o Europeia, Paul de Grauwe, escrevia: \u201c<em>Alguns pa\u00edses europeus viram-se degradados ao status de economias emergentes<\/em>\u201d.A imprensa portuguesa denuncia que, nesses meses sob interven\u00e7\u00e3o internacional, Portugal funcionou como um protetorado do FMI e da UE. O <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em> observou que Poul Thomsen, do FMI, \u00e9 \u201c<em>o verdadeiro ministro de Finan\u00e7as<\/em>\u201d de Portugal. Estamos em meio a uma batalha crucial, de dimens\u00e3o europeia e global, que ainda est\u00e1 para ser decidida e cujas repercuss\u00f5es econ\u00f3micas e pol\u00edticas s\u00e3o decisivas.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>A \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d dos bancos no resgate<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Voltando ao acordo europeu de 21 de julho, h\u00e1 uma primeira parte dedicada ao \u201cresgate\u201d grego, que inclui um novo empr\u00e9stimo da UE e do FMI (com juros mais baixos e prazos mais longos) e a chamada \u201ccontribui\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria\u201d dos grandes bancos e seguradoras, que foi objeto de intensa pol\u00e9mica p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A pol\u00e9mica reflete o p\u00e2nico provocado pela fragilidade do sistema banc\u00e1rio. No entanto, h\u00e1 um componente marcadamente obsceno porque, como explicou um analista, \u201c<em>o que come\u00e7ou como uma trag\u00e9dia tornou-se<\/em> <em>uma com\u00e9dia negra<\/em><sup><em>1<\/em><\/sup><em> de enredos e simula\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d, na qual \u201c<em>nada \u00e9 o que parece e nenhum dos protagonistas diz o que pensa ou fala do que faz<\/em>\u201d<sup>2<\/sup><em>.<\/em> A verdade \u00e9 que Sarkozy e, sobretudo, Merkel encontravam-se com grandes dificuldades pol\u00edticas para aprovar uma nova \u201cajuda\u201d \u00e0 Gr\u00e9cia se n\u00e3o a justificassem com o discurso de que os \u201c<em>bancos tamb\u00e9m deveriam pagar sua parte<\/em>\u201d<em>.<\/em> Mas a \u201ccontribui\u00e7\u00e3o privada\u201d foi uma c\u00ednica opera\u00e7\u00e3o cosm\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">De fato<em>, <\/em>\u201c<em>enquanto se falava publicamente nesses termos, o primeiro banco alem\u00e3o, o Deutsche Bank &#8211; presidido pelo poderoso Joseph Ackerman, o grande assessor financeiro do Governo Merkel \u2013, e o banco franc\u00eas BNP funcionavam como arquitetos do novo esquema de ajuda. (\u2026) Por isso, o plano implica mais al\u00edvio para os bancos credores \u2013 um desejo que lateja por tr\u00e1s dos atos da troika comunit\u00e1ria \u2013 do que uma solu\u00e7\u00e3o para a enorme d\u00edvida do atormentado povo grego. De cada 100 euros da d\u00edvida que os bancos renovarem para a Gr\u00e9cia, ela ver\u00e1 s\u00f3 50; os outros 50 servir\u00e3o para financiar a opera\u00e7\u00e3o e para que os bancos n\u00e3o registem perdas, desfazendo-se veladamente de parte dos t\u00edtulos gregos. Al\u00e9m disso, gozar\u00e3o da garantia p\u00fablica europeia. Merkel y Sarkozy tiveram de lidar com o descontentamento de seus compatriotas lan\u00e7ando m\u00e3o do discurso de que queriam castigar os credores privados, mas n\u00e3o foram al\u00e9m das palavras. Os credores, alguns dos quais compraram a d\u00edvida grega com rendimentos de 25%, recebem mais garantias e ganham mais dinheiro. Dos outros fundos do programa de resgate, at\u00e9 110 mil milh\u00f5es de euros ser\u00e3o aportados pela zona do euro e pelo FMI e servir\u00e3o, como j\u00e1 ocorreu parcialmente com o primeiro plano de resgate, para que a d\u00edvida passe do ativo dos balan\u00e7os dos bancos e fundos de investimento ao passivo das contas p\u00fablicas<\/em>.