{"id":4885,"date":"2023-10-25T19:28:02","date_gmt":"2023-10-25T18:28:02","guid":{"rendered":"https:\/\/mas.org.pt\/?p=4885"},"modified":"2023-10-25T19:30:02","modified_gmt":"2023-10-25T18:30:02","slug":"quem-e-terrorista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2023\/10\/25\/quem-e-terrorista\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 terrorista?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia do ataque levado a cabo em 7 de outubro por for\u00e7as do Hamas contra bases militares e instala\u00e7\u00f5es civis em territ\u00f3rio israelita, imp\u00f4s-se em grande parte da imprensa um livro de estilo n\u00e3o-escrito, que tacitamente obriga a designar o Hamas como \u201cterrorista\u201d. Os motivos para a designa\u00e7\u00e3o estariam no ataque sem pr\u00e9via declara\u00e7\u00e3o de guerra, na morte ou sequestro de civis e nos requintes de crueldade descritos por v\u00e1rias testemunhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A designa\u00e7\u00e3o de \u201cterrorista\u201d tem uma hist\u00f3ria longa e conv\u00e9m lembrar duas ou tr\u00eas coisas a seu respeito. Ela \u00e9 quase sempre aplicada a quem se insurge contra uma opress\u00e3o de tal modo esmagadora que d\u00e1 por suposta a inutilidade de qualquer resist\u00eancia. Aquilo que faz o ou a \u201cterrorista\u201d n\u00e3o s\u00e3o os m\u00e9todos mais ou menos violentos, e em qualquer caso sempre menos mort\u00edferos que os da pot\u00eancia opressora. O que faz o \u201cterrorismo\u201d para a opini\u00e3o publicada \u00e9, geralmente, a veleidade de recusar o que devia ser aceite como inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como temos visto abundantemente, tamb\u00e9m na imprensa portuguesa a designa\u00e7\u00e3o de \u201cterrorista\u201d \u00e9 usada correntemente sobre o Hamas, at\u00e9 por jornalistas de reputa\u00e7\u00e3o firmada, a quem, no entanto, nunca passaria pela cabe\u00e7a designar o Estado de Israel como \u201cterrorista\u201d. Tamb\u00e9m em Portugal a palavra tem a sua hist\u00f3ria, que ajuda a entender este seu actual regime de utiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a Segunda Guerra Mundial, a maioria da imprensa portuguesa (e n\u00e3o s\u00f3 jornais declaradamente fascistas como a \u00c9poca ou o Di\u00e1rio da Manh\u00e3) fazia-se eco da designa\u00e7\u00e3o de \u201cterroristas\u201d propalada pelos servi\u00e7os de Goebbels contra os movimentos de resist\u00eancia na Europa ocupada. E esses servi\u00e7os esgani\u00e7avam-se com uma particular estrid\u00eancia sempre que os membros da resist\u00eancia fossem judeus, porque a\u00ed se tratava precisamente daquela parte da popula\u00e7\u00e3o que era suposto deixar-se conduzir \u00e0s c\u00e2maras de g\u00e1s \u201ccomo carneiros para o matadouro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a imprensa portuguesa dos anos 1960 e in\u00edcio dos anos 1970, eram \u201cterroristas\u201d as grandes figuras da liberta\u00e7\u00e3o africana \u2013 desde logo Eduardo Mondlane, Am\u00edlcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, mas tamb\u00e9m Ben Bella, Patrice Lumumba, Kwame Nkrumah, Nelson Mandela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ligeireza com que a palavra era usada nos tempos do fascismo teve uma natural contrapartida na desenvoltura com que depois foi arquivada na era das independ\u00eancias africanas. Como era preciso fazer neg\u00f3cios com as cleptocracias que iam crescendo nas ex-col\u00f3nias portuguesas, os mesmos que antes acusavam os dirigentes angolanos de \u201cterroristas\u201d passaram a indignar-se com qualquer den\u00fancia da corrup\u00e7\u00e3o angolana. E o mesmo dirigente do ELP que em tempos fora expulso do Ex\u00e9rcito portugu\u00eas por roubar batatas tornou-se grande amigo de Nino Vieira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas at\u00e9 em regime de democracia se continuou a encarar como \u201cterroristas\u201d os dirigentes das lutas de liberta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tivessem obtido sucesso (ou que ainda n\u00e3o o tivessem obtido, e a curteza de vistas reinante n\u00e3o concebia que viessem alguma vez a obt\u00ea-lo). Assim, um primeiro-ministro