{"id":5449,"date":"2025-09-13T12:20:06","date_gmt":"2025-09-13T11:20:06","guid":{"rendered":"https:\/\/mas.org.pt\/?p=5449"},"modified":"2025-09-13T12:24:53","modified_gmt":"2025-09-13T11:24:53","slug":"nepal-o-reformismo-fracassa-mais-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2025\/09\/13\/nepal-o-reformismo-fracassa-mais-uma-vez\/","title":{"rendered":"NEPAL &#8211; O REFORMISMO FRACASSA MAIS UMA VEZ"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Nepal est\u00e1 h\u00e1 dois dias em chamas. As corajosas mobiliza\u00e7\u00f5es de dezenas de milhares de jovens sacudiram toda a estrutura do Estado. Como o movimento \u00e9 liderado por ativistas muito jovens, passou a ser chamado de protesto da Gera\u00e7\u00e3o Z, isto \u00e9, a gera\u00e7\u00e3o nascida entre 1995 e 2010 (anteriormente, os movimentos do Qu\u00e9nia e de Bangladesh receberam o mesmo nome). Apesar do an\u00fancio do governo de suspender a proibi\u00e7\u00e3o das redes sociais \u2013 que havia desencadeado os protestos em primeiro lugar \u2013 as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o pararam. Pelo contr\u00e1rio, se intensificaram em Katmandu e em outras cidades. A brutal repress\u00e3o estatal j\u00e1 tirou a vida de pelo menos 19 jovens manifestantes. Enquanto isso, h\u00e1 relatos de que tr\u00eas pol\u00edcias e a esposa do ex-primeiro-ministro e ex-presidente do governante Partido Comunista, Jhala Nath, tamb\u00e9m foram mortos pelas m\u00e3os dos manifestantes. O n\u00famero de feridos \u00e9 incalcul\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo as \u00faltimas informa\u00e7\u00f5es, tanto o parlamento quanto a resid\u00eancia do primeiro-ministro foram incendiados, enquanto as redes sociais se enchem de relatos e v\u00eddeos que mostram altos funcion\u00e1rios do governo, incluindo ministros e suas fam\u00edlias, sob ataque direto. Anteriormente, tr\u00eas ministros \u2013 entre eles o do Interior e o da Sa\u00fade \u2013 j\u00e1 haviam renunciado diante da intensa press\u00e3o p\u00fablica. Finalmente, o primeiro-ministro, K.P. Sharma Oli, tamb\u00e9m foi for\u00e7ado a renunciar. Oli afirmou ter dado esse passo para \u201cabrir caminho a uma solu\u00e7\u00e3o constitucional\u201d. Mas, na realidade, a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 escapou do controle do Estado. A repress\u00e3o impiedosa do chamado governo \u201ccomunista\u201d n\u00e3o fez sen\u00e3o fortalecer o movimento em vez de esmag\u00e1-lo. Circulam tamb\u00e9m rumores de que Sharma Oli, junto com v\u00e1rios de seus ministros, fugiu do pa\u00eds. As reivindica\u00e7\u00f5es da juventude rebelde foram muito al\u00e9m da suspens\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o das redes sociais: agora incluem medidas decisivas contra a corrup\u00e7\u00e3o e o nepotismo, responsabiliza\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia e a destitui\u00e7\u00e3o total do atual governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo come\u00e7ou h\u00e1 uma semana, quando o governo imp\u00f4s a proibi\u00e7\u00e3o das redes sociais. Essa proibi\u00e7\u00e3o acabou com a paci\u00eancia da juventude, e a ira e frustra\u00e7\u00e3o acumuladas durante anos em condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria econ\u00f3mica finalmente explodiram. O governo justificou a medida em nome da \u201cregula\u00e7\u00e3o\u201d, mas ela estava claramente dirigida a silenciar as vozes dissidentes e encobrir a crescente crise pol\u00edtica e econ\u00f3mica que fervia sob a superf\u00edcie. Isso demonstra que o governo tinha plena consci\u00eancia do descontentamento das massas. Mas, quando dezenas de milhares de jovens sa\u00edram \u00e0s ruas para