{"id":454,"date":"2011-04-25T11:38:27","date_gmt":"2011-04-25T10:38:27","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2011\/04\/25\/viva-a-revolucao-dos-cravos-viva-a-revolucao-arabe-solidariedade-com-nossos-irmaos-sirios\/"},"modified":"2011-04-25T11:38:27","modified_gmt":"2011-04-25T10:38:27","slug":"viva-a-revolucao-dos-cravos-viva-a-revolucao-arabe-solidariedade-com-nossos-irmaos-sirios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2011\/04\/25\/viva-a-revolucao-dos-cravos-viva-a-revolucao-arabe-solidariedade-com-nossos-irmaos-sirios\/","title":{"rendered":"Viva a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos! Viva a Revolu\u00e7\u00e3o \u00c1rabe! Solidariedade com nossos irm\u00e3os s\u00edrios!"},"content":{"rendered":"<p>No dia 25 de Abril, quando o povo portugu\u00eas comemorou 37 anos da revolu\u00e7\u00e3o que derrubou a ditadura do Estado Novo, o povo \u00e1rabe continuava a sua revolu\u00e7\u00e3o na Tun\u00edsia, no Egipto, no Bahrein, no I\u00e9men, na L\u00edbia e na S\u00edria (foto). Neste \u00faltimo pa\u00eds, a violenta repress\u00e3o do ditador Bashar al-Assad j\u00e1  matou 350 pessoas. No dia 25 de Abril, tropas e tanques entraram na cidade de Deraa e abriram fogo sobre a popula\u00e7\u00e3o. A imprensa denunciou tamb\u00e9m que as cidades de Damasco e Durma estavam a ser invadidas pelas for\u00e7as militares do regime. Esse genoc\u00eddio tem de acabar! Pela ruptura das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e comerciais com a S\u00edria! Toda solidariedade com o povo s\u00edrio! Fora Assad e o seu governo assassino! A seguir, reproduzimos alguns artigos sobre a Revolu\u00e7\u00e3o \u00c1rabe, o seu desenvolvimento e as pol\u00e9micas que est\u00e1 a provocar na Esquerda:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  <strong><span style=\"font-size: 18pt;\">L\u00edbia e S\u00edria: um duro debate divide a esquerda<\/span><\/strong> <\/p>\n<p>Como acontece com frequ\u00eancia, a revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe em curso est\u00e1 dividindo \u00e1guas na esquerda em todo o mundo. Esta experi\u00eancia vai se incorporar ao aprendizado que uma revolu\u00e7\u00e3o sempre proporciona.<\/p>\n<p>Por outro lado, os activistas t\u00eam a possibilidade de testar a resposta que cada uma das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda d\u00e1 a essas revolu\u00e7\u00f5es e de tirar suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. O duro debate actual aponta para novas divis\u00f5es e reorganiza\u00e7\u00f5es em todo o mundo.<\/p>\n<p>Trata-se de um processo revolucion\u00e1rio de conjunto, que tem na sua origem o sofrimento dos trabalhadores explorados selvagemente. A crise econ\u00f3mica mundial amplia o desemprego e produz aumentos nos pre\u00e7os dos g\u00e9neros de primeira necessidade, gerando explos\u00f5es nos elos mais fr\u00e1geis do capital. O outro factor decisivo \u00e9 o levante dessas massas enfurecidas contra ditaduras brutais que dominam esses pa\u00edses h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que se trata de uma revolu\u00e7\u00e3o no sentido mais pleno da palavra. Um momento particular da hist\u00f3ria em que as massas resolvem tomar em suas m\u00e3os os destinos de seus pa\u00edses. Pessoas que se dedicavam a tentar sobreviver, muitas vezes sem qualquer participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pr\u00e9via, transformam-se em grandes agitadores e organizadores, em lideran\u00e7as populares. Algumas vezes, em milicianos de armas nas m\u00e3os, dispostas a arriscar suas vidas para mudar o mundo.<\/p>\n<p><strong>Existe ou n\u00e3o uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe?<\/strong><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe espantou e colocou na defensiva em um primeiro momento os governos imperialistas. Seus aliados ditadores estavam em xeque, e n\u00e3o havia nenhum plano alternativo. Foi assim com o ditador Ben Ali na Tun\u00edsia e mais ainda com Mubarak no Egipto, derrubados em Janeiro e Fevereiro \u00faltimos. Obama teve de se adequar, apostando nos militares que assumiram o governo no Egito depois da queda de Mubarak.<\/p>\n<p>Foi a selvajaria da repress\u00e3o das tropas de Kadafi que causou a guerra civil na L\u00edbia. Em Benghazi, dezenas de milhares de pessoas enfrentaram as tropas, mesmo n\u00e3o tendo armas. Morriam centenas e outros milhares iam para a luta. At\u00e9 que as tropas se dividiram, oficiais desertaram, a popula\u00e7\u00e3o teve acesso ao arsenal local e se armou. Come\u00e7ava a guerra civil.