{"id":3408,"date":"2020-08-10T16:09:22","date_gmt":"2020-08-10T15:09:22","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2020\/08\/10\/black-lives-matter-semente-de-uma-alternativa-politica\/"},"modified":"2020-08-10T16:09:22","modified_gmt":"2020-08-10T15:09:22","slug":"black-lives-matter-semente-de-uma-alternativa-politica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2020\/08\/10\/black-lives-matter-semente-de-uma-alternativa-politica\/","title":{"rendered":"Black Lives Matter, semente de uma alternativa pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\n<p> <span style=\"font-size: 14pt;\"> <\/p>\n<p style=\"clear: both;\">Sob o lema &#8220;Black Lives Matter&#8221; (BLM), a vaga de manifesta\u00e7\u00f5es iniciada nos EUA e em todo o mundo com o homic\u00eddio de George Floyd \u00e9 muito mais do que um reflexo de autodefesa de comunidades negras contra a brutalidade policial. Se fosse s\u00f3 isso, j\u00e1 n\u00e3o seria pouco. Mas \u00e9 muito mais.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Nos EUA, a comunidade afro-americana det\u00e9m v\u00e1rios recordes estat\u00edsticos, nenhum deles invej\u00e1vel. Os negros sofrem de desemprego cr\u00f3nico muito mais do que os brancos, s\u00e3o mais atingidos por crises agudas como a do <em>subprime<\/em>, s\u00e3o condenados em penas mais pesadas pelos mesmos delitos, est\u00e3o sobrerrepresentados na popula\u00e7\u00e3o prisional e s\u00e3o a carne de canh\u00e3o mais sacrificada nas guerras do imperialismo ianque.<\/p>\n<p>A comunidade afro-americana \u00e9, acima de tudo, uma prova viva do &#8220;pecado original&#8221; norte-americano \u2013 a hipocrisia. Os EUA tornaram-se independentes ao som da proclama\u00e7\u00e3o de Thomas Jefferson, de que todos os seres humanos nascem livres e iguais em direitos. Mas, dos sete \u201cpais fundadores\u201d dos EUA, s\u00f3 John Adams era um militante antiesclavagista e s\u00f3 Benjamin Franklin renegou o seu passado esclavagista; os outros cinco, incluindo Washington e o pr\u00f3prio Jefferson, eram propriet\u00e1rios ou negociantes de escravos. A p\u00e1tria dos direitos humanos universais continuou a ser durante quase um s\u00e9culo (1776-1862) a maior economia esclavagista do planeta. Em v\u00e9speras da guerra civil, os Estados do Sul contavam quatro milh\u00f5es de escravos.<\/p>\n<p>Depois de abolida a escravatura, permaneceu durante mais um s\u00e9culo o regime de <em>apartheid<\/em> que s\u00f3 o movimento dos direitos c\u00edvicos viria eliminar na letra da lei. E mesmo hoje permanecem na vida real as despropor\u00e7\u00f5es apontadas atr\u00e1s, e muitas outras, que revelam mais sobre o verdadeiro regime de um pa\u00eds do que a letra da lei.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"font-size: 16pt;\"><strong>A longa marcha das conquistas parciais<\/strong><\/p>\n<p>Todas as conquistas que a comunidade afro-americana obteve tiveram de ser ganhas por via revolucion\u00e1ria. N\u00e3o tinha fundamento a expectativa de que o capitalismo viesse, de forma natural e indolor, colocar o trabalho assalariado no lugar do trabalho escravo. O que o capitalismo manchesteriano, da revolu\u00e7\u00e3o industrial, continuava a fazer com a maior naturalidade era comprar algod\u00e3o \u00e0 agricultura esclavagista da Carolina do Sul, da Virg\u00ednia, do Alabama. O capitalismo da ind\u00fastria transformadora precisava de mat\u00e9ria-prima barata, fornecida pelo capitalismo agr\u00e1rio, exportador, com a sua for\u00e7a de trabalho gratuita.