{"id":360,"date":"2010-11-28T16:39:56","date_gmt":"2010-11-28T15:39:56","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/11\/28\/a-farsa-da-pacificacao-do-estado-do-rio-de-janeiro-brasil\/"},"modified":"2010-11-28T16:39:56","modified_gmt":"2010-11-28T15:39:56","slug":"a-farsa-da-pacificacao-do-estado-do-rio-de-janeiro-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/11\/28\/a-farsa-da-pacificacao-do-estado-do-rio-de-janeiro-brasil\/","title":{"rendered":"A farsa da pacifica\u00e7\u00e3o do Estado do Rio de Janeiro, Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-359\" style=\"margin: 10px 10px 2px; float: left;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/violenciario.jpg?w=300\"  \/>O Estado do Rio de Janeiro vive uma verdadeira guerra civil, um estado de s\u00edtio, que desmascara a demagogia e a incompet\u00eancia do governador reeleito S\u00e9rgio Cabral (PMDB) e seus subordinados. Para ganhar a elei\u00e7\u00e3o divulgaram amplamente que a cidade e o estado estavam pacificados, que tinham, atrav\u00e9s das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), acabado com o tr\u00e1fico e, consequentemente, com a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  Neste exacto momento, helic\u00f3pteros da Pol\u00edcia Civil e da Pol\u00edcia Militar sobrevoam a cidade e as comunidades do Complexo do Alem\u00e3o e a de Manguinhos, tentando encontrar os culpados por esta situa\u00e7\u00e3o. As escolas est\u00e3o suspendendo as aulas e os trabalhadores est\u00e3o voltando mais cedo para as suas casas. No centro da cidade as pessoas interrompem mais cedo as suas actividades. Neste momento, autocarros est\u00e3o a ser incendiados e rodovias, bloqueadas por traficantes, que saqueiam os ve\u00edculos e logo em seguida ateiam fogo. Nos \u00faltimos dias, mais de 40 ve\u00edculos, entre autocarros e carros de passeio, foram incendiados, houve dezenas de bloqueios de estrada, para em seguida ser praticado o saque aos motoristas. <\/p>\n<p>Em v\u00e1rios pontos do estado, o governador aliado de Lula tenta, atrav\u00e9s de rusgas, inibir a ac\u00e7\u00e3o dos traficantes; todos os policiais que exerciam fun\u00e7\u00f5es internas, m\u00e9dicos, mec\u00e2nicos, funcion\u00e1rios burocr\u00e1ticos, todos foram convocados para actuarem nas ruas das cidades como se o problema da viol\u00eancia fosse resolvido numa ac\u00e7\u00e3o de guerra. Todas as medidas at\u00e9 agora adoptadas pelo sector de seguran\u00e7a do estado falharam, e o que predomina \u00e9 o p\u00e2nico, a inseguran\u00e7a e a falta de uma pol\u00edtica que de fato enfrente a viol\u00eancia e a inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Neste momento a imprensa, em particular a Rede Globo, aproveita a situa\u00e7\u00e3o para aumentar sua audi\u00eancia, alardeando o caos em que se encontram a cidade e o estado, mas n\u00e3o fala que tudo isso se explica, por um lado, em fun\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria em que vive uma parte da popula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 condenada a viver nos morros da cidade em casas prec\u00e1rias, sem empregos e com sal\u00e1rios insignificantes, reprimida pela pol\u00edcia fascista e corrupta de S\u00e9rgio Cabral, pelo tr\u00e1fico ou pela mil\u00edcia. Por outro lado, h\u00e1 a coniv\u00eancia do Estado com os grandes empres\u00e1rios, que t\u00eam liga\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico internacional de drogas e de armas. Estes senhores quando s\u00e3o pegos alegam que s\u00e3o coleccionadores de armas.