{"id":3902,"date":"2021-09-09T00:56:53","date_gmt":"2021-09-08T23:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/mas.org.pt\/?p=3902"},"modified":"2021-09-12T17:04:40","modified_gmt":"2021-09-12T16:04:40","slug":"politicas-de-expansao-monetaria-adiar-o-problema-sem-o-resolver","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2021\/09\/09\/politicas-de-expansao-monetaria-adiar-o-problema-sem-o-resolver\/","title":{"rendered":"Pol\u00edticas de expans\u00e3o monet\u00e1ria: adiar o problema sem o resolver"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR) europeu, assim como a generalidade das pol\u00edticas de expans\u00e3o monet\u00e1ria (aumento de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o), aplicadas pelas grandes pot\u00eancias, na \u00faltima d\u00e9cada, inspiram-se em considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas keynesianas, das quais derivou a mais recente teoria monet\u00e1ria moderna (<em>Modern Monetary Theory<\/em>, \u201cMMT\u201d, em ingl\u00eas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A teoria monet\u00e1ria de Keynes nega que o lucro venha da mais-valia, extra\u00edda pela explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, no processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, e que esta seja a for\u00e7a motriz do investimento e, consequentemente, do emprego. Como o reconhecimento de tal lei, na esfera da produ\u00e7\u00e3o, conduziria Keynes a um choque com o sistema capitalista, este barricou-se na esfera da troca e desenvolveu uma explica\u00e7\u00e3o em torno dos meios de troca \u2013 o dinheiro<\/strong>. O dinheiro passou a ser a causa das crises capitalistas e a sua, consequente, solu\u00e7\u00e3o. Convenientemente, o conflito de classes \u00e9 simplesmente obliterado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o comprovar, \u00e9-nos geralmente contada uma hist\u00f3ria em que a crise de 1929 ter\u00e1 sido resolvida atrav\u00e9s da emiss\u00e3o de dinheiro e dos gastos or\u00e7amentais ao estilo keynesiano. No entanto, n\u00e3o foi bem assim. Segundo Michael Roberts, a pol\u00edtica keynesiana falhou, algo que o pr\u00f3prio<a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2015\/11\/11\/keynes-marx-and-the-effect-of-qe\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2015\/11\/11\/keynes-marx-and-the-effect-of-qe\/\"> Keynes reconheceu na \u00e9poca<\/a>. A economia dos EUA s\u00f3 se recuperou com a destrui\u00e7\u00e3o provocada pela guerra e a imposi\u00e7\u00e3o de uma economia com o governo a centralizar e dirigir os investimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Seja como for, vejamos a articula\u00e7\u00e3o da teoria monet\u00e1ria de Keynes. Numa economia de mercado, a acumula\u00e7\u00e3o de dinheiro \u00e9 o \u00fanico prop\u00f3sito de toda a produ\u00e7\u00e3o. Nesta economia, o valor real s\u00f3 \u00e9 realizado atrav\u00e9s da sua troca por dinheiro, estimulando, assim, a sua acumula\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Neste processo, o capitalismo gera crises sistem\u00e1ticas, mas Keynes n\u00e3o questiona o problema da acumula\u00e7\u00e3o<\/strong>. No entanto, \u00e9 precisamente o objectivo de realizar e acumular o valor real gerado na produ\u00e7\u00e3o que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista vai produzindo e despejando mercadorias no mercado at\u00e9 \u00e0 sua satura\u00e7\u00e3o, momento a partir do qual surgem crises.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Keynes trata a tend\u00eancia do capitalismo para gerar crises, n\u00e3o como uma caracter\u00edstica inerente e at\u00e9 necess\u00e1ria \u00e0 esfera da produ\u00e7\u00e3o capitalista, mas como um efeito circunscrito \u00e0 esfera da troca, supostamente justificado pela escassez de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o, restringindo o consumo. <strong>O desencontro entre oferta e procura dever\u00e1 ser resolvido, pela interven\u00e7\u00e3o do Estado, atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o do dinheiro e das institui\u00e7\u00f5es financeiras, como forma de aumentar o dinheiro em circula\u00e7\u00e3o e estimular a procura<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para que esta teoria mantenha coer\u00eancia, o dinheiro n\u00e3o pode ter qualquer rela\u00e7\u00e3o com o valor real criado na esfera da