protestar contra a medida, as armas do Estado dilaceraram seus corpos. Em um \u00fanico dia, ceifaram a vida de 19 v\u00edtimas inocentes e deixaram centenas de feridos. \u00c9 o maior n\u00famero de mortes em um s\u00f3 dia durante uma mobiliza\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do Nepal. Antes disso, durante o movimento de 2006 contra o rei Gyanendra, morreram 25 pessoas \u2013 mas ao longo de v\u00e1rias semanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mobiliza\u00e7\u00f5es massivas e a forma brutal como o governo de Oli tentou esmag\u00e1-las deixam claro que a dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista no poder no Nepal n\u00e3o \u00e9 comunista nem est\u00e1 conectada, de forma alguma, com os ideais revolucion\u00e1rios do marxismo e do comunismo. Contudo, assim como em tantos outros governos supostamente \u201canti-imperialistas\u201d ou de \u201cesquerda\u201d, setores reformistas de esquerda em todo o mundo h\u00e1 muito tempo falam maravilhas sobre o governo nepal\u00eas e alimentam ilus\u00f5es entre a classe trabalhadora. Entre eles est\u00e3o n\u00e3o apenas (embora haja exce\u00e7\u00f5es) as correntes ligadas ao estalinismo e ao maoismo, mas tamb\u00e9m muitas da chamada \u201cNova Esquerda\u201d. S\u00e3o os mesmos que depositam esperan\u00e7as na R\u00fassia e na China e que, em nome do \u201canti-imperialismo\u201d, chegam a defender regimes como o de Maduro na Venezuela, Bashar al-Assad na S\u00edria e at\u00e9 mesmo os cl\u00e9rigos iranianos. N\u00e3o faz muito tempo, celebravam o governo de Sharma Oli como um \u201crenascimento da esquerda\u201d no sul da \u00c1sia. Mesmo agora, muitos ainda negar\u00e3o a realidade do territ\u00f3rio e descartar\u00e3o o movimento atual como uma \u201cconspira\u00e7\u00e3o imperialista\u201d, expondo uma vez mais seu oportunismo e bancarrota ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o atual no Nepal demonstra mais uma vez uma verdade fundamental: qualquer governo que chegue ao poder dentro dos marcos do capitalismo \u2013 ainda que se auto-denomine comunista ou socialista \u2013 converte-se, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em guardi\u00e3o e executor dos interesses da classe capitalista e do Estado. O pr\u00f3prio Oli, que um dia assumiu o governo apoiado nas esperan\u00e7as das massas nepalesas e com palavras de ordem anti-imperialistas, hoje atua como agente dos projetos imperialistas, manchando as m\u00e3os com o sangue da classe trabalhadora do Nepal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses acontecimentos demonstram que a emancipa\u00e7\u00e3o e a liberta\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras n\u00e3o podem ser alcan\u00e7adas por meio de reformas dentro do capitalismo. Em sistemas capitalistas atrasados e em crise, como os de nossas regi\u00f5es, a possibilidade mesma de reformas significativas nunca esteve posta desde o in\u00edcio. Na atual fase de decad\u00eancia hist\u00f3rica do capitalismo, os reformistas que se apoiam nas suas institui\u00e7\u00f5es vazias s\u00e3o inevitavelmente for\u00e7ados a seguir o caminho do neoliberalismo. Por isso, torna-se cada vez mais dif\u00edcil distinguir o reformismo de esquerda das pol\u00edticas tradicionais da direita, o que abre caminho para a ascens\u00e3o de tend\u00eancias fascistas de extrema-direita. Os descaminhos do etapismo, do gradualismo e do reformismo conduzem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ao mesmo destino: o decl\u00ednio dos movimentos, a repress\u00e3o contra os elementos revolucion\u00e1rios honestos em seu interior, a prote\u00e7\u00e3o dos investimentos imperialistas e o uso da m\u00e1quina estatal