portugu\u00eas deixou claro o seu apoio \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua do \u201cterrorista\u201d Nelson Mandela em Robben Island, por pensar que o apartheid seria eterno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O indiscut\u00edvel \u201cterrorista\u201d que normalmente n\u00e3o era assim designado na imprensa portuguesa, especialmente depois de ter recebido um inacredit\u00e1vel Pr\u00e9mio Nobel da Paz, foi Menahem Begin. Membro da mil\u00edcia colonial-fascista Irgun, ele tinha podido escapar a essa classifica\u00e7\u00e3o enquanto \u201capenas\u201d se dedicou a massacrar popula\u00e7\u00f5es de aldeias \u00e1rabes. S\u00f3 passou a ser considerado um \u201cterrorista\u201d quando teve a infeliz ideia de fazer explodir o Hotel King David, matando quase uma centena de pessoas, entre elas dezenas de brit\u00e2nicos. Anos mais tarde, ainda e sempre com um mandado de captura brit\u00e2nico em seu nome, chegou a primeiro-ministro israelita e a imprensa portuguesa preferiu alinhar com o livro de estilo da norte-americana e ignorar o da brit\u00e2nica: a biografia terrorista de Begin foi quase sempre obliterada e ele passou a ser um \u201cobreiro da paz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, n\u00e3o deixa de ser chocante que grande parte da imprensa portuguesa falada e escrita siga agora o gui\u00e3o das imprensas dos EUA e de Israel. Quando o soldado israelita Elor Azaria &nbsp;abateu friamente o prisioneiro palestiniano agonizante Abed al-Fattah Yusri al-Sharif n\u00e3o foi considerado um \u201cterrorista\u201d. Em Israel foi condenado a 18 meses de pris\u00e3o, mas grande parte da opini\u00e3o p\u00fablica celebrou-o como um \u201cher\u00f3i\u201d. J\u00e1 um adolescente palestiniano que pendure uma bandeira do seu pa\u00eds num sinal de tr\u00e2nsito \u00e9 abatido sem contempla\u00e7\u00f5es como \u201cterrorista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal como na guerra colonial portuguesa, \u00e9 relativamente f\u00e1cil calcular o n\u00famero de militares portugueses mortos pela guerrilha, mas muito mais dif\u00edcil calcular o n\u00famero, incomparavelmente superior, de civis africanos mortos pela tropa colonial. O n\u00famero de v\u00edtimas israelitas do ataque do Hamas parece estar agora nos 1.300. O n\u00famero de v\u00edtimas palestinianas ao longo dos \u00faltimos anos tem subido constantemente. Quantas ser\u00e3o por cada v\u00edtima israelita \u2013 5, 10, 20? Quantas ser\u00e3o agora, que ministros genocidas de Israel se referem \u00e0s pessoas da Faixa de Gaza como \u201canimais\u201d e que recebem luz verde das democracias ocidentais para matarem quantas quiserem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ataque levado a cabo pelo Hamas foi uma ac\u00e7\u00e3o que, apesar do efeito de surpresa e de um planeamento surpreendentemente eficaz, n\u00e3o fazia qualquer sentido de um ponto de vista militar. De um ponto de vista pol\u00edtico, s\u00f3 o futuro dir\u00e1 se daqui pode resultar um sinal de alarme para o mundo que tinha esquecido a exist\u00eancia do povo palestiniano, e tamb\u00e9m um sobressalto para as pol\u00edticas \u00e1rabes de normaliza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es com uma pot\u00eancia colonizadora e genocida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Admitindo que tamb\u00e9m o balan\u00e7o pol\u00edtico venha a ser negativo, e que portanto toda a ac\u00e7\u00e3o venha a revelar-se como completamente est\u00fapida, n\u00e3o devemos confundir estupidez com ilegitimidade. A resist\u00eancia \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma superpot\u00eancia regional que todos os dias leva a cabo ac\u00e7\u00f5es de guerra n\u00e3o declarada contra o L\u00edbano ou contra a S\u00edria, e frequentemente tamb\u00e9m contra o Ir\u00e3o, que regularmente bombardeia alvos em Gaza, assassina ou prende suspeitos pela calada da noite, essa superpot\u00eancia n\u00e3o pode nunca queixar-se do que noutro contexto as Conven\u00e7\u00f5es de Genebra considerariam efectivamente um crime de guerra. Atacar Israel foi uma decis\u00e3o talvez est\u00fapida mas certamente leg\u00edtima por parte do Hamas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra