{"id":4744,"date":"2023-05-15T10:09:52","date_gmt":"2023-05-15T09:09:52","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4744"},"modified":"2023-05-15T10:09:55","modified_gmt":"2023-05-15T09:09:55","slug":"75-anos-de-nakba","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2023\/05\/15\/75-anos-de-nakba\/","title":{"rendered":"<strong>75 anos de Nakba<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o de Israel, oficialmente declarada em 15 de maio de 1948, marcou o in\u00edcio da &#8220;cat\u00e1strofe&#8221; (\u2018Nakba\u2019), o longo ex\u00edlio, com a expuls\u00e3o do povo palestiniano a ser celebrada pela instala\u00e7\u00e3o de outro povo no seu lugar. Chegamos assim a mais um ano de comemora\u00e7\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o deste estado baseado num regime de apartheid, sem que se vislumbre, mais uma vez, um fim para o conflito. A apropria\u00e7\u00e3o de terras, a limpeza \u00e9tnica e as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos perpetradas por Israel contra os palestinianos continuam a ser incessantes, impunes e imput\u00e1veis<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este ano assinala-se o 75\u00ba anivers\u00e1rio desde que Israel foi estabelecido como Estado, sobre as ru\u00ednas da Palestina, j\u00e1 que, para que esta nova \u201cp\u00e1tria judia\u201d fosse, demograficamente, sustent\u00e1vel, ou seja, para que se garantisse que a maioria da popula\u00e7\u00e3o fosse efectivamente judia, nos meses anteriores \u00e0 da independ\u00eancia, em 1948, as mil\u00edcias e for\u00e7as militares sionistas iniciaram uma limpeza \u00e9tnica de grande parte das cidades e vilas palestinianas, conduzindo \u00e0 expuls\u00e3o de mais de 80% desta popula\u00e7\u00e3o. Foram ent\u00e3o implementadas leis que, por um lado, negaram aos palestinianos o direito a reentrarem no seu territ\u00f3rio e, por outro, expropriaram as terras e casas daqueles mesmos palestinianos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este sistema legal, de base racista, vigora at\u00e9 aos dias de hoje, podendo ser ilustrado com o seguinte exemplo de dois cidad\u00e3os portugueses, nascidos em Portugal. O cidad\u00e3o portugu\u00eas A, filho de palestinianos, expulsos da Palestina, em 1948, n\u00e3o pode, mesmo detendo nacionalidade e passaporte portugueses, visitar a terra dos pais. O cidad\u00e3o portugu\u00eas B, judeu, certificado por um rabi (autoridade religiosa), pode n\u00e3o s\u00f3 visitar, como obter cidadania israelita e viver no local de onde foi expulsa a fam\u00edlia do cidad\u00e3o A.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, para os cerca de 20% de cidad\u00e3os israelitas, de ascend\u00eancia palestiniana (com origem nas fam\u00edlias que n\u00e3o foram expulsas), contam com v\u00e1rias dezenas de leis que os discriminam negativamente. Em 2018, no contexto da deriva autorit\u00e1ria e de extrema-direita do Governo israelita, foi aprovada uma emenda \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o que reitera Israel como Estado-na\u00e7\u00e3o judeu e consagra a minoria palestiniana como cidad\u00e3os de segunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra de 1948 deixou a sociedade palestiniana sem l\u00edderes, desorganizada e dispersa. Este acontecimento n\u00e3o foi um resultado inevit\u00e1vel do conflito entre judeus e \u00e1rabes na Palestina. Pelo contr\u00e1rio, foi uma pol\u00edtica deliberada de limpeza \u00e9tnica levada a cabo pelas mil\u00edcias sionistas, encorajada pelas autoridades coloniais brit\u00e2nicas que procuravam manter o seu controlo sobre a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a natureza do Estado israelita n\u00e3o se satisfaz com as fronteiras que lhe foram inicialmente atribu\u00eddas, a sua expans\u00e3o, com a expuls\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o de palestinianos, tamb\u00e9m se mant\u00e9m at\u00e9 aos dias de hoje. V\u00e1rias d\u00e9cadas ap\u00f3s a descoloniza\u00e7\u00e3o oficial de \u00c1frica pelos Estados europeus, em pleno s\u00e9culo XXI, Israel promove a coloniza\u00e7\u00e3o de terras retiradas