\u201d<sup>3<\/sup><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Na realidade, jamais passou pela cabe\u00e7a das autoridades europeias e do FMI a possibilidade da \u201cquita\u00e7\u00e3o\u201d da d\u00edvida grega, da forma como os especialistas consideravam obrigat\u00f3ria (entre 50% e 70%) para assegurar que o pa\u00eds n\u00e3o entrasse em colapso. A raz\u00e3o \u00e9 que uma \u201cquita\u00e7\u00e3o\u201d assim poderia trazer grav\u00edssimas consequ\u00eancias para o sistema financeiro europeu e mundial. Significaria, em primeiro lugar, a fuga de bili\u00f5es de dep\u00f3sitos dos bancos gregos e sua fal\u00eancia certa. Bancos credores como o Commerzbank, BNP, Dexia, ING, UniCredito ou RBS, com quantidades importantes da d\u00edvida grega, teriam de ser \u201crecapitalizados\u201d e alguns deles \u201cresgatados\u201d pelo Estado. Desencadear-se-ia, ainda, uma liquida\u00e7\u00e3o massiva dos chamados <em>credit default swaps<\/em><sup>4<\/sup>, o que afetaria os bancos de Wall Street e teria efeitos globais imprevis\u00edveis. Por \u00faltimo, tamb\u00e9m haveria a onda de cont\u00e1gio para Irlanda, Portugal, Espanha e It\u00e1lia. Em outras palavras, a \u201cquita\u00e7\u00e3o\u201d poderia converter-se em um novo Lehman Brothers.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Por tudo isso, a \u201cquita\u00e7\u00e3o\u201d acertada em Bruxelas chegou a apenas 10% da d\u00edvida grega. No entanto, s\u00f3 a men\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cparticipa\u00e7\u00e3o privada\u201d no \u201cresgate\u201d provocou p\u00e2nico diante do temor de uma virulenta rea\u00e7\u00e3o em cadeia dos \u201cmercados\u201d e levou a s\u00e9rios enfrentamentos entre o BCE, o FMI, Merkel e Sarkozy, que dedicaram duas semanas buscando um reparo para que a crise se mantivesse sob controle.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Outro ponto-chave foi a amplia\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias do chamado Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (MEEF), com o fim de que possa intervir de forma \u201cpreventiva\u201d, comprando as d\u00edvidas da Espanha e da It\u00e1lia, antes que esses pa\u00edses cheguem \u00e0 beira da fal\u00eancia e j\u00e1 n\u00e3o haja mais retorno. O problema \u00e9 que esta decis\u00e3o n\u00e3o foi acompanhada pela amplia\u00e7\u00e3o de fundos para torn\u00e1-la poss\u00edvel, e tamb\u00e9m foi feito um acordo de que s\u00f3 se interviria em situa\u00e7\u00f5es \u201cexcecionais\u201d e com pr\u00e9vio acordo dos 17 pa\u00edses da zona do euro. S\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que fazem com que, diante de uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, o Fundo seja invi\u00e1vel. O ministro das Finan\u00e7as da Alemanha, Sch\u00e4uble, j\u00e1 acalmou os \u00e2nimos ao declarar que o MEEF \u201c<em>n\u00e3o \u00e9 nenhum cheque em branco<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel evitar a quebra dos PIGs?<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">O acordo firmado em Bruxelas foi apresentado como solu\u00e7\u00e3o definitiva para a crise da d\u00edvida grega e como um \u201cavan\u00e7o hist\u00f3rico\u201d da UE. Mas o entusiasmo durou apenas dois dias. No terceiro, os riscos-pa\u00eds da Espanha e da It\u00e1lia voltaram a disparar e o BCE, fortemente dividido, viu-se imediatamente obrigado, contra a opini\u00e3o alem\u00e3, a comprar as d\u00edvidas italiana e espanhola para deter a corrida at\u00e9 a quebra. Trichet, presidente do BCE, justificou-se dizendo que \u201c<em>se o BCE n\u00e3o tivesse atuado\u2026 j\u00e1 estar\u00edamos na pior crise desde a I Guerra Mundial<\/em>\u201d<strong>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">O acordo de Bruxelas \u00e9, antes de tudo, um plano de salvamento dos bancos que prolonga a agonia da Gr\u00e9cia, permite maximizar sua pilhagem e tenta, mais uma vez, ganhar tempo. Tempo para transferir a carteira de t\u00edtulos da d\u00edvida dos pa\u00edses perif\u00e9ricos que est\u00e1 nas m\u00e3os dos bancos (sobretudo