pr\u00e1tica tipificada como crime de guerra na lei internacional \u00e9 a de capturar, deportar ou matar civis. \u00c9 aquilo que Israel toda a vida tem feito, em n\u00fameros incomparavelmente superiores, e que agora se prepara para fazer no quadro de uma segunda Nakba \u2013 uma limpeza \u00e9tnica de milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o podemos refugiar-nos numa discuss\u00e3o whataboutista perante a pergunta: E n\u00e3o cometeu o Hamas crimes desses, nas bases militares e nas povoa\u00e7\u00f5es que atacou? Sim, certamente. Alguns deles est\u00e3o documentados, como a captura de pessoas de idade ou de crian\u00e7as. A captura e sequestro de pessoas com estas caracter\u00edsticas \u00e9 altamente conden\u00e1vel e por isso faz todo o sentido a proposta do Qatar de que sejam imediatamente trocadas por anci\u00e3os ou crian\u00e7as palestinianas nas cadeias israelitas. Mesmo que, previsivelmente, os carcereiros israelitas n\u00e3o aceitem a proposta qatari, o Hamas deveria libertar os velhos e crian\u00e7as, nesse caso unilateralmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outras pessoas capturadas seriam tamb\u00e9m civis inocentes e surpreendidos no s\u00edtio errado \u00e0 hora errada. Conv\u00e9m entretanto lembrar que os colonos israelitas n\u00e3o s\u00e3o civis e sim milicianos da ocupa\u00e7\u00e3o, sempre com treino militar, com armas pr\u00f3prias mesmo que n\u00e3o as tivessem consigo no momento da captura. Qualquer homem ou mulher em idade de empunhar uma arma devia ser presumido pelas tropas do Hamas como combatente inimigo e tratado como prisioneiro de guerra (n\u00e3o segundo as normas de Elor Azaria).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa guerra justa tamb\u00e9m se cometem crimes de guerra. A diferen\u00e7a \u00e9 que esses crimes prejudicam a causa da liberta\u00e7\u00e3o e devem portanto ser combatidos por n\u00f3s, que a apoiamos. Numa guerra colonial e genocida, como a do Ex\u00e9rcito israelita, os crimes de guerra s\u00e3o um instrumento imprescind\u00edvel do terror que se quer exercer sobre as popula\u00e7\u00f5es civis. Por isso, a imprensa que fecha os olhos \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o nunca ter\u00e1 esse m\u00ednimo de equanimidade que consistiria em aplicar ao genoc\u00eddio sionista a designa\u00e7\u00e3o de \u201cterrorista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, Historiador<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Texto publicado em <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/palestinavence.blogs.sapo.pt\/quem-e-terrorista-90037\" target=\"_blank\">https:\/\/palestinavence.blogs.sapo.pt\/quem-e-terrorista-90037<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sequ\u00eancia do ataque levado a cabo em 7 de outubro por for\u00e7as do Hamas contra bases militares e instala\u00e7\u00f5es civis em territ\u00f3rio israelita, imp\u00f4s-se em grande parte da imprensa um livro de estilo n\u00e3o-escrito, que tacitamente obriga a designar o Hamas como \u201cterrorista\u201d. Os motivos para a designa\u00e7\u00e3o estariam no ataque sem pr\u00e9via declara\u00e7\u00e3o de guerra, na morte ou sequestro de civis e nos requintes de crueldade descritos por v\u00e1rias testemunhas. A designa\u00e7\u00e3o de \u201cterrorista\u201d tem uma hist\u00f3ria longa e conv\u00e9m lembrar duas ou tr\u00eas coisas a seu respeito. Ela \u00e9 quase sempre aplicada a quem se insurge contra<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4886,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[4,35,26],"tags":[284,120,123,415],"class_list":["post-4885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-internacional","category-medio-oriente","category-palestina","tag-hamas","tag-palestina","tag-sionismo","tag-terrorismo"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/palestianos2.jpg?fit=1200%2C800","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4885"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4888,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4885\/revisions\/4888"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4886"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}