{"id":3284,"date":"2019-12-27T21:49:34","date_gmt":"2019-12-27T20:49:34","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/12\/27\/um-ano-de-governo-bolsonaro-leva-a-amazonia-a-beira-do-colapso\/"},"modified":"2019-12-27T21:49:34","modified_gmt":"2019-12-27T20:49:34","slug":"um-ano-de-governo-bolsonaro-leva-a-amazonia-a-beira-do-colapso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/12\/27\/um-ano-de-governo-bolsonaro-leva-a-amazonia-a-beira-do-colapso\/","title":{"rendered":"Um ano de Governo Bolsonaro leva a Amaz\u00f3nia \u00e0 beira do colapso"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"clear: both;\">Num artigo<a class=\"sdfootnoteanc\" name=\"sdfootnote1anc\" href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a> muito recente, os cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy alertam para o perigo iminente do colapso da floresta Amaz\u00f3nia e a sua r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o numa savana seca. No artigo intitulado \u201cPonto de Inflex\u00e3o da Amaz\u00f3nia: \u00faltima oportunidade para agir\u201d os investigadores afirmam que \u201co ponto de inflex\u00e3o \u00e9 aqui, \u00e9 agora\u201d.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cponto de inflex\u00e3o\u201d \u2013 em ingl\u00eas <em>tipping point<\/em> &#8211; \u00e9 uma vers\u00e3o mais cuidadosa da express\u00e3o \u201cponto de n\u00e3o-retorno\u201d. Refere-se, no contexto das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, ao momento a partir do qual o colapso de um ecossistema, ou do conjunto do sistema terrestre, j\u00e1 n\u00e3o pode ser evitado mesmo com o fim absoluto de todas as causas que originaram o esse mesmo colapso. Isto acontece assim porque os sistemas terrestres s\u00e3o complexos, feitos de in\u00fameras din\u00e2micas vivas que se cruzam e alimentam entre si e que n\u00e3o podem ser totalmente controladas pelo ser humano. Isso faz com que a progressiva degrada\u00e7\u00e3o de um ecossistema causada pela a\u00e7\u00e3o humana atinja, a dado momento, um ponto qualitativo em que mesmo que a a\u00e7\u00e3o humana cesse a degrada\u00e7\u00e3o vai continuar, pois j\u00e1 foram engendradas for\u00e7as incontrol\u00e1veis nesse sentido, independentes da a\u00e7\u00e3o humana. Por exemplo, o IPCC<a class=\"sdfootnoteanc\" name=\"sdfootnote2anc\" href=\"#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a> calcula que o ponto de inflex\u00e3o da crise clim\u00e1tica global se dar\u00e1 quando (ou se) atingirmos o aumento global da temperatura m\u00e9dia de 1,5\u00ba face ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial. A partir desse momento, mesmo que cesse toda a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis, o efeito de estufa e o aquecimento global j\u00e1 desataram efeitos como o degelo dos polos, a liberta\u00e7\u00e3o do <em>permafrost<\/em><a class=\"sdfootnoteanc\" name=\"sdfootnote3anc\" href=\"#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a> ou a perda da biodiversidade que ir\u00e3o, mesmo sem ajuda humana, continuar a aquecer o planeta por milh\u00f5es de anos com efeitos imprevis\u00edveis. A isto chamamos mecanismos de \u201cfeedback positivo\u201d ou seja, mecanismos em que o aquecimento gera mais aquecimento. Ou no caso da Amaz\u00f3nia, em que desfloresta\u00e7\u00e3o gera mais desfloresta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a Amaz\u00f3nia tem um ponto de inflex\u00e3o, a partir do qual a desfloresta\u00e7\u00e3o e a seca tornam a floresta pasto para inc\u00eandios, levando ao colapso da floresta e a sua transforma\u00e7\u00e3o em uma savana. Segundo Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, a maior floresta do mundo aproximou-se perigosamente desse momento \u2013 estamos precisamente a viv\u00ea-lo, alertam os cientistas. Baseados num estudo recente da NASA, Nobre e Lovejoy afirmam que estamos a ver os primeiros mecanismos de \u201cfeedback positivo\u201d \u2013 \u201co que previmos est\u00e1 agora a acontecer na vida real. N\u00e3o se trata mais de uma previs\u00e3o te\u00f3rica sobre o futuro\u201d. H\u00e1 cerca de um ano, os dois investigadores, publicaram uma an\u00e1lise que atualizava o chamado \u201cponto de inflex\u00e3o\u201d ou de \u201cn\u00e3o retorno\u201d do colapso amaz\u00f3nico. Se at\u00e9 2007 os investigadores pensavam que seria necess\u00e1rio um desmatamento de 40% da Amaz\u00f3nia para atingir esse patamar, agora atualizaram esse valor para 20-25%. Hoje o desmatamento atinge j\u00e1 os 17%, 20% se tivermos em conta apenas a Amaz\u00f3nia brasileira.