<\/p>\n<p>Para ser abolida a escravatura, foi precisa uma guerra civil que durou quatro anos e, s\u00f3 por si, custou mais de meio milh\u00e3o de vidas norte-americanas \u2013 um n\u00famero superior ao que custaram, todas somadas, as guerras do imperialismo norte-americano at\u00e9 \u00e0 do Vietname. Esta segunda revolu\u00e7\u00e3o americana n\u00e3o aboliu a discrimina\u00e7\u00e3o racial, mas pelo menos deu aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica \u00e0 ret\u00f3rica anti-esclavagista de Jefferson.<\/p>\n<p>A burguesia ianque n\u00e3o fez a guerra para acabar com a escravatura: foi a burguesia sulista que desencadeou a guerra para expandir os territ\u00f3rios \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da economia esclavagista. E f\u00ea-lo com tal determina\u00e7\u00e3o que, nos dois primeiros anos da guerra, a sorte das armas chegou a pender para a Confedera\u00e7\u00e3o dos Estados do Sul. Encurralado, Lincoln teve de substituir o general George McCellan, de lealdade duvidosa, pelos en\u00e9rgicos Ulysses Grant e William Sherman e, principalmente, teve de decidir-se a proclamar a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura para galvanizar o apoio dos oprimidos e desse modo assestar um golpe decisivo na burguesia sulista.<\/p>\n<p>A dram\u00e1tica viragem da guerra anunciava um p\u00f3s-guerra igualmente dram\u00e1tico.&nbsp; Em 1865, iniciaram-se os chamados anos da Reconstru\u00e7\u00e3o, em que os escravos negros libertados se aliaram aos brancos pobres do Sul para criarem uma democracia aut\u00eantica e igualit\u00e1ria. Mas a din\u00e2mica de revolu\u00e7\u00e3o permanente que animava esse bloco social era muito diferente da agenda que vigorava na Casa Branca e no Capit\u00f3lio, principalmente desde o assass\u00ednio de Lincoln. Em breve, os negros libertados e os brancos pobres se viram subjugados pela burguesia sulista que voltava a gozar do apoio central. Seguiu-se um s\u00e9culo inteiro de <em>apartheid<\/em> sem escravatura.<\/p>\n<p>Foi o tempo das leis de &#8220;Jim Crow&#8221;, implementadas pelos poderes estaduais e tendo como bra\u00e7o extralegal o Ku Klux Klan. O <em>apartheid<\/em> significava que no espa\u00e7o p\u00fablico, nas escolas, nos transportes colectivos, continuava a haver segrega\u00e7\u00e3o. O complemento insepar\u00e1vel desta realidade social era o terrorismo supremacista, com os seus atentados e linchamentos impunes. Uma larga parafern\u00e1lia de exig\u00eancias legais reservava o direito de voto aos cidad\u00e3os mais abastados e dele exclu\u00eda sistematicamente os negros. Segregada da vida pol\u00edtica, a comunidade afro-americana refugiava-se numa variedade de igrejas ou em utopias independentistas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"font-size: 16pt;\"><strong>A luta pela autoorganiza\u00e7\u00e3o negra<\/strong><\/p>\n<p>O malogro da Reconstru\u00e7\u00e3o frustrara as expectativas que quatro milh\u00f5es de escravos negros tinham alimentado sobre a alian\u00e7a com os brancos pobres. Empalidecia a ideia de os oprimidos poderem unir-se contra a opress\u00e3o.<\/p>\n<p>O intelectual negro socialista William Edward Burghardt Dubois, apesar da sua perspic\u00e1cia e erudi\u00e7\u00e3o, ficou quase condenado a pregar no deserto, enquanto multid\u00f5es entusi\u00e1sticas seguiam o grande demagogo Marcus Garvey. Nascido na Jamaica, com uma hist\u00f3ria de vida movimentada e cosmopolita, Garvey apelou aos negros de v\u00e1rios pa\u00edses americanos para \u201cregressarem\u201d a \u00c1frica e ganhou influ\u00eancia nos EUA gra\u00e7as ao sentimento generalizado do fracasso da Reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds sem esperan\u00e7a, multid\u00f5es negras voltavam os olhos para o continente das suas origens ancestrais. A Lib\u00e9ria, pa\u00eds criado no s\u00e9culo XIX com escravos libertados ou fugidos, chegou a ser idealizada como vers\u00e3o negra da &#8220;terra prometida&#8221;. Mas o para\u00edso terrestre que Garvey descrevia aos seus seguidores era desmentido pela realidade do atraso e da pobreza. Nos EUA, a campanha por um 49\u00ba Estado da Uni\u00e3o, dirigido e governado pela popula\u00e7\u00e3o negra, nem sequer chegou t\u00e3o longe. Ao contr\u00e1rio da Lib\u00e9ria, o tal Estado negro norte-americano nunca chegou a existir.