{"id":440,"date":"2011-04-12T18:32:14","date_gmt":"2011-04-12T17:32:14","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2011\/04\/12\/todo-o-apoio-ao-povo-libio-para-que-derrote-khadafi-dizemos-nao-a-intervencao-da-nato\/"},"modified":"2011-04-12T18:32:14","modified_gmt":"2011-04-12T17:32:14","slug":"todo-o-apoio-ao-povo-libio-para-que-derrote-khadafi-dizemos-nao-a-intervencao-da-nato","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2011\/04\/12\/todo-o-apoio-ao-povo-libio-para-que-derrote-khadafi-dizemos-nao-a-intervencao-da-nato\/","title":{"rendered":"Todo o apoio ao povo l\u00edbio para derrotar Khadafi, dizemos N\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da NATO"},"content":{"rendered":"<p>Torna-se imposs\u00edvel encontrar actualmente um pa\u00eds \u00e1rabe que n\u00e3o esteja sacudido por revoltas e mobiliza\u00e7\u00f5es. A crise econ\u00f3mica mundial afecta os pa\u00edses do M\u00e9dio Oriente e do Norte de \u00c1frica. S\u00e3o os trabalhadores imigrantes destes pa\u00edses na Europa os primeiros a perder os seus postos de trabalho e com isto caem a pique os envios de remessas de dinheiro para os seus pa\u00edses. Vem o FMI impondo programas de privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, de redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica dos gastos dos Estados, de diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de trabalhadores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos&#8230; <\/p>\n<p>Nada que pare\u00e7a estranho, mas cujas consequ\u00eancias s\u00e3o muito mais demolidoras nestes pa\u00edses com taxas de desemprego que superam os 50% da popula\u00e7\u00e3o activa. A este quadro h\u00e1 que acrescentar, desde finais de 2010, o maior aumento de pre\u00e7os dos produtos alimentares desde 1990 e as suas consequ\u00eancias nos pa\u00edses \u00e1rabes que conformam uma das grandes regi\u00f5es do mundo importadoras de alimentos. A L\u00edbia, por exemplo, importa 75% dos alimentos que consome.<\/p>\n<p>Acresce a essa situa\u00e7\u00e3o o \u00f3dio aos governos fantoches das grandes pot\u00eancias imperialistas, ditaduras encarregadas de aplicar os planos do FMI \u00e0 custa da fome do povo e que se mant\u00eam sob estados de emerg\u00eancia que se prolongam por d\u00e9cadas. \u00c9 neste cen\u00e1rio que os acontecimentos de Tunes se acendem como um pavio, e o efeito domin\u00f3 se inicia em toda a regi\u00e3o unida por sentimentos de nacionalidade, tradi\u00e7\u00e3o de luta e rep\u00fadio ao imperialismo e ao sionismo. Assistimos a um processo de levantamentos, a uma revolu\u00e7\u00e3o que tem como bandeiras (como \u00e9 dito na declara\u00e7\u00e3o da Corrente Vermelha  perante os factos ocorridos em Tunes) a luta pelo p\u00e3o, o trabalho e a liberdade. Um processo revolucion\u00e1rio em que se destacam os jovens, afectados pelo desemprego e sem nenhuma possibilidade sequer de emigrar.<\/p>\n<p>Por estas raz\u00f5es, todos os levantamentos populares nos pa\u00edses \u00e1rabes foram olhados com enorme simpatia e receberam um apoio incondicional desejando o seu triunfo. Assim o entendeu a Corrente Vermelha, por isso sa\u00edmos \u00e0 rua apoiando os povos tunisino e eg\u00edpcio assim que se soube dos levantamentos.<\/p>\n<p>Os acontecimentos na L\u00edbia, pelo contr\u00e1rio, desencadearam uma pol\u00e9mica em toda a esquerda, uma pol\u00e9mica dif\u00edcil e muito dura. O posicionamento perante os acontecimentos na L\u00edbia envolve sem d\u00favida quest\u00f5es de princ\u00edpio e as linhas divis\u00f3rias n\u00e3o est\u00e3o agrupadas nas correntes mais tradicionais ou em organiza\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas ideologicamente. Assim, as posi\u00e7\u00f5es oscilam, entre outras, desde os que ficaram desde o in\u00edcio do processo ao lado de Kadafi, com especial destaque para o presidente da Nicar\u00e1gua, Daniel Ortega, ou da Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez, Fidel Castro e a direc\u00e7\u00e3o cubana, at\u00e9 aos que se posicionaram desde o in\u00edcio em apoio ao levantamento popular contra Kadafi como a Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Palestina, o Partido Comunista dos Trabalhadores da Tun\u00edsia, a LIT-QI, o Hezbollah&#8230;<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do posicionamento concreto, um debate desta natureza exige mais rigor que o que sobressai de toda essa esquerda que sustenta a teoria da conspira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 por tudo o que j\u00e1 representa a L\u00edbia, mas tamb\u00e9m porque o choque se pode repetir perfeitamente, inclusive em maior grau, se a revolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ar para a S\u00edria ou a Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p><strong>Teoria da conspira\u00e7\u00e3o ou luta de classes?<\/strong><\/p>\n<p>O surpreendente deste debate \u00e9 que n\u00e3o havendo um \u00fanico pa\u00eds do mundo \u00e1rabe que tenha ficado livre das revoltas populares se negue a rela\u00e7\u00e3o deste processo com o l\u00edbio.<\/p>\n<p>Para aqueles que desde o in\u00edcio procuraram demarcar-se do levantamento na L\u00edbia e diferenci\u00e1-lo do processo geral do M\u00e9dio Oriente e do mundo \u00e1rabe, a raz\u00e3o mais esgrimida \u00e9 a de que esse levantamento \u00e9 dirigido pela &#8220;Frente Nacional de Salva\u00e7\u00e3o da L\u00edbia [NFSL na sigla inglesa (&#8230;) uma organiza\u00e7\u00e3o financiada pela CIA [que] incita o povo l\u00edbio a reiterar um juramento de lealdade ao rei Idris el-Senusi como l\u00edder hist\u00f3rico do povo l\u00edbio&#8221;.<\/p>\n<p>Recentemente, Julio Anguita (ex-secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista de Espanha e ex-coordenador de Esquerda Unida), numa apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica, partilhava desta explica\u00e7\u00e3o salientando os acontecimentos na L\u00edbia como algo alimentado por &#8220;manipuladores&#8221; financiados pela CIA. Ou seja, segundo este racioc\u00ednio, em todos os pa\u00edses \u00e1rabes h\u00e1 levantamentos populares excepto na L\u00edbia, em que s\u00e3o uma provoca\u00e7\u00e3o instigada pela CIA.<\/p>\n<p>Esta forma de explicar os fen\u00f3menos pol\u00edticos e\/ou sociais est\u00e1, sem d\u00favida, muito pr\u00f3xima da amplamente difundida teoria da conspira\u00e7\u00e3o. Mas aceitemos momentaneamente esta tese e suponhamos que o que se passa na L\u00edbia se explica como parte de um plano engendrado pela CIA. Surgem ent\u00e3o numerosas d\u00favidas:<\/p>\n<p>Khadafi \u00e9 o homem do imperialismo na L\u00edbia desde 2003, e, especialmente a partir de 2006, as multinacionais faziam o que queriam naquele pa\u00eds; o FMI, oito dias antes do levantamento popular, felicitou publicamente o governo l\u00edbio pelos planos que estava a aplicar. Khadafi foi fotografado com todos os presidentes do mundo e foi convidado especialmente por Obama para a Cimeira do G-8. Khadafi apoiou entusiasticamente Ben Ali, o ditador tunisino, e Mubarak, e quando estes estavam a ser questionados pelos levantamentos populares ofereceu a ambos asilo na L\u00edbia. Khadafi \u00e9 o homem que disp\u00f5e das chaves da cidade de  Madrid e \u00e9 amigo declarado de Aznar. Khadafi \u00e9 s\u00f3cio de Berlusconi, e o governo l\u00edbio \u00e9 accionista do grupo aeron\u00e1utico e de defesa Finmeccanica, controlado pelo Estado italiano; accionista da empresa de petr\u00f3leo ENI, da t\u00eaxtil Olcese e do clube de futebol Juventus, entre outros. Inclusive o governo l\u00edbio participa como accionista nas Comunica\u00e7\u00f5es Quinta, da qual o accionista maiorit\u00e1rio \u00e9 Berlusconi.