<\/p>\n<p>Neste momento, o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a, Jos\u00e9 Mariano Beltrame, disse que quem passar na frente do Estado vai ser atropelado. Os policiais traduzem as ordens do Estado e dizem que vai morrer muita gente. Treze pessoas j\u00e1 morreram, demonstrando qual \u00e9 a pol\u00edtica destes senhores fascistas. V\u00e3o exterminar os pobres, negros e jovens e v\u00e3o dizer que s\u00e3o traficantes. Um bom exemplo que n\u00e3o devemos confiar nestes governantes foi a instala\u00e7\u00e3o das UPPs na \u00e1rea da Tijuca, o morro do Borel, Formiga, Casa Branca, Macacos, Morro da Liberdade, Turano, Salgueiro, todos com grande presen\u00e7a do tr\u00e1fico, com centenas de traficantes fortemente armados, foram ocupados ap\u00f3s acordo do governo com os traficantes, que garantiu a sa\u00edda de todos, com seu armamento de guerra, antes da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma vergonha. Esta manobra do governador e de todos os seus aliados foi comemorada por S\u00e9rgio Cabral, Lula e Dilma, e seu secret\u00e1rio de seguran\u00e7a, que divulgaram amplamente que tinham acabado com o tr\u00e1fico e pacificado a cidade e o estado sem dar um tiro. Disseram que os traficantes fugiram assustados. Com este discurso ganharam as elei\u00e7\u00f5es de Outubro. Quem n\u00e3o lembra da candidata Dilma dizendo na televis\u00e3o que iria exportar estes exemplos do Rio para o resto do pa\u00eds? Na verdade, o que ocorreu foi um grande acordo do Estado com os traficantes, que se deslocaram para outras regi\u00f5es da cidade e do estado, preparando a regi\u00e3o da Tijuca e da Zona Sul para receber os turistas e os investimentos no Mundial de Futebol e nas Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>O governador e os seus aliados andam de carro blindado, com escolta de seguran\u00e7as, de helic\u00f3ptero, enquanto n\u00f3s trabalhadores ficamos vulner\u00e1veis nos autocarros, que s\u00e3o frequentemente incendiados. O governo aproveita esta situa\u00e7\u00e3o para criminalizar a pobreza, est\u00e1 a preparar um verdadeiro exterm\u00ednio nas regi\u00f5es mais pobres. Est\u00e1 sendo preparada a invas\u00e3o do Complexo do Alem\u00e3o e de Manguinhos. Sabemos que quem vai pagar s\u00e3o os trabalhadores e a juventude; com o pretexto de atacar os traficantes, sabemos onde vai dar essa pol\u00edtica. Se for negro e pobre, atira, e depois verifica quem \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Um programa socialista para enfrentar a viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o achamos que as UPPs sejam a solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver sob uma ocupa\u00e7\u00e3o. Todas as medidas de maquilhagem do Estado, os cursos com os caminh\u00f5es do SENAC nas comunidades (para pouqu\u00edssimas pessoas), para ensinar corte e costura e formar cabeleireiro e dar no\u00e7\u00f5es de inform\u00e1tica, n\u00e3o garantem o que \u00e9 o fundamental.<\/p>\n<p>As pessoas precisam, na comunidade e no pa\u00eds, de um bom emprego, com um sal\u00e1rio decente. Por isso propomos que o sal\u00e1rio m\u00ednimo dobre imediatamente. Propomos a constru\u00e7\u00e3o de boas escolas com muitas vagas e com profissionais da educa\u00e7\u00e3o tendo um sal\u00e1rio decente, e n\u00e3o o vergonhoso sal\u00e1rio de 700 reais que paga o estado ao professor. Defendemos a constru\u00e7\u00e3o de bons hospitais para que os trabalhadores n\u00e3o morram por falta de leito nas emerg\u00eancias. Exigimos que o governador pare imediatamente com a demoli\u00e7\u00e3o do IASERJ, com o fechamento do Pedro II, hospitais que s\u00e3o fundamentais. Queremos lazer decente, acesso a cultura e n\u00e3o maquilhagem para turista ver. Queremos moradias decentes e com infra-estrutura.