<\/p>\n<p>A forte puls\u00e3o separatista dos anos 1930 reflecte-se nas discuss\u00f5es de Trotsky sobre a autodetermina\u00e7\u00e3o dos negros americanos. O trotskista norte-americano Cyril Lionel Robert James de certo modo contesta a ideia da autodetermina\u00e7\u00e3o, argumenta que os seguidores de Garvey n\u00e3o sabem exactamente o que querem, que eles na verdade anseiam por um governo negro dos EUA, n\u00e3o por um Estado pr\u00f3prio. Trotsky n\u00e3o preconiza a emigra\u00e7\u00e3o para a Lib\u00e9ria, nem a cria\u00e7\u00e3o do 49\u00ba Estado, mas defende que o partido revolucion\u00e1rio deve apoiar a comunidade negra se esta quiser tornar-se independente. A luta pela igualdade de direitos na democracia norte-americana est\u00e1 para Trotsky, claramente, subordinada ao direito de autodetermina\u00e7\u00e3o da comunidade negra.<\/p>\n<p>Numa outra discuss\u00e3o mais consensual, pondera-se a cria\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o negra, que n\u00e3o tem de ser uma frente de massas do partido nem um mero viveiro para recrutamento de quadros do partido. Apoiando o projecto dos militantes norte-americanos da Quarta Internacional, Trostky define-o como \u201cuma esp\u00e9cie de escola pr\u00e9-pol\u00edtica\u201d, necess\u00e1ria pelo facto de a opress\u00e3o dos negros ser \u201ct\u00e3o forte que eles a sentem constantemente, que a sentem como negros. N\u00f3s devemos encontrar a possibilidade de dar uma express\u00e3o politico-organizativa a este sentimento\u201d. Ainda segundo Trotsky, o pr\u00f3prio partido deve tomar a iniciativa de promover a cria\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a organizada que n\u00e3o ir\u00e1 controlar.<\/p>\n<p>Corriam os anos 1930 e ambas as discuss\u00f5es teriam ainda de ser submetidas \u00e0 prova dos factos. Aproximavam-se v\u00e1rias d\u00e9cadas de luta de classes intensa, num processo ininterrupto que ainda hoje continua.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"font-size: 16pt;\"><strong>A luta por uma cidadania de pleno direito<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo entre as guerras e na Segunda Guerra Mundial, numerosas fam\u00edlias negras e em especial os jovens sufocados pelo regime sulista migraram massivamente para os Estados do norte, para se alistarem no Ex\u00e9rcito ou para trabalharem em ind\u00fastrias de armamento desesperadamente carenciadas de bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Mas o capitalismo engendra racismo onde quer que exista, e n\u00e3o apenas nos Estados do sul. Os patr\u00f5es da ind\u00fastria b\u00e9lica empregavam com sal\u00e1rios inferiores os negros rec\u00e9m-chegados. Os velhos sindicatos profissionais da AFL ressentiam-se da disposi\u00e7\u00e3o dos novos colegas a trabalharem por menos dinheiro e viam na subservi\u00eancia inicial dos trabalhadores negros uma confirma\u00e7\u00e3o do seu preconceito racista. C\u00edrculo vicioso, viravam-lhes as costas e inventavam todos os pretextos para impedirem a sua filia\u00e7\u00e3o nos sindicatos.<\/p>\n<p>Essa realidade n\u00e3o era, por outro lado, inelut\u00e1vel. Uma nova central de modernos sindicatos de ind\u00fastria, a CIO, animou lutas em que os trabalhadores negros participaram activamente e, por vezes, com um papel de vanguarda. Philip Randolph organizou os trabalhadores negros num dos sindicatos ferrovi\u00e1rios e em breve se tornou um interlocutor incontorn\u00e1vel para o poder pol\u00edtico necessitado de apoios para o esfor\u00e7o de guerra.