<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 inevit\u00e1vel: por que \u00e9 que a CIA organiza uma conspira\u00e7\u00e3o contra um homem com semelhante curr\u00edculo? O que aconteceu nos oito dias entre o comunicado do FMI felicitando o governo de Khadafi e os levantamentos populares de 17 de Fevereiro para que o imperialismo tenha mudado de pol\u00edtica e tenha desejado os levantamentos populares contra aquele que at\u00e9 essa data era um  governo aliado?<\/p>\n<p>\u00c0 teoria da conspira\u00e7\u00e3o recorrem as correntes pol\u00edticas mais d\u00edspares. Khadafi, por exemplo, tamb\u00e9m opina que \u00e9 uma conspira\u00e7\u00e3o, mas, segundo ele, organizada pela Al Qaeda e pela NATO que a apoia: &#8220;Enfrentamos o terrorismo da Al Qaeda, por um lado, e, por outro, a NATO,  que agora apoia a Al Qaeda&#8221;.<\/p>\n<p>Historicamente, as interven\u00e7\u00f5es da CIA caracterizam-se pelo apoio a golpes militares, mas \u00e9 surpreendente que na L\u00edbia a CIA haja tentado e continue a tentar uma revolta popular, tanto mais quando o faz num barril de p\u00f3lvora como o mundo \u00e1rabe, sacudido por revoltas por toda a parte. Pareceria um bombeiro louco lan\u00e7ando gasolina sobre um enorme inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Mas mais uma vez admitamos que essa hip\u00f3tese \u00e9 correcta e que a CIA liderou uma revolta popular contra aquele que apenas h\u00e1 um m\u00eas era um governo amigo. Porque ent\u00e3o, quando nos primeiros momentos, o levantamento varria as tropas de  Khadafi, o imperialismo esperou para intervir at\u00e9 que  Khadafi se refizesse e o movimento &#8220;sedicioso&#8221; fosse massacrado e reduzido a Benghazi? Porque, quando os insurrectos pediram armas, os governos, entre os quais o espanhol, as negaram?<\/p>\n<p>Os marxistas, e em especial Lenine, apesar de n\u00e3o terem Internet nem p\u00e1ginas web, liam a imprensa burguesa e definiam a sua pol\u00edtica n\u00e3o em base a conspira\u00e7\u00f5es, mas sim na an\u00e1lise das classes sociais, no seu papel, nas suas contradi\u00e7\u00f5es internacionais e nacionais. Onde ficam nesta teoria conspirativa as classes sociais, o car\u00e1cter de classe dos Estados, as contradi\u00e7\u00f5es internas de cada classe, as contradi\u00e7\u00f5es entre os pr\u00f3prios estados imperialistas e entre os grupos multinacionais, as contradi\u00e7\u00f5es entre os movimentos sociais e as  suas direc\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Da mesma forma que para os antigos gregos e romanos o devir do mundo se explicava pelo Destino, para os te\u00f3ricos da conspira\u00e7\u00e3o tudo est\u00e1 escrito para que suceda de uma determinada maneira. Assim explicam os acontecimentos da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Qualquer dado da realidade \u00e9 secund\u00e1rio ou se explica porque o imperialismo &#8220;nos confunde&#8221;. &#8220;N\u00e3o podemos nos guiar pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o do imperialismo&#8221;, dizem eles, mas n\u00e3o se d\u00e3o ao trabalho de ler os poucos ou muitos dados que tenhamos; apelam contra a leitura dos di\u00e1rios burgueses para n\u00e3o ficarmos presos \u00e0 confus\u00e3o, que importa o que diga o inimigo! Os \u00fanicos artigos que devem ser lidos s\u00e3o os &#8220;verdadeiros&#8221;, aqueles que prov\u00eam de opini\u00f5es que &#8220;demonstram&#8221; a conspira\u00e7\u00e3o da CIA.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o t\u00eam depois o menor problema em sustentar a sua teoria conspirat\u00f3ria de um movimento liderado supostamente desde o primeiro dia pela NFSL com base numa nota informativa do <em>New York Times<\/em> de 25 de Fevereiro.<\/p>\n<p><strong>Os crit\u00e9rios de Lenine para &#8220;descobrir a verdadeira ess\u00eancia de uma guerra&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Perante as guerras, Lenine, contra os pacifistas que condenavam toda guerra por princ\u00edpio e frente aos oportunistas que capitulavam aos governos e estados burgueses, exigia, antes de definir uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, determinar a natureza da guerra.<\/p>\n<p>Para os defensores da teoria de la conspira\u00e7\u00e3o na L\u00edbia, basta repetir que &#8220;tudo \u00e9 uma montagem&#8221;, &#8220;a imprensa mente&#8221;, e uma vez iniciada a interven\u00e7\u00e3o imperialista j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada que discutir porque a posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria se define com base em que o &#8220;inimigo ataca&#8221;. Com essa forma de raciocinar, parece sem sentido perguntar-lhes aquilo que Lenine exigia responder antes de definir uma pol\u00edtica. Qual \u00e9 a natureza desta guerra?<\/p>\n<p>Lenine, que certamente dedicava horas e horas a ler todos os jornais burgueses que ca\u00edam nas suas m\u00e3os, polemizando sobre a guerra com todos os que faziam &#8220;tro\u00e7a  do marxismo&#8221; dizia: &#8220;Como descobrir a &#8220;verdadeira ess\u00eancia&#8221; da guerra, como determin\u00e1-la? A guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. \u00c9 preciso estudar a pol\u00edtica que precede a guerra, a pol\u00edtica que leva e levou \u00e0 guerra&#8221;; &#8220;O filisteu n\u00e3o compreende que a guerra \u00e9 a &#8220;continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica&#8221; e por isso se limita a dizer que &#8220;o inimigo ataca&#8221;. Com m\u00e1s veem\u00eancia, Lenine prossegue com esta pol\u00e9mica: &#8220;Se n\u00e3o o fiz\u00e9ssemos  assim, esquecer\u00edamos a exig\u00eancia principal do socialismo cient\u00edfico e de toda la ci\u00eancia social em geral e al\u00e9m disso nos privar\u00edamos de compreender tudo sobre a guerra actual (&#8230;) Pode-se explicar a guerra sem a relacionar com a pol\u00edtica precedente deste ou daquele Estado, deste ou daquele sistema de Estados, destas ou daquelas classes? Repito uma vez mais: esta \u00e9 a quest\u00e3o crucial, que sempre se esquece e cuja incompreens\u00e3o faz com que, em cada dez discuss\u00f5es sobre a  guerra, nove resultem numa disputa v\u00e3 e mero palavreado. N\u00f3s afirmamos: se n\u00e3o tiverem estudado a pol\u00edtica praticada (&#8230;) se n\u00e3o tiverem demonstrado a rela\u00e7\u00e3o desta guerra com a pol\u00edtica precedente, n\u00e3o ter\u00e3o entendido nada desta guerra&#8221;. (1)<\/p>\n<p>Para os te\u00f3ricos da conspira\u00e7\u00e3o todos estes crit\u00e9rios de Lenine s\u00e3o prescind\u00edveis. As explica\u00e7\u00f5es dos fen\u00f3menos pol\u00edticos ou sociais que acontecem no mundo n\u00e3o precisam de fundamento cient\u00edfico, material, nem