<\/p>\n<p>Existe um respons\u00e1vel pelas ac\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo no estado e na cidade: \u00e9 o governador, os prefeitos e o governo federal que fizeram muito estardalha\u00e7o nas elei\u00e7\u00f5es e que agora nos deixam nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o acabaremos com a viol\u00eancia e com o tr\u00e1fico sem descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, sem colocar na cadeia os grandes empres\u00e1rios que traficam as armas e as drogas, sem o confisco de seus bens. N\u00e3o acabaremos com viol\u00eancia se n\u00e3o tivermos empregos decentes para as nossas fam\u00edlias. Precisamos dissolver essa pol\u00edcia e construir uma pol\u00edcia ligada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e, principalmente, controlada por ela, com elei\u00e7\u00f5es para o comando e para os delegados e com mandato revog\u00e1vel. Exigimos o fim do exterm\u00ednio dos pobres e negros. N\u00e3o a invas\u00e3o e ao exterm\u00ednio dos moradores das comunidades.<\/p>\n<p><strong>Cyro Garcia, presidente do PSTU &#8211; Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Uma guerra pela regeografiza\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro. Entrevista especial com Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves<\/strong><\/span><\/p>\n<p><em><strong>Entrevista retirada da IHU On-line (http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&#038;Itemid=18&#038;task=detalhe&#038;id=38721)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8220;O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses conflitos urbanos \u00e9 uma reconfigura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica do crimena cidade&#8221;. Assim descreve o soci\u00f3logo Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves amotiva\u00e7\u00e3o principal dos conflitos que est\u00e3o se dando entre traficantes ea pol\u00edcia do Rio de Janeiro (RJ). Na entrevista a seguir, concedida \u00e0 IHU On-Line por telefone, o professoranalisa a composi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do conflito e reflecte as estrat\u00e9gias dereorganiza\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias durante esses embates. &#8220;A media nos fazcrer \u2013 sobretudo a Rede Globo est\u00e1 empenhada nisso \u2013 que h\u00e1 uma luta entre obem e o mal. O bem \u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica e a pol\u00edcia do Rio de Janeiro e o mals\u00e3o os traficantes que est\u00e3o sendo combatidos. Na verdade, isso \u00e9 uma fal\u00e1cia.N\u00e3o existe essa realidade. O que existe \u00e9 essa reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura docrime&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves \u00e9graduado em Estudos Sociais pela Funda\u00e7\u00e3o Educacional de Brusque. \u00c9 mestre emsociologia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro e doutor, namesma \u00e1rea, pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Actualmente, \u00e9 professor naUniversidade Federal Rural do Rio de Janeiro e membro do Iser Assessoria.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses conflitos actuais no Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves<\/strong> \u2013 O que est\u00e1 por tr\u00e1s desses conflitos urbanos \u00e9 umareconfigura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica do crime na cidade. Isso j\u00e1 vem se dando h\u00e1 algumtempo e culminou na situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo actualmente. H\u00e1 elementospresentes nesse conflito que v\u00eam de per\u00edodos maiores da hist\u00f3ria do Rio deJaneiro, um deles \u00e9 o surgimento das mil\u00edcias que nada mais s\u00e3o do queestruturas de viol\u00eancia constru\u00eddas a partir do aparato policial de forma maisexpl\u00edcita. Elas, portanto, controlar\u00e3o v\u00e1rias favelas do RJ e ser\u00e3o inseridas no processo de expuls\u00e3o do Comando Vermelhoe pelo fortalecimento de uma outra fac\u00e7\u00e3o chamada Terceiro Comando.H\u00e1 uma terceira fac\u00e7\u00e3o chamada Ada, que \u00e9 um desdobramento do Comando Vermelhoe que opera nos confrontos que v\u00e3o ocorrer junto a essa primeira fac\u00e7\u00e3o emdeterminadas \u00e1reas. Na verdade, o Comando Vermelho foi se transformando num segmento que est\u00e1 perdendo suahegemonia sobre a organiza\u00e7\u00e3o do crime no Rio de Janeiro. Quem est\u00e1 avan\u00e7ando,ao longo do tempo, s\u00e3o as mil\u00edcias em articula\u00e7\u00e3o com o Terceiro Comando.