franceses e alem\u00e3es) para as m\u00e3os do BCE, da UE e do FMI, e tamb\u00e9m tempo para esperar um milagre imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">\u00c9 consenso entre os analistas que a Gr\u00e9cia, Irlanda e Portugal n\u00e3o poder\u00e3o honrar seus compromissos e ter\u00e3o que declarar, cedo ou tarde, a suspens\u00e3o dos pagamentos. A Gr\u00e9cia n\u00e3o vai poder pagar a d\u00edvida pela simples raz\u00e3o de que esta \u00e9 150 % superior ao seu PIB (cada beb\u00e9 nasce com uma d\u00edvida de 30 mil euros), porque se espera que a d\u00edvida chegue a 172 % do PIB em 2012 e porque vive uma brutal recess\u00e3o (15 % de queda do PIB nos \u00faltimos tr\u00eas anos). Na Irlanda, o pr\u00f3prio governo reconhece que ser\u00e1 imposs\u00edvel pagar, algo evidente para um pa\u00eds que viu sua economia retroceder mais de 20% desde 2009 e tem uma d\u00edvida p\u00fablico-privada 10 vezes maior que seu PIB. O mesmo vai acontecer em Portugal, com uma economia que foi submetida a um forte processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, passou anos paralisada e agora se encontra em plena recess\u00e3o (seu PIB vai cair 5 % este ano).<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>E a Espanha e a It\u00e1lia? <\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Mas o problema n\u00e3o \u00e9 a Gr\u00e9cia, Irlanda e Portugal (6% da zona do euro). O problema \u00e9 a Espanha e a It\u00e1lia (30 %). E j\u00e1 n\u00e3o podemos falar de \u201cresgate\u201d destas economias, simplesmente porque seu tamanho faz com que isso seja imposs\u00edvel. A quebra de ambos os pa\u00edses equivaleria \u00e0 \u201cimplos\u00e3o\u201d do euro, levaria \u00e0 quebra dos grandes bancos europeus, provocaria um verdadeiro desmoronamento do sistema financeiro internacional e quebraria a UE, pondo fim a d\u00e9cadas de \u201cconstru\u00e7\u00e3o europeia\u201d.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">It\u00e1lia e Espanha est\u00e3o sofrendo uma forte crise pol\u00edtica e a amea\u00e7a de rebaixamento da qualifica\u00e7\u00e3o de sua d\u00edvida pelas ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o. A economia espanhola, com um desemprego que atinge 5 milh\u00f5es de trabalhadores (21 % da popula\u00e7\u00e3o ativa), n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 estancada como tamb\u00e9m est\u00e1 condenada a uma paralisa\u00e7\u00e3o prolongada devido aos planos de ajuste e \u00e0 aus\u00eancia de cr\u00e9dito provocada por um sistema banc\u00e1rio que se mant\u00e9m sobre ativos imobili\u00e1rios fict\u00edcios e depende, em boa medida, do financiamento externo, cada vez mais caro e restritivo conforme aumenta o risco-pa\u00eds espanhol. Nessa situa\u00e7\u00e3o, a d\u00edvida p\u00fablica espanhola est\u00e1 condenada a tornar-se cada vez maior, mais cara e mais dif\u00edcil de ser paga. Em 2008, ela equivalia a 40 % do PIB. Este ano ser\u00e1 68 %. Al\u00e9m disso, a d\u00edvida p\u00fablica faz parte de um endividamento total (de bancos, empresas e fam\u00edlias) que chega a quase 4 vezes o PIB espanhol, metade da qual \u00e9 d\u00edvida externa, principalmente em m\u00e3os francesas e alem\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A It\u00e1lia tornou-se a \u00faltima \u201cv\u00edtima dos mercados\u201d. Suporta 10 anos de paralisia econ\u00f3mica, vem perdendo progressivamente quotas de exporta\u00e7\u00e3o e sofre tamb\u00e9m uma grande fragilidade banc\u00e1ria. Seu endividamento p\u00fablico supera 120 % do PIB (terceira d\u00edvida do mundo, depois dos EUA e Jap\u00e3o). Suas perspetivas econ\u00f3micas s\u00e3o sombrias, como consequ\u00eancia dos dr\u00e1sticos planos de ajuste impostos, com repercuss\u00f5es na d\u00edvida p\u00fablica ainda mais graves do que no caso espanhol.