marxista, basta saber que &#8220;o inimigo ataca&#8221;. Como na velha ditadura que suport\u00e1mos durante quarenta anos, qualquer revolta social se explicava devido aos &#8220;agitadores estrangeiros&#8221;, &#8220;desordeiros profissionais pagos com o dinheiro de Moscovo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Os factos da realidade<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m das conclus\u00f5es pol\u00edticas a que se quer chegar, o facto objectivo \u00e9 que assistimos a uma onda revolucion\u00e1ria em todo o mundo \u00e1rabe e Oriente M\u00e9dio. Na L\u00edbia, o governo de Khadafi, o homem das multinacionais do petr\u00f3leo, o garante da pilhagem imperialista, enfrenta protestos e lutas que culminaram em 17 de Fevereiro numa insurrei\u00e7\u00e3o popular. Vejamos um exemplo simples. Samir El Magrebi, um estivador do porto de Benghazi, ao explicar a um correspondente de um jornal venezuelano que ganhar 200 dinares e vive com a sua fam\u00edlia num quarto da casa de seus pais em um bairro muito humilde, El Zeit\u00fan, disse: &#8220;Somos seis irm\u00e3os e tr\u00eas irm\u00e3s, e apenas tr\u00eas dos nove t\u00eam trabalho. Encontrar um emprego hoje em dia \u00e9 muito dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel. A primeira coisa que precisamos melhorar depois da revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o as quest\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o, emprego e sal\u00e1rio. \u00c9 o que todos n\u00f3s esperamos, que a situa\u00e7\u00e3o melhore&#8221;.<\/p>\n<p>Da mesma forma que em toda a regi\u00e3o, o levantamento coloca no centro das suas exig\u00eancias a luta contra o aumento dos pre\u00e7os e pela satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais elementares, contra o governo corrupto e pelas liberdades democr\u00e1ticas b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>A revolta de 17 de Fevereiro estendeu-se \u00e0s  principais cidades do pa\u00eds e tornou-se forte na regi\u00e3o da Cirenaica, de antiga tradi\u00e7\u00e3o opositora a Khadafi. Khadafi responde reprimindo os protestos com sangue e fogo, o que longe de parar a guerra gerou um enfrentamento armado. A utiliza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito contra os protestos, longe de resolver o problema, abre uma crise profunda no regime.<\/p>\n<p>Sectores do ex\u00e9rcito desertam, ministros, diplomatas e &#8220;homens de neg\u00f3cios&#8221; deixam as fileiras do regime e passam para a oposi\u00e7\u00e3o. Os insurrectos assaltam quart\u00e9is e arsenais de armamento, para enfrentar assim os corpos de elite e os mercen\u00e1rios de Khadafi.<\/p>\n<p>Um site nada suspeito de ser pr\u00f3-imperialista como voltairenet.org informava o seguinte &#8220;O governo de Netanyahu solicitou \u00e0 companhia Global CST que socorresse o regime amigo do coronel Khadafi (&#8230; ) recrutar e transportar at\u00e9 50.000 mercen\u00e1rios, o que parece ser um projecto bastante ambicioso&#8221;.<\/p>\n<p>Para quem conhe\u00e7a bem o sionista Netanyahu, mas n\u00e3o tanto a empresa mencionada, h\u00e1 que dizer simplesmente que a Global CST \u00e9 uma multinacional especializada, entre outras, coisas no com\u00e9rcio de mercen\u00e1rios de guerra e \u00e9 dirigida pelo general na reserva do ex\u00e9rcito sionista Israel Ziv.<\/p>\n<p>Assim, os factos mostram que, contrariamente ao Egipto e \u00e0 Tun\u00edsia, o regime \u00e9 incapaz de controlar institucionalmente a revolta, est\u00e1 dividido, e Khadafi apela aos corpos de elite e a mercen\u00e1rios para abafar os protestos que, longe de sucumbir, se generalizam, e os acontecimentos configuram assim uma situa\u00e7\u00e3o de guerra civil. A transforma\u00e7\u00e3o de um levantamento popular em guerra civil \u00e9 o facto objectivo e a diferen\u00e7a qualitativa, neste momento, entre a L\u00edbia e o Egipto ou a  Tun\u00edsia.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0s exig\u00eancias de Lenine antes de definir uma pol\u00edtica, qual \u00e9 a natureza desta guerra? \u00c9 preciso dizer que a interven\u00e7\u00e3o da NATO na L\u00edbia, a guerra imperialista produz-se sobre a exist\u00eancia de outra guerra, a guerra civil. Assim, na L\u00edbia, estamos no meio de duas guerras.  Os defensores da teoria da conspira\u00e7\u00e3o negam de facto a exist\u00eancia da primeira e reduzem o conflito l\u00edbio a uma s\u00f3 guerra, &#8220;o imperialismo ataca&#8221;; negam assim o levantamento popular e acabam objectivamente sendo os defensores assumidos ou inconfessos de Khadafi.<\/p>\n<p><strong>O movimento insurgente e a sua direc\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para todos os defensores da teoria da conspira\u00e7\u00e3o da CIA, a diferen\u00e7a entre a L\u00edbia e o  Egipto e a Tun\u00edsia est\u00e1 precisamente na direc\u00e7\u00e3o do processo. Para todos eles a direc\u00e7\u00e3o do levantamento e o levantamento em si s\u00e3o a mesma coisa, o que d\u00e1 \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o um car\u00e1cter reaccion\u00e1rio, contra-revolucion\u00e1rio, manipulador, como diz Anguita.<\/p>\n<p>Definir a natureza de um movimento pela sua direc\u00e7\u00e3o \u00e9 um erro muito comum entre alguns sectores da esquerda e \u00e9 alheio ao marxismo.<\/p>\n<p>Os acontecimentos no estado espanhol s\u00e3o pr\u00f3digos em exemplos. As mobiliza\u00e7\u00f5es recentes dos trabalhadores tiveram \u00e0 sua frente uma direc\u00e7\u00e3o corrupta, parte do regime e aliada do governo. Cada mobiliza\u00e7\u00e3o que convocou f\u00ea-lo pensando em colocar-se melhor na negocia\u00e7\u00e3o perante o governo e trair a luta, incluindo a greve geral. Alguns sectores da esquerda, apoiando-se neste facto correcto, negaram-se sucessivamente a participar nas mobiliza\u00e7\u00f5es convocadas pelas CCOO e UGT, inclusive negaram-se a apoiar a greve geral do passado 29 de Setembro. Por que \u00e9 que apoiamos essas mobiliza\u00e7\u00f5es, particip\u00e1mos nelas e impulsion\u00e1mos entusiasticamente uma greve geral quando sab\u00edamos antecipadamente da natureza dessa direc\u00e7\u00e3o e o que pretendia? N\u00e3o sab\u00edamos que iam trair? O que faz\u00edamos &#8220;misturados&#8221; com traidores e corruptos, agentes do regime e do sistema?<\/p>\n<p>Vejamos outros exemplos, Egipto e Tun\u00edsia. Sectores dessa esquerda que hoje distingue a L\u00edbia do resto do processo revolucion\u00e1rio \u00e1rabe participaram desde o in\u00edcio nas manifesta\u00e7\u00f5es de apoio ao levantamento na Tun\u00edsia e Egipto, mas quem era a direc\u00e7\u00e3o desse processo?