{"id":402,"date":"2011-02-15T18:59:39","date_gmt":"2011-02-15T17:59:39","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2011\/02\/15\/a-revolucao-comecou-em-tunes\/"},"modified":"2011-02-15T18:59:39","modified_gmt":"2011-02-15T17:59:39","slug":"a-revolucao-comecou-em-tunes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2011\/02\/15\/a-revolucao-comecou-em-tunes\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em Tunes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-401\" style=\"margin: 10px 10px 2px; float: left;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/tunisiasite.gif?w=300\"  \/>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe come\u00e7ou nas ruas de Tunes, provocou a queda do ditador Ben Ali e continua a incendiar o pa\u00eds. <\/p>\n<p>Dia 14 de Janeiro, culminavam nas ruas de Tunes os acontecimentos de um m\u00eas impens\u00e1vel. Milhares de manifestantes tomavam as ruas da capital enquanto o tirano Ben Ali terminava mais de duas d\u00e9cadas \u00e0 frente de um regime autorit\u00e1rio e corrupto, numa fuga apressada de helic\u00f3ptero.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  Impens\u00e1vel a coragem com que nos dias anteriores trabalhadores e desempregados, sobretudo jovens, enfrentavam a pol\u00edcia do regime desafiando recolheres obrigat\u00f3rios e sabendo da brutal repress\u00e3o, por vezes com balas, a que se sujeitavam. <\/p>\n<p><strong>Como tudo come\u00e7ou<\/strong><\/p>\n<p>O grande rastilho ter-se-ia acendido a 18 de Dezembro quando um jovem de 26 anos, licenciado sem emprego, que vendia frutas e vegetais nas ruas para subsistir, foi proibido de o fazer pela pol\u00edcia, e, tomado pelo desespero, se regou com gasolina e se incendiou em frente da sede do governo da sua cidade.<\/p>\n<p>A revolta alastrou ao resto do pa\u00eds com mobiliza\u00e7\u00f5es maci\u00e7as que pediam a demiss\u00e3o do presidente, que amorda\u00e7ava a comunica\u00e7\u00e3o social e se reelegia sucessivamente em elei\u00e7\u00f5es fraudulentas nos \u00faltimos 23 anos, enquanto enriquecia uma casta que girava \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Quando os camponeses pobres do campo e a juventude desempregada (mais de 30% dos jovens do pa\u00eds) e subempregada, fartos do aumento insuport\u00e1vel do custo de vida, sa\u00edam das suas aldeia e bairros acompanhados, no caso dos jovens, pelos seus pais e av\u00f3s, para encher o centro das cidades, onde eram acompanhados por advogados, m\u00e9dicos e amplos sectores da classe m\u00e9dia, a pol\u00edcia fez o que melhor sabia, reprimir e disparar sobre civis desarmados, resultando em dezenas de mortos.<\/p>\n<p><strong>O papel do imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>A hipocrisia e oportunismo das pot\u00eancias imperialistas \u00e9 gritante, nomeadamente dos Estados Unidos e da Fran\u00e7a, antiga for\u00e7a colonial, que durante d\u00e9cadas pouco ou nada falavam da falta de liberdades civis e pol\u00edticas do regime tunisino, negociando \u00e0 grande os contratos das suas empresas que se instalavam no pa\u00eds aproveitando os baixos sal\u00e1rios e as recomenda\u00e7\u00f5es do FMI, ao mesmo tempo que enchiam os bolsos \u00e0 burguesia que se concentra sobretudo na fam\u00edlia de Ben Ali e da mulher.<\/p>\n<p>Quando a pol\u00edcia come\u00e7ava a perder o controlo nos protestos, e o regime come\u00e7ava a tremer, o ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros franc\u00eas oferecia-se para enviar tropa policial para a Tun\u00edsia dizendo dispor-se a &#8220;no quadro da nossa coopera\u00e7\u00e3o agir para que o direito de manifesta\u00e7\u00e3o se possa fazer ao mesmo tempo que se assegura a seguran\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>A Wikileaks revelou que os diplomatas americanos sabiam o qu\u00e3o podre era o regime, o descontentamento que isso provocava na popula\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o a que esta era sujeita, mas conclu\u00edam que devia ser apoiado de qualquer forma.<\/p>\n<p>Agora que o presidente fugiu do pa\u00eds dizem &#8220;apoiar as aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas dos tunisinos&#8221;, condenando a viol\u00eancia e apoiando a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es livres, numa tentativa de manter a m\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o sa\u00edda da nova conjuntura. A democracia do cassetete, da fraude eleitoral, da pris\u00e3o e da bomba &#8211; a velha amiga do capital internacional e dos estados que o representam, um cl\u00e1ssico de Cabul a Casablanca<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o continua<\/strong><\/p>\n<p>Cedo se percebe que a burocracia corrupta que girava em torno de Ben Ali, enquanto cede \u00e0 revolta, se esfor\u00e7a por manter-se no poder, agora com a cara lavada. Cedo forma-se um governo interino chefiado por membros do RCD, o &#8220;velho&#8221; partido do poder, usando ao mesmo tempo uma cosm\u00e9tica de &#8220;uni\u00e3o nacional&#8221; ao incluir membros da UGTT, a principal central sindical do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Longe de regressarem a casa convencidos que j\u00e1 tinham conseguido o que queriam, milhares de tunisinos continuam nas ruas quase todos os dias e cercam os edif\u00edcios do governo exigindo a sua demiss\u00e3o. Pelo caminho foram conseguindo a legaliza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas banidas pelo antigo regime, assim como o in\u00edcio da queda de v\u00e1rios ministros e a dissolu\u00e7\u00e3o do RCD.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em muitos zonas populares surgem comit\u00e9s de bairro, com a popula\u00e7\u00e3o local a organizar-se para tratar da sua seguran\u00e7a e de outros assuntos. Inclusivamente, a UGTT, pressionada pela vontade de mudan\u00e7a dos trabalhadores que representa, convocou uma greve geral por tempo indeterminado at\u00e9 que todas as figuras do antigo regime desapare\u00e7am das estruturas do governo.<\/p>\n<p>Ainda que a revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 tenha colhido frutos na Tun\u00edsia, deu in\u00edcio a um efeito domin\u00f3 por todo o mundo \u00e1rabe, com o Egipto tamb\u00e9m a ferro e fogo. Tamb\u00e9m com a for\u00e7a da juventude desesperada pelo desemprego, aumento do custo de vida e falta de perspectivas, enormes manifesta\u00e7\u00f5es e confrontos j\u00e1 aconteceram na vizinha Arg\u00e9lia, na Jord\u00e2nia ou no I\u00e9mene. Tremem de medo os poderios autorit\u00e1rios e corruptos e as burguesias locais e imperialistas que os sustentam. Aguardam-se as cenas dos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos. <strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Tra\u00e7a<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe come\u00e7ou nas ruas de Tunes, provocou a queda do ditador Ben Ali e continua a incendiar o pa\u00eds. Dia 14 de Janeiro, culminavam nas ruas de Tunes os acontecimentos de um m\u00eas impens\u00e1vel. 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