produ\u00e7\u00e3o<\/strong>. Keynes adopta, assim, a concep\u00e7\u00e3o \u201cchartalista\u201d do dinheiro, segundo a qual este \u00e9 uma mera \u201ccria\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, sem valor intr\u00ednseco, assumindo um valor na troca atrav\u00e9s da mera confian\u00e7a que \u00e9 depositada no Estado e nas suas institui\u00e7\u00f5es. O dinheiro ser\u00e1, portanto, tudo aquilo que o Estado criar e aceitar como meio de pagamento, sem qualquer liga\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. <strong>Desta forma, Keynes alimenta a ilus\u00e3o de que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o existe qualquer problema com o processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista como \u00e9 poss\u00edvel que este se mantenha equilibrado se todas as barreiras \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do dinheiro forem removidas, nomeadamente, se as taxas de juro forem restringidas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Partindo destas concep\u00e7\u00f5es, os adeptos da MMT definem que economias avan\u00e7adas, com controlo total sobre a sua moeda, em vez de recorrerem a endividamento, podem e devem imprimir dinheiro quase indefinidamente para manter os seus gastos a um n\u00edvel que garanta o pleno emprego (mesmo que isso signifique d\u00e9fices or\u00e7amentais), estimulando a procura, mantendo a acumula\u00e7\u00e3o capitalista e evitando a turbul\u00eancia do sistema. Segundo os pr\u00f3prios, o limite desta pol\u00edtica ser\u00e1 o n\u00edvel de infla\u00e7\u00e3o desejado. Tudo isto sem aumentar a d\u00edvida p\u00fablica, uma vez que o governo n\u00e3o tem de pedir o dinheiro emprestado. De uma assentada, ficam descartadas as preocupa\u00e7\u00f5es com os d\u00e9fices or\u00e7amentais e a d\u00edvida p\u00fablica. <strong>Ou seja, para a MMT, as formas de financiamento do Estado n\u00e3o se destinam a suportar os gastos do governo. Como o Estado tem acesso \u00e0 impressora do dinheiro, os seus gastos e proveitos s\u00e3o apenas instrumentos de pol\u00edtica destinados a controlar a quantidade de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o na economia, sempre dentro dos limites da infla\u00e7\u00e3o e das taxas de juro desej\u00e1veis<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Assim sendo, para Keynes e os seus disc\u00edpulos, aquilo que precisamos para debelar as crises do capitalismo \u00e9 de uma impressora de dinheiro, ou seja, um banco central. Este dever\u00e1 manipular o dinheiro em circula\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do aumento do cr\u00e9dito, que n\u00e3o se repercutir\u00e1 na esfera do Estado, o senhor do dinheiro, mas na esfera das fam\u00edlias e empresas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora implaus\u00edvel, esta concep\u00e7\u00e3o encontra hoje um ambiente mais favor\u00e1vel \u00e0 sua repercuss\u00e3o: uma longa crise capitalista, sem uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja a destrui\u00e7\u00e3o massiva de capitais e m\u00e3o-de-obra para voltar a retomar as taxas de acumula\u00e7\u00e3o sob novas bases, que acaba de se aprofundar com uma pandemia. Enquanto as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o amadurecem para a burguesia, eventualmente, conseguir impor tal destrui\u00e7\u00e3o, como aconteceu com as guerras mundiais, no in\u00edcio do s\u00e9c. XX, esta est\u00e1 disposta a recorrer a todo o tipo de artif\u00edcios para manter o seu dom\u00ednio, nomeadamente, uma pol\u00edtica de expans\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Porque \u00e9 que a teoria monet\u00e1ria keynesiana \u00e9 falsa?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a concep\u00e7\u00e3o marxista, o problema fundamental \u00e9 precisamente a acumula\u00e7\u00e3o de lucro que move o sistema capitalista. Este determina que n\u00e3o exista uma correspond\u00eancia directa entre a esfera da produ\u00e7\u00e3o e a esfera da troca, ou seja, uma boa parte da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde a uma necessidade de consumo. Isto origina, recorrentemente, o fen\u00f3meno de sobreprodu\u00e7\u00e3o ou, por outras palavras, uma parte da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de ser transformada em dinheiro, restringindo o investimento e gerando crises.