{"id":3414,"date":"2020-08-24T15:20:33","date_gmt":"2020-08-24T14:20:33","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2020\/08\/24\/solidariedade-com-o-povo-libanes-ago20\/"},"modified":"2020-08-24T15:20:33","modified_gmt":"2020-08-24T14:20:33","slug":"solidariedade-com-o-povo-libanes-ago20","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2020\/08\/24\/solidariedade-com-o-povo-libanes-ago20\/","title":{"rendered":"Solidariedade com o povo liban\u00eas!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"clear: both;\"><span style=\"font-size: 14pt;\">No passado dia 4 de Agosto, uma explos\u00e3o equivalente a um sismo de magnitude 3,3 devastou Beirute, a capital libanesa, causando mais de 200 mortos, mais de 6.000 feridos e 300.000 desalojados. Dezenas de pessoas continuam desaparecidas e distritos inteiros de Beirute est\u00e3o destru\u00eddos. Quatro grandes hospitais da capital est\u00e3o fora de servi\u00e7o e 128 escolas foram danificadas.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Face \u00e0 falta de resposta do governo, a popula\u00e7\u00e3o ocupou as \u00e1reas mais afectadas para apagar inc\u00eandios, levantar os escombros e dar apoio aos feridos e soterrados. Posteriormente, descobriu-se que na origem da explos\u00e3o estariam 2.750 toneladas de nitrato de am\u00f3nio, armazenadas, desde 2014, no porto de Beirute. As causas da explos\u00e3o est\u00e3o a ser investigadas, tendo sido efectuadas 25 deten\u00e7\u00f5es at\u00e9 ao momento. Investiga\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, a principal causa da explos\u00e3o reside na neglig\u00eancia dos sucessivos governos que ignoraram os variados avisos sobre o risco de manter esta carga armazenada no porto de Beirute.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">No fim-de-semana de 8 e 9 de Agosto, o povo liban\u00eas saiu \u00e0s ruas da capital exigindo justi\u00e7a e a queda de todos os partidos pol\u00edticos, culpando o governo e o regime confessional pela cat\u00e1strofe. Milhares ocuparam a Pra\u00e7a dos M\u00e1rtires, onde o slogan era \u201cDia do julgamento\u201d, e grupos de manifestantes ocuparam os minist\u00e9rios da Economia, do Meio Ambiente e Energia e das Rela\u00e7\u00f5es Externas, assim como a Associa\u00e7\u00e3o de Bancos do L\u00edbano. O governo respondeu com viol\u00eancia e repress\u00e3o, atrav\u00e9s do ex\u00e9rcito e de mil\u00edcias ligadas aos partidos do regime, dispersando as manifesta\u00e7\u00f5es com g\u00e1s lacrimog\u00e9neo e muni\u00e7\u00f5es reais, com um saldo de centenas de feridos e dezenas de pris\u00f5es. O pa\u00eds encontra-se em Estado de Emerg\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p> <span style=\"font-size: 14pt;\"> <\/span> <\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">O Governo de Hassan Diab caiu na sequ\u00eancia dos protestos, tendo resignado a 10 de Agosto. Agora, o regime procura negociar uma sa\u00edda que n\u00e3o ponha em causa os privil\u00e9gios das elites, pretendendo conformar um governo de unidade nacional e marcar elei\u00e7\u00f5es legislativas antecipadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16pt;\"><strong>A crise humanit\u00e1ria agrava a crise s\u00f3cio-econ\u00f3mica e sanit\u00e1ria<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A crise humanit\u00e1ria soma-se a uma grave crise s\u00f3cio-econ\u00f3mica, com in\u00edcio no ano passado, j\u00e1 de si agravada pela pandemia do Coronav\u00edrus. Como consequ\u00eancia da explos\u00e3o, estima-se que o PIB liban\u00eas caia de -15% para -24% no final de 2020, ou seja de 52 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2019 a 33 mil milh\u00f5es em 2020. Dados de Abril de 2020 mostram que cerca de 850.000 pessoas (22% da popula\u00e7\u00e3o libanesa) vivem abaixo da linha da pobreza extrema e 1,7 milh\u00f5es (45% da popula\u00e7\u00e3o) abaixo da linha da pobreza. Com a pandemia, essa percentagem ultrapassou os 50% e a taxa de desemprego ultrapassou os 35%. Al\u00e9m disso, o valor da moeda libanesa tem ca\u00eddo nos \u00faltimos meses, levando a uma taxa de infla\u00e7\u00e3o de mais de 400%. O poder de compra das classes populares diminui drasticamente, principalmente num pa\u00eds que importa muitos produtos do exterior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Adicionalmente, no L\u00edbano, t\u00eam aumentado os novos casos de COVID-19 nos \u00faltimos dias, numa altura em que o sistema de sa\u00fade est\u00e1 \u00e0 beira do colapso, seja devido \u00e0 crise econ\u00f3mica e de sa\u00fade, seja devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o causada pela explos\u00e3o. Com esse argumento, o governo declarou na passada sexta-feira, dia 21, um confinamento parcial com recolher obrigat\u00f3rio durante a noite, numa altura em que milhares n\u00e3o t\u00eam como ficar em casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16pt;\"><strong>A chantagem internacional para enfrentar a crise<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Ap\u00f3s a I Guerra Mundial, entre 1920 e 1943, o L\u00edbano foi ocupado pela