{"id":3777,"date":"2021-06-08T12:36:07","date_gmt":"2021-06-08T11:36:07","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/?p=3777"},"modified":"2022-06-12T13:07:19","modified_gmt":"2022-06-12T12:07:19","slug":"a-historia-escondida-das-pessoas-lgbt","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2021\/06\/08\/a-historia-escondida-das-pessoas-lgbt\/","title":{"rendered":"A Hist\u00f3ria Escondida das Pessoas LGBT+"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fam\u00edlia tradicional, na sua forma conjugal, nuclear, hoje tomada pela nossa sociedade como algo \u201cnatural\u201d e normativo, nem sempre existiu. Se, no imagin\u00e1rio ocidental, esta surge como uma forma de organiza\u00e7\u00e3o inquestion\u00e1vel, \u00e9 porque a vers\u00e3o da Hist\u00f3ria que nos \u00e9 contada, profundamente desinteressante e est\u00e1tica, procura alimentar a ideia de que certas institui\u00e7\u00f5es basilares para o capitalismo \u2014 como \u00e9 o caso da fam\u00edlia \u2014, s\u00e3o o que sempre foram e assim se ir\u00e3o manter. No entanto, esta vers\u00e3o m\u00edope da Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mais do que uma forma de as classes dominantes manterem a sua hegemonia e, simultaneamente, estancarem qualquer pensamento cr\u00edtico que leve \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o dos setores mais oprimidos da sociedade. Ao servi\u00e7o das classes dominantes, em nome da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o, a Hist\u00f3ria \u00e9, acima de tudo, uma ferramenta de controlo social e de manuten\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percebendo a forma como a burguesia usa a Hist\u00f3ria para manter a sua predomin\u00e2ncia na sociedade, Friedrich Engels, sintetizando o trabalho de v\u00e1rios historiadores, come\u00e7ou a revelar uma das faces ocultas da Hist\u00f3ria. No seu livro <em>A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado<\/em>, Engels descreveu a evolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o social desde as sociedades pr\u00e9-hist\u00f3ricas, at\u00e9 ao estabelecimento de institui\u00e7\u00f5es como a Fam\u00edlia monog\u00e2mica patriarcal, que acompanhou o desenvolvimento do Estado e da Propriedade Privada, a par das for\u00e7as produtivas da sociedade. Esse estudo acabou por situar, por exemplo, o surgimento de v\u00e1rias opress\u00f5es, como a opress\u00e3o da Mulher, simultaneamente com a consolida\u00e7\u00e3o da propriedade privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o estudo de Engels, apesar de profundamente revolucion\u00e1rio tendo em conta o pensamento dominante na \u00e9poca \u2014 que infelizmente ainda \u00e9 predominante hoje \u2014, foi incapaz de quebrar com o que hoje chamamos de cis-heteronormatividade <span id='easy-footnote-1-3777' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2021\/06\/08\/a-historia-escondida-das-pessoas-lgbt\/#easy-footnote-bottom-1-3777' title='A cis-heteronormatividade \u00e9 a precep\u00e7\u00e3o de que a heterossexualidade e a cisgeneridade correspondem \u00e0 normalidade, sendo rela\u00e7\u00f5es homossexuais ou identidades de g\u00e9nero n\u00e3o cis desvios anormais por oposi\u00e7\u00e3o. Esta vis\u00e3o ignora a diversidade e multiplicidade da sexualidade humana.'><sup>1<\/sup><\/a><\/span>. Ao ignorar a diversidade e as formas como as sociedades primitivas expressavam a sua sexualidade, a cis-heteronormatividade permaneceu como uma constante imut\u00e1vel na Hist\u00f3ria. No entanto, e felizmente, a hist\u00f3ria da sexualidade humana \u00e9 bem mais interessante e colorida que a percep\u00e7\u00e3o simplista que hoje \u00e9 corrente. Torna-se ent\u00e3o necess\u00e1rio expandir a obra de Engels, para perceber de que forma a sociedade de classes veio condicionar a sexualidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss, no seu livro <em>Tristes Tr\u00f3picos<\/em>, no qual estuda um grupo de ind\u00edgenas no Brasil Central, descreve que os atos homossexuais eram comuns e praticados publicamente, enquanto que os heterossexuais eram praticados em privado. Das 76 sociedades que Clellan Ford e Frank Beach estudaram no seu livro <em>Patterns of Sexual Behavior<\/em>, apenas 26 eram descritas como sociedades em que atra\u00e7\u00e3o por adultos do mesmo sexo era incomum. Ou seja, as rela\u00e7\u00f5es homossexuais eram socialmente aceites em duas de cada tr\u00eas sociedades. Tamb\u00e9m o antrop\u00f3logo Tobias Schneebaum descreveu, em <em>Keep the River on Your Right<\/em>, uma tribo Amarakaeri situada na Amaz\u00f3nia peruana, em que mulheres e homens dormiam separados, e as rela\u00e7\u00f5es eram unicamente entre pessoas do mesmo sexo, tanto entre homens como entre mulheres. Reparou tamb\u00e9m que s\u00f3 em situa\u00e7\u00f5es cerimoniais \u00e9 que existiam rela\u00e7\u00f5es heterossexuais