{"id":4416,"date":"2022-06-12T12:37:42","date_gmt":"2022-06-12T11:37:42","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4416"},"modified":"2022-06-12T12:37:45","modified_gmt":"2022-06-12T11:37:45","slug":"a-c-d-e-f-g-espera-nao-havia-ali-um-b","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/06\/12\/a-c-d-e-f-g-espera-nao-havia-ali-um-b\/","title":{"rendered":"A C D E F G.. espera n\u00e3o havia ali um B?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da crescente tend\u00eancia para defender e reivindicar os direitos e experi\u00eancias da comunidade LGBT+, a sensibiliza\u00e7\u00e3o para com a bissexualidade passa principalmente por sensibiliza\u00e7\u00e3o para a sua visibilidade. Em compara\u00e7\u00e3o com h\u00e9tero e homossexuais, os bissexuais sofrem mais opress\u00e3o, t\u00eam mais probabilidade de sofrerem de discrimina\u00e7\u00e3o no trabalho, de serem v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica e de desenvolverem problemas de sa\u00fade mental. \u00c9 comum quem se identifica como bissexual sentir-se pressionado para se conformar com uma identidade, sendo o grupo LGBT com maior dificuldade a sair do arm\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser bissexual, na perce\u00e7\u00e3o p\u00fablica, \u00e9 n\u00e3o ser gay o suficiente para ir ao Pride, mas n\u00e3o ser h\u00e9tero o suficiente para se assimilar nos contextos tradicionais. Ser bissexual \u00e9 num grupo ser h\u00e9tero e noutro gay, \u00e9 ser camale\u00e3o social. Ser bissexual \u00e9 sentir-se traidor por assentar com algu\u00e9m doutro g\u00e9nero, mas sentir-se impostor se \u00e9 assumido como homossexual numa rela\u00e7\u00e3o com o mesmo g\u00e9nero. Ser bissexual \u00e9 desaparecer entre os espa\u00e7os seguros para outros, pressionado a escolher um dos lados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A visibilidade n\u00e3o passa simplesmente por um aumento da representa\u00e7\u00e3o, mas de boa representa\u00e7\u00e3o. Identidades bissexuais s\u00e3o constantemente apagadas: homens bissexuais, como o Freddie Mercury, s\u00e3o lembrados como homossexuais; mulheres bissexuais, como a Megan Fox, s\u00e3o vistas como heterossexuais com tend\u00eancias sexuais experimentais. Estas mulheres s\u00e3o largamente objetificadas e fetichizadas, ao ponto em que existe uma press\u00e3o para figuras p\u00fablicas femininas se envolverem em pr\u00e1ticas de bissexualidade performativa, como vimos com a Jessie J, a Nikki Minaj ou no videoclipe da Rihanna e da Shakira (Can\u2019t Remember to Forget You) e na ic\u00f3nica performance entre a Madonna, a Britney Spears e a Christina Aguillera nos VMAs em 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O Homem Bissexual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A representa\u00e7\u00e3o de homens bissexuais nos media \u00e9 reduzida e difusa. Se olharmos para filmes dos anos 80, a sua representa\u00e7\u00e3o \u00e9 em geral de homens agressivos, criminosos e sem controlo moral. Hoje em dia, a sua representa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito focada no seu car\u00e1ter infiel ou falta de virilidade. O conflito mais comumente observado \u00e9 o de parceiras sentirem que os parceiros s\u00e3o secretamente homossexuais ou menos \u201chomens\u201d por terem tido contactos homossexuais no passado. Esta desconfian\u00e7a data desde a crise da SIDA dos anos 80, em que, para al\u00e9m do ataque aos homossexuais masculinos enquanto grupo mais afetado e visto como prom\u00edscuo e impuro, outros setores, em particular religiosos, focaram-se na constru\u00e7\u00e3o da narrativa do perigo de homens bissexuais como agentes de transmiss\u00e3o entre a comunidade homossexual e o resto da popula\u00e7\u00e3o heterossexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os homens bissexuais foram assim alvo de associa\u00e7\u00f5es diretas do seu comportamento como desonesto, imoral e perigoso. Esta propaganda est\u00e1 tamb\u00e9m associada \u00e0 invers\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o conhecida como bissexual, que era maioritariamente masculina antes desta \u00e9poca e desde ent\u00e3o \u00e9 feminina. Hoje a representa\u00e7\u00e3o do homem bissexual \u00e9 quase inexistente e, para bem e para o mal, a narrativa do medo for\u00e7ou o p\u00fablico a reconhecer a exist\u00eancia da bissexualidade, mas esta exist\u00eancia foi uma t\u00e3o negativa que for\u00e7ou os mesmos a voltarem para o arm\u00e1rio. No mundo atual, os testemunhos de homens bissexuais passam por serem considerados traidores de grupos queer ou de serem humilhados por parceiras do sexo feminino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>A Mulher Bissexual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mulher