{"id":4372,"date":"2022-04-14T13:24:48","date_gmt":"2022-04-14T12:24:48","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4372"},"modified":"2022-04-14T13:24:50","modified_gmt":"2022-04-14T12:24:50","slug":"eleicoes-em-franca-unidade-da-esquerda-podia-ter-derrotado-le-pen-e-disputar-a-2a-volta-contra-macron","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/04\/14\/eleicoes-em-franca-unidade-da-esquerda-podia-ter-derrotado-le-pen-e-disputar-a-2a-volta-contra-macron\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es em Fran\u00e7a: unidade da esquerda podia ter derrotado Le Pen e disputar a 2\u00aa volta contra Macron"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As presidenciais francesas s\u00e3o mais um reflexo da crise de domina\u00e7\u00e3o capitalista a n\u00edvel mundial.<\/strong> Vemo-lo nos EUA, com a profunda divis\u00e3o e instabilidade que a burguesia trumpista tem protagonizado. Vemo-lo em Fran\u00e7a e, agora, num grau mais avan\u00e7ado que nas \u00faltimas presidenciais, em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O desaparecimento eleitoral dos tradicionais partidos do \u201ccentr\u00e3o\u201d &#8211; PS franc\u00eas e partidos de centro-direita \u2013 reflecte a decad\u00eancia estrutural do regime presidencialista franc\u00eas e d\u00e1 lugar a uma crescente polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/strong> \u00c9 precisamente em Fran\u00e7a que, nos \u00faltimos anos, se t\u00eam feito sentir os maiores n\u00edveis de contesta\u00e7\u00e3o social europeia, movimento muito disputado tanto pela esquerda como pela extrema-direita. Isto deve-se a uma presid\u00eancia que manteve a juventude, trabalhadores, classe m\u00e9dia e pequenas e m\u00e9dias empresas sob um duro processo de proletariza\u00e7\u00e3o, nos \u00faltimos 5 anos, enquanto distribuiu benef\u00edcios \u00e0s classes dominantes. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Macron ficou conhecido como o presidente das elites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Apesar da forte contesta\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos anos, Macron n\u00e3o sai derrotado na primeira volta das elei\u00e7\u00f5es francesas.<\/strong> Consegue ficar em 1\u00ba lugar, conquistar 9,78 milh\u00f5es de votos, 27,8%, sobretudo, nas maiores e mais pr\u00f3speras cidades francesas. Foram mais 1,1 milh\u00f5es de votos que a sua candidatura de 2017 e com uma maior diferen\u00e7a face ao 2\u00ba lugar, ocupado novamente por Le Pen. A press\u00e3o para o \u201cvoto \u00fatil\u201d em Macron como o candidato melhor colocado para evitar uma poss\u00edvel vit\u00f3ria da extrema-direita de Le Pen explicar\u00e1 grande parte deste resultado. Outro elemento importante ter\u00e1 sido o esfor\u00e7o de Macron por se colocar na dianteira das negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, antes da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, conseguindo mobilizar uma parte importante da base eleitoral ao centro, nas principais regi\u00f5es urbanas. <strong>Macron consegue assim ocupar o espa\u00e7o ao centro, mas, sem par de altern\u00e2ncia, n\u00e3o conseguir\u00e1 cumprir o papel de \u201cvira o disco e toca o mesmo\u201d dos tradicionais \u201ccentr\u00f5es\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A polariza\u00e7\u00e3o favoreceu o crescimento da extrema-direita de Le Pen e da esquerda de M\u00e9lenchon, que, com campanhas centradas n<\/strong><strong>a quest\u00e3o d<\/strong><strong>o aumento do custo de vida, atingem resultados semelhantes, com ligeira vantagem para os primeiros<\/strong>. Le Pen ficou em 2\u00ba lugar, \u00e0 frente de M\u00e9lenchon, que ficou em 3\u00ba lugar, por apenas 420 mil votos de diferen\u00e7a. \u00c9 deplor\u00e1vel que o conjunto da esquerda n\u00e3o tenha