<\/p>\n<p>Las massas eg\u00edpcias protagonizaram um levantamento exemplar contra o governo de Mubarak, a Pra\u00e7a da Liberdade foi o s\u00edmbolo desse levantamento, mas \u00e0 frente do mesmo colocaram-se dirigentes burgueses e reaccion\u00e1rios como a Irmandade Mu\u00e7ulmana ou os partid\u00e1rios do pr\u00f3-imperialista El Baradei. O ex\u00e9rcito eg\u00edpcio, a institui\u00e7\u00e3o chave do regime, dirigida e assistida pelo imperialismo, desarmava os manifestantes enquanto deixava entrar  na pra\u00e7a os bandos de Mubarak para causar estragos. As massas que gritavam contra o governo e queriam derrubar Mubarak acabaram aplaudindo o Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>O movimento foi controlado, at\u00e9 agora, pelo regime. Hoje no Egipto o ex\u00e9rcito de Mubarak preserva o poder e, com ele, todos os seus pactos de fome e mis\u00e9ria e sustenta o imperialismo e o sionismo. Por que \u00e9 que particip\u00e1mos ent\u00e3o de forma entusi\u00e1stica nas manifesta\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0s revoltas no Egipto quando tinham \u00e0 frente semelhante direc\u00e7\u00e3o pro-imperialista e na pra\u00e7a se gritava por uma interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito eg\u00edpcio?<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o confundimos jamais o movimento com a sua direc\u00e7\u00e3o. A natureza pol\u00edtica de um movimento popular de protesto \u00e9 determinado pelo objectivo, a quem ou o qu\u00ea enfrenta, porque o movimento para um marxista \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o inconsciente, n\u00e3o tem consci\u00eancia do rumo geral da luta nem dos seus objectivos hist\u00f3ricos. As massas quando se mobilizam fazem-no em reac\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que vivem, repudiando quem os condena \u00e0 mis\u00e9ria ou \u00e0 opress\u00e3o. Sobre essa ac\u00e7\u00e3o inconsciente, objectiva, actuam as direc\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o factor subjectivo, consciente, sejam estas direc\u00e7\u00f5es mais ou menos fortes, sejam mais ou menos prestigiadas, sejam revolucion\u00e1rias ou reaccion\u00e1rias. Sob o impulso objectivo da ac\u00e7\u00e3o das massas actuam esses elementos conscientes, que representam interesses de classe diferentes e opostos, para dirigir num ou noutro sentido o processo dando-lhe um programa.<\/p>\n<p>Para os marxistas, esse processo, sem qualquer desfecho linear, est\u00e1 repleto de tens\u00f5es, contradi\u00e7\u00f5es e choques entre as distintas for\u00e7as que disputam essa direc\u00e7\u00e3o. D\u00e1-se, assim, uma luta viva, cujo resultado n\u00e3o vem predeterminado por nenhum conspirador nem nenhuma for\u00e7a do destino.<\/p>\n<p><strong>A luta na L\u00edbia e a direc\u00e7\u00e3o do processo<\/strong><\/p>\n<p>Qual \u00e9 ent\u00e3o a natureza do movimento de protesto contra Khadafi? O facto concreto que desencadeia as mobiliza\u00e7\u00f5es primeiro e a repress\u00e3o do regime depois \u00e9 sobejamente conhecido. Os protestos na L\u00edbia se iniciaram, como em tantos outros pa\u00edses \u00e1rabes, quando surge o processo da Tun\u00edsia. Em 17 de Fevereiro, as manifesta\u00e7\u00f5es contra Khadafi, encabe\u00e7adas pelos familiares das vitimas do massacre ocorrido na pris\u00e3o de Abu Salim, em Tr\u00edpoli, h\u00e1 15 anos, onde foram assassinados 1200 presos, e a deten\u00e7\u00e3o do advogado dos familiares dos presos, foram reprimidas com tiros pelas for\u00e7as de Khadafi. Desencadeiam-se, assim, os acontecimentos actuais.<\/p>\n<p>O povo l\u00edbio, farto de ver deteriorarem-se as suas condi\u00e7\u00f5es de vida, farto de corruptos e de uma ditadura que se prolonga por mais de 40 anos, como na Tun\u00edsia e no Egipto, sai \u00e0s ruas. \u00c9 um movimento progressivo, objectivamente revolucion\u00e1rio e objectivamente antiimperialista, pois enfrenta o governo lacaio do FMI e do imperialismo. Uma pergunta fundamental que toda a esquerda deveria fazer \u00e9 o que faria se se encontrasse no local? Se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos na L\u00edbia, estar\u00edamos sem d\u00favida com os que sa\u00edram \u00e0 rua contra Khadafi, apoiando esse movimento, independentemente da sua direc\u00e7\u00e3o. E quanto mais reaccion\u00e1rias fossem essas direc\u00e7\u00f5es, mais obrigados estar\u00edamos de intervir para impedir que se tornassem a direc\u00e7\u00e3o do movimento.<\/p>\n<p>A Al Jazira e numerosos meios de comunica\u00e7\u00e3o mundiais deram conta da constitui\u00e7\u00e3o, desde o in\u00edcio da revolta, dos chamados Comit\u00e9s Populares. Para quem tenha interesses nos relatos, do lado dos insurrectos h\u00e1 abundante informa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica e sonora, entre os quais num \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o nada suspeito de pr\u00f3-imperialismo como a Telesul venezuelana e a sua correspondente na L\u00edbia Reed Lindsay.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os acontecimentos de 17 de Fevereiro, alastram-se por todo o pa\u00eds Comit\u00e9s Populares. Onde se expulsavam as tropas de Khadafi, eram esses Comit\u00e9s os encarregados de assegurar a provis\u00e3o de alimentos; assegurar a electricidade, obter petr\u00f3leo para o abastecimento de combust\u00edveis \u00e0s plataformas; assegurar a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e \u00e1gua. Esses Comit\u00e9s s\u00e3o os que asseguraram que os funcion\u00e1rios que trabalham nas sucursais locais do Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as, nos lugares onde se juntaram \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, &#8220;assinassem os cheques que garantiram o pagamento dos sal\u00e1rios&#8221;; esses Comit\u00e9s armados asseguraram las tarefas de defesa e o funcionamento das ag\u00eancias do Banco central. Os Comit\u00e9s asseguram que nos bancos que haviam retomado o seu funcionamento fosse permitido retirar diariamente at\u00e9 160 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es nos lugares libertados foi preenchida por estes Comit\u00e9s. N\u00e3o \u00e9 nada dif\u00edcil adivinhar o que todo este processo implica, porque todo processo revolucion\u00e1rio quando deita abaixo o Estado e a sua coluna vertebral, o ex\u00e9rcito, se divide, v\u00ea-se obrigado a substituir e a improvisar toda essa engrenagem.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 a base de todas essas mil\u00edcias e do movimento insurreccional? Da mesma forma que em muitos outros pa\u00edses \u00e1rabes, s\u00e3o os jovens, homens e mulheres, que encabe\u00e7aram o levantamento contra o tirano.<\/p>\n<p>Basta observar as reportagens para ver unas mil\u00edcias improvisadas, mal armados, com pouca disciplina, sem estrutura de comando. Bem longe dos disciplinados, bem pagos e melhor armados corpos de elite que defendem Khadafi. Basta observar para ver como as mil\u00edcias armadas, produto de un levantamento popular, s\u00e3o parecidas \u00e0s que se puderam ver nos primeiros momentos da revolu\u00e7\u00e3o espanhola contra o golpe militar fascista.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir da\u00ed que aparece o factor determinante, a direc\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que existe ou n\u00e3o antes, mas que n\u00e3o se pode improvisar, inventar, sobre a marcha dos acontecimentos. Como manter as mil\u00edcias? Como centralizar os esfor\u00e7os de fornecimento militar? Como formar organismos centralizados a n\u00edvel nacional ante a dispers\u00e3o local? Como constituir um governo centralizado de toda las zonas libertadas?