<\/p>\n<p>Quando a AFL absorveu a CIO e o racismo dos seus velhos burocratas se imp\u00f4s, mais ou menos camuflado, como atitude da AFL-CIO, a realidade objectiva j\u00e1 tinha sofrido algumas transforma\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis. O presidente Franklin D. Roosevelt, at\u00e9 a\u00ed indiferente \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de direitos civis, teve de fazer-lhe concess\u00f5es. Depois da sua morte e depois do fim da guerra, o ultra-reacion\u00e1rio presidente Harry Truman teve de prosseguir nesse caminho.<\/p>\n<p>Mas a legisla\u00e7\u00e3o que se ia plasmando no papel continuava a ter um impacto modesto na vida real. Era preciso recorrer aos m\u00e9todos da desobedi\u00eancia civil. S\u00f3 assim o movimento antisegregacionista conseguiria abolir o regime &#8220;Jim Crow&#8221; e instituir uma igualdade formal: nos transportes p\u00fablicos, nas escolas e no direito de voto. O grande dirigente desse movimento, Martin Luther King, levou a sua campanha de cidade em cidade, boicotando transportadoras segregadas ou reclamando a entrada de crian\u00e7as negras nas escolas reservadas aos brancos. Em 1963, organizou uma enorme manifesta\u00e7\u00e3o em Washington, onde proferiu o famoso discurso que come\u00e7ava com a frase \u201cI have a dream\u201d [Eu tenho um sonho].<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"font-size: 16pt;\"><strong>Direitos c\u00edvicos e guerra do Vietname<\/strong><\/p>\n<p>A presid\u00eancia de John Kennedy e, depois do seu assass\u00ednio, a de Lyndon Johnson n\u00e3o reprimiram abertamente o movimento contra a segrega\u00e7\u00e3o, embora o FBI procurasse sabot\u00e1-lo na sombra. Mais uma vez, os inquilinos da Casa Branca procuravam obter o apoio afro-americano para uma guerra que tinham entre m\u00e3os, agora a do Vietname. E King deixou pairar, durante v\u00e1rios anos, uma certa ambiguidade sobre a sua atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>Mas a lua-de-mel que alimentou com o poder pol\u00edtico estava condenada a acabar. Depois de conseguir dessegregrar escolas e transportes, ele tentou p\u00f4r de p\u00e9 iniciativas comunit\u00e1rias que resolvessem problemas sociais, ao n\u00edvel da habita\u00e7\u00e3o ou do desemprego. Essas iniciativas pressupunham revolucionar as pol\u00edticas or\u00e7amentais, dedicar largas verbas \u00e0 assist\u00eancia social, criar um Estado provid\u00eancia de tipo social-democrata. Acontece que a prioridade or\u00e7amental das administra\u00e7\u00f5es americanas era a guerra, que King at\u00e9 a\u00ed tinha evitado p\u00f4r em causa.<\/p>\n<p>Entretanto, os soldados negros morriam no Vietname mais que os brancos. Na retaguarda n\u00e3o obtinham adiamentos para estudar e, uma vez chegados \u00e0 frente, eram tratados como carne para canh\u00e3o. Inevitavelmente, come\u00e7avam a levantar quest\u00f5es inc\u00f3modas: Muhamad Ali sacrificou a sua carreira desportiva e recusou tornar-se um \u00edcone da beliger\u00e2ncia negra com um par de frases famosas: &#8220;Querem que eu v\u00e1 para o Vietname matar gente de cor que nunca me linchou, nunca me chamou \u2018preto\u2019, nunca assassinou os meus dirigentes\u201d. O maior pugilista de todos os tempos lan\u00e7ava desse modo \u00e0 cara da opini\u00e3o p\u00fablica belicista um discurso incendi\u00e1rio, que parecia fazer eco \u00e0 famosa proclama\u00e7\u00e3o de Karl Liebknecht: \u201cO inimigo est\u00e1 no nosso pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Pressionado