<\/p>\n<p>Um elemento determinante nessa reconfigura\u00e7\u00e3o foi o surgimento das UPPs (Unidadede Pol\u00edcia Pacificadora) a partir de uma pol\u00edtica de ocupa\u00e7\u00e3o de determinadasfavelas, sobretudo da zona sul do RJ. Seus interesses est\u00e3o voltados para aquest\u00e3o do capital do turismo, industrial, comercial, terceiro sector, ou seja,o capital que estar\u00e1 envolvido nas Olimp\u00edadas. Ent\u00e3o, a expuls\u00e3o das favelas cariocas feita pelas UPPs ocorre em cima do segmento do Comando Vermelho. Por isso, oque est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 um rearranjo dessa estrutura. O Comando Vermelho est\u00e1 indo agora para umconfronto que aterroriza a popula\u00e7\u00e3o para que um novo acordo se estabele\u00e7a emrela\u00e7\u00e3o a \u00e1reas e espa\u00e7os para que esse segmento se estabele\u00e7a e sobreviva.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Mas, ent\u00e3o, o que est\u00e1 em jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves <\/strong>\u2013 N\u00e3o est\u00e1 em jogo a destrui\u00e7\u00e3o da estrutura docrime, ela est\u00e1 se rearranjando apenas. Nesse rearranjo quem vai se sobressairs\u00e3o, sobretudo, as mil\u00edcias, o Terceiro Comando \u2013 que vem crescendojunto e operando com as mil\u00edcias \u2013 e a pol\u00edtica de seguran\u00e7a do Estado calcadanas UPPs\u2013 que n\u00e3o alteraram a rela\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas. A media nos faz crer \u2013 sobretudo a Rede Globo est\u00e1 empenhada nisso \u2013 que h\u00e1 uma luta entre o beme o mal. O bem \u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica e a pol\u00edcia do Rio de Janeiro e o mal s\u00e3o ostraficantes que est\u00e3o sendo combatidos. Na verdade, isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. N\u00e3oexiste essa realidade. O que existe \u00e9 essa reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura do crime.<\/p>\n<p>A realidade do RJ exige hoje uma an\u00e1lise muito profunda e complexa e n\u00e3o essaespetaculariza\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica, que tem um objectivo: escorra\u00e7ar um segmento docrime organizado e favorecer a constela\u00e7\u00e3o de outra composi\u00e7\u00e3o hegem\u00f3nica do crime no RJ.<\/p>\n<p><strong>Por que esse confronto nasceu na Vila Cruzeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves <\/strong>\u2013 Porque a partir dessa reconfigura\u00e7\u00e3o que foi sendofeita das mil\u00edcias e das UPPs, o Comando Vermelho come\u00e7ou a estabelecer uma baseoperacional muito forte no Complexo do Alem\u00e3o. Este lugar envolve um conjunto defavelas com um conjunto de entradas e sa\u00eddas. O centro desse complexo \u00e9constitu\u00eddo de \u00e1reas abertas que s\u00e3o remanescentes de matas. Essa estrutura\u00e7\u00e3ogeogr\u00e1fica e paisag\u00edstica daquela regi\u00e3o favoreceu muito a presen\u00e7a do Comando Vermelhol\u00e1. Mas se observarmos todas as opera\u00e7\u00f5es, veremos que elas est\u00e3o seguindo oeixo da Centraldo Brasil e Leopoldina, que s\u00e3o dois eixos ferrovi\u00e1rios queconectam o centro do RJ ao sub\u00farbio e \u00e0 Baixada Fluminense. Todos osconfrontos est\u00e3o ocorrendo nesse eixo.