{"id":3508,"date":"2021-03-08T10:07:09","date_gmt":"2021-03-08T09:07:09","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2021\/03\/08\/os-problemas-que-afectam-as-mulheres-durante-pandemia-porque-fundamental-sair-rua\/"},"modified":"2021-03-08T10:07:09","modified_gmt":"2021-03-08T09:07:09","slug":"os-problemas-que-afectam-as-mulheres-durante-pandemia-porque-fundamental-sair-rua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2021\/03\/08\/os-problemas-que-afectam-as-mulheres-durante-pandemia-porque-fundamental-sair-rua\/","title":{"rendered":"Os problemas que afectam as mulheres durante a pandemia. Porque \u00e9 fundamental sair \u00e0 rua no 8 de Mar\u00e7o?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"clear: both;\"><span style=\"font-size: 14pt;\">A pandemia da COVID-19 p\u00f4s a descoberto e aprofundou as desigualdades de g\u00e9nero. Se j\u00e1 antes desta situa\u00e7\u00e3o, a maioria do trabalho dom\u00e9stico e de cuidados reca\u00eda sobre as mulheres, com o fecho das creches e das escolas, os servi\u00e7os de sa\u00fade sobrecarregados ou em rutura e as medidas de isolamento e confinamento, tudo se agravou. \u00c9 sobre a mulher que continua a recair a grande maioria do trabalho dom\u00e9stico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Como \u00e9 de esperar, essa enorme sobrecarga tem efeitos graves na sa\u00fade mental, havendo um aumento muito maior do <em>stress<\/em> nas mulheres do que nos homens a n\u00edvel mundial. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Al\u00e9m disso, a crise econ\u00f3mica e a falta de investimento na sa\u00fade t\u00eam tido consequ\u00eancias no acesso a contracetivos e ao aborto seguro, nos pa\u00edses em que esse direito foi conquistado. Onde ele \u00e9 limitado, a pandemia, a crise, o confinamento geral das popula\u00e7\u00f5es, o clima de medo e a falta de recursos m\u00e9dicos \u00e9 usada para restringir o acesso ao aborto. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Tamb\u00e9m o desemprego e a desigualdade salarial, assim como a viol\u00eancia dom\u00e9stica, agora mais escondida, aumentaram. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ainda que o v\u00edrus n\u00e3o distinga fronteiras, nem g\u00e9neros, nem classes sociais, o mesmo n\u00e3o se pode dizer do seu impacto na sa\u00fade e nas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m de serem as mais afetadas, as mulheres s\u00e3o tamb\u00e9m a maioria dentro das profiss\u00f5es ligadas \u00e0 sa\u00fade e nos servi\u00e7os. Por todo o mundo t\u00eam estado na linha da frente, n\u00e3o s\u00f3 na luta contra a pandemia, como na luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Em Portugal, as mulheres s\u00e3o maioria em grande parte dos setores que n\u00e3o permitem o teletrabalho. \u00c9 o caso dos setores cuja atividade foi mais afetada pela pandemia, como servi\u00e7os, limpezas, com\u00e9rcio, restaura\u00e7\u00e3o, turismo, cabeleireiros, e tamb\u00e9m nos sectores essenciais como a sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e supermercados. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A par disso, 85% das fam\u00edlias monoparentais s\u00e3o sustentadas por mulheres. No primeiro m\u00eas de confinamento, em Mar\u00e7o de 2020, 9 em cada 10 postos de trabalhos extintos eram ocupados por mulheres. 57% dos novos desempregados s\u00e3o mulheres. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Al\u00e9m disso, as mulheres representaram 62% dos 644 mil ausentes do trabalho no segundo trimestre de 2020, por ocuparem postos em que n\u00e3o era poss\u00edvel nem o teletrabalho, nem a ida ao emprego. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Todos estes dados confirmam que a situa\u00e7\u00e3o laboral das mulheres em Portugal se tornou ainda mais inst\u00e1vel e prec\u00e1ria durante a pandemia, contribuindo para a sua inseguran\u00e7a a n\u00edvel econ\u00f3mico e social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mesmo assim, os problemas n\u00e3o terminam a\u00ed, j\u00e1 que, em Portugal, as mulheres ganham atualmente menos 14,4% do que os homens, ocupando postos de trabalho em setores onde maioritariamente os v\u00ednculos s\u00e3o prec\u00e1rios, os hor\u00e1rios desregulados e onde se recebe o sal\u00e1rio m\u00ednimo, al\u00e9m da discrimina\u00e7\u00e3o que sofrem muitas mulheres por serem m\u00e3es, perdendo pr\u00e9mios de desempenho, ao fim do m\u00eas, por terem de cuidar dos filhos. Ao receio do v\u00edrus, somam-se a exclus\u00e3o social, a falta de condi\u00e7\u00f5es na habita\u00e7\u00e3o, o perigo de perder o emprego com o fecho de empresas, o medo dos cortes nos sal\u00e1rios, a inseguran\u00e7a dos contratos de trabalho, a sobrecarga dos cuidados familiares. \u00c9 urgente exigir melhores condi\u00e7\u00f5es para as mulheres da classe trabalhadora, combatendo as desigualdades de g\u00e9nero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16pt;\"><strong>Viol\u00eancia dom\u00e9stica, agora mais escondida, aumenta<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Relativamente \u00e0s den\u00fancias e pedidos de ajuda, Janeiro de 2020 teve um n\u00famero elevado de registos, mas com o in\u00edcio do primeiro confinamento, entre Mar\u00e7o e Abril, os pedidos de ajuda e den\u00fancias \u00e0s for\u00e7as de seguran\u00e7a diminu\u00edram 39%, havendo, no entanto, um aumento de pedidos de informa\u00e7\u00e3o e de ajuda por terceiros, como vizinhos ou amigos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ap\u00f3s o primeiro desconfinamento, os pedidos de ajuda \u00e0 Rede Nacional de Apoio \u00e0s V\u00edtimas de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica duplicaram. 329 mulheres, 220 crian\u00e7as e 15 homens v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica foram acolhidos em casas-abrigo durante a pandemia, at\u00e9 Novembro de 2020. Nos pedidos de acolhimento de emerg\u00eancia, surgiram muitos casos de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica pela primeira vez, em rela\u00e7\u00f5es conjugais com conflitos e discuss\u00f5es, em que o aumento da tens\u00e3o, relacionado com as dificuldades levantadas pela pandemia, ter\u00e1 evolu\u00eddo para situa\u00e7\u00f5es mais violentas. J\u00e1 70% dos pedidos de ajuda vieram de contextos em que a viol\u00eancia existia e se intensificou, pelos mesmos motivos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Note-se que a viol\u00eancia contra a mulher n\u00e3o se limita a agress\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. A viol\u00eancia que vivemos \u00e9 tamb\u00e9m econ\u00f3mica e laboral: a precariedade e a instabilidade laboral, os hor\u00e1rios desregulados e sal\u00e1rios baixos, a falta de apoios \u00e0 maternidade e de condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o, a segrega\u00e7\u00e3o laboral, tudo isto s\u00e3o formas de viol\u00eancia vividas diariamente por milhares de mulheres trabalhadoras. O fim da viol\u00eancia contra a mulher exige luta contra o machismo, mas tamb\u00e9m por direitos laborais, sociais e econ\u00f3micos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16pt;\"><strong>Mulheres polacas e argentinas mostram o caminho <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Na Pol\u00f3nia, onde as mulheres que h\u00e1 uns anos abriram o caminho para um 8 de Mar\u00e7o combativo, internacional e solid\u00e1rio, estas mesmas mulheres voltaram a sair massivamente \u00e0 rua, nos \u00faltimos meses de 2020, em luta contra o governo nacionalista e ultraconservador, de extrema-direita, que lhes acaba de restringir, ainda mais, o direito ao aborto ( a nova lei entrou em vigor a 27 de Janeiro de 2021), num pa\u00eds onde esse direito j\u00e1 \u00e9 dos mais restritos da Europa. N\u00e3o devemos esquecer que o Governo da Pol\u00f3nia influenciou a pr\u00f3pria decis\u00e3o do tribunal constitucional, uma vez que este \u00e9 um dos \u00f3rg\u00e3os judiciais nomeado pelo pr\u00f3prio governo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">\u00c0 luta juntaram-se trabalhadores de v\u00e1rios setores e LGBTs que contestam o governo de extrema-direita. A classe trabalhadora polaca, com especial enfoque para as mulheres, mostra novamente o caminho para combater as desigualdades e a crise que enfrentamos, deixando claro que a luta das mulheres deve ser uma luta de toda a