aos palestinianos por indiv\u00edduos de cidadania israelita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Nakba n\u00e3o terminou em 1948. Continua at\u00e9 hoje, com Israel a expandir os seus colonatos e a anexar mais terras palestinas, em viola\u00e7\u00e3o do direito internacional. Nas d\u00e9cadas seguintes, assistimos ao crescimento da for\u00e7a e do dom\u00ednio deste novo &#8220;Estado&#8221;, que se tornou uma superpot\u00eancia regional. Atualmente, Israel \u00e9 uma pot\u00eancia nuclear com um ex\u00e9rcito classificado como o quinto maior do mundo. Goza do apoio incondicional dos pa\u00edses ocidentais, especialmente dos Estados Unidos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Estados Unidos fornecem a Israel armamento avan\u00e7ado, partilha de informa\u00e7\u00f5es e apoio pol\u00edtico e diplom\u00e1tico. O Ocidente considera-o como parte integrante do mundo ocidental. A Uni\u00e3o Europeia concedeu a Israel um estatuto privilegiado no com\u00e9rcio e no acesso aos programas de investiga\u00e7\u00e3o da UE, como se fosse um Estado europeu. Por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de Israel, neste Abril passado, a presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Ursula von der Leyen, esmerou-se em elogios a Israel, chegando mesmo a dizer que Israel tinha &#8220;feito florescer o deserto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Quanto \u00e0s v\u00edtimas da cria\u00e7\u00e3o de Israel, os palestinos, for\u00e7ados a perder quase tudo, n\u00e3o mereceram qualquer honra ou louvor, nem lhes foi atribu\u00eddo qualquer estatuto. Desde 1948, \u00e0 medida que Israel foi ganhando poder e prest\u00edgio, os palestinianos t\u00eam lutado at\u00e9 ao fim para preservar o que resta da sua presen\u00e7a na terra, da sua hist\u00f3ria e da sua mem\u00f3ria coletiva contra uma formid\u00e1vel campanha israelita para os apagar. Atualmente, mais de 60% dos cerca de 14,3 milh\u00f5es de palestinianos est\u00e3o deslocados. Os restantes encontram-se nos territ\u00f3rios ocupados, na Faixa de Gaza e em Israel, onde t\u00eam sido objeto de discrimina\u00e7\u00e3o e de surtos de viol\u00eancia comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;E a cada ano que passa, a situa\u00e7\u00e3o dos povo palestino apenas piora. A elei\u00e7\u00e3o, em dezembro de 2022, de um governo israelita de linha dura, composto por extremistas religiosos e fan\u00e1ticos ultranacionalistas, agravou profundamente a situa\u00e7\u00e3o dos palestinianos. O programa pol\u00edtico do novo governo baseia-se na anexa\u00e7\u00e3o de terras palestinianas, no apartheid e na limpeza \u00e9tnica &#8211; tudo sustentado por um pressuposto de supremacia judaica. Os efeitos desta ideologia s\u00e3o bem vis\u00edveis no aumento da persegui\u00e7\u00e3o dos palestinianos desde a entrada do novo governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 de surpreender. Israel tem seguido um programa de pol\u00edtica anti-palestina desde 1948, de forma descarada ou dissimulada. Como descrever de outra forma a expuls\u00e3o da maior parte da popula\u00e7\u00e3o palestiniana em 1948, repetida em 1967 e continuada desde ent\u00e3o, a ocupa\u00e7\u00e3o militar da Cisjord\u00e2nia, de Gaza e de Jerusal\u00e9m Oriental, a constru\u00e7\u00e3o de colonatos, o cerco desumano de Gaza, e o regime de apartheid imposto aos palestinianos? De certa forma, o atual governo de Netanyahu at\u00e9 deve ser felicitado por expor esta feia realidade de forma t\u00e3o flagrante, em contraste com a apresenta\u00e7\u00e3o enganosa feita pela UE de Israel como uma democracia segundo o modelo ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 j\u00e1 muito que a atua\u00e7\u00e3o de Israel deveria ter suscitado a repulsa da comunidade internacional e uma firme rejei\u00e7\u00e3o do sionismo. Mas, at\u00e9 hoje, nada disso aconteceu. Para os aliados ocidentais de Israel, tudo continua como sempre, com um Estado que viola regularmente o direito internacional, ataca os seus vizinhos, oprime os palestinianos, cujas terras ocupa, e lhes imp\u00f5e um sistema de apartheid. E, por