<\/p>\n<p><strong>Por que nesse eixo, emespec\u00edfico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves<\/strong> \u2013 Porque, ao longo desse eixo, h\u00e1 v\u00e1rias comunidadesque ainda pertencem ao Comando Vermelho. N\u00e3o t\u00e3o fortemente estruturadas, n\u00e3o deforma organizada como no Complexo do Alem\u00e3o, mas s\u00e3ocomunidades que permanecem como n\u00facleos que s\u00e3o facilmente articulados. Porexemplo:  a favela de Vig\u00e1rio Geral foi tomada pelo Terceiro Comandoporque hoje as mil\u00edcias controlam essa favela e a de Parada de Lucas aalugam para o Terceiro Comando. Mas ao lado, cerca de dois quil\u00f3metrosde dist\u00e2ncia dessa favela, existe uma menor que \u00e9 a favela de Furquim Mendes, controlada pelo Comando Vermelho. Logo, as opera\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo agora em Vig\u00e1rio Geral, Jardim Am\u00e9rica e em Duque de Caxiasest\u00e3o tendo um n\u00facleo de opera\u00e7\u00e3o a partir de Furquim Mendes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o combate no Complexo do Alem\u00e3o \u00e9 meramente simb\u00f3lico nessa disputa.Por isso, invadir o Complexo do Alem\u00e3o n\u00e3o vai acabar com o tr\u00e1fico no Rio deJaneiro. H\u00e1 v\u00e1rios pontos onde as mil\u00edcias e as diferentes fac\u00e7\u00f5es est\u00e3oinstaladas. O mais dr\u00e1stico \u00e9 que quem vai morrer nesse confronto \u00e9 a popula\u00e7\u00e3ocivil e inocente, que n\u00e3o tem acesso \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, luz&#8230; H\u00e1 todo umdrama social que essa popula\u00e7\u00e3o vai ser submetida de forma injusta, arbitr\u00e1ria,ignorante, est\u00fapida, meramente voltada aos interesses medi\u00e1ticos, de venda de imagense para os interesses de um projecto de pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica queressalta a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. No Rio de Janeiro a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria foi elevada \u00e0 categoria depol\u00edtica p\u00fablica pelo actual governo.<\/p>\n<p><strong>Em que contextogeogr\u00e1fico est\u00e1 localizado a Vila Cruzeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves<\/strong> \u2013 A Vila Cruzeiro est\u00e1 localizada no quen\u00f3s chamamos de zona da Leopoldina. Ela est\u00e1 ao p\u00e9 do ComplexodoAlem\u00e3o, s\u00f3 que na face que esse complexo tem voltada para a Penha. A Penha \u00e9 umbairro da Leopoldina.Essa regi\u00e3o da Leopoldina seconstituiu no eixo da estrada de ferro Leopoldina, que come\u00e7a na Central do Brasil,passa por S\u00e3oCrist\u00f3v\u00e3o e dali vai seguir por Bom Sucesso, Penha, Olaria, Vig\u00e1rio Geral \u2013 que \u00e9 onde eu moro e que \u00e9 a \u00faltimaparada da Leopoldinae a\u00ed se entra na Baixada Fluminense com a esta\u00e7\u00e3o de Duque de Caxias.<\/p>\n<p>Esse &#8220;corredor&#8221; foi um dos maiores eixos de faveliza\u00e7\u00e3o da cidade do Rio deJaneiro. A faveliza\u00e7\u00e3o que, inicialmente, ocorre na zona sul n\u00e3o encontra apossibilidade de adensamento maior. Ela fica restrita a algumas favelas.Tirando a da Rocinha,que \u00e9 a maior do Rio de Janeiro, os outros complexos todos \u2013 como o da Mar\u00e9 e do Alem\u00e3o \u2013est\u00e3o localizados no eixo da zona da Leopoldina at\u00e9 Avenida Brasil. A Leopoldina\u00e9 de 1887-1888, j\u00e1 a Avenida Brasil \u00e9 de 1946. \u00c9 nesse prazo de tempo que esseeixo se tornou o mais favelizado do RJ. Logo, a Vila Cruzeiro \u00e9 apenas uma dasfaces do Complexodo Alem\u00e3o e \u00e9 a de maior facilidade para a entrada da pol\u00edcia,onde se pode fazer opera\u00e7\u00f5es de grande porte como foi feita na quinta-feira,dia 25-11. No entanto, isso n\u00e3o expressa o Complexo do Alem\u00e3o em si.