{"id":4155,"date":"2022-02-02T13:10:39","date_gmt":"2022-02-02T12:10:39","guid":{"rendered":"http:\/\/mas.org.pt\/?p=4155"},"modified":"2022-02-12T13:46:07","modified_gmt":"2022-02-12T12:46:07","slug":"a-geringonca-termina-em-maioria-absoluta-do-ps-e-fortalecimento-da-extrema-direita","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2022\/02\/02\/a-geringonca-termina-em-maioria-absoluta-do-ps-e-fortalecimento-da-extrema-direita\/","title":{"rendered":"A Geringon\u00e7a termina em maioria absoluta do PS e fortalecimento da extrema-direita"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PS \u00e9 o vencedor das elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2022, com uma surpreendente maioria absoluta, a quarta maior vit\u00f3ria de sempre (perto de 2.300.000 votos) e o segundo melhor n\u00famero de deputados de sempre (j\u00e1 tem 117 deputados e pode conseguir mais 2 ou 3). Venceu em todos os c\u00edrculos eleitorais, com excep\u00e7\u00e3o da Madeira, e, salvo raras excep\u00e7\u00f5es, sempre acima dos 40%. Este era um cen\u00e1rio que nem o pr\u00f3prio Costa previa, tendo chegado a afirmar \u00e0 RTP, no in\u00edcio da noite eleitoral: uma maioria absoluta \u201cn\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A imprevisibilidade que caracterizou estas legislativas; as sondagens que, na \u00faltima semana, colocavam o PSD a ultrapassar o PS; o previs\u00edvel crescimento da extrema-direita; a possibilidade de a desmobiliza\u00e7\u00e3o do \u201celeitorado de esquerda\u201d dar origem a um governo da direita, tal como aconteceu nas aut\u00e1rquicas em Lisboa; ou pior, a possibilidade de a direita vir a conformar governo com a extrema-direita, tal como aconteceu nos A\u00e7ores, contribu\u00edram para confinar este acto eleitoral \u00e0 l\u00f3gica do \u201cvoto \u00fatil\u201d, acabando mesmo por suplantar o relativo desgaste que o Governo PS tinha acusado nas aut\u00e1rquicas de 2021, h\u00e1 escassos meses<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A este conjunto de factores, junta-se um outro, decisivo: o baixo n\u00edvel de mobiliza\u00e7\u00e3o social dos \u00faltimos anos, factor para o qual muito contribu\u00edram as direc\u00e7\u00f5es do PCP e BE, acomodados aos corredores do parlamento, colocou-os ref\u00e9ns da pol\u00edtica do PS e reduziu-os \u00e0 mera contabilidade eleitoral, acabando por cumprir um papel determinante na vit\u00f3ria do PS<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De qualquer forma, aten\u00e7\u00e3o: PS, BE, PCP, PAN e Livre, partidos que apoiaram a solu\u00e7\u00e3o governativa dos \u00faltimos 6 anos, mant\u00eam-se os mais votados, mas perdem perto de 100.000 votos, enquanto PSD, CDS-PP, Chega e IL mant\u00eam-se os menos votados, mas ganham cerca de 500.000 votos, face a 2019. A dist\u00e2ncia entre os partidos que t\u00eam apoiado o Governo do PS e os partidos da direita e extrema-direita, reduziu-se para menos de metade: de cerca de 1.157.000 votos aquela dist\u00e2ncia passou para 556.000 votos, agora. S\u00e3o menos cerca de 600.000 votos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ou seja, o PS, por efeito da pol\u00edtica d\u00fabia de BE e PCP e do \u201cvoto \u00fatil\u201d, absorve uma parte consider\u00e1vel do eleitorado da esquerda, conquistando uma maioria absoluta, mas \u00e0 direita acelera-se o seu processo de recomposi\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da qual a extrema-direita e a IL conquistam mais 520.000 votos, \u00e0 custa, sobretudo, da direita tradicional<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"a-estrategia-de-be-e-pcp-serviu-para-fortalecer-o-ps-ate-conseguir-a-maioria-absoluta\">A