<\/p>\n<p>Quando a revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe tocou os territ\u00f3rios l\u00edbio e s\u00edrio, foi a vez dos governos &#8220;de esquerda&#8221; da Venezuela, Cuba e Nicar\u00e1gua ficarem na defensiva. A corrente castro-chavista &#8211; a mais leg\u00edtima express\u00e3o do reformismo estalinista nos dias de hoje &#8211; passou a tentar separar a reac\u00e7\u00e3o das massas nesses pa\u00edses do restante da revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe.<\/p>\n<p>A her\u00f3ica ac\u00e7\u00e3o das massas na revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe \u00e9 reconhecida como tal por esses estalinistas at\u00e9 as fronteiras l\u00edbias e s\u00edrias. Mas nesses pa\u00edses se transformava misteriosamente em uma conspira\u00e7\u00e3o imperialista ou mon\u00e1rquica para &#8220;retomar o petr\u00f3leo&#8221;. \u00c9 extremamente educativo que os activistas de todo o mundo estudem os textos desses estalinistas. Nenhum deles consegue escapar desses exerc\u00edcios de acrobacia.<\/p>\n<p>Aqui se revive uma caracter\u00edstica t\u00edpica do estalinismo: a utiliza\u00e7\u00e3o ampla e consciente de mentiras e cal\u00fanias. Em um passe de m\u00e1gica escondem a revolu\u00e7\u00e3o e mostram uma conspira\u00e7\u00e3o da CIA.<\/p>\n<p>Alguns deles chegam a negar a exist\u00eancia de genoc\u00eddio por Kadafi, dizendo que \u00e9 tudo &#8220;inven\u00e7\u00e3o da media&#8221;. O pr\u00f3prio Kadafi, no entanto, para tentar novamente o apoio dos governos imperialistas, comparou suas tropas com a ac\u00e7\u00e3o de Israel contra os palestinos: &#8220;Mesmo os israelitas em Gaza tiveram de recorrer aos blindados para combater tais extremistas. Connosco \u00e9 mesma coisa&#8221; (France 24, 7 Mar\u00e7o 2011).<\/p>\n<p>A imagem de um Kadafi como um lutador antiimperialista \u00e9 mais uma farsa consciente do estalinismo. Usam o passado nacionalista do ditador l\u00edbio para justificar o presente. Na d\u00e9cada de 90, Kadafi entregou o petr\u00f3leo de novo para as multinacionais. A Exxon Mobil (EUA), British Petroleum, ENI (It\u00e1lia), Total (Fran\u00e7a), Royal Dutch Shell controlam a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Mesmo um defensor de Kadafi como James Petras \u00e9 obrigado a dizer: &#8220;As maiores companhias de petr\u00f3leo est\u00e3o mais presentes na L\u00edbia do que na maioria das regi\u00f5es produtoras de petr\u00f3leo de todo o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Infelizmente para os castro-chavistas, o hero\u00edsmo dos eg\u00edpcios na Pra\u00e7a Tahrir \u00e9 o mesmo que nas ruas de Benghazi na L\u00edbia ou de Deraa na S\u00edria. Os motivos que movem os jovens desempregados e sem perspectivas nesses pa\u00edses s\u00e3o os mesmos.<\/p>\n<p><strong>O imperialismo retoma a ofensiva<\/strong><\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo trouxe mais confus\u00e3o para a discuss\u00e3o. A invas\u00e3o imperialista \u00e9 uma grande amea\u00e7a para a revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe. Al\u00e9m de seu poderio militar, ainda vem disfar\u00e7ada de &#8220;apoio&#8221; contra Kadafi, o que gera esperan\u00e7as, em particular nas cidades amea\u00e7adas pelas for\u00e7as do ditador.<\/p>\n<p>Os governos dos EUA, Fran\u00e7a, Inglaterra que est\u00e3o \u00e0 frente da invas\u00e3o querem estabelecer um controle directo sobre a regi\u00e3o. Kadafi j\u00e1 n\u00e3o oferece nenhuma garantia. Mesmo que ganhasse a guerra, n\u00e3o conseguiria reestabilizar o pa\u00eds, por ter uma base social muito reduzida. A imensa maioria do povo l\u00edbio apoia a rebeli\u00e3o militar e isso levaria provavelmente a uma guerrilha de massas.<\/p>\n<p>Os estalinistas passaram a justificar o apoio a Kadafi como a \u00fanica forma de combater a agress\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Na verdade, aconteceu o oposto: o ditador l\u00edbio possibilitou que o imperialismo deixasse a situa\u00e7\u00e3o defensiva em que estava na revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe para assumir uma contra-ofensiva pol\u00edtica e militar. De aliados das ditaduras em xeque passou a ser o &#8220;defensor dos direitos humanos&#8221; amea\u00e7ados por Kadafi.