{"id":4597,"date":"2022-11-20T21:03:46","date_gmt":"2022-11-20T20:03:46","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4597"},"modified":"2022-11-20T21:03:48","modified_gmt":"2022-11-20T20:03:48","slug":"violencia-economica-e-laboral-precarias-nos-querem-rebeldes-nos-terao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/11\/20\/violencia-economica-e-laboral-precarias-nos-querem-rebeldes-nos-terao\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia Econ\u00f3mica e Laboral:\u00a0 Prec\u00e1rias nos querem, rebeldes nos ter\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os \u00faltimos dois anos foram marcados pela pandemia e a gradual degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e qualidade de vida. Na sa\u00fade, os servi\u00e7os espec\u00edficos \u00e0 sa\u00fade da mulher (ginecologia e obst\u00e9tricia) sofrem uma profunda quebra. No trabalho, este n\u00e3o s\u00f3 se tornou mais prec\u00e1rio, como foi particularmente exigente das mulheres. Isto \u00e9 evidente nos setores de maior segrega\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero (e.g., trabalhos de limpeza, presta\u00e7\u00e3o de cuidados), que tendo mantido a sua atividade, exigiram mais das trabalhadoras sem melhorias na sua condi\u00e7\u00e3o de trabalho. Ali\u00e1s, no meio de uma crise de sa\u00fade, estas trabalhadoras foram consistentemente expostas ao risco de contrair COVID-19, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.cig.gov.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/relatorio_executivo_limpezas_em_tempo_pandemia.pdf\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.cig.gov.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/relatorio_executivo_limpezas_em_tempo_pandemia.pdf\" target=\"_blank\">sem capacidade de se protegerem devidamente<\/a>. A linha da frente contra a pandemia foi assegurada pela mulher trabalhadora: 76% dos profissionais de sa\u00fade na EU <a href=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/news\/pt\/headlines\/society\/20210225STO98702\/compreender-o-impacto-da-covid-19-para-as-mulheres-infografias\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/news\/pt\/headlines\/society\/20210225STO98702\/compreender-o-impacto-da-covid-19-para-as-mulheres-infografias\">s\u00e3o mulheres<\/a>, bem como 95% dos empregados de limpeza e auxiliares dom\u00e9sticos, 93% dos educadores de inf\u00e2ncia e professores, 86% dos auxiliares da a\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e 82% dos empregados de caixa de supermercado. Os setores predominantemente femininos (como cuidados infantis, vendas ao p\u00fablico e turismo) foram particularmente afetados, tendo em muitos casos a sua atividade sido reduzida \u00e0 inexist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas tamb\u00e9m o trabalho remoto foi duro sobre as mulheres, com o duplo fardo das tarefas dom\u00e9sticas e a inacessibilidade a creches, escolas ou outros servi\u00e7os similares durante este per\u00edodo (e a sua inacessibilidade financeira fora deste per\u00edodo) que asseguram a presta\u00e7\u00e3o de cuidados. Enquanto o mundo v\u00ea o lado positivo da pandemia, com a flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho remoto ou h\u00edbrido e o seu potencial para maiores n\u00edveis de produtividade, a luta invis\u00edvel das mulheres persiste. Em Portugal, pr\u00e9-pandemia, mulheres formalmente no mercado de trabalho dedicavam ao trabalho dom\u00e9stico (n\u00e3o remunerado) cerca de 15 horas semanais (cerca de duas horas di\u00e1rias) e 22 horas semanais ao cuidado de crian\u00e7as (cerca de tr\u00eas horas di\u00e1rias), mais 7 horas para ambas as tarefas do que os homens. A estes n\u00fameros acresce ainda o cuidado de idosos quando as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguem dar resposta (e no caso da realidade pand\u00e9mica, eram um risco a m\u00faltiplos n\u00edveis) e o sal\u00e1rio n\u00e3o chega para mensalidades do setor privado. No mundo pand\u00e9mico, a mulher trabalhadora, sem fontes de apoio, ficou ainda mais sobrecarregada com o fardo dom\u00e9stico, que 24 horas por dia \u00e9 trabalhadora e cuidadora na larga maioria dos casos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para muitas mulheres, os custos acumulados de presta\u00e7\u00e3o de cuidados empurram-nas para fora do mercado de trabalho, onde est\u00e3o menos financeiramente capacitadas que os homens para assegurar as necessidades da fam\u00edlia. As mulheres constituem a maioria dos trabalhadores a tempo parcial da EU: 34.9% das mulheres trabalham neste regime, contra apenas 8.6% dos homens. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a press\u00e3o para estar mais tempo em casa que afeta as mulheres trabalhadoras. Em Portugal, a mulher ganha em m\u00e9dia 88 c\u00eantimos por cada euro que um homem ganha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E mesmo olhando para l\u00e1 deste diferencial, existem m\u00faltiplos fatores que impedem a mulher trabalhadora de progredir na carreira e conseguir independ\u00eancia econ\u00f3mica. A mulher tem muito menos probabilidade de conseguir uma posi\u00e7\u00e3o de chefia, apesar de em geral ter mais habilita\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Mesmo quando atingem estas posi\u00e7\u00f5es, verifica-se que o diferencial salarial s\u00f3 tende a aumentar com o n\u00edvel de qualifica\u00e7\u00e3o. E apesar das m\u00faltiplas iniciativas para a igualdade de g\u00e9nero, as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o investem ativamente em melhores pr\u00e1ticas: 79% dos executivos entrevistados num <a href=\"https:\/\/www.cio.pt\/2019\/03\/19\/progressao-de-carreira-das-mulheres-nao-e-prioridade-para-a-maioria-das-empresas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estudo pelo IBM <\/a>indicaram n\u00e3o formalizar a promo\u00e7\u00e3o da igualdade de g\u00e9nero na lideran\u00e7a dentro das suas organiza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o estando convencidos de que seja uma \u201cmais-valia\u201d para o neg\u00f3cio. As trabalhadoras s\u00e3o assim penalizadas porque a sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9 em geral considerada como n\u00e3o sendo uma \u201cmais-valia\u201d: empregadores evitam contratar mulheres com medo que engravidem e tenham de lhes pagar licen\u00e7a de maternidade, as mulheres em m\u00e9dia tiram mais dias para cuidar de dependentes e consistentemente perdem em compara\u00e7\u00e3o com colegas do sexo masculino que n\u00e3o sofrem por estas responsabilidades ou expetativas. Sistematicamente, o sistema promove a depend\u00eancia financeira da mulher do homem, e fragiliza a mulher, tornando-a vulner\u00e1vel a todo o tipo de viol\u00eancia (na precariedade laboral, no ass\u00e9dio moral e sexual, na realidade dom\u00e9stica).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio investir em apoios estruturais. \u00c9 preciso expandir os direitos laborais, aumentando as licen\u00e7as de paternalidade, um aumento generalizado de sal\u00e1rios e um maior apoio \u00e0s fam\u00edlias monoparentais. A mudan\u00e7a de costumes, estere\u00f3tipos e expetativas \u00e9 um trabalho geracional, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ser verdadeiramente enraizado num sistema que assegure a seguran\u00e7a e independ\u00eancia de todos. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a perman\u00eancia das mulheres no mercado de trabalho, com plenitude de direitos e verdadeira igualdade de g\u00e9nero, se as tarefas que lhes s\u00e3o socialmente atribu\u00eddas forem socializadas. Isso implica n\u00e3o s\u00f3 que as mulheres ficam libertas dessas fun\u00e7\u00f5es, mas que essas mesmas fun\u00e7\u00f5es passam a ter reconhecimento como trabalho. A socializa\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico, atrav\u00e9s de investimento em lavandarias, cantinas, lares e creches, \u00e9 essencial para a libera\u00e7\u00e3o da mulher do trabalho dom\u00e9stico, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma garantia de condi\u00e7\u00f5es de vida para a sociedade como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, lutamos para abolir a desigualdade entre homens e mulheres. Para isso, exigimos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Rede p\u00fablica e gratuita de creches, lares, cantinas e lavandarias;<\/li>\n\n\n\n<li>Prote\u00e7\u00e3o aos direitos de parentalidade;<\/li>\n\n\n\n<li>Sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional de 1000\u20ac;<\/li>\n\n\n\n<li>Fim das empresas de trabalho tempor\u00e1rio.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os \u00faltimos dois anos foram marcados pela pandemia e a gradual degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e qualidade de vida. Na sa\u00fade, os servi\u00e7os espec\u00edficos \u00e0 sa\u00fade da mulher (ginecologia e obst\u00e9tricia) sofrem uma profunda quebra. No trabalho, este n\u00e3o s\u00f3 se tornou mais prec\u00e1rio, como foi particularmente exigente das mulheres. Isto \u00e9 evidente nos setores de maior segrega\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero (e.g., trabalhos de limpeza, presta\u00e7\u00e3o de cuidados), que tendo mantido a sua atividade, exigiram mais das trabalhadoras sem melhorias na sua condi\u00e7\u00e3o de trabalho. 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