contra a classe trabalhadora. Assim, as debilidades ou desvios te\u00f3ricos convertem-se em crimes hist\u00f3ricos. Os erros de um momento podem impor castigos a gera\u00e7\u00f5es inteiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rastilho imediato desse movimento foi a proibi\u00e7\u00e3o das redes sociais, a gota d\u2019\u00e1gua que transbordou o copo. Mas por tr\u00e1s dela se escondia uma raiva profundamente enraizada contra a corrup\u00e7\u00e3o, a pobreza extrema, o desemprego em constante crescimento e a desfa\u00e7atez da elite. Hoje, centenas de milhares de jovens nepaleses s\u00e3o obrigados a buscar a sobreviv\u00eancia no exterior. Nos pa\u00edses do Golfo, os trabalhadores nepaleses est\u00e3o entre os mais explorados e baratos. Aqueles que n\u00e3o conseguem emigrar s\u00e3o obrigados a sobreviver apenas das remessas. Isso \u00e9 um retrato cru de uma economia capitalista falida e de suas estruturas pol\u00edticas vazias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos cerca de 30 milh\u00f5es de habitantes do Nepal, a imensa maioria enfrenta pobreza, fome, doen\u00e7as e mis\u00e9ria. Sharma Oli chegou ao poder em 2015. Por\u00e9m, mesmo depois de uma d\u00e9cada, a taxa oficial de pobreza extrema continua estagnada em 20% e o Nepal segue figurando entre os pa\u00edses mais subdesenvolvidos do mundo, segundo as Na\u00e7\u00f5es Unidas. Desastres naturais como terremotos e inunda\u00e7\u00f5es agravaram ainda mais essa devasta\u00e7\u00e3o social. Mas a verdade \u00e9 que o Estado n\u00e3o tem capacidade de socorrer a popula\u00e7\u00e3o. Toda a sociedade se transformou em um barril de p\u00f3lvora de contradi\u00e7\u00f5es explosivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o mais flagrante dessas contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 o incessante aumento do desemprego. Segundo relat\u00f3rios oficiais, a taxa de desemprego geral j\u00e1 ultrapassou 12,6%, enquanto entre a juventude disparou para 22,7% e a expectativa \u00e9 que aumente ainda mais at\u00e9 o fim do ano. N\u00e3o se trata apenas de estat\u00edsticas. Cada n\u00famero representa uma vida arruinada, uma esperan\u00e7a destru\u00edda, o choro de um jovem que n\u00e3o tem outra sa\u00edda sen\u00e3o o caminho humilhante da emigra\u00e7\u00e3o para sustentar sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas no Nepal foram marcadas por intermin\u00e1veis divis\u00f5es, fus\u00f5es e novas rupturas entre os partidos comunistas-maoistas. De 1996 a 2006, os maoistas travaram uma guerra civil contra o Estado. Morreram cerca de 18 mil pessoas, entre elas 8 mil guerrilheiros maoistas e 4.500 membros das for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado. A guerra terminou em 2006 com o \u201cAcordo Geral de Paz\u201d (vale destacar que a explos\u00e3o revolucion\u00e1ria nas cidades nepalesas nesse mesmo ano desempenhou papel decisivo para for\u00e7ar a retirada do Estado). O acordo se baseava, essencialmente, no compromisso dos maoistas com o Estado. Segundo a teoria das etapas, acreditavam ter conclu\u00eddo a etapa democr\u00e1tica anti-imperialista (principalmente contra a domina\u00e7\u00e3o indiana) da revolu\u00e7\u00e3o, abrindo assim a porta para a aboli\u00e7\u00e3o da monarquia e para certas reformas democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas as massas revolucion\u00e1rias do Nepal \u2013 sobretudo a juventude \u2013, que tanto sacrificaram na esperan\u00e7a de uma vida melhor, livre de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, viram essas esperan\u00e7as esmagadas nos anos seguintes. Desde a aboli\u00e7\u00e3o formal da monarquia em 2008, o pa\u00eds mergulhou numa crise pol\u00edtica cr\u00f3nica. Governos ca\u00edram, alian\u00e7as se formaram e se romperam, primeiros-ministros foram e vieram. Em 17 anos, o Nepal teve 13 governos distintos. Nesse per\u00edodo, chegaram ao poder, em tr\u00eas ocasi\u00f5es, tamb\u00e9m figuras do Congresso nepal\u00eas, favor\u00e1vel \u00e0 \u00cdndia, e se instalaram repetidamente governos interinos. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que tanto o governo quanto a oposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o dirigidos por partidos \u201ccomunistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sharma Oli chegou ao poder pela primeira vez em 2015. Em 2018, voltou com uma posi\u00e7\u00e3o relativamente est\u00e1vel gra\u00e7as \u00e0 alian\u00e7a comunista. Naquele momento, fez grandes promessas de prosperidade, emprego e desenvolvimento. Mas a realidade atual conta uma hist\u00f3ria totalmente diferente. A corrup\u00e7\u00e3o aumentou, a desigualdade de classe se aprofundou e, na tentativa de escapar das garras da \u00cdndia, o Nepal se lan\u00e7ou no colo da China. De facto, o atual governo \u00e9 considerado o mais pr\u00f3-China da hist\u00f3ria do pa\u00eds, tendo estabelecido amplos v\u00ednculos pol\u00edticos, comerciais e econ\u00f3micos com Pequim. No entanto, esses investimentos e projetos de constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiram melhorar de fato a vida do povo nepal\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o precisamente essas condi\u00e7\u00f5es que empurraram a juventude nepalesa \u00e0 rebeli\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, vimos levantes semelhantes no Sri Lanka, no Qu\u00eania e em Bangladesh. S\u00e3o, essencialmente, elos diferentes de uma mesma cadeia mundial de rebeli\u00f5es contra o capitalismo em crise, que demonstram como as condi\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora em todo o mundo s\u00f3 pioram. O movimento no Nepal revelou mais uma vez a bancarrota total do bi-etapismo e do reformismo. Deixou claro, mais uma vez, que reformas superficiais, concess\u00f5es simb\u00f3licas e mudan\u00e7as cosm\u00e9ticas n\u00e3o podem alterar o destino das massas exploradas. A nova gera\u00e7\u00e3o \u2013 consciente ou inconscientemente \u2013 aspira a um processo revolucion\u00e1rio capaz de arrancar (derrotar) o sistema capitalista pela raiz. Suas aspira\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es refletem nitidamente esse desejo ardente. Mas tais perspectivas exigem um programa e uma estrat\u00e9gia marxistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o atual inevitavelmente suscitar\u00e1 novos debates te\u00f3ricos entre os elementos s\u00e9rios e honestos do movimento maoista que ainda conservam instintos revolucion\u00e1rios. Para quem travou lutas valentes \u2013 incluindo a luta armada \u2013 por uma vida melhor ao longo de d\u00e9cadas, uma verdade se tornar\u00e1 agora mais evidente que nunca: sem romper com o capitalismo, n\u00e3o h\u00e1 liberta\u00e7\u00e3o de classe, de g\u00e9nero nem nacional. Sobretudo, as camadas mais politicamente ativas e teoricamente conscientes da juventude trabalhadora extrair\u00e3o li\u00e7\u00f5es cruciais para o futuro tanto do passado quanto do presente. N\u00e3o se pode descartar a possibilidade de rupturas dentro dos partidos existentes e do surgimento de novas tend\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">10\/9\/2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Rahul J.P. e Imran Kamyana\u00a0(Para a LIS- Liga Internacional Socialista)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Nepal est\u00e1 h\u00e1 dois dias em chamas. 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