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es no campo da revolu\u00e7\u00e3o na L\u00edbia entre o movimento revolucion\u00e1rio e suas direc\u00e7\u00f5es s\u00e3o semelhantes \u00e0s do restante do mundo \u00e1rabe. No Egipto, muitos dos dirigentes mais reconhecidos, como El Baradei, s\u00e3o figuras claramente pr\u00f3-imperialistas. A Junta Militar actual \u00e9 composta por oficiais formados e pagos pelo governo dos EUA. Nem por isso se viu Castro e Ch\u00e1vez repudiarem as mobiliza\u00e7\u00f5es de centenas de milhares de pessoas que derrubaram Mubarak.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode confundir uma revolu\u00e7\u00e3o com seus dirigentes. Certo? Sim, mas para o castro-chavismo isso s\u00f3 \u00e9 certo para o Egipto, mas n\u00e3o para a L\u00edbia. Ali as posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-imperialistas agrupadas no Conselho Nacional L\u00edbio s\u00e3o suficientes para eles desqualificarem a pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, \u00e9 fundamental estar no campo da revolu\u00e7\u00e3o contra Kadafi e lutar contra sua direc\u00e7\u00e3o pr\u00f3-imperialista.<\/p>\n<p>Frente a essa invas\u00e3o, seria necess\u00e1ria uma ampla unidade de a\u00e7\u00e3o contra o imperialismo. O que impede essa unidade \u00e9 o pr\u00f3prio Kadafi, que gerou o levante contra ele e continua a guerra civil contra o povo l\u00edbio. Por isso, seguem existindo duas guerras.<\/p>\n<p><strong>Um sector da esquerda apoia a interven\u00e7\u00e3o imperialista<\/strong><\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastassem todas as li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, o passado recente das interven\u00e7\u00f5es militares imperialistas &#8220;humanit\u00e1rias&#8221; deveria servir para lembrar que estamos perante o bra\u00e7o armado da contra-revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o tamb\u00e9m foi justificada como uma necessidade &#8220;humanit\u00e1ria&#8221;, devido aos desastres dos talib\u00e3s. A do Iraque, para acabar com armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa de Saddam Hussein. Tanto uma como a outra foram realizadas para controlar pol\u00edtica e militarmente a regi\u00e3o e se utilizam dos mesmos m\u00e9todos b\u00e1rbaros que antes denunciavam. A invas\u00e3o de Kosovo, tamb\u00e9m &#8220;humanit\u00e1ria&#8221;, terminou com a imposi\u00e7\u00e3o da maior base militar dos EUA na Europa, Camp Bondsteel.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 isso o que uma parte da &#8220;esquerda&#8221; pensa.<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet, editor do jornal Le Monde Diplomatique e um dos animadores do F\u00f3rum Social Mundial, declarou : &#8220;Nesse momento, a ONU constitui a \u00fanica fonte de legalidade internacional. Por isso, e contraditoriamente \u00e0s guerras em Kosovo e no Iraque, a interven\u00e7\u00e3o actual na L\u00edbia \u00e9 legal, segundo o direito internacional; leg\u00edtima, segundo os princ\u00edpios de solidariedade humanit\u00e1ria; e desej\u00e1vel , para a fraternidade que une povos na luta pela liberdade&#8221; (LMD, Abril 2011, pg32).<\/p>\n<p>Gilberto Achcar, um intelectual de prest\u00edgio ligado ao SU, saiu em defesa da ac\u00e7\u00e3o do imperialismo em um recente artigo: &#8220;Nessas condi\u00e7\u00f5es e na falta de qualquer outra solu\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, era moral e politicamente um erro, por parte da esquerda, opor-se \u00e0 zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea&#8221;. (Um debate leg\u00edtimo e necess\u00e1rio desde uma perspectiva antiimperialista).<\/p>\n<p>Deveria ser \u00f3bvio, mas nesses tempos de retrocesso ideol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9. Se a guerra \u00e9 a extens\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios; ou o imperialismo transformou-se em um sistema humanit\u00e1rio ou o apoio a essa invas\u00e3o \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. A ac\u00e7\u00e3o militar do imperialismo \u00e9 uma extens\u00e3o de sua pol\u00edtica de controle econ\u00f3mico e pol\u00edtico da regi\u00e3o. Esse sector da &#8220;esquerda&#8221; est\u00e1 legitimando a tentativa do imperialismo de sair da defensiva na revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe e reconstruir seu dom\u00ednio. Est\u00e3o simplesmente apoiando a outra face da contra-revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qualquer ideia de &#8220;unidade de ac\u00e7\u00e3o&#8221; com as for\u00e7as da NATO contra Kadafi vai se virar violentamente contra a continuidade da revolu\u00e7\u00e3o. Uma poss\u00edvel vit\u00f3ria do imperialismo levar\u00e1 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma zona sob controle da ONU na regi\u00e3o, com uma base militar do imperialismo, \u00e0 semelhan\u00e7a de Kosovo. Ou \u00e0 divis\u00e3o da L\u00edbia, com a imposi\u00e7\u00e3o militar de um enclave militar imperialista no meio.