{"id":4414,"date":"2022-06-12T12:37:55","date_gmt":"2022-06-12T11:37:55","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4414"},"modified":"2022-06-22T00:01:23","modified_gmt":"2022-06-21T23:01:23","slug":"o-legado-de-stonewall","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/06\/12\/o-legado-de-stonewall\/","title":{"rendered":"O legado de Stonewall"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma sexta-feira \u00e0 noite normal de ver\u00e3o, num pequeno bar em Nova Iorque chamado Stonewall Inn, no dia 28 de Junho de 1969. O Stonewall Inn era um bar com liga\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e1fia, que agregava muitas das pessoas mais marginalizadas e desprezadas pela sociedade homof\u00f3bica e transf\u00f3bica americana. \u00c0 1:20 da manh\u00e3, entre a m\u00fasica e o barulho dos copos, ouve-se um berro: \u201cPol\u00edcia!\u201d. A confus\u00e3o instalou-se. Algumas pessoas tentaram escapar pela casa de banho, outras diretamente pela porta, que se encontrava barrada pela pol\u00edcia. Tratava-se de uma opera\u00e7\u00e3o policial que, sob o pretexto de inspecionar a gest\u00e3o mafiosa do bar, assediava principalmente as pessoas <em>queer <\/em>que l\u00e1 socializavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pessoas vestidas com \u201croupas de mulher\u201d eram levadas para a casa de banho para a pol\u00edcia confirmar o seu sexo. Quem tentava resistir \u00e0 ofensiva policial era imediatamente algemado. A pol\u00edcia come\u00e7ou a ser particularmente violenta com uma mulher trans, \u00e0 porta do bar, onde foi crescendo um grupo de pessoas, a maioria delas LGBT. Segundo conta a hist\u00f3ria, a mulher virou-se para a multid\u00e3o e disse: \u201cporque \u00e9 que voc\u00eas n\u00e3o fazem nada?!\u201d. Esse e outros casos de resist\u00eancia transformaram a opera\u00e7\u00e3o policial num motim, uma revolta no bar de Stonewall Inn.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Revolta de Stonewall, que se tornou a fa\u00edsca que acendeu a moderna luta LGBTQIA+, n\u00e3o aconteceu de forma isolada, como um o\u00e1sis de luta num deserto de agita\u00e7\u00e3o popular, bem pelo contr\u00e1rio. Nos anos 60 e 70, o mundo vivia uma onda de fortes mobiliza\u00e7\u00f5es em todos os continentes. Haviam as lutas anti-imperialistas dos pa\u00edses da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina pela liberta\u00e7\u00e3o nacional. A vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o cubana em \u201859; o maio de \u201868 na Fran\u00e7a; e at\u00e9 mesmo a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa em \u201874.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00edvel nacional, os Estados Unidos estavam a viver um per\u00edodo de fortes mobiliza\u00e7\u00f5es e de radicaliza\u00e7\u00e3o. V\u00e1rias eram as causas que levavam a juventude, as pessoas racializadas e os trabalhadores a sa\u00edrem \u00e0 rua. Eram os anos da ascens\u00e3o da segunda onda feminista; do movimento Black Power; da luta \u2013 essencialmente estudantil \u2013 contra a guerra no Vietname. A ascens\u00e3o era tanta que o FBI chegou a ter (entre \u201856 e \u201871) um programa de contraintelig\u00eancia \u2013 COINTELPRO \u2013 que visava, em especial, estes movimentos progressivos. Algumas pessoas acabaram presas, outras assassinadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A repress\u00e3o nos Estados Unidos era atroz e generalizada, em especial, a todos aqueles que fugiam da norma branca, cisg\u00e9nero e heterossexual. Era ilegal, para qualquer pessoa, vestir-se contrariamente ao g\u00e9nero que lhe era imposto e a brutalidade policial era constante. Em 1969, a sodomia (leia-se sexo entre pessoas do mesmo g\u00e9nero) era legal num s\u00f3 estado: Illinois. E n\u00e3o viria a ser legalizado a n\u00edvel federal at\u00e9 2003, pela decis\u00e3o do Supremo Tribunal no caso <em>Lawrence v. Texas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Revolta de Stonewall, ao rebentar num dos per\u00edodos mais radicalizados dos Estados Unidos, iniciou um processo de organiza\u00e7\u00e3o e de luta, com a cria\u00e7\u00e3o do Gay Liberation Front (GLF) \u2013 cujo nome veio influenciado pelos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional como os da Arg\u00e9lia e do Vietname<sup><a href=\"#sdfootnote1sym\" id=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup>. \u201cGay\u201d, naquela altura, era um termo usado para descrever todas as pessoas LGBTQIA+, e o movimento representava essa diversidade. A GLF tinha um foco especial na unifica\u00e7\u00e3o de \u201ctodos os oprimidos\u201d \u2013 o que hoje chamamos interseccionalidade \u2013, formando fortes la\u00e7os com o ascendente movimento feminista. As suas reivindica\u00e7\u00f5es variavam desde uma educa\u00e7\u00e3o sexual inclusiva at\u00e9 \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia<sup><a href=\"#sdfootnote2sym\" id=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a><\/sup>. Mas, crucialmente, este novo movimento deu tamb\u00e9m origem \u00e0s primeiras marchas de orgulho pela \u201cliberta\u00e7\u00e3o gay\u201d, com um slogan que se foi espalhando pelo mundo: \u201c<em>out of the closets and into the streets<\/em>\u201d<sup><a href=\"#sdfootnote3sym\" id=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caldo radicalizado que se vivia nos Estados Unidos, mesmo os dirigentes dos partidos de esquerda que se formavam na altura apoiavam o movimento de liberta\u00e7\u00e3o gay. \u00c9 o caso de Huey Newton \u2013 um dos fundadores dos Black Panther Party \u2013 que, numa carta para \u201cos irm\u00e3os e irm\u00e3s revolucion\u00e1rios do Gay Liberation Front\u201d, dizia que as pessoas queer, por serem das mais oprimidas na sociedade, seriam tamb\u00e9m das mais revolucion\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro da GLF havia comiss\u00f5es para diversas causas. De uma dessas comiss\u00f5es surgiu o STAR, Street Transvestite Action Revolutionaries, fundada por duas <em>drag queens<\/em>: Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera; que oferecia apoio \u00e0s pessoas queer maioritariamente em situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo. A STAR chegou a participar em a\u00e7\u00f5es unit\u00e1rias com o partido independentista porto-riquenho Young Lords e Sylvia Rivera dizia-se parte deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito aconteceu ao movimento LGBTQIA+ depois destes tempos; o recuo da luta nos anos 80 \u2013 com o impacto da epidemia da SIDA \u2013, a liga\u00e7\u00e3o que se conseguiu com os mineiros em Inglaterra, at\u00e9 \u00e0 conquista de alguns direitos legislativos que temos hoje. Depois de tudo isso, o movimento \u00e9 hoje bastante diferente daquele iniciado nos anos 70, enraizado nos setores mais explorados, marginalizados e oprimidos da classe trabalhadora; ligado \u00e0s outras lutas \u2013 como a luta anti-racista e pela liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, uma parte do movimento chega mesmo a reivindicar-se \u201capol\u00edtico\u201d \u2013 n\u00e3o compreendendo que a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o \u00e9, por necessidade, uma luta pol\u00edtica \u2013 e, na sua confus\u00e3o, leva uma pol\u00edtica de convidar empresas, apoiando-as no seu branqueamento. Por isso, torna-se hoje urgente recuperar esse legado deixado por Stonewall; recuperar essa luta contra a viol\u00eancia policial, anti-racista e anti-capitalista, na busca incessante pela emancipa\u00e7\u00e3o queer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a> <a href=\"https:\/\/tribunemag.co.uk\/2021\/06\/how-the-gay-liberation-movement-fought-colonialism-and-imperialism\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/tribunemag.co.uk\/2021\/06\/how-the-gay-liberation-movement-fought-colonialism-and-imperialism<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em><a id=\"sdfootnote2sym\" href=\"#sdfootnote2anc\">2<\/a> <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/sparrowsnest-10355\/page\/12\/mode\/1up\">https:\/\/archive.org\/details\/sparrowsnest-10355\/page\/12\/mode\/1up<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em><a id=\"sdfootnote3sym\" href=\"#sdfootnote3anc\">3<\/a> Sair dos arm\u00e1rios e ir para as ruas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma sexta-feira \u00e0 noite normal de ver\u00e3o, num pequeno bar em Nova Iorque chamado Stonewall Inn, no dia 28 de Junho de 1969. 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