pelas circunst\u00e2ncias e por tomadas de posi\u00e7\u00e3o como a de Muhamad Ali, King lan\u00e7ou-se de corpo inteiro na campanha anti-belicista e lembrou que os negros americanos estavam a ser mandados para o Vietname, supostamente para defenderem uma democracia que lhes era negada no seu pa\u00eds. Em mais uma grande manifesta\u00e7\u00e3o que em 1967 convergiu sobre Washington, desta vez contra a guerra, King foi uma das presen\u00e7as mais destacadas. O movimento negro foi uma componente da frente de recusa, ampla e de todas as cores, contra a guerra do Vietname.<\/p>\n<p>Ao definir-se sobre a guerra, o movimento de direitos c\u00edvicos atingia os seus limites. Dissipadas as expectativas de neutralizar o movimento negro na quest\u00e3o da guerra, a Casa Branca endurecia a sua atitude. As duas figuras mais carism\u00e1ticas do movimento negro foram assassinadas: logo em 1965, Malcolm X, um anti-belicista da primeira hora; e finalmente, em 1968, o pr\u00f3prio Martin Luther King. Na Am\u00e9rica profunda, agora com as costas quentes ao n\u00edvel do poder central, e por isso com atrevimento crescente, os caciques racistas multiplicavam as provoca\u00e7\u00f5es. Em banais incidentes de rua, em controlos rodovi\u00e1rios, as brutalidades policiais recrudesciam.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos da desobedi\u00eancia civil, da resist\u00eancia passiva e da n\u00e3o-viol\u00eancia tinham esgotado o seu papel hist\u00f3rico. Ainda antes de ser assassinado, King j\u00e1 se encontrava ultrapassado pelos acontecimentos. Dando continuidade a revoltas como a de Harlem, em 1964, ou a de Watts, em 1965, come\u00e7ava a impor-se um novo modelo de resposta negra com as grandes insurrei\u00e7\u00f5es urbanas, sempre desencadeadas pela viol\u00eancia policial, como em Newark e Detroit, em 1967.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"font-size: 16pt;\"><strong>Um par\u00eantesis: o Partido das Panteras Negras<\/strong><\/p>\n<p>O movimento do Poder Negro e, posteriormente, o Partido das Panteras Negras (BPP) tentaram resolver v\u00e1rios dilemas que o movimento negro enfrentava no fim da etapa dos direitos c\u00edvicos. Um dos dilemas era o de lutar por um Estado negro ou, em alternativa, pela integra\u00e7\u00e3o num Estado multirracial, com igualdade de direitos. O outro era o de observar um estrito princ\u00edpio de n\u00e3o-viol\u00eancia ou, em alternativa, organizar a autodefesa do movimento face a atentados cada vez mais mort\u00edferos dos \u201cvigilantes\u201d ou pol\u00edcias racistas.<\/p>\n<p>Malcolm X foi assassinado cedo demais para poder assistir aos primeiros passos do Poder Negro ou do BPP. Tendo iniciado o seu percurso de dirigente na corrente mu\u00e7ulmana, como King iniciara o seu na corrente crist\u00e3, Malcolm distinguia-se de King por ter rompido mais radicalmente com as origens religiosas para assumir um papel \u00e0 cabe\u00e7a do movimento negro e por ter em curso uma espectacular evolu\u00e7\u00e3o para o internacionalismo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O questionamento que Malcolm X fazia do pacifismo estava marcado pela revolu\u00e7\u00e3o mundial, pelas vit\u00f3rias da revolu\u00e7\u00e3o chinesa, da revolu\u00e7\u00e3o cubana, das lutas de liberta\u00e7\u00e3o africanas. O impasse a que o movimento dos direitos c\u00edvicos tinha chegado parecia exigir um balan\u00e7o cr\u00edtico dos m\u00e9todos n\u00e3o-violentos. E parecia, al\u00e9m disso, exigir uma reflex\u00e3o sobre os limites do integracionismo: mesmo quem n\u00e3o estivesse tentado a voltar \u00e0 f\u00f3rmula separatista do falecido Marcus Garvey via-se confrontado, no final dos anos 1960, com a realidade de um pa\u00eds que, apesar da legisla\u00e7\u00e3o obtida, continuava marcado pela desigualdade social e racial.