<br \/>Como a realidade \u00e9 incompat\u00edvel com o vazio, inicia-se uma luta, repleta de tens\u00f5es, choques e contradi\u00e7\u00f5es abertas, entre os distintos sectores sociais e pol\u00edticos em disputa que se v\u00eam obrigados a resolver todos estes problemas.<\/p>\n<p>Os dados conhecidos indicam que se generalizaram os Concelhos municipais, e come\u00e7ou a coordena\u00e7\u00e3o entre eles em algumas zonas. Inicialmente, todos os dados evidenciam um papel relevante da chamada &#8220;Coliga\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de 17 de Fevereiro&#8221;, cujo porta-voz \u00e9 Abdelhafed Ghoga, jurista e defensor dos direitos humanos. H\u00e1 cr\u00f3nicas muito vagas de dif\u00edcil comprova\u00e7\u00e3o que afirmam existirem entre as mil\u00edcias rebeldes muitos militantes &#8220;islamistas e comunistas&#8221;.<\/p>\n<p>Acrescenta-se a um panorama de caos nas fileiras da insurrei\u00e7\u00e3o, produto da falta de uma direc\u00e7\u00e3o unificada, a sa\u00edda massiva da L\u00edbia do que \u00e9 a componente central da classe trabalhadora l\u00edbia, os trabalhadores imigrantes, em especial os eg\u00edpcios. Numa popula\u00e7\u00e3o de cerca de 6,5 milh\u00f5es de habitantes, incluindo mais de 1,5 milh\u00f5es de trabalhadores estrangeiros, estima-se entre um milh\u00e3o e um milh\u00e3o e meio as pessoas que sa\u00edram da L\u00edbia desde que come\u00e7ou o conflito.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o do chamado Concelho Nacional aparece como a resposta &#8220;necess\u00e1ria&#8221; tanto para &#8220;p\u00f4r ordem&#8221; nas fileiras dos insurrectos como para estabelecer um interlocutor com o regime e com o mundo.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional reflecte as tens\u00f5es internas e os objectivos d\u00edspares de seus pr\u00f3prios componentes. As diferen\u00e7as geracionais e pol\u00edticas entre as suas componentes s\u00e3o not\u00f3rias. &#8220;O Concelho foi \u00fatil para manter a coes\u00e3o. \u00c9 normal que no principio existam diferentes pontos de vista. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil que todos aceitem a autoridade do Concelho&#8221;; &#8220;O mais dif\u00edcil \u00e9 controlar os jovens&#8221;, declarava Mohamed Gheriani um dos seus mais importantes porta-vozes.<\/p>\n<p>Destas contradi\u00e7\u00f5es entre o Concelho Nacional e a base insurrecta d\u00e3o conta n\u00e3o s\u00f3 as afirma\u00e7\u00f5es anteriores. No mesmo dia em que a ONU aprovava a resolu\u00e7\u00e3o autorizando a interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia, milhares de pessoas manifestavam-se numa pra\u00e7a central de Benghazi para festejar a not\u00edcia. As imagens, que eram retransmitidas pela Al Jazira, mostram na pra\u00e7a um enorme cartaz que circulou sob a forma de fotografia, com um lema en ingl\u00eas: &#8220;No foreing intervention, Libyan people can manage it alone&#8221; (&#8220;N\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o estrangeira, o povo l\u00edbio pode faz\u00ea-lo sozinho&#8221;).<\/p>\n<p>O Concelho Nacional, integrado por 31 membros, na maioria clandestinos, \u00e9 composto por representantes das v\u00e1rias cidades, por figuras de prest\u00edgio na luta pelos direitos democr\u00e1ticos e por um n\u00facleo duro de homens procedentes do regime de Khadafi (e sem not\u00edcias da irrelevante e t\u00e3o citada NFSL).  Para citar alguns ex-kadhafistas, cabe mencionar a Abdul Fatah Younis, ex-chefe do Minist\u00e9rio da Governa\u00e7\u00e3o, que se passou para o lado da subleva\u00e7\u00e3o nos primeiros dias da revolu\u00e7\u00e3o; Ali Aziz Al Issawi, que foi ministro da Economia de Khadafi e se demitiu do posto de embaixador na \u00cdndia; o ex-ministro da Justi\u00e7a Mustaf\u00e1 Abdel Yalil, em 21 de Fevereiro. O Concelho come\u00e7a assim a ser ocupado por &#8220;personalidades respeitadas,  intelectuais, e homens de neg\u00f3cios&#8221;.<\/p>\n<p>Conseguir que esse Concelho &#8220;cumpra a sua miss\u00e3o&#8221; n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, por isso, o l\u00edder supremo das for\u00e7as da NATO, o almirante James Stavridis, afirmou numa interven\u00e7\u00e3o perante o Senado dos EUA que se detectaram &#8220;ind\u00edcios&#8221; da presen\u00e7a de elementos da Al Qaeda e do Hezbol\u00e1 entre as for\u00e7as rebeldes. &#8220;Estamos a analisar bem de perto o  conte\u00fado, a composi\u00e7\u00e3o e as personalidades dos l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o&#8221;, disse ele. No mesmo sentido, o ministro dos Assuntos Exteriores franc\u00eas, Alain Jupp\u00e9, manifestava as suas d\u00favidas sobre o mesmo Concelho, em cujo reconhecimento havia sido pioneiro o governo gaul\u00eas: &#8220;O Concelho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o libio (CNT) n\u00e3o tem o monop\u00f3lio da representa\u00e7\u00e3o dos rebeldes no seu pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p>O imperialismo apressou-se a reconhecer esse Concelho, em primeiro lugar para o ajudar a p\u00f4r &#8220;ordem&#8221; e disciplina \u00e0s indisciplinadas mil\u00edcias e em especial, como eles pr\u00f3prios reconhecem, aos mais jovens. A forma\u00e7\u00e3o do Concelho Nacional, longe das teorias da conspira\u00e7\u00e3o, mostra as contradi\u00e7\u00f5es internas e a luta pela revolu\u00e7\u00e3o, entre o car\u00e1cter objectivo antiditatorial e antiimperialista que expressa o levantamento das massas e a aus\u00eancia de una direc\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, o que permite a homens do velho regime e sectores burgueses (&#8220;homens de neg\u00f3cios&#8221;) situarem-se na lideran\u00e7a para reconduzir esse levantamento para uma transi\u00e7\u00e3o acordada com o imperialismo e com o que consigam salvar do regime de Khadafi.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o objectivo da interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo?<\/strong><\/p>\n<p>Conta-se que quando o governo prussiano pediu ao general Karl von Clausewitz um plano de guerra para enfrentar a Fran\u00e7a, Clausewitz respondeu: diga-nos qual \u00e9 o objectivo pol\u00edtico e n\u00f3s trataremos do plano de guerra. Este c\u00e9lebre general prussiano do s\u00e9culo XIX, autor do tratado &#8220;Sobre a guerra&#8221;, foi sempre muito tido em conta por Engels e sobretudo por Lenine. Dele \u00e9 essa c\u00e9lebre e muito conhecida frase que Lenine repete &#8220;a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios&#8221;.<\/p>\n<p>Os governos imperialistas, por mais perversos e canalhas que sejam, est\u00e3o longe de ser catalogados como idiotas ou ac\u00e9falos que n\u00e3o sabem o que fazem. Por isso, o ministro franc\u00eas da Defesa, G\u00e9rard Longuet, fazendo eco das tens\u00f5es surgidas nas fileiras aliadas, recordava: &#8220;Se n\u00e3o h\u00e1 um projecto pol\u00edtico n\u00e3o faz sentido intervir&#8221;. Qual \u00e9 ent\u00e3o o objectivo pol\u00edtico que preside \u00e0 interven\u00e7\u00e3o? Para os defensores da teoria da conspira\u00e7\u00e3o resume-se a p\u00f4r um sinal de igual entre esta interven\u00e7\u00e3o e a interven\u00e7\u00e3o no Iraque.