{"id":5299,"date":"2024-09-27T18:49:46","date_gmt":"2024-09-27T17:49:46","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=5299"},"modified":"2024-09-27T18:49:50","modified_gmt":"2024-09-27T17:49:50","slug":"entrevista-a-andre-traca-medico-e-activista-em-defesa-do-sns","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2024\/09\/27\/entrevista-a-andre-traca-medico-e-activista-em-defesa-do-sns\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA A ANDR\u00c9 TRA\u00c7A, M\u00c9DICO E ACTIVISTA EM DEFESA DO SNS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Ruptura<\/em><\/strong>: Andr\u00e9, sucintamente quais s\u00e3o as raz\u00f5es estruturais para que nos \u00faltimos 10 a 20 anos tudo esteja pior no SNS?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Andr\u00e9 Tra\u00e7a (AT):<\/strong> Em resposta \u00e0 primeira pergunta, estas raz\u00f5es prendem-se em primeiro lugar com um importante desinvestimento no or\u00e7amento p\u00fablico para a sa\u00fade. Desinvestimento esse, em que o seu per\u00edodo mais negro foi nos anos da troika, altura em que a verba que era dotada \u00e0 sa\u00fade chegou a ser inferior \u00e0 verba que era dotada para o servi\u00e7o da d\u00edvida p\u00fablica e os custos de gest\u00e3o da mesma. Isto reflectiu-se tanto na dota\u00e7\u00e3o como na manuten\u00e7\u00e3o de recursos materiais, tanto como da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o desses mesmos recursos mas, sobretudo, e aqui o ponto principal, prende-se com o desinvestimento na pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho, quer ao n\u00edvel das carreiras, quer ao n\u00edvel dos pr\u00f3prios sal\u00e1rios assistindo-se, no caso de alguns grupos profissionais, a perdas de sal\u00e1rio no equivalente do poder de compra que, no caso dos m\u00e9dicos para dar um exemplo, se contarmos com as atualiza\u00e7\u00f5es salariais feitas no in\u00edcio deste ano, mesmo assim estamos com sal\u00e1rios m\u00e9dios no equivalente poder de compra 16% inferiores \u00e0queles que eram praticados em 2011, isto para n\u00e3o falar de muitos outros grupos profissionais. A par disto, houve um investimento muito grande de capital nacional mas sobretudo estrangeiro dos principais grupos privados de sa\u00fade em Portugal. Dois: Lus\u00edadas Sa\u00fade e a Luz Sa\u00fade, antigo Esp\u00edrito Santo Sa\u00fade s\u00e3o essencialmente detidos e controlados por capital estrangeiro e sobra a Jos\u00e9 de Mello Sa\u00fade, dona do grupo CUF. Todos eles investiram massivamente no crescimento desta \u00e1rea de neg\u00f3cio, com a constru\u00e7\u00e3o e aquisi\u00e7\u00e3o de hospitais e cl\u00ednicas e tamb\u00e9m oferecendo condi\u00e7\u00f5es competitivas para recrutar profissionais que viam nesta desloca\u00e7\u00e3o um atrativo para fugir \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es vividas no SNS. Estes atrativos deram-se n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel de pol\u00edtica salarial, em muitos casos, nem tanto a pol\u00edtica salarial mas sobretudo em termos de hor\u00e1rios de trabalho e concilia\u00e7\u00e3o da vida pessoal com a profissional que, em muitos casos no SNS, se tornou extremamente penosa. Para al\u00e9m disto, para al\u00e9m de ter passado a ser mais ou menos comum e normativo considerar um empregador privado, tamb\u00e9m passou a ser a imigra\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o para responder a aspira\u00e7\u00f5es financeiras, familiares e mesmo de crescimento t\u00e9cnico e profissional. O que sobra \u00e9 um SNS destitu\u00eddo, um SNS que, em muitos casos, infelizmente, j\u00e1 constitui ou que j\u00e1 se normalizou como recurso de segunda linha para quem tem poder de compra para adquirir um seguro de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Ruptura<\/em>: <\/strong>como se explica que quer governe o PS, a geringon\u00e7a ou governos PSD\/CDS, tudo fica igual ou pior, agora com 5, 8 e j\u00e1 chegou em agosto a 13 urg\u00eancias fechadas num s\u00f3 fim de semana?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AT:<\/strong> Essencialmente, pelas raz\u00f5es estruturais explicadas no ponto anterior com algumas nuances.