<\/p>\n<p>O tempo estava maduro para procurar uma nova estrat\u00e9gia, Malcolm X come\u00e7ara a procur\u00e1-la e desse modo inspirou o movimento do Poder Negro. L\u00edderes como Stokely Carmichael, sem reclamarem um Estado negro, procuraram garantir um controlo dos <em>ghettos<\/em> negros, limitar a\u00ed a influ\u00eancia branca e a interven\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia racista. A presid\u00eancia de Richard Nixon viu nesta estrat\u00e9gia a oportunidade para promover um \u201ccapitalismo negro\u201d, subsidiando os neg\u00f3cios de uma burguesia negra que deveria tornar-se a correia de transmiss\u00e3o para o controlo do poder sobre esses <em>ghettos<\/em> potencialmente explosivos.<\/p>\n<p>Mais do que o movimento do Poder Negro, o BPP, dirigido por figuras como Huey Newton e Eldridge Cleaver, procurou superar o impasse da resist\u00eancia passiva e responder ao problema da viol\u00eancia racista sem sair da legalidade. Invocou o direito de andarem armados que a Constitui\u00e7\u00e3o confere aos cidad\u00e3os, organizou a partir de Oakland e depois noutras cidades patrulhas de quatro militantes para intervirem nos habituais incidentes com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O sucesso inicial deste m\u00e9todo n\u00e3o permitia, contudo, alimentar ilus\u00f5es. Em breve a pol\u00edcia ia reagir com a maior viol\u00eancia e os patrulheiros come\u00e7avam a ser abatidos como tordos. O BPP era, assim, empurrado para se militarizar e clandestinizar cada vez mais. A inspira\u00e7\u00e3o que Malcolm X encontrara nas vit\u00f3rias de massas pelo mundo fora, come\u00e7aram os l\u00edderes do BPP a procur\u00e1-la nos m\u00e9todos que, em circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, tinham sido os dessas vit\u00f3rias. Tomando a nuvem por Juno, quiseram imitar o maoismo, o castrismo, o guevarismo, em solo norte-americano. O confronto contra o aparelho militar e policial era uma batalha perdida de antem\u00e3o. Dezenas de dirigentes do BPP foram mortos, centenas foram presos. O partido foi esmagado pela repress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"font-size: 16pt;\"><strong>O segundo f\u00f4lego das insurrei\u00e7\u00f5es urbanas<\/strong><\/p>\n<p>A vaga de manifesta\u00e7\u00f5es desencadeada pelo assass\u00ednio de George Floyd j\u00e1 \u00e9 considerada o mais amplo, massivo e persistente movimento de massas que alguma vez ocorreu na Hist\u00f3ria dos EUA. Um dos seus pontos altos foi a jornada de 6 de junho, com cerca de meio milh\u00e3o de pessoas a manifestarem-se um pouco por todo o pa\u00eds. Segundo sondagens recentes de institutos insuspeitos e conservadores, o n\u00famero de manifestantes que participaram em algum tipo de protestos desde o assass\u00ednio de Minneapolis anda entre os 15 e os 26 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Trata-se de um n\u00famero muito superior ao do processo de luta pelos direitos c\u00edvicos, que envolveu centenas de milhares de pessoas, mas tem em comum com esse processo o seu car\u00e1cter multirracial e vai muito al\u00e9m dele na capacidade demonstrada para fracturar as for\u00e7as repressivas (se, por um lado, se sucedem os incidentes com pol\u00edcias tomados de p\u00e2nico e histeria contra os manifestantes, por outro lado, registam-se tamb\u00e9m os casos de agentes que se apresentam desarmados nas manifesta\u00e7\u00f5es, para nelas desfilarem tamb\u00e9m).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 este o momento para proceder a uma an\u00e1lise do que tem sido essa vaga de manifesta\u00e7\u00f5es. O que aqui importa \u00e9 enunciar algumas ila\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ela sugere.