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Portanto, a raz\u00e3o do desequil\u00edbrio entre oferta e procura, produ\u00e7\u00e3o e consumo, reside n\u00e3o na falta de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o, mas na natureza da produ\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema capitalista, guiada pela acumula\u00e7\u00e3o de lucro e n\u00e3o pelas necessidades sociais<\/strong>. Para que oferta e procura se pudessem equilibrar, os pre\u00e7os das mercadorias deveriam ser iguais ao seu valor real, medidos em tempo m\u00e9dio de trabalho social necess\u00e1rio \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma vez que o problema reside na esfera da produ\u00e7\u00e3o, Marx era da opini\u00e3o de que as altera\u00e7\u00f5es na esfera da troca ou do dinheiro em circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiriam remediar as contradi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas<\/strong> e \u00e0s correspondentes rela\u00e7\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o uma vez que o recurso \u00e0 emiss\u00e3o de dinheiro (cr\u00e9dito) \u00e9 uma express\u00e3o destas mesmas contradi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o a sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A caracter\u00edstica subjacente ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o privada \u00e9 socialmente validada na troca, atrav\u00e9s da sua transforma\u00e7\u00e3o em dinheiro. <strong>A concep\u00e7\u00e3o do dinheiro como uma &#8220;cria\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, sem uma correspond\u00eancia com o valor real criado no processo produtivo, cuja quantidade pode ser regulada por meio da manipula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es privadas de cr\u00e9dito, oculta a din\u00e2mica mais profunda em ac\u00e7\u00e3o no mundo da produ\u00e7\u00e3o de valor, no qual o dinheiro \u00e9 apenas a sua apar\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria Ivanova expressa-o de forma eloquente:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA \u2018teoria do dinheiro\u2019 de Keynes comprova a infinidade de problemas decorrentes do div\u00f3rcio for\u00e7ado do dinheiro face ao processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista &#8211; problemas que s\u00f3 foram ampliados por subsequentes reinterpreta\u00e7\u00f5es p\u00f3s-keynesianas. O <em>money-of-account<\/em> de Keynes, ou cr\u00e9dito na linguagem moderna, representa nada mais do que uma obriga\u00e7\u00e3o, a promessa de vir a pagar, de vir a entregar a \u2018coisa real\u2019 (<em>money-proper<\/em> de Keynes), [o rendimento efectivo], num determinado momento; assim, o primeiro pode funcionar como \u2018um substituto \u00fatil\u2019 para o \u00faltimo, desde que haja confian\u00e7a de que o compromisso seja honrado, de que a d\u00edvida seja paga. No entanto, isso significa que qualquer transa\u00e7\u00e3o envolvendo cr\u00e9dito nunca \u00e9 final, uma vez que constitui o in\u00edcio de uma obriga\u00e7\u00e3o ou o adiar de uma obriga\u00e7\u00e3o existente e, portanto, um protelar da liquida\u00e7\u00e3o final. A liquida\u00e7\u00e3o final, por sua vez, requer a entrega da \u2018coisa real\u2019 \u2013 [o dinheiro efectivo correspondente ao valor real gerado no processo produtivo]. No entanto, Keynes pretendia ter a \u2018solu\u00e7\u00e3o\u2019 para este problema tamb\u00e9m. Uma vez que o dinheiro propriamente dito, no seu sistema, \u00e9 dinheiro do Estado, ele pode ser \u2018administrado\u2019 como o Estado achar mais adequado, ou seja, pode ser expandido (quase) \u00e0 vontade. Esta concep\u00e7\u00e3o do dinheiro encontra dois problemas interrelacionados: ela n\u00e3o s\u00f3 falha em compreender a natureza dual do dinheiro como rendimento efectivo e como cr\u00e9dito, mas tamb\u00e9m confunde a distin\u00e7\u00e3o entre a pseudo-valida\u00e7\u00e3o social e a valida\u00e7\u00e3o social real da produ\u00e7\u00e3o capitalista. O governo pode produzir os s\u00edmbolos f\u00edsicos que representam \u2018dinheiro\u2019, pode criar a forma institucional do dinheiro, mas o dinheiro, como rela\u00e7\u00e3o social, surge no processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e est\u00e1 inextricavelmente ligado ao comando sobre a for\u00e7a de trabalho [mais-valia, extra\u00edda pela explora\u00e7\u00e3o]. Assim, o dinheiro emitido pelo Estado pode aumentar as reservas banc\u00e1rias e permitir mais cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito, mas o pr\u00f3ximo passo necess\u00e1rio \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito em dinheiro como rendimento efectivo; pois os s\u00edmbolos ou cr\u00e9dito do governo n\u00e3o podem validar a produ\u00e7\u00e3o privada, como um truque de magia (apenas o trabalho social na forma de dinheiro o pode fazer).