Fran\u00e7a. Por esse motivo, Macron aparece hoje como o principal interlocutor internacional que, no meio de um discurso \u201chumanista\u201d vazio, procura assegurar os interesses da Fran\u00e7a no pa\u00eds. Numa videoconfer\u00eancia organizada por iniciativa do presidente franc\u00eas, que reuniu representantes de cerca de trinta pa\u00edses, ocidentais e \u00e1rabes, na qual participaram representantes do FMI, Banco Mundial, Comit\u00e9 Internacional da Cruz Vermelha e Banco Europeu de Investimento, chegou-se a acordo para fornecer financiamento de emerg\u00eancia num total de 252,7 milh\u00f5es de euros. Este ser\u00e1 supostamente direccionado para sectores como a sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o. Veremos de que forma ser\u00e1 utilizado pelas Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONG) que o ir\u00e3o gerir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Qualquer verba \u00e0 parte dessa, nomeadamente as que teriam como objectivo combater a crise econ\u00f3mica no L\u00edbano, est\u00e3o, como de costume, condicionadas pela aplica\u00e7\u00e3o de novas medidas neoliberais, nomeadamente a redu\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos, privatiza\u00e7\u00e3o de sectores estrat\u00e9gicos e mais austeridade, entre outras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16pt;\">\u201c<strong>O povo quer a queda do regime\u201d<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Nos anos 1990, com o fim da guerra civil libanesa, foi implementado um regime sect\u00e1rio pelas elites burguesas do L\u00edbano, com uma divis\u00e3o de poderes estabelecida por linhas confessionais. Assim, o cargo de Presidente \u00e9 atribu\u00eddo a um maronita (crist\u00e3o), a presid\u00eancia da C\u00e2mara dos Deputados a um xiita e o governo a um sunita. Na realidade, \u00e9 um regime que procura dividir a popula\u00e7\u00e3o por religi\u00f5es, assente nas velhas divis\u00f5es coloniais, para que dessa forma as elites consigam manter o seu poder e privil\u00e9gios e melhor explorar o povo. Esse regime est\u00e1, desde Outubro do ano passado, posto em causa pelo movimento popular. A revolta, desencadeada ent\u00e3o por um novo imposto anunciado sobre as comunica\u00e7\u00f5es do Whatsapp, derrubou o Governo chefiado por Saad Hariri, do Movimento do Futuro, que renunciou no final de Outubro. O Presidente Michel Aoun, do Movimento Patri\u00f3tico Livre, nomeou o governo que tomou posse em Janeiro e foi agora derrubado, com Hassan Diab como primeiro-ministro, apoiado pelo seu partido, assim como pelo Hezbollah e pelo Amal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Como os protestos mais recentes mostram, n\u00e3o ser\u00e3o arranjos entre os principais partidos do regime, ligados \u00e0s elites confessionais, que ir\u00e3o apaziguar o descontentamento. Entre as reivindica\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a, na Pra\u00e7a dos M\u00e1rtires, exigia-se a queda do governo, a resigna\u00e7\u00e3o do presidente Michel Aoun e da C\u00e2mara dos Deputados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Nem mesmo as elei\u00e7\u00f5es anunciadas, ou a investiga\u00e7\u00e3o em curso que tem como objectivo apaziguar a revolta popular e esconder a neglig\u00eancia dos governos atingir\u00e3o esse objectivo. O regime liban\u00eas est\u00e1 descredibilizado e os protestos que tiveram in\u00edcio em Outubro do ano passado, em conjunto com o movimento popular na Arg\u00e9lia, no Iraque e no Sud\u00e3o, mostram que h\u00e1 alternativas ao discurso das \u00faltimas d\u00e9cadas que procura virar os explorados uns contra os outros de acordo com a sua religi\u00e3o ou etnia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">No entanto, o movimento popular liban\u00eas encontra-se numa encruzilhada, uma vez que n\u00e3o existe, por agora, uma alternativa pol\u00edtica correspondente \u00e0 for\u00e7a demonstrada nas ruas. A esquerda libanesa, dividida, procura organizar-se nesta conjuntura, o que ser\u00e1 determinante para evitar as armadilhas pseudo-democr\u00e1ticas do regime e levar em frente as reivindica\u00e7\u00f5es dos protestos por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. A mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas e a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa pol\u00edtica que defenda os interesses do povo liban\u00eas \u00e9 a \u00fanica alternativa vi\u00e1vel \u00e0 crise em que as elites libanesas corruptas mergulharam o pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p> <span style=\"font-size: 14pt;\"> <\/span> <\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16pt;\">Toda a solidariedade com o povo liban\u00eas!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No passado dia 4 de Agosto, uma explos\u00e3o equivalente a um sismo de magnitude 3,3 devastou Beirute, a capital libanesa, causando mais de 200 mortos, mais de 6.000 feridos e 300.000 desalojados. Dezenas de pessoas continuam desaparecidas e distritos inteiros de Beirute est\u00e3o destru\u00eddos. 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