{"id":3711,"date":"2021-06-01T12:23:36","date_gmt":"2021-06-01T11:23:36","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/?p=3711"},"modified":"2022-11-12T16:09:56","modified_gmt":"2022-11-12T15:09:56","slug":"metoo-e-preciso-elevar-o-caso-pessoal-ao-combate-da-opressao-estrutural-da-mulher","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2021\/06\/01\/metoo-e-preciso-elevar-o-caso-pessoal-ao-combate-da-opressao-estrutural-da-mulher\/","title":{"rendered":"#MeToo: \u00e9 preciso elevar o caso pessoal ao combate da opress\u00e3o estrutural da mulher"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas semanas, o #MeToo reacendeu em Portugal, com as den\u00fancias de ass\u00e9dio sexual a multiplicarem-se. Em resposta, os acusados tentam justificar-se. Na esfera p\u00fablica, uns exigem factos, nomes, provas, outros ripostam que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios factos, nomes, provas. A gritaria instala-se e os <em>media<\/em> rejubilam com aquilo que a feira de atrocidades representa em audi\u00eancias e lucros. Neste contexto, o debate p\u00fablico tem dificuldades em superar-se e o<strong> problema estrutural de opress\u00e3o e de objetifica\u00e7\u00e3o sexual da mulher vai sendo diminu\u00eddo \u00e0 esfera moral e ao caso pessoal<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista pol\u00edtico, mais do que fazer um julgamento moral e individualizado de cada caso que vem a p\u00fablico, interessa-nos <strong>perceber a extens\u00e3o e caracter\u00edsticas do problema, as suas origens e as formas de o combater, <\/strong>pois s\u00f3 assim podemos desmascarar a opress\u00e3o sobre a mulher como um problema generalizado, de amplitude social e pol\u00edtica, e n\u00e3o como um mero problema individual. Para que tal aconte\u00e7a, as den\u00fancias s\u00e3o fundamentais, mas, do ponto de vista pol\u00edtico e social, a identidade dos intervenientes, em cada um dos casos, \u00e9 secund\u00e1ria. <strong>Mesmo sabendo que nem todos os m\u00e9todos nos servem, neste caso, sendo esta uma revolta justa e necess\u00e1ria, interessa-nos mais entender aquilo que a revolta expressa do que as formas como a mesma se expressa, assim como entender o que podemos fazer para que essa revolta se eleve da den\u00fancia individual \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra a opress\u00e3o estrutural.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Atrav\u00e9s das den\u00fancias de ass\u00e9dio sexual, \u00e9, sim, relevante perceber que caracter\u00edsticas encerram os seus intervenientes, o tipo de agress\u00e3o e se existe um padr\u00e3o generalizado a n\u00edvel social<\/strong>. As estat\u00edsticas demonstram que a opress\u00e3o e agress\u00e3o sexual sobre mulheres \u00e9 um problema generalizado nas nossas sociedades. Mostram ainda que este \u00e9 um problema que afeta sobretudo as mulheres, v\u00edtimas de agressores homens. Evidenciam tamb\u00e9m que este \u00e9 um problema n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel nacional, mas que se reflete a n\u00edvel internacional. <strong>Assim sendo, porque \u00e9 que este problema se reflete sobretudo sobre as mulheres? Ser\u00e3o as mulheres intrinsecamente inferiores? Ser\u00e3o os homens biologicamente opressores das mulheres? <\/strong>O percurso da humanidade demonstra que nem uma coisa, nem outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O ass\u00e9dio, como outras formas de opress\u00e3o, decorre de uma rela\u00e7\u00e3o desigual de poder. A quest\u00e3o est\u00e1, portanto, naquilo que confere ou deixa de conferir poder: a propriedade. Enquanto mais propriedade significa mais poder, a privatiza\u00e7\u00e3o da propriedade atribui exclusividade ao poder.<\/strong> O poder torna-se, portanto, restrito \u00e0queles que det\u00eam propriedade e alheio a quem n\u00e3o a det\u00e9m. Esta particularidade tem consequ\u00eancias diferenciadas para as condi\u00e7\u00f5es de vida dos grupos sociais possuidores e dos grupos sociais despossu\u00eddos. <strong>Do acesso desigual \u00e0 propriedade e da consequente exclusividade do poder, nasce o conflito. A opress\u00e3o \u00e9 um dos meios utilizados pelos possuidores para gerir aquele conflito, mantendo os despossu\u00eddos numa condi\u00e7\u00e3o de subalternidade<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem n\u00e3o nasce, portanto, com um tra\u00e7o biol\u00f3gico predisposto \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, mas a propriedade privada e o poder da\u00ed adveniente confere-lhe esse atributo. Nos dias que correm, podemos confirmar que a explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o uma exclusividade masculina, mas caracter\u00edsticas do poder alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o de propriedade. \u00c9 preciso recuarmos \u00e0s primeiras formas de agricultura e sedentarismo para perceber que os in\u00edcios da privatiza\u00e7\u00e3o da propriedade fizeram nascer uma nova ordem social, conferindo um poder desigual ao homem. <strong>A partir de ent\u00e3o, a mulher foi deixando de ser algu\u00e9m, com interesses e vontade pr\u00f3prias, para passar a ser algo, propriedade do homem. Sem direito \u00e0 propriedade, \u00e9 aqui que reside o in\u00edcio da subalternidade da mulher. Para conservar esta ordem social, os homens com propriedade foram-se agrupando e organizando, com vista a atingirem uma maior capacidade de defesa da propriedade acumulada por cada um.