bissexual \u00e9 virtualmente inexistente. Mulheres que se assumem como bissexuais s\u00e3o acusadas de o fazer por aten\u00e7\u00e3o e muitas mulheres l\u00e9sbicas abertamente n\u00e3o querem relacionar-se com estas por medo de serem abandonadas por um homem. Por outro lado, tamb\u00e9m h\u00e1 um cunho hist\u00f3rico associado ao compromisso \u00e0 causa feminista, em que as mulheres bissexuais s\u00e3o vistas como traidoras \u00e0 causa. Nos media conseguimos observar simultaneamente a infantiliza\u00e7\u00e3o da mulher bissexual como estando confusa ou a experimentar porque homens s\u00e3o intimidantes, ou a sua fetichiza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da lente masculina. Nos \u00faltimos anos, vimos cada vez mais artistas femininas a assumirem-se como bissexuais e admitindo depois que foi uma posi\u00e7\u00e3o assumida para popularidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mulher bissexual \u00e9 assim representada como um s\u00edmbolo de promiscuidade que n\u00e3o \u00e9 intimidante para o homem. Este efeito \u00e9 ainda pernicioso pela instrumentaliza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre mulheres, que em geral em termos plat\u00f3nicos \u00e9 enquadrada como superficial ou antag\u00f3nica e aqui as mulheres s\u00e3o unidas, n\u00e3o enquanto indiv\u00edduos, mas pelo seu desejo comum do observador masculino. Estas nuances sexistas n\u00e3o s\u00e3o exclusivas aos meios de comunica\u00e7\u00e3o heteronormativos, uma vez que, para al\u00e9m das no\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00e3o \u00e0 causa tanto por homossexuais masculinos como femininas, temos ainda termos como \u201cgold star\u201d, que se referem a uma l\u00e9sbica que nunca teve rela\u00e7\u00f5es sexuais com um homem. A mulher e o seu valor est\u00e3o assim sempre pendentes da sua rela\u00e7\u00e3o ao homem, se foi de alguma forma profanada por este e nunca agente da sua pr\u00f3pria sexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>A amea\u00e7a presenteada pela bissexualidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A bissexualidade em geral torna-se, portanto, um desafio \u00e0 heteronormatividade. N\u00e3o s\u00f3 porque desafia a narrativa puritana de monogamia que assenta na ideia de uma pessoa perfeita para cada um de n\u00f3s, aqui n\u00e3o por contraposi\u00e7\u00e3o com a poligamia, mas por contraposi\u00e7\u00e3o ao desejo sexual por pessoas que s\u00e3o pintadas como inerentemente diferentes. Ainda que ser bi n\u00e3o implique ser poli, a imagem do bissexual \u00e9 difusa ou inexistente, enquanto que temos muito presente a ideia do que \u00e9 ser h\u00e9tero e do que \u00e9 ser homossexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando as din\u00e2micas internas da comunidade LGBT+, a defesa da homossexualidade segundo estes mesmos standards \u00e9 de n\u00e3o poderem evitar aquilo que sentem, ent\u00e3o a bissexualidade \u00e9 um desafio tamb\u00e9m ao ativismo gay, porque o indiv\u00edduo bissexual poderia tecnicamente evitar e escolher uma rela\u00e7\u00e3o heteronormativa. A bissexualidade amea\u00e7a ainda porque \u00e9 imposs\u00edvel provar a aus\u00eancia de algo, ent\u00e3o esta exist\u00eancia amea\u00e7a a narrativa constru\u00edda pelo movimento gay tradicional, de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sentirem-se atra\u00eddos pelo sexo oposto porque est\u00e3o atra\u00eddos pelo mesmo sexo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>A necessidade de combater e reivindicar espa\u00e7os plurais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta pela visibilidade bissexual e, subsequentemente, reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o pode ser bem-sucedida jogando no campo das pr\u00e1ticas normativas. Implica necessariamente uma aceita\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o plural, afastada daquilo que \u201cdeve ser\u201d a express\u00e3o sexual de qualquer um. A uni\u00e3o do ativismo LGBT+ implica um foco em afastar os moralismos infundados em vez de definir novas linhas de normalidade, que excluir\u00e3o sempre algu\u00e9m. Esta luta tem tamb\u00e9m de estar intrinsecamente ligada ao feminismo e desconstru\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is de g\u00e9nero, que delineiam os padr\u00f5es de comportamento mesmo fora da heteronormatividade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar da crescente tend\u00eancia para defender e reivindicar os direitos e experi\u00eancias da comunidade LGBT+, a sensibiliza\u00e7\u00e3o para com a bissexualidade passa principalmente por sensibiliza\u00e7\u00e3o para a sua visibilidade. 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