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dinheiro \u00e9 o equivalente universal porque expressa o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio, incorporado nas mercadorias. O dinheiro \u00e9 a forma independente de exist\u00eancia do valor (de troca) que permite a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias e a empregabilidade do trabalho (compra e venda de for\u00e7a de trabalho). No entanto, o dinheiro (como rendimento efectivo) e o cr\u00e9dito s\u00e3o fundamentalmente diferentes. O sistema banc\u00e1rio privado cria cr\u00e9dito, que apenas se pode tornar \u2018dinheiro como rendimento efectivo\u2019 se entrar no dom\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o social como incorpora\u00e7\u00e3o do valor do trabalho socialmente necess\u00e1rio [\u2026]. Por outras palavras, as decis\u00f5es dos bancos privados em conceder cr\u00e9dito \u00e0s empresas equivalem a uma &#8216;pr\u00e9-valida\u00e7\u00e3o privada&#8217; das atividades produtivas futuras (valores em desenvolvimento), enquanto a disposi\u00e7\u00e3o do banco central de financiar os bancos privados, vinculando-o \u00e0 emiss\u00e3o de dinheiro novo, representa uma &#8216;pseudo-valida\u00e7\u00e3o social&#8217; das atividades produtivas privadas. No entanto, apenas a concretiza\u00e7\u00e3o real da produ\u00e7\u00e3o, a sua transforma\u00e7\u00e3o em dinheiro &#8211; dinheiro como rendimento efectivo, como uma express\u00e3o de valor &#8211; pode fornecer a valida\u00e7\u00e3o social real da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste contexto, a concep\u00e7\u00e3o de que pol\u00edticas governamentais habilidosas, sob um regime de moeda fiduci\u00e1ria [cr\u00e9dito], podem trazer os objetivos socialmente desej\u00e1veis de pleno emprego e estabilidade de pre\u00e7os, simplesmente falham o alvo. Na realidade, nada poderia ser mais adverso ao funcionamento do capitalismo contempor\u00e2neo do que a conquista simult\u00e2nea dessas duas condi\u00e7\u00f5es maravilhosas. Pois a infla\u00e7\u00e3o e o desemprego desempenham pap\u00e9is estruturais no sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O principal benef\u00edcio de um regime de moeda fiduci\u00e1ria, auxiliado por um sistema de cr\u00e9dito proactivo, est\u00e1 na capacidade de regular os conflitos de classe por meio da infla\u00e7\u00e3o, ou seja, por meio da desvaloriza\u00e7\u00e3o crescente do valor do trabalho social e do poder de compra social do dinheiro [\u2026] O desemprego \u00e9 outra caracter\u00edstica estrutural e necess\u00e1ria ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Por um lado, \u00e9 o resultado natural da compuls\u00e3o inerente do capital para superar a sua depend\u00eancia do trabalho vivo por meio do desenvolvimento tecnol\u00f3gico dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o. O desemprego \u00e9 o reservat\u00f3rio da for\u00e7a de trabalho redundante. Por outro lado, o desemprego funciona como um mecanismo fundamental na gest\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. A ideia de ter o governo a empregar desempregados \u00e9 contraproducente ao capitalismo. Por um lado, isso iria minar a economia privada, reduzindo o seu acesso a uma oferta de m\u00e3o-de-obra barata e abundante. Al\u00e9m disso, eliminaria a inseguran\u00e7a do emprego como uma alavanca disciplinar fundamental na gest\u00e3o da for\u00e7a de trabalho\u201d<span id='easy-footnote-1-3902' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2021\/09\/09\/politicas-de-expansao-monetaria-adiar-o-problema-sem-o-resolver\/#easy-footnote-bottom-1-3902' title='Ivanova, Maria. (2011). Can \u2018It\u2019 Happen Again: The Limits of Money Artistry. Critique. 39. 211-232.'><sup>1<\/sup><\/a><\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Desta forma, nenhum dos esquemas com dinheiro funcionar\u00e1 indefinidamente para manter a economia capitalista em funcionamento<\/strong>. Em vez disso, <strong>as pol\u00edticas monet\u00e1rias expansionistas n\u00e3o chegam sequer a transformar-se em investimentos produtivos, mas alimentam a especula\u00e7\u00e3o financeira, em benef\u00edcio dos mais ricos, aumentando os riscos associados a bolhas financeiras.