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>Falsas esperan\u00e7as nos eurob\u00f3nus <\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Alguns analistas acreditam que o melhor \u00e9 deixar os PIGs falirem (aqueles que s\u00e3o dados como perdidos) e se concentrar em evitar a queda das d\u00edvidas espanhola e italiana. \u201c<em>H\u00e1 dois cen\u00e1rios<\/em>: <em>ou o BCE assume sua responsabilidade e protege a It\u00e1lia e a Espanha, ou tudo isso vai cair em peda\u00e7os<\/em>\u201d. O famoso George Soros defende que, para salvar o euro e evitar o caos, deve-se estabelecer a \u201c<em>sa\u00edda ordenada<\/em>\u201d da Gr\u00e9cia e de Portugal do euro e da UE e que o resto dos pa\u00edses substitua suas d\u00edvidas nacionais pelos chamados euro-b\u00f3nus (t\u00edtulos de d\u00edvida p\u00fablica que seriam emitidos e garantidos em conjunto por todos os pa\u00edses da zona do euro e em iguais condi\u00e7\u00f5es para todos).<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A c\u00fapula da social-democracia europeia e economistas neokeynesianos, como Joseph Stiglitz, defendem algo parecido. Eles publicaram um documento na imprensa europeia, assinado por uma dezena de ex-primeiros-ministros, no qual se pronunciam, reivindicando Roosevelt na Grande Depress\u00e3o, a favor de um \u201cNew Deal\u201d centrado no \u201ccrescimento\u201d. S\u00e3o partid\u00e1rios, como Soros, da emiss\u00e3o de euro-b\u00f3nus que substituam 60 % da d\u00edvida dos pa\u00edses da zona do euro. Defendem tamb\u00e9m que, enquanto isso n\u00e3o se materializa, o BCE e o Fundo de Estabilidade Financeira comprem toda a d\u00edvida espanhola e italiana que for necess\u00e1ria. Do mesmo modo, defendem um refor\u00e7o substancial do Banco Europeu de Investimentos (BEI) e o controle dos <em>credit<\/em> <em>default swaps<\/em>.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">No entanto, os governos alem\u00e3o e franc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o a favor e se op\u00f5em ao euro-b\u00f3nus por raz\u00f5es poderosas. A primeira: a taxa de juros que pagariam por eles seria superior \u00e0 de suas atuais d\u00edvidas nacionais e isso aumentaria substancialmente os custos. A segunda: veriam seu controle sobre as economias perif\u00e9ricas enfraquecido. A terceira, n\u00e3o menos importante, em particular no caso alem\u00e3o: a enorme crise pol\u00edtica que acarretaria se isso for levado adiante.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Ao mesmo tempo, o prolongamento da atual situa\u00e7\u00e3o, em que a crise da d\u00edvida em cada pa\u00eds retroalimenta as dos demais, o que se associa com a poss\u00edvel onda recessiva internacional e com a paralisia pol\u00edtica da UE, faz pensar que o mais prov\u00e1vel \u00e9 que sejam incapazes de evitar a implos\u00e3o do euro, o desmembramento da UE e um agravamento imediato da crise econ\u00f3mica. Neste contexto, a sa\u00edda-expuls\u00e3o dos pa\u00edses perif\u00e9ricos vai coloc\u00e1-los em cen\u00e1rios dram\u00e1ticos como o da Argentina em 2001 (desvaloriza\u00e7\u00e3o massiva, d\u00edvida multiplicada, \u201ccorralitos\u201d, quebras de bancos, ru\u00edna s\u00fabita das classes m\u00e9dias, fechamentos massivos de empresas&#8230;), uma verdadeira cat\u00e1strofe social, que s\u00f3 pode ser enfrentada com dr\u00e1sticas medidas anti-capitalistas e a unidade da classe trabalhadora europeia.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><strong>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o sem romper com o euro e a UE <\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">A social-democracia europeia, executora dessas pol\u00edticas e planos de ajuste, e correspons\u00e1vel por esta inven\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o de banqueiros e multinacionais que \u00e9 a UE, diz- nos agora que a solu\u00e7\u00e3o para a crise europeia s\u00e3o os euro-b\u00f3nus e algumas medidas de pol\u00edtica keynesiana. Suas propostas n\u00e3o s\u00e3o mais que um t\u00edmido complemento (investimentos do BEI) aos planos de ajuste, de cuja \u201cnecessidade\u201d compartilha sem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">Eles n\u00e3o questionam a Europa do Capital nem os bancos e multinacionais que a governam. Sua defesa do euro-b\u00f3nus n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma tentativa de salvar a zona do euro e a UE, tornando mais \u201cdiger\u00edveis\u201d as d\u00edvidas espanhola e italiana, com o objetivo de evitar suas fal\u00eancias. No entanto, ainda que os euro-b\u00f3nus acabem sendo emitidos, isto tampouco significar\u00e1 o final da crise nem dar\u00e1 nova vida ao euro, simplesmente entraremos numa nova fase da crise.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">\u201cEsquecem\u201d que a primeira condi\u00e7\u00e3o para que os trabalhadores e os setores populares saiam da crise \u00e9 precisamente o n\u00e3o pagamento da d\u00edvida, algo que anda de m\u00e3os dadas com o fim do euro e da UE. Repudiamos completamente os planos de ajuste a servi\u00e7o dos banqueiros e defendemos um programa de resgate dos trabalhadores e dos povos, que come\u00e7a com a implanta\u00e7\u00e3o de medidas de distribui\u00e7\u00e3o do trabalho e que exige a expropria\u00e7\u00e3o dos bancos e a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos setores estrat\u00e9gicos como base necess\u00e1ria para reorganizar a economia a servi\u00e7o da grande maioria. Esta luta n\u00e3o \u00e9 \u201cnacional\u201d, mas europeia e mundial. N\u00e3o pode triunfar se n\u00e3o for no \u00e2mbito europeu, se n\u00e3o conseguir avan\u00e7ar na unidade da classe trabalhadora do continente e se n\u00e3o abrir o caminho para uma Europa socialista unida, baseada na democracia oper\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 alternativa hist\u00f3rica diante da guerra social que o capital declarou para nos impor um retrocesso de d\u00e9cadas, \u201clatino-americanizar\u201d o n\u00edvel de vida europeu e converter os pa\u00edses da periferia em semicol\u00f3nias dos capitalismos alem\u00e3o e franc\u00eas, amea\u00e7ando, neste processo, liberdades e direitos democr\u00e1ticos. \u00c9 o momento da revolu\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;Felipe Alegr\u00eda<\/strong> (Espanha)<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">&nbsp;Notas:<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">1. A com\u00e9dia negra revela-nos personagens de personalidade fraca, \u00e0 deriva na vida, ou deixadas \u00e0 merc\u00ea de um destino muitas vezes incompreens\u00edvel, tamb\u00e9m chamada de humor negro.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">2. Manel P\u00e9rez, <em>Un sacrificio in\u00fatil<\/em>, www.lavanguardia.com, 30\/06\/11<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">3. Idem<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">4. Conhecidos como CDS, \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o financeira de cobertura de riscos, pela qual uma opera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito (um empr\u00e9stimo, por exemplo) \u00e9 assegurada contra o n\u00e3o pagamento por parte de devedor.<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fech\u00e1mos este artigo em plena turbul\u00eancia financeira, que reflete um forte recrudescimento da crise econ\u00f3mica mundial. Em 8 de agosto, as bolsas mundiais despencaram, \u201cevaporando-se\u201d US$ 2,5 trili\u00f5es num dia, que afetaram especialmente as a\u00e7\u00f5es dos bancos. Em agosto, os principais bancos da zona euro perderam entre 20% e 30% do pre\u00e7o de suas a\u00e7\u00f5es. Os grandes bancos revivem as cenas de p\u00e2nico de quando o Lehman Brothers afundou. A d\u00edvida p\u00fablica norte-americana perdeu a avalia\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de cr\u00e9dito, em meio a uma aguda crise pol\u00edtica em Washington. 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