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto aquilo que n\u00f3s assistimos com os governos do PS e da geringon\u00e7a foi muito, de forma muito t\u00edmida, caminhar no sentido de repor alguns dos direitos e algumas das perdas salariais da Troika, n\u00e3o houve de facto uma vontade pol\u00edtica que se traduzisse num acertar do passo e num compensar do tempo perdido, e isso \u00e9 patente, tanto ao n\u00edvel dos pr\u00f3prios grupos profissionais, como mesmo da oferta de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com os governos da direita, em vez de assistirmos a uma marcha lenta ou uma estagna\u00e7\u00e3o, aquilo que n\u00f3s assistimos \u00e9 mesmo uma marcha atr\u00e1s violenta, habitualmente naquilo que \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o e o cuidado com os pilares fundamentais do SNS, com pol\u00edticas que v\u00e3o no sentido de privatizar, direta e indiretamente, os recursos do SNS, atrav\u00e9s de v\u00e1rias formas de terceiriza\u00e7\u00e3o, das quais se destacam a quest\u00e3o das parcerias p\u00fablico privadas, encerramento de unidades hospitalares, de val\u00eancias e cl\u00ednicas e alguns atos de gest\u00e3o pol\u00edtica que se podem considerar danosos, n\u00e3o \u00e9? Como foram alguns dos movimentos deste curto at\u00e9 agora mandato da Ministra Ana Paula Martins de autoritarismo e completa prepot\u00eancia, com saneamentos pol\u00edticos. Veja-se se no caso do INEM e do antigo diretor executivo do SNS, sem acautelar o trabalho desenvolvido, e o trabalho que era necess\u00e1rio desenvolver, nomeadamente no que respeita \u00e0 quest\u00e3o do plano de ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Ruptura<\/em>: <\/strong>qual a alternativa ou alternativas a este estado de coisas no SNS (que n\u00e3o seja emigrar)?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AT<\/strong>: A pandemia veio demonstrar aquilo que n\u00f3s j\u00e1 prev\u00edamos que \u00e9 que, no fundo, s\u00f3 um SNS \u00e9 que \u00e9 capaz de dar resposta a determinados picos de procura, a situa\u00e7\u00f5es que flutuam naturalmente nessa mesma procura e a necessidades de uma popula\u00e7\u00e3o mais doente, mais envelhecida e que sofrer\u00e1 toda uma s\u00e9rie press\u00f5es decorrentes da crise clim\u00e1tica, que v\u00e3o precisamente impactar na sua sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto um privado pode decidir fechar portas quando atinge um limite de capacidade, ou quando prev\u00ea que prestar algum servi\u00e7o n\u00e3o lhe ser\u00e1 lucrativo, o SNS tem que esticar at\u00e9 onde for necess\u00e1rio. Isto ficou muito patente na forma como durante a pandemia os privados necessitaram de terceirizar eles mesmos muitos dos cuidados que estavam comprometidos a prestar para pr\u00f3prio SNS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O SNS precisa de se refundar em termos de princ\u00edpios de qualidade e de seguran\u00e7a que oferece nas suas v\u00e1rias val\u00eancias, enquanto servi\u00e7o p\u00fablico, universal, solid\u00e1rio e gratuito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio um plano de investimento para a sa\u00fade, onde caiba a ado\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de investimento estrutural e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio que o SNS se reoriente sobretudo para uma medicina de proximidade, de preven\u00e7\u00e3o e fundada nos cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios, retirando a necessidade \u00e0s pessoas de recorrerem a cuidados hospitalares, nomeadamente \u00e0s urg\u00eancias, que s\u00e3o inadequados para uma s\u00e9rie de necessidades pontuais, por n\u00e3o terem outro tipo de alternativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00edvel de emprego e de sal\u00e1rios, \u00e9 necess\u00e1rio acabar com muita da precariedade que foi grassando e foi crescendo ao longo dos \u00faltimos 10 anos, sendo necess\u00e1rio que os v\u00ednculos se deem por meio de contrata\u00e7\u00e3o efetiva, baseados em concursos p\u00fablicos, acautelando hor\u00e1rios de trabalho condignos, com recurso a horas extraordin\u00e1rias na medida do estritamente necess\u00e1rio, e portanto o extraordin\u00e1rio, e n\u00e3o da forma corrente e corriqueira a que temos assistido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1ria uma atualiza\u00e7\u00e3o justa dos sal\u00e1rios, e uma renegocia\u00e7\u00e3o das carreiras compat\u00edvel com o momento em que estamos, e \u00e9 necess\u00e1rio que os pr\u00f3prios profissionais sejam mandatados para a gest\u00e3o democr\u00e1tica e participativa das unidades onde trabalham, substituindo a atual nomea\u00e7\u00e3o, muitas vezes com vi\u00e9s pol\u00edtico das administra\u00e7\u00f5es, por formas de gest\u00e3o interm\u00e9dia eleitas a partir da base ou escolhidas por via de concurso p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruptura: Andr\u00e9, sucintamente quais s\u00e3o as raz\u00f5es estruturais para que nos \u00faltimos 10 a 20 anos tudo esteja pior no SNS? Andr\u00e9 Tra\u00e7a (AT): Em resposta \u00e0 primeira pergunta, estas raz\u00f5es prendem-se em primeiro lugar com um importante desinvestimento no or\u00e7amento p\u00fablico para a sa\u00fade. Desinvestimento esse, em que o seu per\u00edodo mais negro foi nos anos da troika, altura em que a verba que era dotada \u00e0 sa\u00fade chegou a ser inferior \u00e0 verba que era dotada para o servi\u00e7o da d\u00edvida p\u00fablica e os custos de gest\u00e3o da mesma. 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