<\/strong> Nunca os mercados financeiros estiveram t\u00e3o desfasados da realidade como nos dias que correm. O BCE bem pode continuar a imprimir dinheiro, mas o investimento produtivo privado n\u00e3o acontece porque as expectativas de lucro s\u00e3o baixas e inst\u00e1veis. <strong>Revela-se, assim, que a pol\u00edtica monet\u00e1ria keynesiana tem como efeito primordial o de evitar o colapso imediato dos pre\u00e7os dos activos e de ir sustentando as taxas de lucro. Os astron\u00f3micos montantes de dinheiro emitidos pelos v\u00e1rios bancos centrais fizeram muito pouco pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As pol\u00edticas de estagna\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o salarial (directa e indirecta) e a precariza\u00e7\u00e3o, deixadas pela Troika, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o deixaram de existir, como s\u00e3o agora conjugadas com o fomento da procura atrav\u00e9s do cr\u00e9dito.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Esta conjuga\u00e7\u00e3o de factores constitui ainda a base de uma estrat\u00e9gia de disciplina sobre a organiza\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social. Baixos sal\u00e1rios mant\u00eam os trabalhadores dependentes do trabalho, tend\u00eancia esta que \u00e9 refor\u00e7ada pelo crescente endividamento. Tudo isto em fun\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os dos capitalistas, conforme est\u00e1 precisamente a acontecer.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a emiss\u00e3o de dinheiro novo n\u00e3o pode continuar <em>ad eternum<\/em>. A d\u00edvida pessoal d\u00e1 ao credor o poder legal de reivindicar o rendimento futuro dos trabalhadores, mas se o cr\u00e9dito aumentar mais rapidamente do que o rendimento do trabalho, inevitavelmente ocorrer\u00e1 uma satura\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m disso, a lei do valor afirmar-se-\u00e1 inexoravelmente por meio da balan\u00e7a de pagamentos internacionais. Enquanto um pa\u00eds se apropria de bens e recursos reais do resto do mundo, est\u00e1 mais ou menos \u00e0 merc\u00ea do mercado mundial. Pagar por bens e recursos reais com dinheiro fiduci\u00e1rio, ou cr\u00e9dito, pode adiar o acordo final, mas n\u00e3o o suspende. Mais tarde ou mais cedo, o dinheiro fiduci\u00e1rio ter\u00e1 de dar lugar ao dinheiro efectivo, express\u00e3o do valor real. Isso \u00e9 o que estabelece os limites finais para a utopia da estabilidade capitalista financiada por dinheiro falso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR) europeu, assim como a generalidade das pol\u00edticas de expans\u00e3o monet\u00e1ria (aumento de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o), aplicadas pelas grandes pot\u00eancias, na \u00faltima d\u00e9cada, inspiram-se em considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas keynesianas, das quais derivou a mais recente teoria monet\u00e1ria moderna (Modern Monetary Theory, \u201cMMT\u201d, em ingl\u00eas). A teoria monet\u00e1ria de Keynes nega que o lucro venha da mais-valia, extra\u00edda pela explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, no processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, e que esta seja a for\u00e7a motriz do investimento e, consequentemente, do emprego. Como o reconhecimento de tal lei, na esfera da produ\u00e7\u00e3o, conduziria Keynes a um<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3905,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2051,2050],"tags":[236,637,2052,1300,1299,2049,1048],"class_list":["post-3902","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","category-pensamento-e-historia","tag-economia","tag-historia","tag-keynes","tag-marx","tag-marxismo","tag-pensamento","tag-teoria"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/bazuca_istonaoe.jpg?fit=1200%2C627","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3902"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3906,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions\/3906"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3905"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}