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ao mesmo tempo, esta classe de propriet\u00e1rios foi compondo um corpo ideol\u00f3gico e moral, assim como o conjunto de institui\u00e7\u00f5es, que permitem justificar o seu pr\u00f3prio dom\u00ednio, e definir o papel que cada grupo social desempenhar\u00e1, conforme a sua posi\u00e7\u00e3o face \u00e0 propriedade.<\/strong> Desta forma, aprofundou-se a subalternidade da mulher que, sem direito a deter propriedade e considerada mais um recurso ao servi\u00e7o do propriet\u00e1rio, foi sendo relegada \u00e0 exclusiva fun\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o. <strong>Os grupos sociais possuidores transformaram, assim, a viol\u00eancia sobre a mulher em virtude moral e pol\u00edtica<\/strong> e, propagando a sua ideologia dominante, foram estabelecendo e normalizando pr\u00e1ticas sociais que se reproduzem mesmo entre as classes que n\u00e3o det\u00eam qualquer propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Se repararmos bem, estes tra\u00e7os mant\u00eam-se at\u00e9 aos dias de hoje<\/strong>. Apesar da integra\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, a mulher continua a desempenhar sobretudo as fun\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o. Veja-se que os sectores essenciais que n\u00e3o puderam parar na pandemia est\u00e3o, muitos deles, ligados \u00e0 atividade de reprodu\u00e7\u00e3o e s\u00e3o compostos por uma esmagadora maioria de mulheres. Quanto \u00e0 independ\u00eancia econ\u00f3mica das mulheres, verifica-se que a diferen\u00e7a salarial face aos homens continua a ser um fator de subalternidade. No que diz respeito aos direitos pol\u00edticos, os EUA apenas concederam o direito de voto \u00e0s mulheres em 1920. Em Portugal, fora o breve per\u00edodo de 1933 a 1936, as mulheres apenas conquistaram o direito de voto em 1974. Antes disso, eram mera propriedade do seu pai ou do seu marido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O sistema capitalista moderno, que tudo transforma em mercadoria, aproveita a subalternidade da mulher, assim como a fun\u00e7\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 atribu\u00edda, e transforma-a constantemente num produto sexual<\/strong>. Homens e mulheres s\u00e3o diariamente bombardeados com estilha\u00e7os ideol\u00f3gicos e culturais que nos fazem equivaler a mulher a um objeto, n\u00e3o raras vezes, a um objeto sexual. Este \u00e9 apenas um dos \u00faltimos contributos, das classes dominantes, para a cultura da viola\u00e7\u00e3o, do ass\u00e9dio sexual, da viol\u00eancia despudorada e das mais variadas formas de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o sobre as mulheres. <strong>Aqui chegadas, \u00e9 tempo de lutar contra o sistema de classes que nos oprime, tanto a mulheres quanto a homens.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas, o #MeToo reacendeu em Portugal, com as den\u00fancias de ass\u00e9dio sexual a multiplicarem-se. Em resposta, os acusados tentam justificar-se. Na esfera p\u00fablica, uns exigem factos, nomes, provas, outros ripostam que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios factos, nomes, provas. A gritaria instala-se e os media rejubilam com aquilo que a feira de atrocidades representa em audi\u00eancias e lucros. Neste contexto, o debate p\u00fablico tem dificuldades em superar-se e o problema estrutural de opress\u00e3o e de objetifica\u00e7\u00e3o sexual da mulher vai sendo diminu\u00eddo \u00e0 esfera moral e ao caso pessoal. Do ponto de vista pol\u00edtico, mais do que fazer um julgamento<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3724,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2123,68],"tags":[2026,371,174,559],"class_list":["post-3711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-basta-de-violencia-sobre-as-mulheres","category-mulher","tag-metoo","tag-feminismo","tag-mulheres","tag-opressoes"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/metoo_vermelho.png?fit=1920%2C1080","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3711"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3711\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3725,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3711\/revisions\/3725"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3724"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}