<\/p>\n<p>Se o objectivo pol\u00edtico \u00e9 o mesmo que na guerra do Iraque, acabar com Sadam Hussein, ocupar militarmente o Iraque e impor um governo colonial, porque \u00e9 que a resolu\u00e7\u00e3o da ONU recusa expressamente a ocupa\u00e7\u00e3o da L\u00edbia? Porque \u00e9 que, como disse muito bem a declara\u00e7\u00e3o da Corrente Vermelha, &#8220;n\u00e3o somente permaneceram impass\u00edveis enquanto o levantamento popular estava sendo arrasado, mas tamb\u00e9m negaram explicitamente armas quando a resist\u00eancia as pediu? Porque \u00e9 que as petrol\u00edferas continuaram a financiar Khadafi? Porque \u00e9 que, mais surpreendentemente ainda, Obama e Zapatero afirmam taxativamente: &#8220;A opera\u00e7\u00e3o na L\u00edbia n\u00e3o pretende expulsar Khadafi&#8221;; &#8220;A resolu\u00e7\u00e3o 1973 do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU n\u00e3o pretendia nem pretende a expuls\u00e3o do coronel Khadafi, o seu objectivo era adverti-lo para deixar de usar as armas contra o seu povo, e que se o n\u00e3o fizesse a comunidade internacional estaria disposta a usar a for\u00e7a para p\u00f4r fim aos assassinatos do seu povo&#8221; (Zapatero).<\/p>\n<p>Para vermos como s\u00e3o fi\u00e9is a esta m\u00e1xima de Lenine, &#8220;a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica&#8221;, basta observar as opera\u00e7\u00f5es militares. Desde que come\u00e7aram, em 19 de Mar\u00e7o, as opera\u00e7\u00f5es da NATO, elas centram-se no ataque a\u00e9reo \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de Khadafi e ao bombardeamento com misseis Tomahawk. Cada bombardeamento permite que as tropas rebeldes avancem, mas assim que cessam os bombardeamentos, as for\u00e7as de Khadafi recuperara novamente terreno. Se o objectivo \u00e9, como no Iraque, acabar rapidamente com Khadafi, ocupar militarmente o pa\u00eds e impor um governo colonial, por que esta forma de interven\u00e7\u00e3o militar que nem acaba com Khadafi nem permite o triunfo dos insurrectos?<\/p>\n<p>Recordemos as m\u00e1ximas de Lenine: &#8220;demonstrar a liga\u00e7\u00e3o desta guerra com a pol\u00edtica precedente&#8221;, &#8220;explicar a guerra relacionando-a com a pol\u00edtica precedente deste ou daquele Estado, desse ou daquele sistema de Estados, destas ou daquelas classes&#8221;. Onde est\u00e3o as an\u00e1lises da crise econ\u00f3mica mundial, das divis\u00f5es interimperialistas pelo controle dos mercados? Onde est\u00e3o as an\u00e1lises de um imperialismo encravado em duas guerras como as do Iraque e Afeganist\u00e3o? Os te\u00f3ricos da conspira\u00e7\u00e3o apagam com o cotovelo o que escreveram com a m\u00e3o apenas umas semanas antes da eclos\u00e3o do conflito.<\/p>\n<p>Que a interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia est\u00e1 a gerar tens\u00f5es nas fileiras do imperialismo e destes com pa\u00edses como R\u00fassia e  China \u00e9 sabido em todo o mundo. O chefe dos imperialistas, Obama, foi claro: &#8220;Ampliar a nossa miss\u00e3o militar na L\u00edbia para provocar a mudan\u00e7a de regime seria um erro&#8230; A alian\u00e7a ter-se-ia dividido,ter\u00edamos de p\u00f4r tropas no terreno, os perigos a que teriam de fazer frente os nossos soldados aumentariam assim como a nossa responsabilidade nos acontecimentos seguintes&#8221;.<\/p>\n<p>Com uma crise econ\u00f3mica mundial que inclui uma redu\u00e7\u00e3o de gastos militares nos EUA de 55.000 milh\u00f5es de euros, com duas guerras n\u00e3o solucionadas e uma regi\u00e3o inteira sacudida por levantamentos populares, repetir a pol\u00edtica do Iraque \u00e9 um suic\u00eddio. A recente reuni\u00e3o do imperialismo em Londres concluiu a dizer que todos querem &#8220;a soberania, independ\u00eancia, integridade territorial e unidade nacional l\u00edbia&#8221;. Sem desconhecer um mil\u00e9simo da demagogia e dos truques imperialistas, estas s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es substancialmente diferentes das proferidas na guerra do Iraque.<\/p>\n<p>As resolu\u00e7\u00f5es da ONU, a nega\u00e7\u00e3o em dar armas aos rebeldes, as ac\u00e7\u00f5es militares da NATO e as declara\u00e7\u00f5es do imperialismo, em especial do seu l\u00edder m\u00e1ximo, Barack Obama, mostram que o objectivo pol\u00edtico da interven\u00e7\u00e3o, como diz a declara\u00e7\u00e3o da Corrente Vermelha, \u00e9 assegurar o controle da zona e impor a &#8220;estabilidade&#8221; numa \u00e1rea estrat\u00e9gica para os recursos energ\u00e9ticos, porque perante os crescentes levantamentos populares os governos e regimes pol\u00edticos da zona mostram-se incapazes de manter a estabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Diferentemente do Egipto e da Tun\u00edsia, n\u00e3o conseguiram um acordo por dentro do regime para desmantelar o levantamento porque na L\u00edbia o levantamento destruiu o estado e a coluna vertebral do mesmo, o ex\u00e9rcito. Nem Khadafi, apoiado pelos seus mercen\u00e1rios e tropas de elite, nem a direc\u00e7\u00e3o da insurrei\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o demonstra controlar a popula\u00e7\u00e3o e ser a direc\u00e7\u00e3o incontest\u00e1vel, garantem por si s\u00f3 essa estabilidade; por isso, as ac\u00e7\u00f5es militares da NATO est\u00e3o ao servi\u00e7o de encurralar ambos e for\u00e7ar um acordo negociado de unidade nacional, uma transi\u00e7\u00e3o negociada sob a tutela imperialista.<\/p>\n<p>Se a pol\u00edtica do imperialismo fosse simplesmente derrubar Khadafi, teria bastado armar desde o primeiro dia a oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos dentes e n\u00e3o dar tr\u00e9guas com os ataques a\u00e9reos para acabar com Khadafi em dois dias sem necessidade de que um s\u00f3 soldado da NATO pisasse o solo da  L\u00edbia. Mas, afirmemos uma vez mais, um Concelho Nacional que n\u00e3o demonstrou ser o representante de todos os insurrectos e capaz de controlar os jovens armados n\u00e3o \u00e9 garantia alguma para o imperialismo.<\/p>\n<p>A proposta de Franco Frattini, ministro dos Assuntos Exteriores italiano, a pot\u00eancia com mais presen\u00e7a na L\u00edbia, \u00e9 clara: &#8220;impulsionar uma reconcilia\u00e7\u00e3o nacional l\u00edbia&#8221;. &#8220;A solu\u00e7\u00e3o da crise ser\u00e1 pol\u00edtica, n\u00e3o militar&#8221;, repete o beligerante Sarkozy. Abrir as portas ao ex\u00edlio de Khadafi, sem lhe pedir contas pelo passado, como fizeram com Ben Ali e Mubarak, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 a &#8220;proposta pol\u00edtica&#8221; em que aposta o imperialismo, mas tamb\u00e9m a que se junta o pr\u00f3prio filho de Khadafi e figura central do regime, Saif Al-Islam. A declara\u00e7\u00e3o do Concelho Nacional comprometendo-se a respeitar todos os acordos internacionais firmados pela L\u00edbia (o mesmo que fizeram os militares eg\u00edpcios), o recente discurso de Khadafi afirmando que aceitaria qualquer decis\u00e3o da Uni\u00e3o Africana e o envio a Londres de emiss\u00e1rios do regime abrem ainda mais a porta  a essa negocia\u00e7\u00e3o que \u00e9 um &#8220;segredo&#8221; de polichinelo.<\/p>\n<p>As ac\u00e7\u00f5es militares da NATO acompanham como a sombra acompanha o corpo a press\u00e3o para impor essa pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Contra o imperialismo e com a revolu\u00e7\u00e3o ou contra a interven\u00e7\u00e3o para defender Khadafi?