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a BLM \u00e9 tudo menos um movimento despolitizado e ac\u00e9falo. Ela ergue-se, na sociedade norte-americana, de m\u00e3os dadas com um inesperado ressurgimento de popularidade das ideias socialistas, patente no eco que apesar de tudo obteve a campanha de Bernie Sanders e no sucesso eleitoral de candidaturas parlamentares que a si pr\u00f3prias se apresentam como socialistas (quase todas de mulheres, todas de minorias \u00e9tnicas).<\/p>\n<p>Depois, a actual vaga de insurrei\u00e7\u00f5es urbanas insiste em colocar diante dos nossos olhos uma alternativa ao pacifismo do movimento de direitos c\u00edvicos que as revoltas pioneiras dos anos 1960 colocavam j\u00e1 perante os olhos dos \u201cpanteras negras\u201d: a ac\u00e7\u00e3o directa realmente eficaz n\u00e3o se organiza em c\u00e9lulas clandestinas e sim com o impulso das massas. Os m\u00e9todos da China, Cuba, Arg\u00e9lia e das liberta\u00e7\u00f5es africanas n\u00e3o se aplicam nos EUA \u2013 mas os m\u00e9todos insurrecionais dos EUA aplicam-se, com sucesso, nos EUA. A alternativa pol\u00edtica a organizar n\u00e3o poder\u00e1 medir-se com os esbirros da CIA ou do FBI no terreno da conspira\u00e7\u00e3o, mas poder\u00e1 dar um sentido e um futuro aos protestos mais ou menos espont\u00e2neos de hoje, no terreno da agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em terreno aberto.<\/p>\n<p>Essa alternativa n\u00e3o aponta para um Estado negro, e sim para uma iniciativa e uma vanguarda negra na sociedade norte-americana. A hip\u00f3tese de Trotsky sobre a autodetermina\u00e7\u00e3o negra, formulada nas discuss\u00f5es dos anos 1930, n\u00e3o foi confirmada pela Hist\u00f3ria dos EUA nem pela Hist\u00f3ria do mundo nas d\u00e9cadas seguintes. Mas a pista que avan\u00e7ou sobre a autoorganiza\u00e7\u00e3o negra continua a ser uma hip\u00f3tese de trabalho fecunda, se n\u00e3o for tomada como o regresso a uma pol\u00edtica de <em>ghetto<\/em>, e sim como a assun\u00e7\u00e3o de um papel dirigente da comunidade negra na liberta\u00e7\u00e3o do conjunto das comunidades norte-americanas, por ser aquela que tem concentrado em si pr\u00f3pria as mais intensas experi\u00eancias de sofrimento com os males do capitalismo e as mais exemplares experi\u00eancias de luta contra ele.<\/p>\n<p> <\/span> <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3 <\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Historiador e jornalista na RTP<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob o lema &#8220;Black Lives Matter&#8221; (BLM), a vaga de manifesta\u00e7\u00f5es iniciada nos EUA e em todo o mundo com o homic\u00eddio de George Floyd \u00e9 muito mais do que um reflexo de autodefesa de comunidades negras contra a brutalidade policial. Se fosse s\u00f3 isso, j\u00e1 n\u00e3o seria pouco. Mas \u00e9 muito mais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3407,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[37],"tags":[116,1908,1003,269,1382,1905,1907,455,282,162,117,1002],"class_list":["post-3408","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eua","tag-alternativa","tag-black-lives-matter","tag-capitalismo","tag-eua","tag-extrema-direita","tag-mobilizacoes","tag-movimento-negro","tag-opressao","tag-racismo","tag-revolucionario","tag-socialista","tag-trump"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/blm_bridgephoto_demonstration_portland.png?fit=620%2C465","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3408\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3407"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}