<\/p>\n<p>Se, por um lado, a corrente castro-chavista apoia Kadafi e Assad, toda essa parte da &#8220;esquerda&#8221; defende a interven\u00e7\u00e3o imperialista. Interessante como esses dois sectores, que estiveram unidos nos Foruns Sociais Mundiais, dividem-se agora no apoio a dois blocos burgueses (Kadafi e Assad de um lado e o imperialismo de outro).<\/p>\n<p>Nenhum deles se orienta por um crit\u00e9rio b\u00e1sico, de classe. \u00c9 preciso estar junto ao processo da revolu\u00e7\u00e3o, junto \u00e0s massas \u00e1rabes (o que inclui o povo l\u00edbio e s\u00edrio, rebelados contra as ditaduras nesses pa\u00edses), lutando contra suas direc\u00e7\u00f5es burguesas e pr\u00f3-imperialistas. \u00c9 preciso lutar contra a interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo, que tamb\u00e9m quer derrotar a revolu\u00e7\u00e3o. Por isso falamos de uma revolu\u00e7\u00e3o e duas guerras na L\u00edbia: uma guerra civil contra Kadafi e outra contra a invas\u00e3o do imperialismo.<\/p>\n<p><strong>O povo s\u00edrio se levanta&#8230; e causa outra crise<\/strong><\/p>\n<p>A S\u00edria \u00e9 um pequeno pa\u00eds, que tem sua economia baseada na agricultura e na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Mesmo n\u00e3o sendo um grande exportador, esse \u00e9 um dos factores centrais da economia, gerando 50% das receitas de exporta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u00c9 governada h\u00e1 41 anos por uma ditadura da fam\u00edlia Assad. Ali se repete a hist\u00f3ria de um movimento nacionalista burgu\u00eas que cumpriu um papel relativamente progressista no in\u00edcio e depois girou \u00e0 direita e se entregou ao imperialismo.<\/p>\n<p>O partido Baath, nacionalista burgu\u00eas, tomou o poder em 1963. Hafez Assad &#8211; pai do actual presidente &#8211; passou a dirigir o pa\u00eds com m\u00e3o de ferro em 1970. No in\u00edcio estatizou boa parte das empresas lucrativas, incluindo as petrol\u00edferas.<\/p>\n<p>Mas sempre foi uma ditadura sanguin\u00e1ria. Em 1982, reprimiu duramente a mobiliza\u00e7\u00e3o de Amah, com 25 a 30 mil mortos. Um massacre.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 90 acompanhou o giro \u00e0 direita de Kadafi e Sadat. Entregou novamente o petr\u00f3leo para as multinacionais. Hoje, multinacionais petrol\u00edferas como a Shell, Total (Fran\u00e7a), CNPC, Gulfsands Petroleum (EUA), Tatneft e ONGC Videsh controlam a principal produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A norte americana ConocoPhilips explora o g\u00e1s.<\/p>\n<p>No ano 2000, Hafez Assad morreu. Para demonstrar o car\u00e1cter ditatorial de seu governo, o escolhido para a sucess\u00e3o foi nada menos que seu filho, Bashar Assad. Nenhuma surpresa, se lembrarmos que Mubarak e Kadafi preparavam seus filhos para suced\u00ea-los. Trata-se de ditaduras que imp\u00f5em um estilo quase mon\u00e1rquico de funcionamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que existe uma sincronia das lutas na S\u00edria e no restante do mundo \u00e1rabe. A imposi\u00e7\u00e3o do neoliberalismo no pa\u00eds pela ditadura dos Assad ampliou a mis\u00e9ria das massas, agora agravada pela crise econ\u00f3mica e aumento dos pre\u00e7os dos alimentos. O \u00f3dio acumulado nas massas em quarenta anos de ditadura \u00e9 o mesmo que existia contra Mubarak.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es come\u00e7aram em Fevereiro, em apoio \u00e0s lutas do Egipto. Em Mar\u00e7o, na cidade de Deraa, uma mobiliza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica foi duramente reprimida pela ditadura, causando duas mortes. A reac\u00e7\u00e3o das massas foi forte: novas mobiliza\u00e7\u00f5es tomaram a cidade e incendiaram o pal\u00e1cio da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A ditadura reagiu com mais viol\u00eancia, massacrando mobiliza\u00e7\u00f5es pac\u00edficas. J\u00e1 existem mais de 300 mortos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nesse momento, a subleva\u00e7\u00e3o na S\u00edria est\u00e1 se ampliando. Recentemente, ocupou o centro da terceira cidade do pa\u00eds, enfrentando a repress\u00e3o. Pode ser que tamb\u00e9m estenda para o terreno militar, repetindo a experi\u00eancia da L\u00edbia e de uma nova guerra civil.