classe trabalhadora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Na Argentina, as mulheres lutam h\u00e1 d\u00e9cadas pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto. No seguimento de discuss\u00f5es nos Encontros Nacionais de Mulheres que tiveram lugar em 2003 e 2004, foi lan\u00e7ada a 28 de maio de 2005 a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito. A campanha ganhou for\u00e7a no processo de lutas que se abriu em 2015 com o surgimento do movimento <em>Ni Una Menos<\/em> contra os brutais feminic\u00eddios que ocorrem todos os dias no pa\u00eds. Fartas da ina\u00e7\u00e3o do Estado, as mulheres argentinas come\u00e7aram a ocupar as ruas, em massa, em v\u00e1rios atos de rep\u00fadio \u00e0 viol\u00eancia machista e reivindicando medidas de combate a este problema social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Desde ent\u00e3o, o movimento feminista tem vindo a crescer e a impulsionar a organiza\u00e7\u00e3o das mulheres, a n\u00edvel internacional, pelo fim da viol\u00eancia e da discrimina\u00e7\u00e3o machista. As grandes mobiliza\u00e7\u00f5es que ocorreram na Argentina nos \u00faltimos anos, identificadas pelos panos verdes, tiveram como eixo central a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">De acordo com as estimativas realizadas com base no n\u00famero de internamentos em hospitais p\u00fablicos por complica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s um aborto volunt\u00e1rio, um estudo de 2005 apontava para cerca 447 mil abortos, nesse ano, na Argentina. S\u00e3o n\u00fameros preocupantes e que se multiplicam quando olhamos para o resto da Am\u00e9rica Latina onde o aborto apenas \u00e9 legalizado em 4 pa\u00edses. \u00c9 a regi\u00e3o do mundo com maior n\u00famero de aborto proporcionalmente (44 a cada mil mulheres, por ano). Neste cen\u00e1rio, a vida das mulheres est\u00e1 sob constante amea\u00e7a. Este \u00e9 um problema que afeta, em primeiro lugar, as mulheres mais pobres, as mulheres das classes trabalhadoras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ap\u00f3s a Greve Feminista Internacional, no 8 de Mar\u00e7o de 2018, as argentinas n\u00e3o baixaram os bra\u00e7os e levaram uma luta incans\u00e1vel at\u00e9 \u00e0 discuss\u00e3o do projeto da IVG, na c\u00e2mara dos deputados, conseguindo arrancar 129 votos a favor, contra 125 votos negativos. A campanha acabou por n\u00e3o passar no Senado, em Agosto de 2018, mas levantou um debate na sociedade que transbordou al\u00e9m-fronteiras sobre a import\u00e2ncia da mudan\u00e7a na lei para acabar com as mortes de centenas de mulheres e meninas todos anos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Desde ent\u00e3o, o movimento n\u00e3o cessou, manteve-se mobilizado nas ruas, e no passado m\u00eas de Dezembro de 2020, conseguiu conquistar a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto na Argentina. As mulheres argentinas demonstram assim a for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o permanente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Perante os problemas que afectam as mulheres e que se aprofundam com a pandemia, fazendo justi\u00e7a \u00e0s poderosas mobiliza\u00e7\u00f5es das mulheres polacas e argentinas, o pr\u00f3ximo 8 de Mar\u00e7o s\u00f3 pode ser um dia de luta e de mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas contra o sistema capitalista que nos explora e oprime!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":3507,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[68],"tags":[454,1057,116,1995,1813,1994,371,182,115,1823,117,468],"class_list":["post-3508","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher","tag-8-de-marco","tag-8m","tag-alternativa","tag-causas","tag-covid19","tag-dia-internacional-da-mulher","tag-feminismo","tag-greve","tag-movimento","tag-pandemia","tag-socialista","tag-trabalhadora"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mob_mulher.png?fit=620%2C620","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3508"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3508\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3507"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}