<\/p>\n<p>O que se est\u00e1 a passar \u00e9 que, com as sucessivas secas, as esp\u00e9cies de plantas adaptadas a climas h\u00famidos est\u00e3o a desaparecer rapidamente e, em seu lugar, est\u00e3o a proliferar aquelas mais adaptadas a climas secos. A forma como este ano os fogos florestais proliferaram tem certamente a ver com uma a\u00e7\u00e3o conjugada do agroneg\u00f3cio, apoiada pelo Governo Bolsonaro. Mas a forma como alastraram \u00e9, em grande medida, explicada por esta mudan\u00e7a na natureza da Amaz\u00f3nia. Segundo Carlos Nobre, a Amaz\u00f3nia se n\u00e3o for perturbada \u00e9 \u201cquase impenetr\u00e1vel\u201d pelos fogos. O aumento dos fogos, por sua vez, acelera a substitui\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies h\u00famidas pelas secas, aumentando assim o risco de novos inc\u00eandios. Trata-se assim de um efeito cumulativo e que se acelera, levando rapidamente a maior floresta tropical do planeta \u00e0 beira do ponto em que n\u00e3o h\u00e1 retorno. S\u00f3 o colapso.<\/p>\n<p><strong>Derrotar a pol\u00edtica de Bolsonaro para salvar a Amaz\u00f3nia<\/strong><\/p>\n<p>Um eventual colapso da grande floresta h\u00famida acarretaria resultados catastr\u00f3ficos para o Brasil, a Am\u00e9rica Latina e o mundo: \u201cum s\u00fabito colapso na biodiversidade, a libera\u00e7\u00e3o de grandes quantidades de carbono na atmosfera devido \u00e0 morte das \u00e1rvores (tornando o objectivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5\u00ba imposs\u00edvel) e uma dr\u00e1stica viragem regional no ciclo natural da \u00e1gua &#8211; provavelmente impactando fortemente os aqu\u00edferos brasileiros, o agroneg\u00f3cio e o suprimento de \u00e1gua das principais \u00e1reas urbanas\u201d. A n\u00edvel continental, os resultados, principalmente no acesso \u00e0 \u00e1gua, seriam semelhantes, dado que grande parte dos aqu\u00edferos da Am\u00e9rica do Sul se origina nos Andes, em grande medida alimentados pela humidade que evapora da Amaz\u00f3nia. \u00c0 escala global, a liberta\u00e7\u00e3o de di\u00f3xido de carbono que o colapso amaz\u00f3nico acarreta, somado \u00e0 perda de mais uma enorme \u00e1rea florestal essencial para mitigar o efeito de estufa, significaria um grande passo em frente em dire\u00e7\u00e3o ao precip\u00edcio clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Temos, por isso, muito pouco tempo. Mas ainda temos tempo. O colapso amaz\u00f3nico e o caos clim\u00e1tico global n\u00e3o s\u00e3o inevit\u00e1veis. Podem e devem ser travados pela ac\u00e7\u00e3o colectiva e revolucion\u00e1ria dos povos do mundo \u2013 sobretudo dos mais explorados e oprimidos, que s\u00e3o aqueles que mais est\u00e3o a sofrer com a crise do clima. O perigo maior tem nome e sobrenome e pode e deve ser derrotado. Chama-se Jair Bolsonaro. Ele \u00e9 a prova de que o negaciosmo clim\u00e1tico dos neofascistas \u00e9 uma amea\u00e7a enorme para o futuro da humanidade.<\/p>\n<p>\u201cBolsonaro n\u00e3o est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o a isto e est\u00e1 completamente alinhado com os negacionistas das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas&#8221;, diz Monica deBolle, economista do Instituto Peterson de Economia Internacional. Segundo o Observat\u00f3rio do Clima, a taxa de desmatamento em 2018-19 foi a maior da d\u00e9cada, em particular nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, onde aumento foi de 65%. O ataque aos povos ind\u00edgenas e os cortes no Or\u00e7amento do IBAMA, organismo respons\u00e1vel por monitorizar e combater os fogos florestais, n\u00e3o s\u00e3o apenas uma pol\u00edtica que defende os interesses dos madeireiros e do agroneg\u00f3cio em detrimento dos povos ind\u00edgenas. \u00c9 um crime contra a humanidade e o planeta que recair\u00e1 em primeiro ligar sobre os mais pobres, os trabalhadores e agricultores pobres.