{"id":5216,"date":"2024-07-13T20:12:41","date_gmt":"2024-07-13T19:12:41","guid":{"rendered":"https:\/\/mas.org.pt\/?p=5216"},"modified":"2024-07-13T22:24:30","modified_gmt":"2024-07-13T21:24:30","slug":"uma-reflexao-sobre-as-eleicoes-francesas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2024\/07\/13\/uma-reflexao-sobre-as-eleicoes-francesas\/","title":{"rendered":"Uma reflex\u00e3o sobre as elei\u00e7\u00f5es francesas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de falarmos sobre as elei\u00e7\u00f5es legislativas francesas do passado domingo, dia 07 de julho (e do domingo anterior do\u00eda 30 de junho), precisamos de abordar o contexto pol\u00edtico franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e legislativas de 2022 que a vida pol\u00edtica francesa gira \u00e0 volta de tr\u00eas grandes blocos, existindo ainda um quarto bloco, mas muito mais pequeno que os anteriores. \u00c9 a chamada tripolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O bloco mais pequeno \u00e9 o partido de direita cl\u00e1ssica (da \u00e1rea pol\u00edtica da AD) chamado Os Republicanos (LR). \u00c9 o herdeiro do antigo partido gaulista fundado por Jacques Chirac em 1976, que na altura se chamava RPR e que mudou v\u00e1rias vezes de nome mas hoje em dia est\u00e1 muito enfraquecido e nestas elei\u00e7\u00f5es dividiu-se em duas partes: uma parte aliou-se a Le Pen e a outra parte permaneceu \u201cindependente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os grandes blocos, temos a extrema-direita. Esta \u00e9 dominada por pelo <em>Rassemblement <\/em>National (RN), o partido fundado em 1972 por Jean Marie Le Pen e atualmente dirigido pela sua filha, Marine, que o \u201cmoderou\u201d ao longo dos anos mas sem alterar as suas caracter\u00edsticas b\u00e1sicas. O outro partido de extrema-direita que existe, o Reconquista, que obteve cerca de 5% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es europeias, n\u00e3o concorreu desta vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo bloco \u00e9 o bloco constitu\u00eddo pelos apoiantes de Macron, ou seja, o centro liberal (para quem por c\u00e1 votou IL \u00e9 bom repensar) e que abrange tamb\u00e9m o centro direita. Consiste em tr\u00eas partidos principais: o Renascen\u00e7a do pr\u00f3prio Macron, o Horizontes do antigo primeiro-ministro Edouard Philippe, e o Movimento Democr\u00e1tico de Fran\u00e7os Bayrou, herdeiro da antiga UDF que lutava com o RPR pela hegemonia na direita cl\u00e1ssica francesa nas d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990. Existem ainda alguns partidos mais pequenos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro bloco \u00e9 constitu\u00eddo pela esquerda (em sentido lato pois predomina a \u2018esquerda tradicional\u2019) que agora se apresentou sob o nome de Nova Frente Popular, que se considera herdeira da antiga Frente Popular da d\u00e9cada de 1930. Em 2022, apresentou-se sob o nome de NUPES (Nova Uni\u00e3o Popular, Ecol\u00f3gica e Social). A NFP tem quatro for\u00e7as pol\u00edticas principais, a que depois se agregam algumas for\u00e7as mais pequenas. Essas for\u00e7as s\u00e3o o Partido Socialista, o Partido Comunista, os ecologistas (EELV) e ainda o movimento da Fran\u00e7a Insubmissa (LFI) de Jean-Luc Melenchon.