{"id":4647,"date":"2023-01-04T10:00:00","date_gmt":"2023-01-04T09:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4647"},"modified":"2023-01-04T01:35:11","modified_gmt":"2023-01-04T00:35:11","slug":"brasil-apoiar-as-medidas-progressivas-de-lula-alckmin-o-que-nos-diz-a-experiencia-com-a-geringonca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2023\/01\/04\/brasil-apoiar-as-medidas-progressivas-de-lula-alckmin-o-que-nos-diz-a-experiencia-com-a-geringonca\/","title":{"rendered":"Brasil: apoiar as \u201cmedidas progressivas\u201d de Lula-Alckmin? O que nos diz a experi\u00eancia com a Geringon\u00e7a?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lula venceu as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais brasileiras e assumiu, neste m\u00eas de Janeiro de 2023, o cargo de presidente. Lula consegue derrotar Bolsonaro atrav\u00e9s de um amplo arranjo com in\u00fameros sectores das classes dominantes brasileiras, entre os quais se incluem outrora aliados de Bolsonaro. Alckmin, vice-presidente de Lula, \u00e9 a figura que representa tal arranjo. As poderosas elites imperialistas, nomeadamente, a Administra\u00e7\u00e3o Biden, n\u00e3o ficaram de fora do acordo. <strong>Todos estes sectores procurar\u00e3o aumentar os seus benef\u00edcios, algo que Bolsonaro n\u00e3o garantia, pelo menos, n\u00e3o com a estabilidade que se espera.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bolsonaro e o seu projecto autorit\u00e1rio foram eleitoralmente derrotados, mas o movimento pol\u00edtico permanece com uma influ\u00eancia massiva na sociedade brasileira. A vantagem eleitoral de Lula \u00e9 m\u00ednima e est\u00e1 ref\u00e9m de um arranjo contr\u00e1rio aos interesses da grande maioria da sua base eleitoral: a juventude e as classes trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui chegados, n\u00e3o podemos deixar de assinalar que o arranjo que sustenta o pr\u00f3ximo Governo Lula-Alckmin, apesar das diferen\u00e7as espec\u00edficas, pertence ao mesmo g\u00e9nero da <em>Geringon\u00e7a<\/em> portuguesa. Governos de recurso, em momentos de profunda crise capitalista, compostos ou apoiados por partidos de esquerda, como forma de iludir as classes trabalhadoras de que os seus problemas ser\u00e3o resolvidos, mas umbilicalmente ligados \u00e0 defesa dos interesses das classes dominantes. Pela experi\u00eancia que a esquerda portuguesa &#8211; BE e PCP &#8211; fez, durante 6 anos, com o Governo PS, interessa-nos contribuir para o papel da esquerda brasileira, nomeadamente, do PSOL, face ao pr\u00f3ximo Governo Lula-Alck<strong>min.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um erro que n\u00e3o foi<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a campanha eleitoral, o PSOL optou pelo apoio pol\u00edtico, participa\u00e7\u00e3o na campanha e apelo ao voto em Lula em alian\u00e7a com as elites brasileiras, logo desde o primeiro turno. Na nossa opini\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o na campanha e o apelo ao voto na candidatura Lula-Alckmin est\u00e3o dentro de t\u00e1cticas poss\u00edveis. No entanto, a t\u00e1ctica eleitoral adoptada pelo PSOL foi mais longe e pecou, em boa medida, pelo apoio pol\u00edtico acr\u00edtico ao projecto de Lula-Alckmin. Ou seja, na nossa opini\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o do PSOL na campanha eleitoral de Lula-Alckmin, assim como o apelo ao voto em Lula n\u00e3o deveria ter implicado um apoio ao projecto pol\u00edtico dessa mesma candidatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A campanha do PSOL contribuiu mais para a falsa concep\u00e7\u00e3o de que um futuro Governo Lula-Alckmin defender\u00e1 os interesses das classes trabalhadoras, que propriamente ajudar a expor o seu verdadeiro car\u00e1cter: uma candidatura de um partido de esquerda cooptado pelo sistema \u2013 o PT \u2013 que, apoiado em promessas de defesa dos sectores sociais mais empobrecidos, preparou, na verdade, um governo ao servi\u00e7o dos interesses dos ricos e poderosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto a participa\u00e7\u00e3o do PSOL na campanha, como a orienta\u00e7\u00e3o de voto em Lula-Alckmin deveriam ter sido feitas mesmo que acompanhadas da den\u00fancia do projecto pol\u00edtico daqueles protagonistas. A t\u00e1ctica eleitoral deveria ter sido a utiliza\u00e7\u00e3o da candidatura de Lula-Alckmin, sem lhe prestar qualquer apoio, para derrotar Bolsonaro, e n\u00e3o a de ajudar a dar cobertura ao projecto de Lula-Alckmin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este n\u00e3o foi um erro inocente, pois o sector mais \u00e0 direita do PSOL preparou-se e estava pronto para, alegremente, integrar o Governo Lula-Alckmin, posi\u00e7\u00e3o que, correctamente, acabou (parcialmente) derrotada no interior do partido.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Apoiar as supostas \u201cmedidas progressivas\u201d?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, afastada a possibilidade de o PSOL integrar o Governo Lula-Alckmin, a nosso ver, persiste um outro problema. A maioria do PSOL que evitou a integra\u00e7\u00e3o do partido no Governo Lula-Alckmin, parece utilizar este elemento como moeda de troca para ceder \u00e0s gigantescas press\u00f5es das ilus\u00f5es das massas e apoiar aquilo que apelidam de \u201cmedidas progressivas\u201d do Governo Lula-Alckmin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez que Lula conquista um forte apoio eleitoral e, com ele, alimenta as ilus\u00f5es de prosperidade para as classes trabalhadoras, \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua fazer evidenciar o seu verdadeiro car\u00e1cter de governo das elites. Para n\u00e3o chocar de frente com tamanhas ilus\u00f5es, uma parte do PSOL n\u00e3o v\u00ea sequer inconveniente em entrar no Governo Lula e a outra parte fica a meio caminho, prestando-se a apoiar as suas supostas \u201cmedidas progressivas\u201d para tentar mediar a n\u00e3o entrada no Governo Lula-Alckmin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O MES, uma das correntes mais representativas da ala esquerda do PSOL, nas <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/movimentorevista.com.br\/2022\/11\/um-breve-balanco-das-taticas-do-psol-e-as-tarefas-estrategicas-do-partido\/\" target=\"_blank\">palavras do seu dirigente Roberto Robaina<\/a>, afirma que \u201coptar por entrar no governo [\u2026] \u00e9 abandonar a raz\u00e3o de ser do PSOL\u201d, mas que o PSOL se deve manter \u201capoiando as medidas progressistas que o governo adotar, quando adotar\u201d, pois a \u201cnossa obriga\u00e7\u00e3o primeira \u00e9 [\u2026] seguir lutando contra a extrema direita\u201d. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9: \u201cface \u00e0 amea\u00e7a da extrema-direita, n\u00e3o faremos parte do governo, mas apoiaremos as suas medidas progressivas, pois este \u00e9 um governo progressivo\u201d. <strong>Esta orienta\u00e7\u00e3o encerra v\u00e1rios problemas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, argumentar que o PSOL n\u00e3o lutar\u00e1 por cargos de governa\u00e7\u00e3o, sem explicitar que n\u00e3o o faz neste preciso Governo Lula-Alckmin, nem em qualquer governo que defenda os interesses das elites, soa a uma qualquer justifica\u00e7\u00e3o infantil anarquista, contr\u00e1ria a assumir cargos de governa\u00e7\u00e3o (!), como se o PSOL n\u00e3o tivesse j\u00e1 assumido cargos de governa\u00e7\u00e3o antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, aquela orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 aliena a den\u00fancia do verdadeiro car\u00e1cter do projecto Lula-Alckmin em troca do apoio \u00e0s (uma vez mais) supostas \u201cmedidas progressivas\u201d, como alimenta a ilus\u00e3o de que o Governo Lula-Alckmin, mesmo antes de estar em fun\u00e7\u00f5es, poder\u00e1 vir a adoptar \u201cmedidas progressivas\u201d. <strong>E aqui h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o de ferro: ou o Governo Lula-Alckmin \u00e9 representante e agente dos interesses dos poderosos (um governo burgu\u00eas em sentido cl\u00e1ssico do termo), o que n\u00e3o nos parece suscitar