isso, o Ocidente abra\u00e7ou Israel como uma parte estimada do seu rebanho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o territ\u00f3rio entre o rio Jord\u00e3o e o mar Mediterr\u00e2neo \u00e9 uma entidade \u00fanica, sob a administra\u00e7\u00e3o de um governo israelita soberano. O resultado \u00e9 que Israel\/Palestina em 2023 \u00e9 um Estado \u00fanico, mas desigual, com direitos e classes de cidadania diferenciados. A sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por 6,8 milh\u00f5es de judeus israelitas com cidadania e direitos plenos, 1,8 milh\u00f5es de palestinianos com cidadania israelita, mas direitos limitados, e 4,7 milh\u00f5es de palestinianos sem cidadania e sem direitos. Este \u00faltimo grupo est\u00e1 sujeito a um sistema de apartheid israelita bem documentado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O 75.\u00ba anivers\u00e1rio da Nakba ocorre numa conjuntura cr\u00edtica e perigosa, j\u00e1 que se tem assistido a uma escalada implac\u00e1vel das interven\u00e7\u00f5es violentas israelitas contra os palestinianos nos territ\u00f3rios ocupados e em Gaza, que come\u00e7ou com a \u2018intifada (revolta) da unidade\u2019 em 2021. Em 2021, 313 palestinianos, incluindo 71 menores, foram alegadamente mortos na Faixa de Gaza e na Cisjord\u00e2nia (incluindo Jerusal\u00e9m Oriental) pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a israelitas. Um recorde de 204 palestinianos foram alegadamente mortos em 2022, tornando-o o ano mais mortal para os palestinianos na Cisjord\u00e2nia desde 2005. Em 2023, contam-se at\u00e9 ao momento 96 palestinianos que foram mortos durante os primeiros quatro meses de 2023. E assim continua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 agora, Israel tem conseguido levar a cabo esta injusti\u00e7a devido \u00e0 permissividade do Ocidente em rela\u00e7\u00e3o aos crimes israelitas e \u00e0 exist\u00eancia da Autoridade Palestiniana, que absolve Israel da responsabilidade pelos palestinianos ocupados. \u00c0 medida que este acordo come\u00e7a a desfazer-se, come\u00e7ando com as revoltas comunit\u00e1rias palestinianas, sem precedentes, de maio de 2021, que visavam tanto a AP como Israel, o resultado inevit\u00e1vel de tudo isto aproxima-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Nakba n\u00e3o \u00e9 apenas um acontecimento hist\u00f3rico, mas um processo cont\u00ednuo de desapropria\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o. Os palestinianos continuam a ser v\u00edtimas de discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia por parte das for\u00e7as israelitas e dos colonos, bem como da falta de direitos humanos b\u00e1sicos, como a liberdade de circula\u00e7\u00e3o e o acesso \u00e0 \u00e1gua e a outros recursos. A comunidade internacional, em especial as pot\u00eancias ocidentais, como os Estados Unidos, n\u00e3o quis responsabilizar Israel pelas suas viola\u00e7\u00f5es dos direitos dos palestinianos, dando, em vez disso, apoio diplom\u00e1tico e militar \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Nakba n\u00e3o foi um acidente, mas um ato deliberado de injusti\u00e7a. N\u00e3o existe solu\u00e7\u00e3o justa e democr\u00e1tica para este \u201cconflito\u201d, sem ter em conta o direito ao regresso dos palestinianos expulsos, assim como os seus descendentes, ou o fim do apartheid legal que vigora e vai sendo refor\u00e7ado, actualmente, no Estado de Israel e territ\u00f3rios por ele ocupados. N\u00e3o existe solu\u00e7\u00e3o justa e democr\u00e1tica que inclua um estado racista e colonialista que serve de posto avan\u00e7ado do imperialismo no M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 partindo de um boicote, que os trabalhadores solid\u00e1rios de todos os pa\u00edses, podem lutar pelo fim deste apoio e por san\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am desmoronar o estado racista, para que se erga, no seu lugar, uma Palestina multi\u00e9tnica, laica, democr\u00e1tica e inclusiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Nakba n\u00e3o terminou em 1948. 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