{"id":4906,"date":"2023-12-27T22:50:27","date_gmt":"2023-12-27T21:50:27","guid":{"rendered":"https:\/\/mas.org.pt\/?p=4906"},"modified":"2023-12-27T22:51:41","modified_gmt":"2023-12-27T21:51:41","slug":"gaza-e-as-cem-hiroshimas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2023\/12\/27\/gaza-e-as-cem-hiroshimas\/","title":{"rendered":"Gaza e as cem Hiroshimas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda antes de chegar o novo ano, dobrou-se o cabo dos 20.000 mortos em Gaza sob o fogo de armas israelitas. Em propor\u00e7\u00e3o, este n\u00famero equivale a 100.000 portugueses ou a tr\u00eas milh\u00f5es de norte-americanos. \u00c9 um por cento da popula\u00e7\u00e3o da Faixa de Gaza, ou seja, equivale a cem vezes a cat\u00e1strofe de Hiroshima (a bomba at\u00f3mica norte-americana exterminou \u201capenas\u201d 0,01 por cento da popula\u00e7\u00e3o japonesa). N\u00e3o se contam nos 20.000 mortos de Gaza os muitos milhares que est\u00e3o desaparecidos sob os escombros, a morrer de fome, de sede, de doen\u00e7as cur\u00e1veis, de ferimentos trat\u00e1veis, de falta de cuidados m\u00e9dicos, e em breve tamb\u00e9m de frio num territ\u00f3rio onde mais de metade do parque habitacional j\u00e1 foi destru\u00edda e onde 29 dos 30 hospitais existentes j\u00e1 foram arrasados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vergonhosamente, grande parte da imprensa portuguesa, com destaque para a televis\u00e3o p\u00fablica, continua a falar de \u201cguerra de Israel contra o Hamas\u201d mas, para quem ainda tivesse d\u00favidas, os especialistas em direito internacional s\u00e3o categ\u00f3ricos: estamos a assistir a um genoc\u00eddio perpetrado pelo Estado de Israel contra o povo palestiniano.<br><br>Incidentes sucessivos v\u00e3o desmascarando o car\u00e1cter da campanha israelita: os homens que s\u00e3o separados das suas fam\u00edlias no bairro de Al Remal para serem sumariamente abatidos em seguida; os que s\u00e3o exibidos e fotografados semi-nus, como supostos combatentes do Hamas, e que eram, afinal, m\u00e9dicos e enfermeiros; os tr\u00eas ref\u00e9ns israelitas abatidos pelo ex\u00e9rcito depois de terem tentado entregar-se, agitando uma bandeira branca \u2013 exemplo revelador do destino reservado a todos os palestinianos que tentem render-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m revelador \u00e9 o facto de a agress\u00e3o israelita n\u00e3o se limitar \u00e0 Faixa de Gaza. Por toda a Cisjord\u00e2nia sucedem-se os assassinatos em s\u00e9rie e por vezes em massa, que foram mais de 300 desde outubro, as 4.500 deten\u00e7\u00f5es de adultos e crian\u00e7as e os ataques mort\u00edferos aos campos de refugiados. S\u00f3 o de Jenine j\u00e1 sofreu 16 incurs\u00f5es do ex\u00e9rcito israelita desde outubro. \u00c9 toda a resist\u00eancia palestiniana que Israel pretende destruir, como mostra tamb\u00e9m a recente transfer\u00eancia de Marwan Barghouti, um dos mais populares dirigentes palestinianos, detido h\u00e1 mais de 20 anos, ou o rapto e deten\u00e7\u00e3o de Munther Amira, conhecido organizador e activista do campo de refugiados de Aida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo indigna-se com o genoc\u00eddio, a Assembleia-Geral da ONU vota por larga maioria uma das suas habituais resolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o-vinculativas, e os Estados Unidos bloqueiam no Conselho de Seguran\u00e7a qualquer resolu\u00e7\u00e3o vinculativa. Os outros membros do Conselho de Seguran\u00e7a negoceiam uma resolu\u00e7\u00e3o comum, que poupa aos EUA o impopular recurso ao veto, e acabam por aceitar um consenso est\u00e9ril, que chora umas l\u00e1grimas de crocodilo sobre a cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria, mas que n\u00e3o diz uma palavra sobre a urg\u00eancia de um cessar-fogo.<br><br>A Uni\u00e3o Europeia come\u00e7a tamb\u00e9m a chorar as suas l\u00e1grimas de crocodilo, e com ela a diplomacia portuguesa, sem se mostrarem preocupadas com as cem Hiroshimas que j\u00e1 se abateram sobre Gaza. Os representantes de Israel continuam a ocupar as suas poltronas nas respectivas embaixadas.<br>Dos pol\u00edticos c\u00ednicos e hip\u00f3critas que governam as grandes pot\u00eancias, nada se pode esperar. Mas h\u00e1 felizmente muito a esperar de um movimento de massas que atinge propor\u00e7\u00f5es s\u00f3 compar\u00e1veis \u00e0quele que combateu a invas\u00e3o do Iraque em 2003.<br><br>Em Londres, na Irlanda, em Espanha e nos Estados Unidos e mesmo em pa\u00edses onde as manifesta\u00e7\u00f5es foram proibidas, como a Fran\u00e7a ou a Alemanha, centenas de milhares de pessoas encheram as ruas em protesto contra a agress\u00e3o israelita e em solidariedade com a resist\u00eancia palestiniana. Como resultado da campanha de boicote contra Puma, iniciada em 2018, a marca, acusada de cumplicidade com o apartheid israelita por patrocinar a Federa\u00e7\u00e3o de futebol de Israel que mant\u00e9m clubes nos colonatos, acaba de anunciar que n\u00e3o renovar\u00e1 o seu contrato. Nos portos de Barcelona, da B\u00e9lgica e da Calif\u00f3rnia, os estivadores recusaram-se a carregar armamento destinado a Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Portugal, o movimento de solidariedade nas ruas n\u00e3o tem atingido a mesma envergadura que nestes pa\u00edses. Mas uma campanha direcionada para cortar as pontes entre o sionismo e sectores da economia ou da sociedade que este procura influenciar pode ser a chave para uma contribui\u00e7\u00e3o portuguesa na campanha global contra o genoc\u00eddio. H\u00e1 exemplos muito recentes a seguir, como o da realizadora Catarina Vasconcelos, que retirou o seu filme em competi\u00e7\u00e3o no IDFA, ap\u00f3s a direc\u00e7\u00e3o deste prestigiado festival de cinema de Amsterdam ter condenado um grupo de participantes que tinha ousado gritar \u201c<em>From the river to the sea, Palestine will be free<\/em>\u201d. E h\u00e1 o exemplo dos quase duzentos profissionais de sa\u00fade que assinaram uma carta aberta apelando ao cessar-fogo e ao fim do bloqueio a Gaza e do apartheid israelita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 com a nossa participa\u00e7\u00e3o activa no movimento internacional de Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es \u2013 BDS \u2013 que em Portugal podemos contribuir para uma Palestina livre da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Elsa Sert\u00f3rio, membro do Comit\u00e9 de Solidariedade com a Palestina<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda antes de chegar o novo ano, dobrou-se o cabo dos 20.000 mortos em Gaza sob o fogo de armas israelitas. 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