<\/p>\n<p>Aqui as m\u00e1scaras caem mais uma vez. Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez sobre a S\u00edria? Aqui n\u00e3o h\u00e1 interven\u00e7\u00e3o militar da NATO. Existe a luta de um povo rebelado contra uma ditadura que entregou o pa\u00eds ao imperialismo, exactamente como no in\u00edcio do processo l\u00edbio.<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez declarou: &#8220;J\u00e1 come\u00e7ou o ataque contra a S\u00edria, j\u00e1 come\u00e7aram os movimentos de supostos protestos pac\u00edficos (&#8230;) e j\u00e1 est\u00e3o acusando o presidente de matar seu povo&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o satisfeito, ainda classificou o genocida Assad de &#8220;l\u00edder \u00e1rabe socialista, humanista, irm\u00e3o, com uma grande sensibilidade humana&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, para Ch\u00e1vez, o genocida Assad \u00e9 um &#8220;humanista&#8221;. Vai ficar gravado na hist\u00f3ria que a corrente castro-chavista ajudou a legitimar o massacre de popula\u00e7\u00f5es rebeladas contra ditaduras. No mundo \u00e1rabe, essas posi\u00e7\u00f5es se chocam com a enorme simpatia despertada pela revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que n\u00e3o existem mobiliza\u00e7\u00f5es de apoio a Kadafi ou a Assad nos pa\u00edses \u00e1rabes. No restante do mundo, apesar da confus\u00e3o causada pela interven\u00e7\u00e3o imperialista, as posi\u00e7\u00f5es de Ch\u00e1vez e Castro tamb\u00e9m n\u00e3o conseguem se impor junto \u00e0 vanguarda.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que v\u00e1rios intelectuais castro-chavistas , como Santiago Alba Rico, est\u00e3o assumindo publicamente essa pol\u00e9mica. Pode ser que seja um claro sinal de decad\u00eancia dessas correntes.<\/p>\n<p><strong>Eduardo Almeida Neto<\/strong> (PSTU\/Brasil)<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 18pt;\">Um voto a favor da interven\u00e7\u00e3o imperialista na L\u00edbia<\/span><\/strong><\/p>\n<p>No dia 10 de Mar\u00e7o, foi aprovada no Parlamento Europeu uma resolu\u00e7\u00e3o que abriu as portas para a interven\u00e7\u00e3o imperialista na L\u00edbia. Miguel Portas, Marisa Matias e Rui Tavares, os tr\u00eas eurodeputados do Bloco de Esquerda, votaram, juntamente com Vital Moreira (PS) e Paulo Rangel (PSD), a favor dessa resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse voto, em nosso entender, rompe com o programa eleitoral do Bloco de Esquerda, que se op\u00f5e a interven\u00e7\u00f5es internacionais, mesmo quando mascaradas de ajuda humanit\u00e1ria, como \u00e9 o caso.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o, apesar de n\u00e3o dizer explicitamente que haver\u00e1 uma interven\u00e7\u00e3o militar, n\u00e3o deixa outra conclus\u00e3o que n\u00e3o essa. Al\u00e9m de v\u00e1rios pontos mais ou menos amb\u00edguos, a resolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7a a passos certos para a interven\u00e7\u00e3o militar, sendo o ponto 9 esclarecedor: &#8220;Solicita \u00e0 UE e \u00e0 comunidade internacional que tomem todas as medidas poss\u00edveis para isolar completamente Kadhafi e o seu regime a n\u00edvel nacional e internacional&#8221;. Outras al\u00edneas, como a 12, deixam expl\u00edcito que \u00e9 preciso acabar rapidamente com o per\u00edodo revolucion\u00e1rio e transform\u00e1-lo num regime democr\u00e1tico burgu\u00eas que n\u00e3o ponha em causa o dom\u00ednio do imperialismo sobre o M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p>O ponto 10, apenas votado favoravelmente por Rui Tavares, acaba por ser a corol\u00e1rio l\u00f3gico dos restantes e diz que &#8220;a Uni\u00e3o Europeia e os seus Estados Membros devem honrar a sua responsabilidade de proteger [uma express\u00e3o que faz lembrar a &#8220;War on Terror&#8221; de G.W. Bush] (&#8230;); sublinha que nenhuma posi\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas deve ser posta de parte (&#8230;) incluindo uma zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea&#8221;.