para fins reprodutivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o eram s\u00f3 as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas do mesmo sexo que eram recorrentes nas diversas sociedades tribais \u2014 tamb\u00e9m as identidades de g\u00e9nero n\u00e3o-bin\u00e1rias s\u00e3o amplamente reportadas. Quase todas as tribos da Am\u00e9rica do Norte, e muitas tribos africanas, tinham as chamadas pessoas dois-esp\u00edritos: pessoas que n\u00e3o se enquadravam no bin\u00f3mio t\u00edpico de g\u00e9nero e que, dentro da tribo, cumpriam um papel sexual-ritual nas cerim\u00f3nias religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espectro de identidades e formas de relacionamentos descritos nas v\u00e1rias culturas, demonstram que pouco h\u00e1 de intrinsecamente compuls\u00f3rio ou obrigat\u00f3rio na heterossexualidade, e que n\u00e3o existe nada de \u201cmoderno\u201d na homossexualidade, ou em identidades de g\u00e9nero n\u00e3o-bin\u00e1rias. Significa que h\u00e1 um percurso hist\u00f3rico da sexualidade humana que nos tem sido escondido, e que confronta as nossas assump\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es das viv\u00eancias actuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos encontrar, na forma como essas tribos se organizavam, vest\u00edgios das sociedades primitivas das quais todas as pessoas descendem. Nesse sentido, fica claro que a opress\u00e3o das pessoas LGBTQ+ n\u00e3o veio de um vazio, nem \u00e9 um produto da modernidade, mas surge, tal como a opress\u00e3o da mulher, da pr\u00f3pria sociedade de classes. \u00c0 medida que a tecnologia avan\u00e7a, e surge a domestica\u00e7\u00e3o dos animais e o cultivo das terras, come\u00e7a a surgir a necessidade de manter a heran\u00e7a desta propriedade privada. Como tal, \u00e9 necess\u00e1rio garantir que toda a gente tenha descendentes e, simultaneamente, for\u00e7ar a fidelidade na mulher, garantindo a consolida\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia patriarcal heterossexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando estudamos as sociedades antigas n\u00e3o devemos olh\u00e1-las com nostalgia, nem podemos tirar a conclus\u00e3o de que devemos almejar o retorno \u00e0 primitividade. Devemos, sim, compreender, em primeiro lugar, que a sociedade actual n\u00e3o reflete um estado imut\u00e1vel ou cristalizado de desenvolvimento humano, do qual nunca poderemos escapar. Em segundo lugar, devemos compreender tamb\u00e9m que que a pr\u00f3pria cis-heteronormatividade \u2014 t\u00e3o comum nos dias de hoje, e que condiciona a livre express\u00e3o da sexualidade de todas as pessoas \u2014 \u00e9 reflexo do Capitalismo e da sociedade de classes em si. Isto n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o devemos lutar por mais direitos dentro do pr\u00f3prio Capitalismo \u2014 claro que devemos, e estas conquistas t\u00eam dado resultados que n\u00e3o s\u00e3o de menosprezar. No entanto, acreditar que a total liberta\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 poss\u00edvel dentro de um sistema que se baseia na manuten\u00e7\u00e3o de desigualdades \u00e9 ing\u00e9nuo e irrealista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos ent\u00e3o tra\u00e7ar as tarefas que temos pela frente. \u00c9 importante desafiar a cis-heteronormatividade e lutar contra a homofobia, a transfobia e outros tipos de discrimina\u00e7\u00e3o baseada na orienta\u00e7\u00e3o sexual e na identidade de g\u00e9nero, dentro dos marcos do sistema capitalista, sem no entanto perder de vista a lente da luta de classes. A opress\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o s\u00e3o partes integrais do sistema em que vivemos, o que inclui a persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e estigmatiza\u00e7\u00e3o de sexualidades e identidades que n\u00e3o est\u00e3o em conformidade com a &#8220;norma\u201d. \u00c9 imprescind\u00edvel lutar contra a crescente onda reacion\u00e1ria que tem ressurgido, e que pretende retroceder com os poucos direitos que conseguimos conquistar. Mas temos tamb\u00e9m de ter sempre a perce\u00e7\u00e3o da necessidade estrat\u00e9gica de derrubar este sistema econ\u00f3mico, que mina as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, e antagoniza as diferen\u00e7as naturais e a pluralidade salutar de viv\u00eancias e experi\u00eancias humanas. S\u00f3 assim podem ser, todas as pessoas, verdadeiramente livres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O espectro de identidades e formas de relacionamentos descritos nas v\u00e1rias culturas, demonstram que pouco h\u00e1 de intrinsecamente compuls\u00f3rio ou obrigat\u00f3rio na heterossexualidade, e que n\u00e3o existe nada de \u201cmoderno\u201d na homossexualidade, ou em identidades de g\u00e9nero n\u00e3o-bin\u00e1rias. 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