encontrado alguma plataforma de entendimento para evitar que a extrema-direita fosse a uma 2\u00ba volta, mas j\u00e1 l\u00e1 iremos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na extrema-direita, Le Pen consegue 8,1 milh\u00f5es de votos, 23,2%, mais cerca de 460 mil votos que em 2017, e surge Zemmour, racista convicto, destilador do mais abjecto nacionalismo e autoritarismo, que vem ocupar uma parte da extrema-direita deixada pela relativa modera\u00e7\u00e3o de Le Pen, conseguindo conquistar o 4\u00ba lugar, com 2,5 milh\u00f5es de votos e 7,1%. <strong>Nunca a extrema-direita tinha conseguido t\u00e3o grande resultado numa primeira volta das elei\u00e7\u00f5es francesas.<\/strong> A relativa modera\u00e7\u00e3o de Le Pen, no \u00faltimo per\u00edodo, e a oportunista concentra\u00e7\u00e3o da sua campanha sobre os principais problemas sentidos pela classe trabalhadora, classes interm\u00e9dias e pequenos propriet\u00e1rios trouxeram resultados, sobretudo, nas regi\u00f5es mais rurais do Nordeste e Sul de Fran\u00e7a, assim como em cidades menos abastadas, como Marselha. Zemmour parece acabar por cumprir o contradit\u00f3rio papel de limitar o crescimento de Le Pen, ocupando uma parte da sua base eleitoral, sobretudo a Sul e na capital, mas alargar a base eleitoral da extrema-direita como um todo. Em conjunto, a extrema-direita alcan\u00e7ou os 10,6 milh\u00f5es de votos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 esquerda, precisamos recuar \u00e0s elei\u00e7\u00f5es francesas de 1969 para encontrar um resultado eleitoral, \u00e0 esquerda do PS franc\u00eas, t\u00e3o expressivo quanto o actual de M\u00e9lenchon, que conquista 7,7 milh\u00f5es de votos, 22%, mais 655 mil votos que em 2017, numa campanha marcada pela resposta ao aumento dos pre\u00e7os, aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, diminui\u00e7\u00e3o da idade da reforma, refor\u00e7o da Sa\u00fade p\u00fablica e por um novo sistema democr\u00e1tico<a href=\"#sdfootnote1sym\" id=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda \u00e0 esquerda, o PCF, o NPA e a LO registam vota\u00e7\u00f5es, modestas e em decl\u00ednio, de 2,3% (802 mil votos), 0,8% (269 mil votos) e 0,6% (197 mil votos), respectivamente. <strong>Perante o perigo real de a extrema-direita poder vir a ganhar as elei\u00e7\u00f5es presidenciais francesas e mediante a possibilidade, tamb\u00e9m ela real, de M\u00e9lenchon ter conseguido chegar \u00e0 2\u00aa volta, no lugar de Le Pen, \u00e9 de uma profunda cegueira sect\u00e1ria que o conjunto da esquerda n\u00e3o tenha encontrado alguma plataforma de entendimento para derrotar a extrema-direita<\/strong>. Em conjunto, a esquerda, sem considerar o PS franc\u00eas, alcan\u00e7ou os 9 milh\u00f5es de votos, mas n\u00e3o consegue colocar-se em posi\u00e7\u00e3o de representar uma alternativa vi\u00e1vel \u00e0 juventude e trabalhadores que dispute a presid\u00eancia com Macron.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As possibilidades de Le Pen vir a ser eleita presidente nunca foram t\u00e3o altas. As actuais sondagens apontam que Macron consegue apenas 51% a 54% das prefer\u00eancias de voto, contra 46% a 49% para a nacionalista, logo, dentro da margem de erro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Le Pen, colocando-se como uma suposta candidata anti-sist\u00e9mica, conseguir\u00e1 capitalizar uma parte consider\u00e1vel do descontentamento popular e da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade francesa, assim como o apoio dos sectores burgueses mais nacionalistas e autorit\u00e1rios. Macron beneficiar\u00e1 do apoio da maioria dos sectores sociais mais abastados, assim como da maioria da burguesia nacional e internacional. As classes dominantes das pot\u00eancias da NATO e da UE torcer\u00e3o por Macron, face \u00e0 possibilidade de a Fran\u00e7a poder vir a sair da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica, tal como defendido por Le Pen, ou \u201cface \u00e0 possibilidade de uma \u2018admiradora de longa data do Presidente russo Vladimir Putin\u2019 passar a mandar num dos pa\u00edses mais importantes dos 27\u201d<a href=\"#sdfootnote2sym\" id=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a>. <strong>Qual destas conjuga\u00e7\u00f5es de grupos sociais conseguir\u00e1 ter mais peso eleitoral, \u00e9 ainda uma inc\u00f3gnita.