d\u00favidas, ou ser\u00e1 um governo suscept\u00edvel de adoptar verdadeiras medidas anti-sist\u00e9micas, a favor das classes trabalhadoras. As duas hip\u00f3teses n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, o MES, esgrime oportunisticamente o argumento que lhe permite n\u00e3o serem empurrados para fora da onda lulista &#8211; apoiar as supostas \u201cmedidas progressivas\u201d do governo para combater a extrema-direita &#8211; , ainda eleitoralmente prestigiada, at\u00e9 porque n\u00e3o entrou em fun\u00e7\u00f5es, para encobrir a justa denuncia do conte\u00fado do projecto Lula-Alckmin, contr\u00e1rio aos interesses da juventude e dos trabalhadores, ao mesmo tempo que insiste na falsa ideia de que esta \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o que garante a independ\u00eancia pol\u00edtica do PSOL.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lamentavelmente, este erro tamb\u00e9m se expressa na pol\u00edtica dos nossos ex-camaradas da <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2022\/12\/08\/com-lula-contra-o-bolsonarismo-o-lugar-do-psol-e-nas-ruas-e-nas-lutas-1\/\" target=\"_blank\">Resist\u00eancia<\/a>. Essa vai muito al\u00e9m, pois al\u00e9m de chamar apoio \u00e0s \u201cmedidas progressivas\u201d, deposita votos de confian\u00e7a em Lula, alimenta a ilus\u00e3o de que seu governo est\u00e1 \u201cem disputa\u201d e &nbsp;vem cumprindo cada vez mais um papel decisivo no giro do PSOL a um apoio acr\u00edtico ao governo Lula e \u00e0 sua frente ampla com a burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Resist\u00eancia posiciona-se contra a entrada do PSOL no governo, mas foi quem garantiu uma articula\u00e7\u00e3o, junto da direita do PSOL, para construir uma declara\u00e7\u00e3o amb\u00edgua que permite a participa\u00e7\u00e3o nos mandatos. A Resist\u00eancia foi a respons\u00e1vel por garantir que n\u00e3o se aprovasse uma resolu\u00e7\u00e3o definitiva contra tal participa\u00e7\u00e3o. A Resist\u00eancia tamb\u00e9m apoiou a entrada do PSOL no bloco parlamentar do governo, junto com in\u00fameros partidos burgueses e de direita, incluindo ex-bolsonaristas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>N\u00e3o devemos apoiar qualquer medida do Governo Lula-Alckmin<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o partilhamos da orienta\u00e7\u00e3o seguida pelo MES e pela Resist\u00eancia e passamos a explicar o nosso ponto de vista, tendo como refer\u00eancia a recente experi\u00eancia da Geringon\u00e7a portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em primeiro lugar, a quest\u00e3o fundamental<\/strong>. Na base da orienta\u00e7\u00e3o do MES e da Resist\u00eancia encontra-se um importante erro de caracteriza\u00e7\u00e3o dos governos do tipo Lula-Alckmin. Estes s\u00e3o governos de frente-popular (uma vez mais: governos burgueses), governos de concilia\u00e7\u00e3o entre classes antag\u00f3nicas que procuraram iludir a classe trabalhadora, enquanto dissimuladamente lhe imp\u00f5em os interesses da classe dominante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O MES e, mais explicitamente, a Resist\u00eancia fazem crer que o Governo Lula-Alckmin poderia tomar verdadeiras \u201cmedidas progressivas\u201d, ou seja, medidas contra os interesses das elites que representam, pelo que este Governo conformaria j\u00e1 um campo \u201cprogressivo\u201d, por oposi\u00e7\u00e3o ao campo regressivo de Bolsonaro que apenas tomou medidas a favor dos interesses dos ricos e poderosos. A Resist\u00eancia chega a afirmar que no governo haveria uma disputa entre as fra\u00e7\u00f5es do Capital e Lula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta caracteriza\u00e7\u00e3o baseada na dicotomia de campos \u201cprogressivo-regressivo\u201d est\u00e1 completamente errada e se os camaradas fossem consequentes com tal concep\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o deveriam ter apoiado as supostas \u201cmedidas progressivas\u201d que Bolsonaro foi for\u00e7ado a tomar &#8211; como o aumento da ajuda \u00e0s fam\u00edlias durante a