<\/p>\n<p>A Mar\u00e9fica do outro lado da Avenida Brasil. Ela tem quase 200 mil habitantes. Umaparte dela pertence ao Comando Vermelho, a outra parte \u00e9 do Terceiro Comando.Por que n\u00e3o se faz nenhuma opera\u00e7\u00e3o num complexo t\u00e3o grande ou maior do que odo Alem\u00e3o?Ningu\u00e9m cita isso! Por que n\u00e3o se entra nas favelas onde os o Terceiro Comandoest\u00e1 operando? Porque o Terceiro Comando j\u00e1 tem acordo com as mil\u00edcias e com apol\u00edtica de seguran\u00e7a. Por isso, as atua\u00e7\u00f5es se d\u00e3o em cima de uma das facesmais fr\u00e1geis do Complexo do Alem\u00e3o, como se isso fosse alguma coisasignificativa.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Estando a Vila Cruzeiro numa das faces do Complexo, por que o Alem\u00e3o se tornouo reduto de fuga dos traficantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves <\/strong>\u2013 A estrutura dele \u00e9 muito mais complexa para que se fa\u00e7a qualquer tipo de opera\u00e7\u00e3ol\u00e1. H\u00e1 facilidade de fuga, porque h\u00e1 v\u00e1rias faces de sa\u00edda. N\u00e3o \u00e9 uma favelaque a pol\u00edcia consegue cercar. Mesmo juntando a pol\u00edcia do RJ inteiro e oEx\u00e9rcito Nacional jamais se conseguiria cercar o complexo. O Alem\u00e3o \u00e9muito maior do que se possa imaginar. Ent\u00e3o, \u00e9 uma \u00e1rea que permite areorganiza\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o do Comando Vermelho. Mas existem v\u00e1riasoutras bases do Comando Vermelho pulverizadas em toda a \u00e1rea da Leopoldinae Central doBrasil que est\u00e3o tamb\u00e9m operando.<\/p>\n<p>Mesmo que se consiga ocupar todo o Complexo do Alem\u00e3o, o Comando Vermelhoainda tem possibilidades de reestrutura\u00e7\u00e3o em outras pequenas \u00e1reas. Ningu\u00e9mfala, por exemplo, da Baixada Fluminense,mas Duque deCaxias, Nova Igua\u00e7u, Mesquita, Belford Roxo s\u00e3o \u00e1reas que hoje est\u00e3o sendoreconfiguradas em termos de tr\u00e1fico de drogas a partir da ida do Comando Vermelhopara l\u00e1.<\/p>\n<p>Por exemplo, um bairro de Duque de Caxias chamado Olavo Bilac\u00e9 pr\u00f3ximo de uma comunidade chamada Mangueirinha, que \u00e9 um morro. Essacomunidade j\u00e1 \u00e9 controlada pelo Comando Vermelho, que est\u00e1 adensandoa eleva\u00e7\u00e3o da Mangueirinha, e Olavo Bilac j\u00e1 est\u00e1 sentindo osefeitos directos dessa reocupa\u00e7\u00e3o. Mas ningu\u00e9m est\u00e1 falando nada sobre isso.<\/p>\n<p>A realidade do Rio de Janeiro \u00e9 muito mais complexa do que se possaimaginar. O ComandoVermelho, assim como outras fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias, estabelecerela\u00e7\u00e3o directa com o aparato de seguran\u00e7a p\u00fablica do Rio de Janeiro.Em todas essas \u00e1reas h\u00e1 tr\u00e1fico de armas feito pela pol\u00edcia, em todas essas\u00e1reas o tr\u00e1fico de drogas permanece em fun\u00e7\u00e3o de acordos com o aparatopolicial.<\/p>\n<p><strong>Podemos comparar essestraficantes que est\u00e3o coordenando os conflitos no RJ com o PCC, de S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves <\/strong>\u2013 S\u00f3 podemos analisar a hist\u00f3ria do Rio de Janeiro,fazendo um retrospecto da hist\u00f3ria e da geografia. O PCC, em S\u00e3o Paulo, tem umatraject\u00f3ria muito diferente das fac\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro, tanto que aestrutura do PCC se d\u00e1 dentro dos pres\u00eddios. Quando a m\u00e9dianoticia que os traficantes no Rio de Janeiro presos est\u00e3o operando osconflitos, leia-se, por tr\u00e1s disso, que a estrutura penitenci\u00e1ria do Estado setransformou na estrutura organizacional do crime. N\u00e3o estou dizendo que oEstado foi corrompido. Estou dizendo que o pr\u00f3prio estado em si \u00e9 o crime. Omercado e o Estado s\u00e3o os grandes problemas da sociedade brasileira. O mercadode drogas, articulado com o mercado de seguran\u00e7a p\u00fablica, com o mercado detr\u00e1fico de drogas, de roubo, com o pr\u00f3prio sistema financeiro brasileiro, \u00e9quem tem interesse em perpetuar tudo isso.