<\/p>\n<p>Os argumentos apresentados pelos deputados europeus para justificar o seu voto, desde a &#8220;liberdade&#8221; at\u00e9 ao voto ter sido fruto das circunst\u00e2ncias negociais, n\u00e3o limpam um facto que mancha o seu mandato: os deputados do Bloco de Esquerda votaram a favor de uma resolu\u00e7\u00e3o que abriu as portas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo na L\u00edbia. Esta discuss\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que diz Miguel Portas em texto publicado no www.esquerda.net, a 14 de Mar\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 meramente &#8220;ideol\u00f3gica&#8221; ou &#8220;propagand\u00edstica&#8221;. Como pode o Bloco de Esquerda ser um um p\u00f3lo agregador de for\u00e7as \u00e0 esquerda, com pol\u00edticas n\u00e3o s\u00f3 pelo emprego, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de resist\u00eancia contra as guerras imperialistas, se, quando a situa\u00e7\u00e3o se lhes depara, imediatamente surge um &#8220;sentido de responsabilidade&#8221; que os faz negociar com os socialistas no Parlamento Europeu e acabar a votar com Paulo Rangel?<\/p>\n<p>O Bloco de Esquerda deve demarcar-se deste voto e manifestar a sua solidariedade com o povo l\u00edbio, lutando pela sa\u00edda do imperialismo da regi\u00e3o e pela continua\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o contra a ditadura de Muammar Khadafi.<\/p>\n<p><strong>Manuel Neves<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 18pt;\">As revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o caem do c\u00e9u<br \/>NATO fora da L\u00edbia!<\/span><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenhamos d\u00favida de que a revolta na L\u00edbia surgiu na continua\u00e7\u00e3o das revoltas da Tun\u00edsia e do Egipto que contagiaram o mundo inteiro.<\/p>\n<p>Face \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar da NATO na L\u00edbia, s\u00f3 pode haver uma reac\u00e7\u00e3o poss\u00edvel: a de estarmos determinantemente contra. Havendo nos meios progressistas sectores que defendem a necessidade de &#8220;proteger os rebeldes&#8221; contra a repress\u00e3o sangrenta do ditador, esta n\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o t\u00e3o evidente como pode parecer.<\/p>\n<p>Em toda a sua hist\u00f3ria, a NATO nunca interveio por raz\u00f5es humanit\u00e1rias em nenhum conflito armado. Se existisse um princ\u00edpio de intervir sempre onde h\u00e1 &#8220;viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos humanos, incluindo a repress\u00e3o de manifestantes pac\u00edficos, mortes de civis e incitamento \u00e0 hostilidade e \u00e0 viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o civil&#8221; (cf. Resolu\u00e7\u00e3o 1973 da ONU), por que n\u00e3o intervieram nem a NATO nem a ONU no massacre que ocorreu em Gaza no inverno 2008-2009?<\/p>\n<p>Khadafi, ali\u00e1s, soube recordar aos seus ex-amigos que ao bombardear os rebeldes \u2013 segundo ele, terroristas da Al Qaeda &#8211; n\u00e3o estava a fazer na L\u00edbia mais do que o ex\u00e9rcito israelita tinha feito em Gaza, com o consentimento da chamada comunidade internacional: &#8220;At\u00e9 os israelitas em Gaza tiveram de recorrer aos tanques para combater tais extremistas. N\u00f3s fazemos o mesmo&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenhamos d\u00favida de que a revolta na L\u00edbia surgiu na continua\u00e7\u00e3o das revoltas da Tun\u00edsia e do Egipto que contagiaram o mundo inteiro. S\u00e3o essas revoltas contra as ditaduras que temos a obriga\u00e7\u00e3o de apoiar, independentemente das contradi\u00e7\u00f5es no seu seio.<\/p>\n<p>Em todos os acontecimentos revolucion\u00e1rios que alastram pelo mundo \u00e1rabe, apesar das diferen\u00e7as entre cada um deles, a miss\u00e3o dos pa\u00edses imperialistas tem sido uma: aniquilar as revoltas e substituir os ditadores amigos por governos seus lacaios. Aos governos imperialistas n\u00e3o conv\u00e9m a exist\u00eancia de regimes democr\u00e1ticos no Magrebe e no M\u00e9dio Oriente. O seu objectivo \u00e9 um \u00fanico: defender os seus interesses militares estrat\u00e9gicos e controlar os recursos energ\u00e9ticos na regi\u00e3o. Para isso, precisam, entre outros, de um Egipto que colabore com a ocupa\u00e7\u00e3o israelita da Palestina e de uma L\u00edbia que controle a imigra\u00e7\u00e3o africana \u00e0s portas da fortaleza europeia.<\/p>\n<p>Na L\u00edbia, o imperialismo come\u00e7ou por deixar Khadafi reprimir os rebeldes. Os servi\u00e7os secretos de Israel e o ministro da Defesa Ehud Barak autorizaram a empresa de armamento Global CST a recrutar cerca de 50.000 mercen\u00e1rios africanos para reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es. Os pagamentos em troca de petr\u00f3leo continuaram a ser dirigidos para o banco central, controlado por Kadhafi. O embargo \u00e0s armas n\u00e3o se limitou \u00e0s for\u00e7as fi\u00e9is ao regime, mas estendeu-se aos rebeldes para impedir a sua vit\u00f3ria. Por fim, as san\u00e7\u00f5es internacionais n\u00e3o inclu\u00edam um embargo ao petr\u00f3leo nem o congelamento dos dividendos dos investimentos l\u00edbios nas maiores multinacionais do mundo, permitindo assim que Khadafi continuasse a pagar mercen\u00e1rios e armamento a fim de manter a sua supremacia no que se tinha tornado uma guerra civil.