{"id":4508,"date":"2022-09-28T10:37:35","date_gmt":"2022-09-28T09:37:35","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4508"},"modified":"2022-09-28T10:37:37","modified_gmt":"2022-09-28T09:37:37","slug":"italia-neofascismo-chefiara-governo-esquerda-alternativa-precisa-se","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/09\/28\/italia-neofascismo-chefiara-governo-esquerda-alternativa-precisa-se\/","title":{"rendered":"It\u00e1lia: neofascismo chefiar\u00e1 governo. Esquerda alternativa precisa-se"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O fascismo prov\u00e9m de duas condi\u00e7\u00f5es: de um lado, de uma grave crise social; de outro lado, da fraqueza revolucion\u00e1ria do proletariado [\u2026]. A fraqueza do proletariado, por sua vez, tem duas causas: primeiro, o papel hist\u00f3rico particular da social-democracia, que ainda \u00e9 uma ag\u00eancia poderosa do capitalismo nas fileiras do proletariado; em seguida, a incapacidade da dire\u00e7\u00e3o centrista [da esquerda] de unir os oper\u00e1rios sob a bandeira da revolu\u00e7\u00e3o<\/p><cite><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1931\/11\/26.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leon Trotsky<\/a><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria repete-se de forma bizarra, agora sob novos contornos. A 31 de Outubro de 1922, Mussolini e o movimento fascista subiam ao poder, em It\u00e1lia. Ap\u00f3s 100 anos, com uma precis\u00e3o quase milim\u00e9trica, a 25 de Setembro de 2022, Giorgia Meloni, l\u00edder do partido neofascista Fratelli d\u2019Italia, inspirado pelo bafiento mote \u201cDeus, P\u00e1tria e Fam\u00edlia\u201d, vence as elei\u00e7\u00f5es, com 26% dos votos, o que lhe permitir\u00e1 chefiar um governo de coliga\u00e7\u00e3o com a restante direita italiana, atingindo a maioria absoluta (44% dos votos), tanto no Parlamento como no Senado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este avan\u00e7o da extrema-direita, em It\u00e1lia, \u00e9 uma grave amea\u00e7a aos direitos democr\u00e1ticos, assim como \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida de todos os trabalhadores italianos e europeus. As propostas de Meloni de corte nos apoios sociais \u00e0s fam\u00edlias, concentra\u00e7\u00e3o de poderes no presidente da rep\u00fablica ou a ilegaliza\u00e7\u00e3o do aborto s\u00e3o disso exemplo. Toda a extrema-direita europeia ganha um novo alento. Como cheg\u00e1mos at\u00e9 aqui?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1. <strong>A fal\u00eancia do sistema capitalista tamb\u00e9m se faz sentir em It\u00e1lia<\/strong>. It\u00e1lia \u00e9 o segundo produtor industrial da UE, apenas atr\u00e1s da Alemanha, e \u00e9 o terceiro maior exportador de mercadorias. No entanto, a sua queda de produtividade, sobretudo depois da ades\u00e3o ao Euro, e a cr\u00f3nica estagna\u00e7\u00e3o de uma economia gerida por uma oligarquia particularmente corrupta t\u00eam feito disparar a desigualdade entre as classes dominantes e os trabalhadores italianos. O resultado \u00e9 uma juventude com uma taxa de desemprego de 25%. O endividamento tem sido crescente e a d\u00edvida p\u00fablica italiana j\u00e1 ascende aos 152% do PIB, \u00e0 qual se vai somando o actual crescimento das taxas de juro. O custo da electricidade, em It\u00e1lia, dependente em 40% do g\u00e1s russo, \u00e9 o segundo mais elevado em toda a Europa, impulsionando um duro aumento do custo de vida da juventude e trabalhadores. It\u00e1lia \u00e9, neste momento, um pa\u00eds dependente do pacote de \u20ac200 mil milh\u00f5es da UE, em troca das devidas restri\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais, para reactivar a sua economia, e da ac\u00e7\u00e3o do BCE para conter uma nova crise de d\u00edvida p\u00fablica. <strong>Este \u00e9 o resultado da falida pol\u00edtica neoliberal adoptada pelos sucessivos governos dos partidos tradicionais, seja de direita ou supostamente de esquerda, numa constante transfer\u00eancia de rendimento dos bolsos de quem trabalha para os cofres dos grandes empres\u00e1rios e accionistas<\/strong>;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2. <strong>A crise agudiza a incapacidade das classes dominantes italianas e do seu sistema parlamentar para produzir governos est\u00e1veis, empurrando o descontentamento popular para a procura activa de solu\u00e7\u00f5es fora dos partidos tradicionais ou para a absten\u00e7\u00e3o (36%, a mais elevada da democracia parlamentar italiana)<\/strong>. Esta procura resulta, em It\u00e1lia, numa sucess\u00e3o intermin\u00e1vel de governos, muitos deles sem passar sequer pelo crivo das elei\u00e7\u00f5es. O Governo tecnocr\u00e1tico de salva\u00e7\u00e3o nacional de Mario Dragui foi t\u00e3o s\u00f3 o terceiro da XVIII Legislatura, iniciada em 2018.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3. <strong>O descontentamento e desespero popular crescentes, uma vez que n\u00e3o encontram uma verdadeira alternativa \u00e0 esquerda, s\u00e3o for\u00e7ados a encaminhar-se para a influ\u00eancia dos sectores mais nacionalistas e autorit\u00e1rios das classes dominantes.