{"id":335,"date":"2010-11-07T18:49:36","date_gmt":"2010-11-07T17:49:36","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/11\/07\/dilma-ganhou-e-agora\/"},"modified":"2010-11-07T18:49:36","modified_gmt":"2010-11-07T17:49:36","slug":"dilma-ganhou-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/11\/07\/dilma-ganhou-e-agora\/","title":{"rendered":"Dilma ganhou&#8230; e agora?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-334\" style=\"margin: 10px 10px 2px; float: left;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/lulaedilma.jpg?w=300\"  srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/lulaedilma.jpg?w=400 400w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/lulaedilma.jpg?resize=300%2C170 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Dilma Roussef foi eleita presidente do Brasil. Confirma-se assim o peso da vit\u00f3ria do governo Lula e da frente por ele dirigida. O governo ampliou sua maioria na C\u00e2mara, passando a ter 402 deputados de um total de 513 parlamentares. Conseguiu ainda a maioria no Senado, que foi palco de derrotas importantes do governo passado, passando para 59, em um total de 81 senadores. Com isso, o governo passa a ter uma maioria confort\u00e1vel no Congresso, algo que Lula n\u00e3o teve no primeiro nem no segundo mandato.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  Elegeram tamb\u00e9m a maioria (15) dos governadores, incluindo regi\u00f5es de peso como Rio Grande do Sul e o Distrito Federal, que estavam n\u00e3os m\u00e3os da oposi\u00e7\u00e3o de direita. <\/p>\n<p>Por fim, e mais importante, elegeram Dilma Roussef. Ela nunca tinha antes sido eleita nem para vereador. Agora vai ocupar o cargo mais importante da Rep\u00fablica. \u00c9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a do governo e, em particular, pessoal de Lula, que escolheu a candidata e foi seu principal cabo eleitoral.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o de direita sai duramente derrotada das elei\u00e7\u00f5es. Mais quatro anos longe da cadeira presidencial. Pior ainda, tendo de enfrentar Lula em 2014 que sai do governo com mais de 80% de aprova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o chegam a estar mortos, j\u00e1 que mant\u00e9m o governo de 10 estados important\u00edssimos como S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Paran\u00e1 e agora tamb\u00e9m o Par\u00e1. Mas saem derrotados, e muito.<\/p>\n<p><strong>Os motivos da vit\u00f3ria de Dilma<\/strong><\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria governista pode ser encontrada na combina\u00e7\u00e3o entre o crescimento econ\u00f3mico e ao papel de Lula e do PT no governo. O crescimento econ\u00f3mico tem sido o maior dos \u00faltimos anos, incluindo a retomada p\u00f3s-crise de 2008. A previs\u00e3o \u00e9 de aumento do PIB de 7% em 2010. Isso facilitou muito para Lula e o PT conseguirem soldar uma alian\u00e7a de colabora\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<p>O crescimento possibilitou lucros gigantescos (quatro vezes mais que no governo FHC) para as grandes empresas. Lula fez pequenas concess\u00f5es (reajustes do sal\u00e1rio m\u00ednimo e Bolsa Fam\u00edlia), que levou a um apoio pol\u00edtico muito forte entre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Lula conseguiu com seus aliados (CUT, For\u00e7a Sindical, UNE, sindicatos, etc.) controlar o movimento de massas durante seu governo. Em um evento recente da burguesia, com a presen\u00e7a de uma parte importante das mais importantes empresas do pa\u00eds, Lula comparou a situa\u00e7\u00e3o brasileira com as greves que sacodem nesse momento a Europa e perguntou: &#8220;Qual a greve importante que aconteceu aqui nos \u00faltimos anos?&#8221;<\/p>\n<p><strong>Quem ganhou afinal?