<\/p>\n<p>A ONU e mais tarde a NATO s\u00f3 intervieram militarmente quando a revolta popular j\u00e1 estava enfraquecida. Come\u00e7aram por destruir a for\u00e7a a\u00e9rea do regime e, desde a Confer\u00eancia de Londres, em 29 de Mar\u00e7o, apoiam o Conselho Nacional L\u00edbio de Transi\u00e7\u00e3o e encaram mesmo a possibilidade de lhe entregar armamento. Esse apoio traduz-se no acesso a bens do Estado congelados \u2013 cerca de 3.000.000.000 de d\u00f3lares &#8211; e na autoriza\u00e7\u00e3o para vender parte do petr\u00f3leo l\u00edbio.<\/p>\n<p>A encruzilhada l\u00edbia pode hoje resumir-se ao seguinte dilema: ou a NATO deixa Khadafi triunfar, porque j\u00e1 est\u00e1 a pensar em reabilit\u00e1-lo como estabilizador regional (o que fez com Saddam Hussein entre 1991 e 2003); ou sobe a parada para derrot\u00e1-lo e implantar na L\u00edbia um governo fantoche do imperialismo, enfeitado com os ecos evanescentes do que foi a insurrei\u00e7\u00e3o. Em qualquer caso, os planos da NATO devem ser combatidos e derrotados.<\/p>\n<p><strong>Elsa Sert\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 18pt;\">Novos cap\u00edtulos da Primavera \u00c1rabe<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Com mais de tr\u00eas meses decorridos desde a explos\u00e3o popular na Tun\u00edsia, que virou a primeira p\u00e1gina das revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes do s\u00e9culo XXI, continuam a seguir-se novos cap\u00edtulos na revolta dos povos do Norte de \u00c1frica e M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p>Assim, desenrolam-se tr\u00eas tipos de cen\u00e1rios principais. Aquele que diz respeito aos pa\u00edses que viram o imperialismo, directamente ou indirectamente, usar a agress\u00e3o militar para mudar o curso da revolu\u00e7\u00e3o; aquele em que as revoltas s\u00e3o recentes ou s\u00f3 recentemente se radicalizaram; por \u00faltimo, o dos pa\u00edses em que a revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 produziu importantes conquistas, com a queda dos respectivos ditadores e regimes.<\/p>\n<p><strong>Agress\u00e3o imperialista<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelo primeiro grupo, o Bahrein, pequeno pa\u00eds-ilha do Golfo P\u00e9rsico, foi o  exemplo inicial. Com uma revolta maci\u00e7a que exigia a queda da monarquia e mudan\u00e7as democr\u00e1ticas na constitui\u00e7\u00e3o, num pa\u00eds em que a pol\u00edcia se comp\u00f5e de estrangeiros contratados e onde os Estados Unidos t\u00eam uma importante base naval a pouco mais de 200 km do Ir\u00e3o, o regime via-se sem meios pr\u00f3prios para tirar \u00e0 for\u00e7a a popula\u00e7\u00e3o das ruas e, por outro lado, as tropas americanas criariam muita antipatia se o fizessem. Deste modo encomendou-se uma interven\u00e7\u00e3o estrangeira, mas \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita, Qatar e Emirados, que em meados de Mar\u00e7o descarregaram mais de mil tropas e  material de guerra para reprimir violentamente os protestos e fazer cumprir a vontade do rei e dos interesses que este sustenta.<\/p>\n<p>Na L\u00edbia, os m\u00edsseis da NATO procuram garantir que na era p\u00f3s-Khadafi o pa\u00eds continue a ser uma semicol\u00f3nia onde reinem os interesses franceses, italianos e das outras grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>As novas revoltas<\/strong><\/p>\n<p>O segundo grupo, em que as revoltas se iniciaram mais recentemente, inclui a S\u00edria e o I\u00e9men. Na S\u00edria, o rastilho foi provocado pelas balas que a pol\u00edcia n\u00e3o hesitou em usar, assassinando tr\u00eas de um t\u00edmido grupo de centenas que se manifestavam contra a pris\u00e3o de jovens que tinham pintado graffiti antigoverno. Este pa\u00eds, antiga pe\u00e7a do eixo do mal de Bush, havia recentemente recebido muitos elogios das pot\u00eancias europeias pelas reformas de mercado que proporcionaram neg\u00f3cios chorudos \u00e0quelas e \u00e0 elite burguesa do pa\u00eds, de onde se destaca a fam\u00edlia do presidente Bashar Al-Assad, a mais rica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o de menos de um m\u00eas, e sob uma repress\u00e3o implac\u00e1vel e um saldo de largas dezenas de mortos, a determina\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a do povo s\u00edrio j\u00e1 conseguiram arrancar importantes concess\u00f5es, como a liberta\u00e7\u00e3o de centenas de prisioneiros pol\u00edticos ou a nacionalidade para milhares de curdos, antes ap\u00e1tridas.