pandemia &#8211; tal como consider\u00e1-lo, pelo menos momentaneamente, parte do tal \u201ccampo progressivo\u201d, sem ter de denunciar que o fez em fun\u00e7\u00e3o e na estrita medida dos seus pr\u00f3prios interesses, como forma de controlar a contesta\u00e7\u00e3o popular e alimentar uma base eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Governo Lula-Alckmin n\u00e3o tomar\u00e1 medidas qualitativas nem substantivas contra os interesses das elites que representam. Pelo seu car\u00e1cter, pela sua composi\u00e7\u00e3o, pelo seu programa, simplesmente, n\u00e3o o far\u00e1, pelo que n\u00e3o poder\u00e1 conformar qualquer \u201ccampo progressivo\u201d. Afirmar o contr\u00e1rio, \u00e9 ignorar conscientemente ou n\u00e3o entender o funcionamento da sociedade capitalista e do sistema de classes em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A candidatura e o Governo de Lula-Alckmin s\u00e3o a resposta das classes dominantes ao descontentamento social crescente que se fez sentir, nos \u00faltimos anos, em m\u00faltiplos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, incluindo no Brasil, nos quais assistimos a verdadeiros levantes revolucion\u00e1rios, golpes de Estado, contragolpes, insurrei\u00e7\u00f5es populares, etc. Hoje, o Per\u00fa vive uma nova insurrei\u00e7\u00e3o popular contra as manobras das suas elites mais conservadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O governo Lula-Alckmin \u00e9 uma manobra das elites brasileiras e dos partidos do sistema para arrefecer, cooptar, desviar, prevenir um poss\u00edvel aumento do descontentamento social, ao mesmo tempo que procuram conquistar alguma estabilidade econ\u00f3mica e financeira para a sua acumula\u00e7\u00e3o de lucros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m em 2015, a Geringon\u00e7a portuguesa foi a resposta preventiva das elites portuguesas, sobretudo, ligadas ao PS, a uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de enorme contesta\u00e7\u00e3o social, na Europa e em Portugal. Apesar do apoio do BE e PCP, a Geringon\u00e7a n\u00e3o representou nada de progressivo, como hoje se pode confirmar. Basta falar na estagna\u00e7\u00e3o salarial, no salvamento da banca corrupta, nas cativa\u00e7\u00f5es sucessivas a que os v\u00e1rios Or\u00e7amentos do Estado foram sujeitos, na crise de habita\u00e7\u00e3o que atravessamos ou na completa ruptura em que os servi\u00e7os p\u00fablicos portugueses se encontram. N\u00e3o que a prefer\u00edssemos, mas arriscamo-nos a afirmar que a direita portuguesa n\u00e3o teria feito melhor servi\u00e7o \u00e0 burguesia portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A t\u00e1ctica de apelo ao voto que foi feito na candidatura de Lula-Alckmin deve ser entendida como instrumental para a derrota eleitoral e imediata de Bolsonaro. Enquanto instrumento para tal fim, esgotou a sua finalidade no dia da vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em segundo e daqui decorrente<\/strong>, n\u00e3o partilhamos da orienta\u00e7\u00e3o de \u201capoiar as medidas progressivas\u201d do Governo Lula-Alckmin. Sendo o Governo Lula-Alckmin um governo das elites para as elites, n\u00e3o adotar\u00e1 verdadeiras medidas de fundo contra as elites, pelo que n\u00e3o adotar\u00e1 qualquer medida que possa ser entendida como verdadeiramente progressiva. Se o Governo Lula retomar, por exemplo, o plano de vacina\u00e7\u00e3o nacional do Brasil, abandonado pelo Governo reacion\u00e1rio e proto fascista de Bolsonaro, ainda que seja uma medida que devemos exigir, sendo satisfeita esta reivindica\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais um meio do governo garantir apoio para outras medidas, por exemplo, de pagamento record da d\u00edvida externa ou de retra\u00e7\u00e3o (\u201carrocho\u201d) salarial. Poder\u00e1 ainda eventualmente aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo ou retomar um novo plano \u201cbolsa fam\u00edlia\u201d, mas todas estas eventuais medidas, mesmo que possam vir a ser defendidas <em>a posteriori<\/em>, se e s\u00f3 se, a extrema-direita