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o entre economia formal, economia criminosa e aparato estatal se d\u00e1em S\u00e3o Paulode uma forma diferente em rela\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro. Expulsar o Comando Vermelhodessas \u00e1reas interessa \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do capital. O que h\u00e1 desemelhan\u00e7a s\u00e3o as opera\u00e7\u00f5es de terror, opera\u00e7\u00f5es de confronto aberto dentro dacidade para reestruturar o crime e reorganiz\u00e1-lo em patamares mais favor\u00e1veisao segmento que est\u00e1 ganhando ou perdendo.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia essapol\u00edtica de instala\u00e7\u00e3o das UPPs \u2013 Unidades de Policiamento Pacificadoras nasfavelas do Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves <\/strong>\u2013 \u00c9 uma pol\u00edtica medi\u00e1tica de visibilidade da seguran\u00e7ano Rio de Janeiro e Brasil. A presidente eleita quase transformou as UPPs napol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica do pa\u00eds e quer reproduzir as UPPs em todo o Brasil. A UPP \u00e9 umagrande farsa. Nas favelas ocupadas pelas UPSs podem ser encontrados ex-traficantesque continuam operando, mas com menos intensidade. A desigualdade socialpermanece, assim como o n\u00e3o acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, propriedade da terra,transporte. A pol\u00edcia est\u00e1 l\u00e1 para garantir o n\u00e3o tiroteio, mas isso n\u00e3ogarante a n\u00e3o exist\u00eancia de crimes. A meu ver, at\u00e9 agora, as UPPs s\u00e3oapenas formas de fachada de uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a e econ\u00f3mica de grupos de capitais dominantesna cidade para estabelecer um novo projecto e reconfigura\u00e7\u00e3o dessa estrutura.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A tens\u00e3o no Rio de Janeiro, neste momento, \u00e9 diferente de outros momentos deconflito entre pol\u00edcia e traficantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Alves <\/strong>\u2013 Sim, porque a dimens\u00e3o \u00e9 mais ampla, mais aberta.Dizer que eles est\u00e3o operando de forma desarticulada, desesperada,desorganizada \u00e9 uma mentira. A estrutura que o Comando Vermelho organiza vemsendo elaborada h\u00e1 mais de cinco anos e ela tem sido, agora, colocada em pr\u00e1ticade uma forma muito mais intensa do que jamais foi visto.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 saber o que se opera no fundo imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico queest\u00e1 sendo constru\u00eddo de quem s\u00e3o, de fato, os inimigos da sociedade fluminensee brasileira. Essa quest\u00e3o vai ter efeitos muito mais venosos para a sociedade empobrecida e favelizada. \u00c9 isso que est\u00e1 em jogo agora.<\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado do Rio de Janeiro vive uma verdadeira guerra civil, um estado de s\u00edtio, que desmascara a demagogia e a incompet\u00eancia do governador reeleito S\u00e9rgio Cabral (PMDB) e seus subordinados. Para ganhar a elei\u00e7\u00e3o divulgaram amplamente que a cidade e o estado estavam pacificados, que tinham, atrav\u00e9s das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), acabado com o tr\u00e1fico e, consequentemente, com a viol\u00eancia. \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/violenciario.jpg?fit=300%2C202","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/359"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}