{"id":4994,"date":"2024-03-27T23:49:06","date_gmt":"2024-03-27T22:49:06","guid":{"rendered":"https:\/\/mas.org.pt\/?p=4994"},"modified":"2025-03-14T16:52:08","modified_gmt":"2025-03-14T15:52:08","slug":"sem-casa-nao-se-estuda-estudantes-protestam-contra-a-precariedade-no-ensino-superior","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2024\/03\/27\/sem-casa-nao-se-estuda-estudantes-protestam-contra-a-precariedade-no-ensino-superior\/","title":{"rendered":"Sem casa n\u00e3o se estuda, estudantes protestam contra a precariedade no ensino superior"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No passado dia 21 de mar\u00e7o, quinta-feira, cerca de 2 mil estudantes sa\u00edram \u00e0s ruas de Lisboa numa manifesta\u00e7\u00e3o para reivindicar sobretudo o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, o fim das propinas, o aumento do n\u00famero de bolsas e de psic\u00f3logos nas faculdades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a Lei Cristas (Novo Regime do Arrendamento Urbano) n\u00e3o \u00e9 surpresa, para qualquer setor social que trabalhe, o aumento da renda, a instabilidade de saltar de casa em casa, ou a perda de poder em rela\u00e7\u00e3o aos senhorios. Estes problemas tornam-se obst\u00e1culos \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o dos estudantes. A forma\u00e7\u00e3o profissional e a procura do saber tornam-se dificultados pela condi\u00e7\u00e3o de viver em quartos cada vez mais pequenos, ou cada vez mais longe das universidade e centros urbanos, para conseguir pagar uma renda acess\u00edvel. O contexto \u00e9 tal que para muitos, \u201cacess\u00edvel\u201d \u00e9 a renda que se consegue pagar estando a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fazendo as contas, um estudante deslocado paga 70\u20ac de propina, 300\u20ac por um quarto, 150\u20ac de alimenta\u00e7\u00e3o, 30\u20ac de contas o que totaliza 550\u20ac mensalmente. Aqui n\u00e3o estamos a incluir os materiais de estudo, a ida ao cinema ou teatro, nem os gastos das festividades, cervejas e lazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 9 anos o pre\u00e7o do quarto arrendado duplicou em Coimbra, quase que triplicou em Lisboa e chegou mesmo a triplicar no Porto. \u00c9 urgente inverter esta din\u00e2mica, por todas as fam\u00edlias que sofrem com ela, e no caso dos estudantes porque n\u00e3o s\u00f3 degrada a sua sa\u00fade mental, como tamb\u00e9m os faz arredar p\u00e9 do pa\u00eds \u00e0 primeira oportunidade, sendo que o seu sacrif\u00edcio at\u00e9 \u00e0 entrada no mercado de trabalho \u00e9 recompensado com um sal\u00e1rio que n\u00e3o faz frente a esta escalada de pre\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco a pouco vai-se esbatendo a barreira entre trabalhador e estudante \u00e0 medida que se tornam trabalhadores-estudantes, e na mesma medida se pauperiza a sua condi\u00e7\u00e3o: passamos do trabalho ocasional ao fim de semana para o part-time nas grandes superf\u00edcies, passamos do quarto digno \u00e0 masmorra sem janela, tornamos os livros em PDFs, perde-se bares, cantinas e espa\u00e7os de express\u00e3o cultural para os interesses da privatiza\u00e7\u00e3o e do lucro. Poupa-se onde se puder poupar, e quando chegam as novas gera\u00e7\u00f5es (oriundas de uma escola em fr\u00e1geis condi\u00e7\u00f5es) normalizam um ensino superior insuficiente, carecido e desgastado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o ser\u00e1 apenas com o PNAES (Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior) que conseguiremos colmatar os quartos em falta, sendo que at\u00e9 hoje apenas se cumpriu com 3% das 18 mil camas prometidas, e h\u00e1 pelo menos 120 mil estudantes deslocados. \u00c9 necess\u00e1rio reverter a permissividade da habita\u00e7\u00e3o para o turismo e devolv\u00ea-la \u00e0s fam\u00edlias e alunos que v\u00eam a instabilidade a assolar a sua vida. \u00c9 necess\u00e1rio, tal como entoaram milhares na passada quinta-feira, cumprir com os direitos conquistados por Abril, e tal s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel pela forte mobiliza\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria entre estudantes e outros setores da sociedade por medidas que revertam a situa\u00e7\u00e3o para larga maioria da popula\u00e7\u00e3o e fa\u00e7am frente aos planos de austeridade que a direita rec\u00e9m eleita ir\u00e1 impor. Basta de migalhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A manifesta\u00e7\u00e3o teria corrido muito bem, em for\u00e7a e unidade, n\u00e3o tivessem os pr\u00f3prios organizadores criado uma barreira humana para cortar o acesso a cerca de 100 estudantes que foram colocados na cauda da marcha por terem reivindica\u00e7\u00f5es diferentes (mas n\u00e3o contradit\u00f3rias) daquelas acordadas pelas v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es organizadoras. Estas reivindica\u00e7\u00f5es faziam refer\u00eancia \u00e0 crise clim\u00e1tica e \u00e0 defesa e liberta\u00e7\u00e3o do povo Palestino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dif\u00edcil de entender o porqu\u00ea sendo que para muitos, al\u00e9m da crise econ\u00f3mica que atravessamos, preocupa a crise clim\u00e1tica que se faz sentir cada vez mais a cada ano que passa. Dificilmente consideramos que este problema preocupa qualquer outra faixa et\u00e1ria como preocupa os estudantes. Dificilmente esquecemos a greve mundial pelo clima, que h\u00e1 5 anos encheu v\u00e1rias cidades do pa\u00eds com dezenas de milhares de alunos exigindo que fosse declarado o estado de emerg\u00eancia clim\u00e1tica e implementadas pol\u00edticas que fizessem frente a esta calamidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o caso da Palestina n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio recuar tanto tempo. Vimos nos \u00faltimos meses, ainda que em menor quantidade, centenas de estudantes, de norte a sul do pa\u00eds, a organizarem-se com outros setores sociais para combater e informar contra a propaganda Sionista gerada e transmitida massivamente por toda a Europa e Am\u00e9rica do Norte. Muitos foram aqueles que refletiram sobre a destrui\u00e7\u00e3o massiva de Gaza, sobre as universidades e escolas arrasadas, sobre os estudantes palestinos que lan\u00e7aram reptos de ajuda para os seus colegas mundiais, pedindo que as classes acad\u00e9micas, com f\u00e1cil acesso a conhecimento, os ajudassem, lutando nos seus pa\u00edses para que se rompesse o \u201cN\u00c3O\u201d redondo ao cessar-fogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num mundo globalizado, num Portugal em que os jovens fogem para fora, num mercado com pouca autonomia nacional, \u00e9 indispens\u00e1vel um olhar internacional. \u00c9 lament\u00e1vel que os pr\u00f3prios organizadores tentem escolher a dedo quais s\u00e3o as palavras de ordem permitidas na manifesta\u00e7\u00e3o, que temas possam ser reivindicados e pior, fa\u00e7am uso da for\u00e7a para impedir que colegas seus protestem a seu lado em frente \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica. Ao desempenharam o papel repressivo da pol\u00edcia para assegurar a hegemonia do movimento, n\u00e3o s\u00f3 desmascaram as suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es como desvirtuaram a (bela e forte) manifesta\u00e7\u00e3o que foi. H\u00e1 que defender a liberdade ideol\u00f3gica e reivindicativa para manter a unidade entre todos os estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o em Portugal, da emerg\u00eancia clim\u00e1tica e da opress\u00e3o sobre a Palestina t\u00eam todas a mesma velha origem. S\u00e3o v\u00e1rios os sintomas da fal\u00eancia do capitalismo, e enquanto a bola n\u00e3o cai, quem dirige o mundo reorganiza-se preparando-se para mostrar a face mais cruel para a popula\u00e7\u00e3o, mais exploradora de quem trabalha e mais opressora das minorias. O ant\u00eddoto \u00e9 conhecido em teoria, mas dif\u00edcil de o p\u00f4r em pr\u00e1tica: s\u00f3 uma for\u00e7a organizada pode combater uma for\u00e7a organizada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No passado dia 21 de mar\u00e7o, quinta-feira, cerca de 2 mil estudantes sa\u00edram \u00e0s ruas de Lisboa numa manifesta\u00e7\u00e3o para reivindicar sobretudo o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, o fim das propinas, o aumento do n\u00famero de bolsas e de psic\u00f3logos nas faculdades. Desde a Lei Cristas (Novo Regime do Arrendamento Urbano) n\u00e3o \u00e9 surpresa, para qualquer setor social que trabalhe, o aumento da renda, a instabilidade de saltar de casa em casa, ou a perda de poder em rela\u00e7\u00e3o aos senhorios. Estes problemas tornam-se obst\u00e1culos \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o dos estudantes. 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