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio dedicar algumas palavras \u00e0 LFI. Do ponto de vista da linha pol\u00edtica geral, \u00e9 um partido semelhante ao Bloco (ou ao Livre) mas apresenta algumas particularidades. A primeira \u00e9 o estilo truculento e muitas vezes (tido como) agressivo do seu l\u00edder que n\u00e3o agrada a muita gente, mesmo no seio da esquerda (moderada, \u00f3bvio). A segunda \u00e9 o funcionamento totalmente antidemocr\u00e1tico da LFI que, \u00e0 semelhan\u00e7a do RN e do partido de Macron, \u00e9 completamente dominada pela personalidade do l\u00edder. A terceira, mais grave, tem a ver com a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de Melenchon com movimentos islamitas. N\u00e3o nos referimos aqui \u00e0 falsa acusa\u00e7\u00e3o de antisemitismo que lhe \u00e9 frequentemente lan\u00e7ada, refiro-me \u00e0 quest\u00e3o do chamado islamo-\u201cesquerdismo\u201d. Trata-se de uma quest\u00e3o muito complexa mas, no fundo, tem a ver com a perce\u00e7\u00e3o de que a LFI, para ganhar votos entre os imigrantes mu\u00e7ulmanos, acaba por fazer acordos comprometedores com l\u00edderes religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A NFP est\u00e1 situada politicamente \u00e0 direita da NUPES. Enquanto esta era dominada pela LFI, dado o bom resultado obtido por Melenchon nas presidenciais (22%), a NFP foi reequilibrada tendo em conta o resultado do PS nas europeias (14%), acima do da LFI (cerca de 10%).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema eleitoral franc\u00eas, nas legislativas, \u00e9 maiorit\u00e1rio a duas voltas, ou seja, elegem-se os deputados em 577 circunscri\u00e7\u00f5es em duas vota\u00e7\u00f5es (e n\u00e3o somente em uma como em Portugal).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso dizer que Macron antecipou estas elei\u00e7\u00f5es depois de ter sido largamente derrotado pela extrema-direita nas europeias de junho passado. Enquanto o RN (de Le Pen) obteve 31% e o Reconquista 5%, o partido de Macron nem aos 15% chegou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Provavelmente, Macron n\u00e3o contava com a coliga\u00e7\u00e3o da esquerda uma vez que nos meses anteriores se tinham aprofundado as diverg\u00eancias entre o PS e a LFI a prop\u00f3sito do conflito no M\u00e9dio Oriente. E sem essa coliga\u00e7\u00e3o, a elei\u00e7\u00e3o seria polarizada entre o RN e o bloco de Macron, apresentando-se este como uma esp\u00e9cie de baluarte da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d contra a barb\u00e1rie da extrema-direita. Mas a constitui\u00e7\u00e3o da NFP alterou a din\u00e2mica das elei\u00e7\u00f5es que surgem num contexto de baixa popularidade de Macron e de rescaldo de lutas sociais contra, por exemplo, o aumento da idade da reforma, que, apesar de n\u00e3o conseguirem obter sucesso, deixaram muitas marcas e abriram (sem lugar a d\u00favida) a esta vit\u00f3ria \u00e0 esquerda. As lutas de massas, com poderosas manifesta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 greves gerais, n\u00e3o derrotaram completamente o aumento da idade de reforma (passou dos 62 para os 64 anos) mas lutando de modo combativo, o povo franc\u00eas mantem uma idade de reforma abaixo do que ocorre em Portugal, em aumento crescente, j\u00e1 indo para os 66 anos e 7 meses em 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na 1\u00aa volta, o RN ficou \u00e0 frente com cerca de 33% dos votos, seguindo-se a NFP com cerca de 28% e o bloco presidencial com cerca de 20% O LR ficou abaixo dos 10%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, existia o risco de o RN (a extrema-direita de Le Pen) obter uma maioria absoluta no parlamento, ou pelo menos, ficar muito perto disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, ap\u00f3s muitas press\u00f5es de diversos setores sociais e pol\u00edticos, a esquerda e o bloco presidencial acabaram por fazer acordos de desist\u00eancia m\u00fatua, ainda que os apoiantes de Macron n\u00e3o o tenham aplicado em todos os lugares. Estes acordos n\u00e3o foram extensivos ao LR.