estrat\u00e9gia de BE e PCP serviu para fortalecer o PS at\u00e9 conseguir a maioria absoluta\u2026<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No total do pa\u00eds, ainda sem a contagem dos votos dos c\u00edrculos da emigra\u00e7\u00e3o, o PS consegue mais 340.000 votos, enquanto BE e o PCP juntos perderam 356.000 votos, sugerindo uma massiva transfer\u00eancia de votos do BE e PCP para o PS e, eventualmente, algumas franjas, at\u00e9 para a direita. <strong>Esta \u00e9 uma tend\u00eancia que se regista desde a assinatura dos acordos que deram origem \u00e0 Geringon\u00e7a: fortalecimento do PS e enfraquecimento de BE e PCP, terminando agora com uma das maiores derrotas destes \u00faltimos e uma maioria absoluta do PS.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O BE perde 52% dos votos (260.000 votos) e 14 deputados, ficando com uma bancada parlamentar reduzida a 5 deputados. Nem o objetivo n\u00famero um de se manter como terceira for\u00e7a pol\u00edtica, \u00e0 frente da extrema-direita, foi alcan\u00e7ado. Passa de terceira a quinta for\u00e7a pol\u00edtica, atr\u00e1s do Chega e IL. Fica at\u00e9 com menos deputados que o PCP, embora com mais votos. O tombo chega a ser superior ao de 2011, altura em que o BE tamb\u00e9m foi penalizado por ter chumbado o PEC IV que levou ao fim de outro Governo PS, liderado por Jos\u00e9 S\u00f3crates.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta foi a terceira derrota eleitoral seguida do BE, depois das presidenciais de h\u00e1 um ano, com Marisa Matias, e das aut\u00e1rquicas de Outubro de 2021, em que o partido conseguiu apenas quatro mandatos nas autarquias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u201ctaticismo eleitoral\u201d de chumbo de um OE do PS em tudo semelhante aos aprovados anteriormente, que Catarina Martins tenta negar, foi por demais evidente, tendo resultado numa derrota em toda a linha. <strong>O problema est\u00e1 na estrat\u00e9gia pol\u00edtica do BE, de recorrente aproxima\u00e7\u00e3o ao PS. Para a juventude e os trabalhadores torna-se confuso que o BE alimente expectativas nas governa\u00e7\u00f5es do PS, quando isso lhe traz dividendos eleitorais, mas diga o seu contr\u00e1rio quando os resultados eleitorais lhe s\u00e3o desfavor\u00e1veis. Este n\u00e3o pode ser o caminho para a juventude e os trabalhadores que procuram uma alternativa de esquerda ao PS e \u00e0 direita.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A CDU, nos \u00faltimos 6 anos, com um trajecto semelhante, sofre a maior derrota em legislativas. Perde quase 30% dos votos, quase 96.000 votos e metade da bancada parlamentar, ficando com 6 deputados. N\u00e3o elege em \u00c9vora pela primeira vez. Jo\u00e3o Oliveira, ex-l\u00edder da bancada parlamentar, n\u00e3o \u00e9 eleito e os Verdes deixam de estar representados no parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PAN tamb\u00e9m sofre com o \u201cvoto \u00fatil\u201d e, muito provavelmente, com as contradi\u00e7\u00f5es que a sua direc\u00e7\u00e3o e linha pol\u00edtica encerram. O oportunismo pol\u00edtico de se disponibilizar a governar tanto com a direita como com o PS, assim como os neg\u00f3cios agr\u00edcolas que In\u00eas Sousa Real mant\u00e9m, n\u00e3o serviram para refor\u00e7ar o resultado do PAN, antes pelo contr\u00e1rio. O PAN perde 53% dos votos e desce para os 82.000 votos, 1,53% do total, voltando a eleger apenas em Lisboa, tal como em 2015.