<\/strong><\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o da Corrente Vermelha afirmava no passado 10 de Mar\u00e7o: &#8220;Que os povos do mundo se mobilizem contra a interven\u00e7\u00e3o imperialista executada pela NATO, pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e contra o regime de Khadafi, com o  objectivo de impedir \u2013 em primeiro lugar \u2013 qualquer apoio directo ou indirecto do Governo espanhol \u00e0 agress\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>&#8220;Manifestamos o nosso apoio ao levantamento do povo l\u00edbio para derrotar o regime de Khadafi, no marco das revolu\u00e7\u00f5es dos povos \u00e1rabes contra os governos pr\u00f3-imperialistas e corruptos. O armamento dos trabalhadores e das classes populares l\u00edbias, e o surgimento de uma direc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se oponha firmemente \u00e0 inger\u00eancia das potencias imperialistas e que seja para desenvolver at\u00e9 \u00e0s  suas \u00faltimas consequ\u00eancias uma estrat\u00e9gia de insurrei\u00e7\u00e3o armada contra o regime de Khadafi, s\u00e3o a \u00fanica garantia de que o povo l\u00edbio possa  conquistar a total soberania nacional, a democracia, a liberdade e a possibilidade de avan\u00e7ar para o  socialismo&#8221;.<\/p>\n<p>Os que defendem, como n\u00f3s, esta posi\u00e7\u00e3o s\u00e3o chamados &#8220;Ni-nis&#8221;. Adoptar a defini\u00e7\u00e3o de um programa de televis\u00e3o lament\u00e1vel, um triste reality show dedicado aos jovens que &#8220;N\u00e3o estudam, nem trabalham&#8221;, mostra muito pouco respeito, muito pouca imagina\u00e7\u00e3o e um n\u00edvel pol\u00edtico lament\u00e1vel.<\/p>\n<p>Atribuem-nos a defesa da mesma posi\u00e7\u00e3o dos que na primeira guerra do Iraque diziam &#8220;Nem NATO nem Sadam&#8221;. Inclusive afirma-se que n\u00e3o somos consequentes com a posi\u00e7\u00e3o mantida at\u00e9 agora de que n\u00f3s defendemos um pa\u00eds atacado pelo imperialismo independentemente do regime que esse pa\u00eds tenha. Continuamos a defender firmemente esse mesmo princ\u00edpio, assim como o fizemos nas guerras do Iraque. Mais ainda quando aqueles que, como eu, t\u00eam anos militando na LIT-QI tiveram que aguentar n\u00e3o poucos insultos dos que se calavam e ficaram escandalizados quando, durante a guerra das Malvinas, defendemos a Argentina, em plena ditadura, contra a agress\u00e3o da Inglaterra.<\/p>\n<p>Surpreende especialmente que muitos dos que com just\u00edssima raz\u00e3o dizem &#8220;Nem PSOE, Nem PP&#8221; tornem-se agora t\u00e3o contr\u00e1rios a dizer  &#8220;Nem, Nem&#8221;.  Mas na guerra da L\u00edbia quem nos acusa de &#8220;Ni-nis&#8221; s\u00f3 podem faz\u00ea-lo desde um ponto de vista: desconhecer a exist\u00eancia da guerra que precede a interven\u00e7\u00e3o imperialista, desconhecendo o levantamento popular contra Khadafi. Na realidade os &#8220;Ni-nis&#8221; n\u00e3o existem; dizer &#8220;Nem Sadam Nem NATO&#8221; quando havia uma guerra de agress\u00e3o imperialista s\u00f3 podia ser a bandeira do neutralismo frente a essa guerra, isto \u00e9, a bandeira da capitula\u00e7\u00e3o vergonhosa \u00e0 agress\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Quem diz &#8220;NATO n\u00e3o, Fora Khadafi&#8221;, longe de qualquer neutralismo, mant\u00e9m a coer\u00eancia da nossa posi\u00e7\u00e3o: estamos contra a interven\u00e7\u00e3o imperialista e a favor de que a insurrei\u00e7\u00e3o derrote Khadafi. Deixamos claro que estamos contra a interven\u00e7\u00e3o imperialista, mas n\u00e3o somos neutros na guerra civil aberta, queremos que os insurrectos l\u00edbios n\u00e3o deixem rasto do regime do pr\u00f3-imperialista e tirano Khadafi.<\/p>\n<p>O paradoxo do debate \u00e9 que a posi\u00e7\u00e3o que agitam contra os &#8220;Ni-nis&#8221; acaba sendo neutral numa das duas guerras em curso, a guerra civil l\u00edbia, e por essa via acabam capitulando completamente ao regime de Khadafi. Pior ainda, mostram uma inconsequ\u00eancia extrema. Se \u00e9 certo que n\u00e3o h\u00e1 a tal guerra civil como n\u00f3s afirmamos e se tudo \u00e9 uma montagem, se aqui n\u00e3o h\u00e1 outra guerra al\u00e9m da agress\u00e3o imperialista, porque n\u00e3o exigir apoio militar a Khadafi, porque n\u00e3o exigir volunt\u00e1rios e armas para defender a L\u00edbia, a de Khadafi, contra o imperialismo? Porque n\u00e3o exigir de todas as organiza\u00e7\u00f5es e governos \u00e1rabes armas e volunt\u00e1rios para ir para a L\u00edbia? Em vez de tudo isso, os &#8220;antiimperialistas&#8221; declaram-se agora partid\u00e1rios ac\u00e9rrimos da &#8220;n\u00e3o inger\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Construir um movimento de massas em apoio \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e contra a interven\u00e7\u00e3o imperialista<\/strong><\/p>\n<p>Como nos declaramos partid\u00e1rios de organizar um grande movimento de massas contra a interven\u00e7\u00e3o imperialista estamos obrigados a reconhecer a realidade como ela \u00e9. Os companheiros que v\u00e3o com os panfletos a convocar para as manifesta\u00e7\u00f5es contra a interven\u00e7\u00e3o da NATO nas suas fabricas, nas suas empresas ou a nas mesquitas deparam-se com uma realidade que est\u00e1 a anos-luz dos abundantes coment\u00e1rios de &#8220;Kaos en la red&#8221; e de algumas reuni\u00f5es da &#8220;vanguarda antiimperialista&#8221;. A imensa maioria da classe trabalhadora, incluindo boa parte dos melhores activistas oper\u00e1rios, e a imensa maioria da chamada comunidade \u00e1rabe n\u00e3o est\u00e3o de facto contra a interven\u00e7\u00e3o da NATO ou t\u00eam importantes d\u00favidas de se esta \u00e9 o &#8220;mal  menor&#8221;. Pior ainda, h\u00e1 um dado demolidor que deveria fazer reflectir os te\u00f3ricos da conspira\u00e7\u00e3o: o que se passa nos pa\u00edses \u00e1rabes em que, estando sacudidos por um processo revolucion\u00e1rio em toda a regi\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es de massas contra la interven\u00e7\u00e3o? Por que \u00e9 que no L\u00edbano, Tun\u00edsia e Egipto n\u00e3o  vieram milh\u00f5es \u00e0 rua para dizer n\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o imperialista?<\/p>\n<p>Para os defensores da teoria da conspira\u00e7\u00e3o a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples, os poderosos meios de comunica\u00e7\u00e3o mentem, falsificam e confundem, gerando assim um determinado estado de opini\u00e3o. Mas os meios de comunica\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a ser assim agora? Que saibamos sempre foram assim, mentirosos, falsificadores, etc. Como explicar ent\u00e3o que milh\u00f5es de pessoas no mundo vieram para as ruas contra a interven\u00e7\u00e3o no Iraque, que nos pa\u00edses \u00e1rabes todas e cada uma das interven\u00e7\u00f5es do imperialismo trouxe milh\u00f5es para as ruas e nesta desta vez \u00e9 um deserto?