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seja como for, e no contexto de uma participa\u00e7\u00e3o eleitoral muito superior \u00e0 de 2022, esses acordos acabaram por produzir efeitos e permitiram evitar a vit\u00f3ria da extrema- direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A NFP ficou em 1\u00ba lugar mas longe da maioria absoluta (289 deputados), o bloco presidencial ficou em 2\u00ba e o RN em terceiro, ou seja, a expetativa que a extrema direita tinha de obter, pelo menos, uma maioria relativa, saiu gorada. Apesar de ainda n\u00e3o se saber a constitui\u00e7\u00e3o exata dos grupos parlamentares, o quadro geral \u00e9 o seguinte: cerca de 190 deputados de esquerda, com a LFI com o maior grupo parlamentar, cerca de 160 deputados afetos ao bloco de Macron ou perto dele, cerca de 140 deputados de extrema-direita e aliados e uns 60 deputados de direita cl\u00e1ssica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, nenhum bloco pol\u00edtico est\u00e1 sequer perto da maioria absoluta. Ningu\u00e9m sabe o que Macron vai fazer. No sistema franc\u00eas, o presidente det\u00e9m poderes consider\u00e1veis e as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais s\u00e3o apenas em 2027.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica n\u00e3o \u00e9 boa, a performance da economia francesa tem sido fraca e, por exemplo, o d\u00e9fice franc\u00eas est\u00e1 nos 5,5% e a d\u00edvida p\u00fablica tem aumentado. \u00c9 certo que a Fran\u00e7a tem muito mais peso que Portugal e que a EU \u00e9 uma estrutura antidemocr\u00e1tica na pr\u00e1tica dominada pelos grandes pa\u00edses (e os grandes poderes econ\u00f3micos das grandes multinacionais) mas mesmo assim as coisas anunciam-se complicadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe, pois, uma incerteza muito grande. O perigo imediato de um governo de extrema-direita foi eliminado, mas sem uma alternativa consistente \u00e0 esquerda, mais cedo ou mais tarde, a extrema-direita poder\u00e1 chegar ao poder. 2027 n\u00e3o est\u00e1 assim t\u00e3o longe. A melhor coisa a fazer \u00e9 alentar novas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es sociais pois normalmente dos parlamentos s\u00f3 vem medidas anti trabalhadores (como foi o caso do aumento da idade de reforma como j\u00e1 referimos) e, em contraste, &nbsp;das lutas de massas, mobiliza\u00e7\u00f5es de rua e greves participadas e massivas, \u00e9 quando se faz retroceder os poderes institu\u00eddos, sejam eles vindo de esquerdas moderadas que conciliam permanentemente com o capitalismo reinante, seja contra governos de direita cl\u00e1ssica e essas lutas ser\u00e3o sempre o maior ant\u00eddoto para retardar ou at\u00e9 eliminar a possibilidade (ainda que real) da extrema-direita ascender ao poder em um dos pa\u00edses mais importantes da Europa. Note-se que este cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 completamente novo e tem muitos elementos com tra\u00e7os semelhantes de h\u00e1 um s\u00e9culo, que redundou numa guerra mundial na Europa (a II) com uma destrui\u00e7\u00e3o massiva, com milh\u00f5es de mortos e pa\u00edses completamente destru\u00eddos. Presumimos que n\u00e3o queremos mais guerras mundiais, logo o caminho \u00e9 travar a extrema-direita, em primeiro lugar nas ruas, nos parlamentos sempre que poss\u00edvel, mas essencialmente fazer reconstruir uma esquerda ainda mais combativa e alternativa \u00e0s que hoje ainda predominam, quer em Fran\u00e7a quer em Portugal e outros pa\u00edses europeus. \u00c9 nesta luta que o MAS se encontra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de falarmos sobre as elei\u00e7\u00f5es legislativas francesas do passado domingo, dia 07 de julho (e do domingo anterior do\u00eda 30 de junho), precisamos de abordar o contexto pol\u00edtico franc\u00eas. 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