<\/p>\n<p>No I\u00e9men, ap\u00f3s mais de um m\u00eas de luta cont\u00ednua de estudantes e trabalhadores pela queda do regime de ditadura e desigualdade  social, o governo de Abdulah Saleh parece estar por um fio, com um ex\u00e9rcito dividido e os EUA a quererem patrocinar negocia\u00e7\u00f5es de transi\u00e7\u00e3o de poder, percebendo que o povo n\u00e3o desiste enquanto n\u00e3o tirar do poder o seu homem de confian\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o continua<\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, a Tun\u00edsia e o Egipto, onde a revolu\u00e7\u00e3o produziu resultados mais importantes com as quedas dos respectivos ditadores, Ben Ali e Mubarak, a Primavera n\u00e3o deixou o clima pol\u00edtico arrefecer, e a situa\u00e7\u00e3o continua bem quente.<br \/>Na Tun\u00edsia, ap\u00f3s o derrube do regime, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular, acabada de conquistar as liberdades de express\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o, continuou acesa for\u00e7ando o afastamento de todos os antigos aliados de Ben Ali do governo interino, assim como a dissolu\u00e7\u00e3o do RCP, o velho partido da ditadura.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 no plano econ\u00f3mico-social, de onde nasceu a raiva que em Dezembro fez explodir a situa\u00e7\u00e3o, que as lutas v\u00e3o ganhando express\u00e3o, procurando, de forma mais ou menos consciente, uma sa\u00edda de classe para o problema que foi o principal motor da revolu\u00e7\u00e3o. A UGTT, principal central sindical, vive um processo de  ruptura entre a direc\u00e7\u00e3o nacional e as bases regionais, fartas da condu\u00e7\u00e3o pouco combativa e representativa como a direc\u00e7\u00e3o tem conduzido a central.<\/p>\n<p>No Egipto, a partida do odiado Mubarak tamb\u00e9m n\u00e3o satisfez boa parte da vontade popular. Nas semanas que se seguiram, greves fortes por sal\u00e1rios e direitos laborais paralisaram importantes sectores da ind\u00fastria, enquanto manifestantes ocupavam sedes da pol\u00edcia secreta exigindo a sua dissolu\u00e7\u00e3o. Mais recentemente, a desconfian\u00e7a crescente face ao conselho militar que recebeu o poder das m\u00e3os de Mubarak traduziu-se no regresso das manifesta\u00e7\u00f5es \u00e0 Pra\u00e7a Tahrir, exigindo o fim do estado de emerg\u00eancia, o julgamento de Mubarak e o afastamento dos seus antigos aliados do governo interino. O comando do ex\u00e9rcito, que em Janeiro\/Fevereiro n\u00e3o intervinha para dar uma impress\u00e3o de neutralidade, mostra agora a sua verdadeira cara, n\u00e3o hesitando em mandar tropas para reprimir e desfazer os ditos protestos.<\/p>\n<p>Um segundo acto da revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe, aquele em que o povo liberto da tirania autorit\u00e1ria quer tomar a economia nas m\u00e3os e assentar nela um novo poder, pode estar come\u00e7ando a ser constru\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Tra\u00e7a<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 25 de Abril, quando o povo portugu\u00eas comemorou 37 anos da revolu\u00e7\u00e3o que derrubou a ditadura do Estado Novo, o povo \u00e1rabe continuava a sua revolu\u00e7\u00e3o na Tun\u00edsia, no Egipto, no Bahrein, no I\u00e9men, na L\u00edbia e na S\u00edria (foto). Neste \u00faltimo pa\u00eds, a violenta repress\u00e3o do ditador Bashar al-Assad j\u00e1 matou 350 pessoas. No dia 25 de Abril, tropas e tanques entraram na cidade de Deraa e abriram fogo sobre a popula\u00e7\u00e3o. A imprensa denunciou tamb\u00e9m que as cidades de Damasco e Durma estavam a ser invadidas pelas for\u00e7as militares do regime. Esse genoc\u00eddio tem de acabar!<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":453,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[35],"tags":[],"class_list":["post-454","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-medio-oriente"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/siria.jpg?fit=995%2C666","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/454\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/453"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}