se posicionar\/mobilizar contra e\/ou votar contra, mas sabem os revolucion\u00e1rios que Lula as promover\u00e1 para fazer retrair a capacidade global de resposta do movimento de massas diante outras medidas mais gravosas para a classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Orientar o PSOL para apoiar as \u201cmedidas progressivas\u201d, afirmando estar a defender a independ\u00eancia pol\u00edtica do PSOL, \u00e9 triplamente nefasto: <strong>(i)<\/strong> cria e\/ou alimenta a ilus\u00e3o de que existe um suposto campo progressivo, ao qual o Governo Lula-Alckmin pertence; <strong>(ii)<\/strong> cria e\/ou alimenta a ilus\u00e3o de que ser\u00e3o tomadas \u201cmedidas progressivas\u201d e de que estas trar\u00e3o verdadeiros benef\u00edcios \u00e0s classes trabalhadoras; e <strong>(iii)<\/strong> cria e\/ou alimenta a ilus\u00e3o de que a pol\u00edtica do PSOL \u00e9 independente, quando na realidade n\u00e3o o \u00e9 por estar a alimentar as duas ilus\u00f5es acabadas de referir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser \u201cindependente\u201d do governo n\u00e3o se restringe ao facto de n\u00e3o o incorporar com ministros. Est\u00e1 \u00e9 outra fal\u00e1cia. O revolucion\u00e1rio argentino N. Moreno, que formou muitos dos quadros que dirigem hoje as organiza\u00e7\u00f5es que <em>supra<\/em> referimos, foi claro e taxativo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<em>\u201c(\u2026) o oportunista (\u2026) guia-se pela lei absoluta de n\u00e3o se chocar com as massas, muito menos se vai ent\u00e3o chocar quando elas festejam uma medida que parece confirmar as suas expectativas e ilus\u00f5es no governo. Este racioc\u00ednio (do oportunista) f\u00e1-lo cair na famosa f\u00f3rmula de Stalin, de apoio \u00e0s medidas progressivas e de recusa das negativas. Lenin teve que erradicar essa orienta\u00e7\u00e3o que, a continuar, teria frustrado a revolu\u00e7\u00e3o russa (1917). Trotsky considerou essa f\u00f3rmula estalinista como a mais ruim e nefasta dos oportunismos, pois todas as medidas de governo, ainda aparentemente \u201cpositivas\u201d, est\u00e3o ao servi\u00e7o de um plano contrarrevolucion\u00e1rio. Precisamente, o caracter\u00edstico deste plano consiste em utilizar as concess\u00f5es \u2014por vezes toda uma pol\u00edtica de concess\u00f5es\u2014 para desmobilizar as massas e desmontar uma (eventual) revolu\u00e7\u00e3o\u201d<a id=\"_ftnref4\" href=\"#_ftn4\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos da opini\u00e3o de que mesmo as medidas tomadas pelo Governo Lula-Alckmin que possam parecer trazer alguma vantagem \u00e0s classes trabalhadoras ser\u00e3o uma ilus\u00e3o, pois ser\u00e3o concedidas instrumentalmente, de acordo com os estritos interesses das elites. Ser\u00e3o apenas uma forma de travar o descontentamento e a poss\u00edvel mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Portugal, a <em>Geringon\u00e7a<\/em> distribuiu uma s\u00e9rie de pequenos benef\u00edcios \u2013 aumentou o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional e as pens\u00f5es mais baixas, por exemplo \u2013 mas estas medidas foram tomadas na estrita medida de nos manter na pobreza salarial em que j\u00e1 viv\u00edamos, sem qualquer plano produtivo para o pa\u00eds, enquanto o pa\u00eds foi sendo entregue aos interesses do turismo e dos fundos imobili\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s medidas do Governo Lula-Alckmin que possam parecer trazer alguma vantagem \u00e0s classes trabalhadoras, n\u00e3o cabe \u00e0 esquerda que se reclama independente apoi\u00e1-las, antes pelo contr\u00e1rio. Cabe-nos desmascarar a manobra que pretendem esconder e disput\u00e1-las, atrav\u00e9s da mobiliza\u00e7\u00e3o permanente da classe trabalhadora, para que que v\u00e3o ao rigoroso encontro dos interesses da juventude e dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, o Governo Lula-Alckmin, pelo seu car\u00e1cter, n\u00e3o poder\u00e1 cumprir qualquer papel progressivo. N\u00e3o integrar o Governo Lula-Alckmin, mas suster as suas supostas \u201cmedidas progressivas\u201d, apenas serve para criar a ilus\u00e3o de que o PSOL mant\u00e9m a sua independ\u00eancia pol\u00edtica, enquanto presta o \u00fatil servi\u00e7o de alimentar a falsa consci\u00eancia de que o Governo poder\u00e1 alguma vez adoptar verdadeiras \u201cmedidas progressivas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um posicionamento que, sem d\u00favida, serve os interesses imediatos do PSOL e do Governo Lula-Alckmin, mas que presta um p\u00e9ssimo servi\u00e7o aos trabalhadores e oprimidos que o PSOL diz representar. A prazo, tamb\u00e9m o PSOL sair\u00e1 a perder com tal orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta foi, pelo menos, a experi\u00eancia com a <em>Geringon\u00e7a<\/em> portuguesa. Tamb\u00e9m aqui, BE e PCP, decidiram n\u00e3o ocupar qualquer cargo governativo, optando por negociar com o PS as medidas supostamente \u201cprogressivas\u201d que pretendiam aprovar. A pol\u00edtica, de BE e PCP, de apoio \u00e0s \u201cmedidas progressivas\u201d do PS rapidamente se transformou numa busca constante dos elementos supostamente progressivos do Governo PS que justificassem o seu apoio. O Governo PS foi sistematicamente colorido por BE e PCP como o campo progressivo em que precisavam de estar para evitar a governa\u00e7\u00e3o da direita, pertencente ao campo regressivo. A partir daqui e durante 6 anos, conformou-se o apoio pol\u00edtico de BE e PCP ao Governo PS. No entanto, nunca BE e PCP o assumiram como tal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que ap\u00f3s 6 anos de tal orienta\u00e7\u00e3o, o resultado foi o restabelecimento do PS que capitalizou as poucas migalhas distribu\u00eddas, at\u00e9 conquistar a actual nova maioria absoluta, e uma dura crise para BE e PCP, enquanto a oposi\u00e7\u00e3o ficou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da extrema-direita, em galopante crescendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os camaradas do MES e da Resist\u00eancia afirmam que o \u201ccombate \u00e0 extrema-direita\u201d \u00e9 a sua principal tarefa para o momento. N\u00e3o se esque\u00e7am de que o nosso principal combate se deve dirigir, em primeiro lugar, contra o governo de turno, claramente ao servi\u00e7o das elites, pelo que se exige que procurem caracterizar corretamente o Governo Lula-Alckmin e retirem da\u00ed as devidas consequ\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A melhor forma de combater a extrema-direita ser\u00e1 atrav\u00e9s da conforma\u00e7\u00e3o de uma forte oposi\u00e7\u00e3o anti-capitalista, comprometida com a mobiliza\u00e7\u00e3o popular, cr\u00edtica do Governo Lula-Alckmin. \u00c9 evidente que n\u00e3o deixa de ser nossa tarefa, a defesa da democracia parlamentar e at\u00e9, porventura, do Governo Lula-Alckmin face aos ataques autorit\u00e1rios da extrema-direita e\/ou perigos de golpes militares, t\u00e3o frequentes na Am\u00e9rica Latina, mas que hoje por hoje n\u00e3o \u00e9 o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel para os pr\u00f3ximos meses no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_ftn4\" href=\"#_ftnref4\">[1]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o nossa. Texto de NM, \u2018El gobierno Mitterrand, sus perspectivas y nuestra pol\u00edtica, 1981.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula venceu as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais brasileiras e assumiu, neste m\u00eas de Janeiro de 2023, o cargo de presidente. Lula consegue derrotar Bolsonaro atrav\u00e9s de um amplo arranjo com in\u00fameros sectores das classes dominantes brasileiras, entre os quais se incluem outrora aliados de Bolsonaro. Alckmin, vice-presidente de Lula, \u00e9 a figura que representa tal arranjo. As poderosas elites imperialistas, nomeadamente, a Administra\u00e7\u00e3o Biden, n\u00e3o ficaram de fora do acordo. Todos estes sectores procurar\u00e3o aumentar os seus benef\u00edcios, algo que Bolsonaro n\u00e3o garantia, pelo menos, n\u00e3o com a estabilidade que se espera. 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