<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhadores acreditam que tiveram uma vit\u00f3ria. Infelizmente somos obrigados a discordar. Em sua cabe\u00e7a, Dilma expressava a sua luta contra a direita representante da grande burguesia.<\/p>\n<p>Na verdade, a grande burguesia se dividiu nas elei\u00e7\u00f5es. Serra foi o candidato da direita tradicional, com uma parte da burguesia industrial e financeira paulista, as grandes empresas da media (TVs e jornais), e uma parte do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Dilma foi a candidata de um grande sector da burguesia que cresceu muito no governo Lula e aprendeu a fazer bons neg\u00f3cios com o PT. S\u00e3o os bancos benefici\u00e1rios das maiores taxas de juro de todo o mundo, a constru\u00e7\u00e3o civil benefici\u00e1ria das obras do PAC e do &#8220;Minha Casa, Minha Vida&#8221;, grandes empresas que recebem financiamentos do BNDES. Isso inclui uma parte importante dos bancos (o Ita\u00fa e a fam\u00edlia Safra, por exemplo), grandes construtoras, minera\u00e7\u00e3o (Eike Batista, o homem mais rico do pa\u00eds; Vale, a maior empresa privada), com\u00e9rcio (Ab\u00edlio Diniz, do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar), siderurgia (Benjamin Steinbruch, dono da CSN) e muitos outros sectores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que uma parte da burocracia petista est\u00e1 se transformando directamente em grandes burgueses como \u00e9 o caso de Jos\u00e9 Dirceu e Luis Gushiken.<\/p>\n<p>O imperialismo se manteve equidistante nas elei\u00e7\u00f5es, satisfeito com qualquer uma das duas op\u00e7\u00f5es. \u00c9 evidente que os governos imperialistas tem excelentes rela\u00e7\u00f5es com Lula , a ponto de dar-lhe grande destaque nas reuni\u00f5es internacionais e possibilitar tanto a Copa como a Olimp\u00edada no Brasil. N\u00e3o \u00e9 para menos: Lula lhes assegura grandes lucros e estabilidade no Brasil, assim como um papel de aliado nas crises latino-americanas. Al\u00e9m disso, mant\u00e9m a ocupa\u00e7\u00e3o militar do Haiti j\u00e1 por seis anos, a servi\u00e7o do governo dos EUA.<\/p>\n<p>O <em>Financial Times<\/em>, express\u00e3o do capital financeiro internacional, nas v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o apoiou em editorial a candidatura de Serra. Mas os termos em que manifesta o apoio s\u00e3o muito significativos. &#8220;Ambos s\u00e3o notavelmente similares. S\u00e3o sociais-democratas que cr\u00eaem em pol\u00edticas pr\u00f3-mercado com forte componente social&#8221;. No final fala que, com a vit\u00f3ria de Dilma, Lula vai seguir como um presidente paralelo e deve voltar em 2014. E termina afirmando: &#8220;Ao menos para interromper essa rela\u00e7\u00e3o com o poder, Serra \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o para o Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Em ess\u00eancia, os bancos estrangeiros dizem que tanto Dilma como Serra s\u00e3o confi\u00e1veis, mas para evitar que o PT e Lula fiquem no poder por 16 anos, seria melhor que Serra fosse eleito.<\/p>\n<p>Existe uma enorme diferen\u00e7a com o Lula eleito em 2002, que j\u00e1 tinha uma alian\u00e7a com uma parte da burguesia, mas ainda provocava temores nos sectores maiorit\u00e1rios do capital. Basta ver a instabilidade financeira naquela \u00e9poca (em que o d\u00f3lar ultrapassou os R$ 4) e a estabilidade atual. Hoje o conjunto da burguesia encarou a elei\u00e7\u00e3o com tranquilidade (inclusive a que apoiou a oposi\u00e7\u00e3o de direita), e uma parte importante apoiou Dilma.<\/p>\n<p>Os mais esperan\u00e7osos poderiam dizer que tanto os trabalhadores como a grande burguesia podem estar certos ao mesmo tempo ao achar que foram vitoriosos com a elei\u00e7\u00e3o de Dilma. Isso estaria bem de acordo com a ideologia dominante de colabora\u00e7\u00e3o de classes. Mas a vida real n\u00e3o \u00e9 assim. Em uma sociedade dividida em classes, em geral uma classe ganha quando a outra perde.