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Livre, com uma pol\u00edtica acr\u00edtica e de refor\u00e7o das governa\u00e7\u00f5es do PS, surfou a onda e acabou por beneficiar do pr\u00f3prio \u201cvoto \u00fatil\u201d, conseguindo contrariar a tend\u00eancia de queda \u00e0 esquerda do PS e eleger Rui Tavares. Sem d\u00favida que a sua participa\u00e7\u00e3o nos debates televisivos contribuiu positivamente para a exposi\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica e para o resultado alcan\u00e7ado, conseguindo 69.000 votos em termos nacionais, mais do que os 57.000 de h\u00e1 dois anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O MAS, com uma pol\u00edtica de exig\u00eancia ao PS e \u00e0 esquerda tradicional, \u00e9 o outro partido da esquerda que consegue contrariar a tend\u00eancia de queda<\/strong>. Olhando para os 8 c\u00edrculos a que concorremos nas legislativas anteriores, identificamos um crescimento que ronda os 20%. No total, conseguimos 6.000 votos, um resultado modesto, que poderia ser mais expressivo, caso o peso do \u201cvoto \u00fatil\u201d n\u00e3o tivesse sido t\u00e3o avassalador<strong>. Este nosso crescimento, ainda que se mantenha num patamar modesto, pesado no contexto de uma dura perda da esquerda tradicional, parece demonstrar que o espa\u00e7o para uma renova\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda n\u00e3o s\u00f3 existe, como deve ser constru\u00eddo. Estamos convencidos que demos os primeiros passos nesse sentido.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao PCTP\/MRPP, com uma din\u00e2mica completamente oposta \u00e0 do MAS, mant\u00e9m a tend\u00eancia de paulatina extin\u00e7\u00e3o eleitoral, tendo concorrido apenas a 9 c\u00edrculos e conquistado 10.800 votos. Uma \u00faltima nota para o ADN, partido negacionista, que procura acoplar com o descontentamento que alimenta este tipo de movimentos por todo o mundo, mas que em Portugal n\u00e3o representam mais de 0,19%, 10.000 votos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"e-fortalecer-a-extrema-direita\">\u2026 e fortalecer a extrema-direita<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c0 direita, a sua recomposi\u00e7\u00e3o dita uma dura derrota para os partidos tradicionais e um lament\u00e1vel crescimento da extrema-direita e IL<\/strong>. O PSD consegue mais 41.000 votos, mas regista o quarto pior resultado em legislativas, com uma diferen\u00e7a de 14 pontos percentuais, menos 748.000 votos, face ao PS. Em n\u00famero de deputados, o PSD fica com 76, podendo chegar a 78 (com a emigra\u00e7\u00e3o). Praticamente o mesmo que tinha. Desta forma, Rui Rio, ainda que n\u00e3o tenha ainda assumido a sua demiss\u00e3o, afirmou que n\u00e3o tem mais argumentos que lhe permitam continuar \u00e0 frente do partido. Quanto ao CDS-PP, a noite eleitoral confirmou a cat\u00e1strofe anunciada: teve apenas 87.000 votos, sem eleger qualquer deputado. Francisco Rodrigues dos Santos demitiu-se na pr\u00f3pria noite eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 IL que, em 2019, se tinha estreado em elei\u00e7\u00f5es, com 1,29% dos votos, precisamente 67.681, agora, disparou: conseguiu 268.414, mais do que o CDS-PP h\u00e1 dois anos. Conquistou 8 deputados, em quatro distritos, tantos quantos hoje tem a CDU. A IL passou em dois anos para quarto partido do Parlamento. E superou bastante, at\u00e9, o n\u00famero de votos de Tiago Mayan nas presidenciais de janeiro de 2021 &#8211; 134.484 votos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Chega sobe ainda mais do que a IL e conquista um resultado que nos deve colocar em alerta<\/strong>. Passa de 67.826 votos, em 2019, para perto de 386.000 votos, mais, sensivelmente, 117.000 do que os liberais. \u00c9 a terceira for\u00e7a