<\/strong> Os Fratelli d&#8217;Italia, sendo o \u00fanico dos principais partidos que n\u00e3o apoiou o Governo Draghi, conseguiu colocar-se como a alternativa <em>anti-establishment<\/em> e capitalizar eleitoralmente o descontentamento generalizado com todos os restantes partidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A antiga e poderosa esquerda italiana, corporizada pelo extinto Partido Comunista Italiano (PCI), transformou-se e adaptou-se, facilitando a sua digest\u00e3o pelas classes dominantes italianas. A partir da d\u00e9cada de 1970, o PCI definiu como estrat\u00e9gia a de se fazer evidenciar como uma domesticada for\u00e7a de governa\u00e7\u00e3o meramente parlamentar, abandonando as aspira\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, o que culminou com o apoio ao governo do l\u00edder democrata-crist\u00e3o Giulio Andreotti, em 1978. Com a restaura\u00e7\u00e3o capitalista na ex-URSS, em 1991, o PCI dissolve-se, sintoma da sua j\u00e1 completa fal\u00eancia. Ao longo do processo de transforma\u00e7\u00e3o da sua composi\u00e7\u00e3o social, do seu programa e da sua estrat\u00e9gia, naquilo que ficou conhecido como eurocomunismo, uma parte consider\u00e1vel do PCI acaba por dar origem ao actual Partido Democrata (PD), partido gestor do capitalismo italiano que procedeu \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas, desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e destrui\u00e7\u00e3o salarial. Este movimento da esquerda foi semelhante em toda a Europa, mas particularmente grave em It\u00e1lia. A esquerda tradicional italiana teve a hip\u00f3tese e a confian\u00e7a popular para fazer diferente desde a queda de Mussolini, em 1945. Abdicou dessa oportunidade e, hoje, toda a esquerda paga o pre\u00e7o de tamanho crime. Tanto assim \u00e9 que a esquerda italiana n\u00e3o consegue qualquer representa\u00e7\u00e3o parlamentar em nenhuma das \u00faltimas tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es gerais, desde 2008.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ainda assim, a tentativa de reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda italiana n\u00e3o cessou completamente<\/strong>. A 9 de Julho de 2022, foi formada a Uni\u00e3o Popular, um projeto pol\u00edtico eleitoral para as elei\u00e7\u00f5es que estavam previstas para meados de 2023, unindo v\u00e1rias pequenas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda italiana: <em>Potere al Popolo<\/em>, <em>Rifondazione Comunista<\/em> (dissid\u00eancia minorit\u00e1ria do PCI, aliado do BE portugu\u00eas, que chegou a integrar o segundo Governo de Romano Prodi, em 2006, e com essa op\u00e7\u00e3o se pulverizou), <em>DemA<\/em>, <em>Manifesta<\/em> e <em>Paese Reale<\/em>, al\u00e9m de representantes dos movimentos sociais. O esfor\u00e7o \u00e9 merit\u00f3rio, mas ainda muito embrion\u00e1rio e limitado, tendo conquistado apenas 1,43% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A profunda crise capitalista e a pol\u00edtica neoliberal de desigualdade aplicada pelos sucessivos governos dos partidos tradicionais; a incapacidade das classes dominantes e do sistema parlamentar para produzir governos est\u00e1veis; a promiscuidade da esquerda tradicional com a pol\u00edtica neoliberal das elites tradicionais; a profunda dificuldade em construir uma esquerda alternativa que conquiste a confian\u00e7a de amplos sectores da juventude e trabalhadores, tudo isto conforma um importante conjunto de elementos que contribuem para o crescimento do neofascismo e da extrema-direita, tal como h\u00e1 100 anos atr\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, existe um importante elemento na actual situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica italiana, diferente de h\u00e1 100 anos, que n\u00e3o nos autoriza nem a render-nos ao desalento, nem a entregar-nos ao desespero de acreditar no refor\u00e7o da pol\u00edtica das supostas elites \u201cprogressistas\u201d, precisamente a pol\u00edtica que no trouxe at\u00e9 aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mussolini subiu ao poder depois de impor uma dura derrota sobre a forte mobiliza\u00e7\u00e3o que a classe trabalhadora italiana desenvolvia no in\u00edcio dos anos 1920. Hoje, pelo menos de momento, o ascenso de Meloni passa, sobretudo, por dentro do sistema eleitoral e o boletim de voto n\u00e3o decide a luta social. N\u00e3o estamos na presen\u00e7a de uma derrota f\u00edsica e duradoura da classe trabalhadora italiana, factor ao qual acresce a previs\u00edvel instabilidade do governo, num sistema j\u00e1 de si turbulento. Para defender os nossos sal\u00e1rios e servi\u00e7os p\u00fablicos, para defender os nossos direitos democr\u00e1ticos duramente conquistados, para defender uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica socialmente digna, \u00e9 tempo de construir uma esquerda alternativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fascismo prov\u00e9m de duas condi\u00e7\u00f5es: de um lado, de uma grave crise social; de outro lado, da fraqueza revolucion\u00e1ria do proletariado [\u2026]. A fraqueza do proletariado, por sua vez, tem duas causas: primeiro, o papel hist\u00f3rico particular da social-democracia, que ainda \u00e9 uma ag\u00eancia poderosa do capitalismo nas fileiras do proletariado; em seguida, a incapacidade da dire\u00e7\u00e3o centrista [da esquerda] de unir os oper\u00e1rios sob a bandeira da revolu\u00e7\u00e3o Leon Trotsky A hist\u00f3ria repete-se de forma bizarra, agora sob novos contornos. A 31 de Outubro de 1922, Mussolini e o movimento fascista subiam ao poder, em It\u00e1lia. 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