<\/p>\n<p>Mesmo no crescimento econ\u00f3mico actual isso pode ser visto. Em termos relativos os trabalhadores s\u00e3o mais explorados hoje que no governo FHC. Produzem muito mais, geram lucros gigantescos e ficam com uma parcela menor desse lucro do que antes. Qual a classe que sai vitoriosa das elei\u00e7\u00f5es ent\u00e3o? A grande burguesia, sem nenhuma d\u00favida.<\/p>\n<p>N\u00e3o tiveram apenas uma, mas pelo menos tr\u00eas grandes vit\u00f3rias. A primeira delas foi eleger uma candidata que al\u00e9m de ter respaldo da alta burguesia e da maioria do congresso, ainda tem o apoio maiorit\u00e1rio dos trabalhadores do pa\u00eds e de suas principais entidades de massas, como a CUT, For\u00e7a Sindical, UNE, sindicatos, etc. Isso facilita em muito retomar projectos como a reforma da previd\u00eancia, que j\u00e1 est\u00e1 em estudos.<\/p>\n<p>A segunda foi a situa\u00e7\u00e3o de relativa estabilidade econ\u00f3mica e pol\u00edtica do pa\u00eds na qual se deu as elei\u00e7\u00f5es. No debate entre as duas principais candidaturas jamais esteve questionado o plano econ\u00f3mico neoliberal que est\u00e1 sendo aplicado no pa\u00eds. A discuss\u00e3o gerou ao redor de quem seria o melhor gerente para esse plano.<\/p>\n<p>A terceira vit\u00f3ria para a burguesia \u00e9 passar a ter Lula como uma salvaguarda do regime, que pode ser utilizado em momentos de crises pol\u00edticas. Ou ainda voltar ao poder em 2014, com a lembran\u00e7a das massas do crescimento econ\u00f3mico em seu governo.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as perspectivas?<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhadores elegeram Dilma sem grande entusiasmo. N\u00e3o t\u00eam expectativas de grandes mudan\u00e7as, apenas buscam defender as pequenas conquistas como emprego (mesmo prec\u00e1rio), o Bolsa Fam\u00edlia e os reajustes no sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Mesmo isso, no entanto, estar\u00e1 em quest\u00e3o, caso a crise econ\u00f3mica que j\u00e1 atinge fortemente a Europa se generalize e atinja o Brasil. Se os governos europeus atacam duramente os trabalhadores de seus pa\u00edses pode-se imaginar o que vai acontecer no Brasil.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos dias de hoje o pa\u00eds sofre as consequ\u00eancias da crise, com maiores dificuldades para suas exporta\u00e7\u00f5es e uma invers\u00e3o na balan\u00e7a de pagamentos (que mede as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas como um todo com o estrangeiro). No per\u00edodo de crescimento anterior, t\u00ednhamos uma balan\u00e7a superavit\u00e1ria. No ano passado j\u00e1 tivemos d\u00e9fice e vamos a um rombo de mais de 50 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2010.<\/p>\n<p>Como forma de se prevenir da crise, a equipe de governo de Dilma Roussef j\u00e1 est\u00e1 planeando uma reforma da Previd\u00eancia para o in\u00edcio do mandato. Aproveitando-se do inevit\u00e1vel apoio inicial, o novo governo, pelas not\u00edcias da imprensa, j\u00e1 estaria planeando uma reforma que aumentasse a idade para a aposentadoria.<\/p>\n<p>Infelizmente os trabalhadores ter\u00e3o de fazer sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de que n\u00e3o foi uma aliada que acabou de ganhar as elei\u00e7\u00f5es. N\u00f3s queremos fazer esse alerta: o novo governo Dilma vai atacar os direitos dos trabalhadores como voc\u00eas nunca imaginariam. \u00c9 preciso come\u00e7ar a preparar a resist\u00eancia contra a prov\u00e1vel reforma da Previd\u00eancia do governo Dilma.<\/p>\n<p><strong>Eduardo Almeida Neto<\/strong><br \/>da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do PSTU e editor do Opini\u00e3o Socialista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dilma Roussef foi eleita presidente do Brasil. Confirma-se assim o peso da vit\u00f3ria do governo Lula e da frente por ele dirigida. 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