{"id":4418,"date":"2022-06-12T12:34:14","date_gmt":"2022-06-12T11:34:14","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4418"},"modified":"2022-06-12T12:34:21","modified_gmt":"2022-06-12T11:34:21","slug":"por-uma-sociedade-trans-inclusiva","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/06\/12\/por-uma-sociedade-trans-inclusiva\/","title":{"rendered":"Por uma sociedade trans-inclusiva"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 orgulho para alguns sem libera\u00e7\u00e3o para todos\u201d, dizia Marsha P. Johnson, uma mulher trans negra muito ativa no movimento que saiu de Stonewall. Mesmo assim, em ambientes e grupos ditos \u201cprogressivos\u201d, que deveriam acolher e agregar a luta trans, existem vertentes que tomam a posi\u00e7\u00e3o de segrega\u00e7\u00e3o de corpos trans bin\u00e1rios e n\u00e3o-bin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este sentimento \u00e9 expressado, por exemplo, na corrente do Feminismo Radical (ou feminismo trans-exclusivo): utilizando o discurso de que \u201cmulheres trans tiveram uma socializa\u00e7\u00e3o masculina enquanto crian\u00e7as, crescendo, portanto, com privil\u00e9gios e com uma mentalidade masculina\u201d, excluem-nas das suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas este racioc\u00ednio ignora que muitas crian\u00e7as sofrem j\u00e1 de viol\u00eancia psicol\u00f3gica \u2013 e, muitas vezes, at\u00e9 f\u00edsica \u2013 por n\u00e3o se enquadrarem no g\u00e9nero que lhes \u00e9 imposto. Desenvolvem-se com a d\u00favida de quem s\u00e3o, a disforia, at\u00e9 que tenham acesso a informa\u00e7\u00e3o e redes que partilhem desse mesmo sentimento. Assim, este argumento imagina as pessoas como est\u00e1ticas, sem capacidade de questionar o ambiente em que crescem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas todos sabemos que n\u00e3o \u00e9 assim. S\u00f3 porque eu cresci numa fam\u00edlia evang\u00e9lica e homof\u00f3bica, ent\u00e3o isso significa que eu n\u00e3o posso ser quem eu sou e lutar contra essa mentalidade retr\u00f3grada em que cresci? Levado ao extremo, isto tornaria f\u00fatil a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o. Se a mentalidade n\u00e3o muda ao longo do tempo, se est\u00e1 tudo dependente da socializa\u00e7\u00e3o com que crescemos, ent\u00e3o porque \u00e9 que estamos todos a lutar em todos os movimentos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento de que \u201chomens trans tendem a ser mulheres que, para escapar da misoginia, acabam por adotar uma identidade masculina\u201d, rejeita o facto de a identidade de g\u00e9nero n\u00e3o ser uma escolha e desvaloriza a forma como a misoginia se alia \u00e0 transfobia para apagar e oprimir pessoas a quem foi atribu\u00eddo o g\u00e9nero feminino erroneamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de n\u00e3o serem lidos como quem s\u00e3o, ainda lhes \u00e9 imposta a opress\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m imposta \u00e0s mulheres ao nascer, abrangendo desde a maternidade compuls\u00f3ria, viol\u00eancia obst\u00e9trica, ass\u00e9dios, estupros corretivos, entre tantos outros., o que acaba at\u00e9 por contradizer o anterior argumento: afinal porque \u00e9 que as mulheres trans, se cresceram no seio do privil\u00e9gio masculino, iriam procurar uma opress\u00e3o para si?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A postura dos cr\u00edticos de g\u00e9nero \u00e9 desleal, pois toma como pressuposto autom\u00e1tico que pessoas trans, sejam bin\u00e1rias ou n\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o os g\u00e9neros que realmente s\u00e3o, isto \u00e9, os g\u00e9neros que afirmam ser. Essa postura n\u00e3o \u00e9 somente um ato de transfobia, mas um ato factualmente incorreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m se argumenta que \u201ca mulher trans refor\u00e7a pap\u00e9is de g\u00e9nero e da feminilidade no que \u00e9 ser mulher\u201d. Como pode observar-se, a mulher trans nunca \u00e9 vista como aceit\u00e1vel a um cr\u00edtico de g\u00e9nero, pois quando n\u00e3o \u00e9 \u201cpass\u00e1vel\u201d \u00e9 apontada como uma aberra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o representa o feminino, e quando \u00e9 \u201cpass\u00e1vel\u201d diz-se que ela refor\u00e7a estere\u00f3tipos. Essas incongru\u00eancias argumentativas demonstram a m\u00e1 f\u00e9 dos questionadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De resto, uma mulher trans \u201cn\u00e3o pass\u00e1vel\u201d ser\u00e1 sempre uma mulher, pois \u00e9 a autodetermina\u00e7\u00e3o que a caracteriza como tal; e uma mulher trans \u201cpass\u00e1vel\u201d n\u00e3o refor\u00e7a estere\u00f3tipos de g\u00e9nero &#8211; simplesmente por ser trans j\u00e1 os quebra com for\u00e7a, visto que teve que transicionar, o que \u00e9 uma das maiores quebras de estere\u00f3tipos que h\u00e1, independentemente do qu\u00e3o \u201cpass\u00e1vel\u201d a pessoa se torne. Se n\u00e3o os quebrasse, n\u00e3o seria, ali\u00e1s, fonte de tanto \u00f3dio pela sociedade cisc\u00eantrica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns feministas radicais insistem tamb\u00e9m que \u201co Feminismo Radical \u00e9 materialista\u201d. Mesmo alguns partidos estalinistas usam o \u201cser materialista\u201d como uma camuflagem pseudo-marxista da sua transfobia \u2013 como \u00e9 o caso de alguns setores no PCP. Apelam \u00e0 biologia, mas ignorando, por exemplo, aquilo que a biologia diz sobre a natureza biol\u00f3gica-social e neurol\u00f3gica mais complexa do g\u00e9nero, n\u00e3o totalmente vinculada ao sexo, que por si s\u00f3 se demonstra como um espectro tamb\u00e9m, considerada a exist\u00eancia de pessoas intersexo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que a ferramenta que Marx e Engels nos deixaram \u2013 o materialismo dial\u00e9tico \u2013 \u00e9 bem mais completa e permite entender que a sociedade est\u00e1 em permanente mudan\u00e7a; que coisas como express\u00f5es de g\u00e9nero s\u00e3o tamb\u00e9m reflexo das condi\u00e7\u00f5es materiais das sociedades. Estes pseudo-marxistas ignoram toda a diversidade de pessoas n\u00e3o-cisg\u00e9nero noutras culturas \u2013 e a repress\u00e3o que sofreram com o avan\u00e7ar do colonialismo e imperialismo \u2013, como as pessoas dois-esp\u00edritos nas tribos ind\u00edgenas americanas ou as Hijra da \u00cdndia, at\u00e9 mesmo com as travestis na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 bem mais diversa que a vis\u00e3o simplista que o capitalismo nos imp\u00f5e. Corpo trans \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devemos pensar no corpo trans como algo al\u00e9m do sofrimento que atualmente tanto permeia as narrativas presentes no meio comum, ou seja, n\u00e3o reconhecer a transgeneridade somente como o resultado de uma dor, disforia de g\u00e9nero, mas como uma alegria proveniente de se saber quem realmente se \u00e9, euforia de g\u00e9nero. Tamb\u00e9m existe a necessidade de se superar o corpo trans como um objeto passivo, afirmando-o sim como aquele corpo inerentemente contra os padr\u00f5es cisc\u00eantricos da sociedade, como uma fonte direta de controv\u00e9rsia at\u00e9 nos seus momentos mais inertes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta \u00e9 uma luta que precisa urgentemente de ser reconhecida e representada pelos nossos, para que seja ampliada nos meios n\u00e3o s\u00f3 de a\u00e7\u00e3o direta mas tamb\u00e9m pol\u00edticos, a fim de alcan\u00e7ar um reconhecimento que se deve dar atrav\u00e9s do apoio m\u00fatuo entre pessoas cis e trans, dando a visibilidade devida \u00e0s pessoas transg\u00e9nero, assim como \u00e0s pessoas racializadas, deficientes, neurodivergentes e todos os grupos que podem ser acolhidos pela interseccionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma luta que s\u00f3 tem sentido completo se tomar tamb\u00e9m como sua a tarefa de negar um modelo de sociedade que considera o seu desenvolvimento a partir da explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel e da necessidade de cria\u00e7\u00e3o de dor e ajudar a construir, como alternativa, uma sociedade voltada para o amparo e a\u00e7\u00f5es conscientes que visam melhorar o mundo para todos os que precisam. Ou seja, a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o tem de se afirmar, consequentemente, como luta anticapitalista, contra todas as formas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 orgulho para alguns sem libera\u00e7\u00e3o para todos\u201d, dizia Marsha P. Johnson, uma mulher trans negra muito ativa no movimento que saiu de Stonewall. Mesmo assim, em ambientes e grupos ditos \u201cprogressivos\u201d, que deveriam acolher e agregar a luta trans, existem vertentes que tomam a posi\u00e7\u00e3o de segrega\u00e7\u00e3o de corpos trans bin\u00e1rios e n\u00e3o-bin\u00e1rios. Este sentimento \u00e9 expressado, por exemplo, na corrente do Feminismo Radical (ou feminismo trans-exclusivo): utilizando o discurso de que \u201cmulheres trans tiveram uma socializa\u00e7\u00e3o masculina enquanto crian\u00e7as, crescendo, portanto, com privil\u00e9gios e com uma mentalidade masculina\u201d, excluem-nas das suas organiza\u00e7\u00f5es. 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