<\/p>\n<p>Dizem que as grandes mentiras, para que tenham credibilidade social, necessitam de una dose de verdade. A grande mentira do imperialismo, de que interv\u00e9m na L\u00edbia para salvar a popula\u00e7\u00e3o civil, assenta numa dose de verdade, a de que Khadafi est\u00e1 reprimindo de forma sanguin\u00e1ria a popula\u00e7\u00e3o que se levantou contra ele. Quando qualquer pessoa do mundo ouviu dizer que Khadafi entraria em Benghazi como Franco entrou em Madrid, acabou tendo a dose definitiva de verdade que fez engolir a grande mentira.<\/p>\n<p>Querer combater as mentiras do imperialismo negando os factos da realidade, essas &#8220;doses de verdade&#8221;, \u00e9 a aposta segura para n\u00e3o construir nenhum movimento antiimperialista.<\/p>\n<p>Afirmar que &#8220;o que une&#8221; \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o da NATO, que esse deve ser o acordo  &#8220;m\u00ednimo&#8221; para impulsionar um movimento contra a guerra, \u00e9 apostar em n\u00e3o construir esse movimento de protesto contra a interven\u00e7\u00e3o. Porque dizer s\u00f3 &#8220;N\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da NATO&#8221;, desconhecendo a guerra civil em curso, desconhecendo a recusa de todos os governos de enviar armas aos insurrectos, \u00e9 dizer N\u00e3o \u00e0 NATO&#8230; e que Khadafi arrebente com os insurrectos, \u00e9 definitivamente o apoio inconfesso a Khadafi. Essa politica \u00e9 um crime para o processo revolucion\u00e1rio nos pa\u00edses \u00e1rabes e enche de raz\u00e3o aos que, desgra\u00e7adamente, opinam que essa interven\u00e7\u00e3o &#8220;\u00e9 o mal menor&#8221;.<\/p>\n<p>Temos que impulsionar um movimento contra a guerra que diga &#8220;NATO n\u00e3o, FORA Khadafi&#8221;, que grite como outro dia em Madrid &#8220;N\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o, sim \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. H\u00e1 que levar esse debate \u00e0s empresas, aos sindicatos e especialmente aos trabalhadores \u00e1rabes imigrantes, para explicar pacientemente que para apoiar os trabalhadores e o povo l\u00edbio para que derrotem Khadafi \u00e9 preciso que sejamos contra a interven\u00e7\u00e3o da NATO e exijamos armas para os insurrectos, como afirma a declara\u00e7\u00e3o da Corrente Vermelha.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso manifestar todo apoio e solidariedade aos que pegaram em armas contra Khadafi, e por isso n\u00e3o queremos uma interven\u00e7\u00e3o para substituir uma tirania por outra, pela pior de todas as tiranias, a das grandes pot\u00eancias. N\u00e3o queremos que a NATO com o regime de Khadafi, ainda que sem ele, e os sectores do Concelho Nacional que v\u00eam desse mesmo regime, roubem ao povo l\u00edbio o seu direito \u00e0 vit\u00f3ria. N\u00e3o queremos um &#8220;novo regime&#8221; que continue a espoliar os recursos da L\u00edbia, entregando as riquezas do pa\u00eds \u00e0s multinacionais; n\u00e3o queremos um novo regime que seguindo as ordens do FMI continue a condenar a juventude ao desemprego e \u00e0 mis\u00e9ria. Por isso, o levantamento de 17 de Fevereiro s\u00f3 triunfar\u00e1 se for o povo armado a derrotar Khadafi e fechar a porta \u00e0 NATO.<\/p>\n<p>Seguramente que mais de um &#8220;antiimperialista&#8221; clamar\u00e1 aos c\u00e9us a dizer: pedem armas aos governos imperialistas! N\u00e3o basta isso para provar a capitula\u00e7\u00e3o ao imperialismo?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso recordar-lhes que Ho Chi Min e o Vietmin pediram e receberam armamento do imperialismo norte-americano na sua luta contra os imperialismos franc\u00eas e japon\u00eas e que saibamos n\u00e3o foram acusados por eles de pr\u00f3-imperialistas. Os partisans italianos e franceses na II Guerra Mundial exigiram v\u00e1rias vezes armamento aos ex\u00e9rcitos norte-americano e brit\u00e2nico sem que tenham sido acusados por eles de pr\u00f3-imperialistas sax\u00f5es. E n\u00e3o foi uma das grandes reivindica\u00e7\u00f5es da Rep\u00fablica em 1936 o pedido de ajuda militar \u00e0s potencias imperialistas, os chamados aliados? N\u00e3o foi sempre um motivo de den\u00fancia o miser\u00e1vel embargo de armas que o governo Blum fez \u00e0 rep\u00fablica e a recusa dos aliados de enviar essas armas?<\/p>\n<p>Em todos os casos citados, pedir armas \u00e9 uma exig\u00eancia b\u00e1sica, um direito dos povos defenderem-se dos tiranos, \u00e9 al\u00e9m disso uma forma directa de desmascarar a demagogia imperialista. Os que falam em defender o povo l\u00edbio, porque lhe negam repetidamente o direito a defender-se? Mas \u00e9 sobretudo a demonstra\u00e7\u00e3o clara e sincera de que queremos a vit\u00f3ria do povo l\u00edbio frente a Khadafi.<br \/>Apoiar  os insurrectos l\u00edbios, exigir armas para a sua defesa, \u00e9 a maneira de colocar uma barreira entre os jovens armados e a direc\u00e7\u00e3o capituladora do Concelho Nacional, \u00e9 a  melhor maneira de fazer a liga\u00e7\u00e3o com esses sectores que defendem &#8220;N\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o estrangeira, o povo l\u00edbio pode faz\u00ea-lo s\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>O futuro da L\u00edbia com um novo regime surgido da unidade nacional ou da completa derrota do regime de Khadafi n\u00e3o vai fechar o processo revolucion\u00e1rio. O novo regime ter\u00e1 que responder \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, sociais e democr\u00e1ticas que est\u00e3o na base do levantamento que hoje sacode a L\u00edbia e todos os povos \u00e1rabes. Nenhum governo colonial poder\u00e1 satisfazer essas reivindica\u00e7\u00f5es e isso d\u00e1 base material \u00e0 continuidade da luta. Mas os que de forma confessa ou inconfessa se puseram do lado de Khadafi n\u00e3o ter\u00e3o nada que dizer, porque estiveram do lado do tirano que o povo derrubou.<\/p>\n<p><strong>\u00c1ngel Luis Parras, de Corrente Vermelha<\/strong><\/p>\n<p>(1) Fragmentos de textos de Lenine sobre a guerra. As duas cita\u00e7\u00f5es correspondem a dois artigos: &#8220;Sobre a caricatura do marxismo e o &#8216;economicismo imperialista\u00b4 &#8221; (1916) e &#8220;A guerra e a revolu\u00e7\u00e3o&#8221; (1917).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Torna-se imposs\u00edvel encontrar actualmente um pa\u00eds \u00e1rabe que n\u00e3o esteja sacudido por revoltas e mobiliza\u00e7\u00f5es. A crise econ\u00f3mica mundial afecta os pa\u00edses do M\u00e9dio Oriente e do Norte de \u00c1frica. S\u00e3o os trabalhadores imigrantes destes pa\u00edses na Europa os primeiros a perder os seus postos de trabalho e com isto caem a pique os envios de remessas de dinheiro para os seus pa\u00edses. Vem o FMI impondo programas de privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, de redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica dos gastos dos Estados, de diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de trabalhadores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos&#8230; Nada que pare\u00e7a estranho, mas cujas consequ\u00eancias s\u00e3o muito mais demolidoras nestes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[35],"tags":[],"class_list":["post-440","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-medio-oriente"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}