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es. O respeito e alargamento da demarca\u00e7\u00e3o de terras, assim como o refor\u00e7o do IBAMA e dos meios de monitoriza\u00e7\u00e3o e combate aos fogos s\u00e3o essenciais. Nobre e Lovejoy prop\u00f5em solu\u00e7\u00f5es: \u201cA boa not\u00edcia \u00e9 que podemos recuperar uma margem de seguran\u00e7a atrav\u00e9s de reflorestamento imediato, ativo e ambicioso, particularmente nas regi\u00f5es desmatadas, que s\u00e3o grandes fazendas de gado e \u00e1reas de cultivo abandonadas, cerca de 23% do territ\u00f3rio florestal destru\u00eddo\u201d. Eles acrescentam que \u201co \u00fanico caminho sensato a seguir \u00e9 lan\u00e7ar um grande projeto de reflorestamento, especialmente no Sul e Leste da Amaz\u00f4nia, ac\u00e7\u00f5es que poderiam fazer parte do Brasil implementando seus compromissos sob o Acordo de Paris\u201d. Ainda que o Governo brasileiro seja essencial para isso, cabe aos pa\u00edses desenvolvidos, cujas grandes multinacionais e bancos financiaram os desmatamento da Amaz\u00f3nia, apoiar estas medidas com financiamento e tecnologia.<\/p>\n<p>Por todo o mundo, jovens, trabalhadores e povos ind\u00edgenas t\u00eam sa\u00eddo \u00e0 rua, aos milh\u00f5es para exigir aos Governos que tomem medidas para reverter o aquecimento global. A luta por justi\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 luta de classes: uma luta dos trabalhadores e dos povos contra as grandes empresas que rapinam o planeta, os governos que as protegem e os bancos que as financiam. O neofascista Jair Bolsonaro est\u00e1 evidentemente nesse rol, num dos lugares cimeiros. Esta \u00e9 s\u00f3 mais uma raz\u00e3o \u2013 mas n\u00e3o uma raz\u00e3o qualquer \u2013 para unir os trabalhadores e a esquerda para derrotar este Governo o quanto antes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Manuel Afonso<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a class=\"sdfootnotesym\" name=\"sdfootnote1sym\" href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a><sup>\u0002<\/sup> <a href=\"https:\/\/advances.sciencemag.org\/content\/5\/12\/eaba2949\">https:\/\/advances.sciencemag.org\/content\/5\/12\/eaba2949<\/a>;     As principais informa\u00e7\u00f5es e as cita\u00e7\u00f5es que usamos t\u00eam este     artigo como fonte, complementadas pelo seguinte artigo, que fala da     mesma investiga\u00e7\u00e3o de Carlos Nobre e Thomas Lovejoy:     <a href=\"https:\/\/news.mongabay.com\/2019\/12\/the-tipping-point-is-here-it-is-now-top-amazon-scientists-warn\/\">https:\/\/news.mongabay.com\/2019\/12\/the-tipping-point-is-here-it-is-now-top-amazon-scientists-warn\/<\/a><\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em><\/div>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p style=\"margin-bottom: 0cm; line-height: 100%; page-break-before: always;\"><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a class=\"sdfootnotesym\" name=\"sdfootnote2sym\" href=\"#sdfootnote2anc\">2<\/a><sup>\u0002<\/sup> O IPCC \u00e9 o Painel Intergovernamental para as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas,     ligado \u00e0 ONU;<\/span><\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<div id=\"sdfootnote3\"><em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a class=\"sdfootnotesym\" name=\"sdfootnote3sym\" href=\"#sdfootnote3anc\">3<\/a><sup>\u0002<\/sup> O &nbsp;o&nbsp;permafrost \u00e9 uma camada de mat\u00e9ria org\u00e2nica coberta pelos gelos polares,     rica em metano. Exposto, o&nbsp;permafrost pode     rapidamente libertar grandes quantidades de metano, um g\u00e1s com 20     vezes mais efeito estufa que o di\u00f3xido de carbono.<\/span><\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num artigo1 muito recente, os cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy alertam para o perigo iminente do colapso da floresta Amaz\u00f3nia e a sua r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o numa savana seca. 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