pol\u00edtica no Parlamento, com 7,15% dos votos (a fasquia m\u00ednima que tinha tra\u00e7ado) e 12 deputados \u2013 eleitos em Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Faro, Leiria, Santar\u00e9m e Set\u00fabal. Mesmo assim, Ventura perde votos face ao que tinha conseguido nas presidenciais: menos 111.000 do que nessa altura. <strong>A extrema-direita autorit\u00e1ria e antidemocr\u00e1tica consolida-se no parlamento, naquilo que ficar\u00e1 conhecido como uma das maiores ingenuidades do regime em que vivemos: permitir que organiza\u00e7\u00f5es de extrema-direita antidemocr\u00e1ticas e que perfilham a ideologia fascista concorram a elei\u00e7\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Portanto, a direita est\u00e1 mais dividida, mas refor\u00e7a as suas alas mais autorit\u00e1rias e mais neoliberais, sobretudo, \u00e0 custa dos seus representantes tradicionais<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para concluir, a concentra\u00e7\u00e3o de votos no PS e a derrota da direita tradicional expressa nitidamente que <strong>a mem\u00f3ria dos anos de chumbo da Troika e do \u00faltimo Governo PSD\/CDS-PP est\u00e1 bem presente, tendo motivado uma importante mobiliza\u00e7\u00e3o eleitoral para que a direita n\u00e3o volte a governar, muito menos em acordo com a extrema-direita<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o resultado da lament\u00e1vel adapta\u00e7\u00e3o de BE e PCP ao governo do PS est\u00e1 \u00e0 vista: Ant\u00f3nio Costa consegue o pleno, mesmo ap\u00f3s 6 anos de governa\u00e7\u00e3o e a acusar algum cansa\u00e7o e desgaste; BE e PCP sofrem mais uma dura derrota eleitoral, tendo-se aberto o caminho ao crescimento da extrema-direita e dos liberais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fica dif\u00edcil acreditar que Ant\u00f3nio Costa ir\u00e1, agora, com maioria absoluta, resolver muitos dos problemas que n\u00e3o teve interesse em resolver nos \u00faltimos 6 anos<\/strong>. Se esta desconfian\u00e7a se confirmar, a possibilidade de um governo da direita tradicional coligada com a extrema-direita tornar-se-\u00e1 uma realidade cada vez mais palp\u00e1vel no decurso da pr\u00f3xima legislatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c0 esquerda do PS exige-se uma reflex\u00e3o dos \u00faltimos 6 anos e um refor\u00e7o das mobiliza\u00e7\u00f5es da juventude e trabalhadores que permitam resolver a precariedade, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, a crise ambiental e a opress\u00e3o estrutural. \u00c9 urgente uma renova\u00e7\u00e3o da esquerda tradicional e esse processo pode ter-se iniciado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A todos os que se identificaram com a Renata e com o projecto do MAS, apelamos a que nos venham conhecer e ajudar a construir a renova\u00e7\u00e3o da esquerda tradicional que tanto precisamos.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PS \u00e9 o vencedor das elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2022, com uma surpreendente maioria absoluta, a quarta maior vit\u00f3ria de sempre (perto de 2.300.000 votos) e o segundo melhor n\u00famero de deputados de sempre (j\u00e1 tem 117 deputados e pode conseguir mais 2 ou 3). Venceu em todos os c\u00edrculos eleitorais, com excep\u00e7\u00e3o da Madeira, e, salvo raras excep\u00e7\u00f5es, sempre acima dos 40%. Este era um cen\u00e1rio que nem o pr\u00f3prio Costa previa, tendo chegado a afirmar \u00e0 RTP, no in\u00edcio da noite eleitoral: uma maioria absoluta \u201cn\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel\u201d. 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