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sem que signifique diretamente uma derrota irrevers\u00edvel da juventude e dos trabalhadores, uma poss\u00edvel vit\u00f3ria eleitoral da extrema-direita, num pa\u00eds central da Europa, como Fran\u00e7a, \u00e9 um perigo gigantesco no caminho do autoritarismo, nacionalismo, racismo e at\u00e9 no sentido do acirrar das disputas imperialistas internacionais e da escalada dos conflitos militares<\/strong>. Esperamos estar errados, mas a cegueira sect\u00e1ria da esquerda francesa pode vir a sair-nos cara, a toda a juventude e classe trabalhadora europeias. Tamb\u00e9m em Fran\u00e7a, a juventude e os trabalhadores t\u00eam um importante caminho a percorrer para criar uma alternativa pol\u00edtica de esquerda, anticapitalista que v\u00e1 ao encontro das suas necessidades e anseios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a> <a href=\"https:\/\/melenchon2022.fr\/programme\/version-courte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/melenchon2022.fr\/programme\/version-courte\/<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em><a id=\"sdfootnote2sym\" href=\"#sdfootnote2anc\">2<\/a> <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/internacional\/2022-04-11-Le-Pen-tem-hipoteses-de-vencer--Tantas-como-Trump-em-2016.-Eis-os-factores-decisivos-da-batalha-pela-Franca-914b74f0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/expresso.pt\/internacional\/2022-04-11-Le-Pen-tem-hipoteses-de-vencer&#8211;Tantas-como-Trump-em-2016.-Eis-os-factores-decisivos-da-batalha-pela-Franca-914b74f0<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As presidenciais francesas s\u00e3o mais um reflexo da crise de domina\u00e7\u00e3o capitalista a n\u00edvel mundial. Vemo-lo nos EUA, com a profunda divis\u00e3o e instabilidade que a burguesia trumpista tem protagonizado. Vemo-lo em Fran\u00e7a e, agora, num grau mais avan\u00e7ado que nas \u00faltimas presidenciais, em 2017. O desaparecimento eleitoral dos tradicionais partidos do \u201ccentr\u00e3o\u201d &#8211; PS franc\u00eas e partidos de centro-direita \u2013 reflecte a decad\u00eancia estrutural do regime presidencialista franc\u00eas e d\u00e1 lugar a uma crescente polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social. \u00c9 precisamente em Fran\u00e7a que, nos \u00faltimos anos, se t\u00eam feito sentir os maiores n\u00edveis de contesta\u00e7\u00e3o social europeia, movimento muito<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4373,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[39,24],"tags":[476,1382,718,1064,1098,2089,2088,197],"class_list":["post-4372","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa","category-franca","tag-esquerda","tag-extrema-direita","tag-franca-2","tag-le-pen","tag-macron","tag-melenchon","tag-presidenciais-francesas","tag-unidade-de-esquerda"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/resultados_franca_2022.jpg?fit=1200%2C710","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4372"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4374,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4372\/revisions\/4374"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4373"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}