{"id":3270,"date":"2019-11-26T17:58:08","date_gmt":"2019-11-26T16:58:08","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/11\/26\/capitalismo-plastificou-mundo-hora-inverter-capitalismo\/"},"modified":"2019-11-26T17:58:08","modified_gmt":"2019-11-26T16:58:08","slug":"capitalismo-plastificou-mundo-hora-inverter-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/11\/26\/capitalismo-plastificou-mundo-hora-inverter-capitalismo\/","title":{"rendered":"O capitalismo plastificou o mundo. \u00c9 hora de inverter o capitalismo!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"clear: both;\">Os primeiros pl\u00e1sticos foram feitos a partir de celulose e surgiram como alternativa a objectos fabri\u00adcados em marfim, um material que se foi tornando cada vez mais escasso e custoso.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Ap\u00f3s a sua descoberta, no s\u00e9c XIX, o pl\u00e1stico come\u00e7ou, em in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a ser fabricado a partir do petr\u00f3leo, mais propriamente, atrav\u00e9s dos gases emitidos por refinarias que serviriam de base \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos pol\u00edmeros que hoje conhecemos.<\/p>\n<p>Hoje, vivemos mergulhados em pl\u00e1stico. Vers\u00e1til, male\u00e1vel, de baixo custo e facilmente descart\u00e1vel, o pl\u00e1stico reina no sistema capitalista em que vivemos. Dos 2 milh\u00f5es de toneladas de pl\u00e1stico produzido em 1950, pass\u00e1mos a mais de 400 milh\u00f5es anuais, entre 2014 e 2017. A produ\u00e7\u00e3o total de pl\u00e1stico desde 1950 ascende a mais de 8 mil milh\u00f5es de toneladas. Dessas, 5,8 mil milh\u00f5es foram utilizadas uma \u00fanica vez. Cerca de 91% do pl\u00e1stico produzido n\u00e3o foi reciclado, pelo que mais de 6 mil milh\u00f5es de toneladas de pl\u00e1stico est\u00e3o, hoje, entranhados no meio ambiente, sob a forma de detritos.<\/p>\n<p>Podemos encontrar cerca de 80% do pl\u00e1stico produzido na natureza. Muito dele sendo soprado, inexoravelmente, para os oceanos: 8 milh\u00f5es de toneladas todos os anos. Metade do pl\u00e1stico produzido anualmente ser\u00e1 usado uma \u00fanica vez e, depois, descartado, sendo que a vasta maioria do pl\u00e1stico de uso \u00fanico corresponde a embalagens e sacos pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>A cada minuto que passa, quase 2 milh\u00f5es de sacos pl\u00e1sticos de uso \u00fanico s\u00e3o distribu\u00eddos mundialmente, dos quais 8 milh\u00f5es de toneladas v\u00e3o parar aos oceanos. A cada minuto, um milh\u00e3o de garrafas pl\u00e1sticas s\u00e3o compradas, em todo o mundo, e menos de metade acaba reciclada. Produtos embalados das marcas Nestl\u00e9, Coca-Cola, Pepsi-Co, Procter &amp; Gamble e Unilever s\u00e3o os mais frequentes nas embalagens abandonadas na natureza.<\/p>\n<p>Estamos asfixiados em pl\u00e1stico. Ele est\u00e1 entra\u00adnhado em n\u00f3s e n\u00e3o apenas nos nossos h\u00e1bitos quotidianos, no nosso sistema econ\u00f3mico, na nossa cultura. Est\u00e1 igualmente entranhado nos nossos corpos. Um dos maiores malef\u00edcios do pl\u00e1stico adv\u00e9m dos qu\u00edmicos cancer\u00edgenos usados no seu fa\u00adbrico. Estes tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis por defeitos e doen\u00e7as cong\u00e9nitas, s\u00e3o disruptores end\u00f3crinos, afectam os nossos sistemas imunit\u00e1rios. Outros riscos para a sa\u00fade incluem doen\u00e7as cardiovasculares, obesidade, puberdade precoce, atrasos cognitivos e de desenvolvimento f\u00edsico, diabetes, perturba\u00e7\u00f5es, disfun\u00e7\u00e3o sexual, etc.<\/p>\n<p>O pl\u00e1stico n\u00e3o \u00e9 biodegrad\u00e1vel. A sua ainda recente prolifera\u00e7\u00e3o, no contexto da Hist\u00f3ria Humana, deixa d\u00favidas sobre a sua durabilidade, na natureza. Se h\u00e1 quem fale em cerca de 500 anos de decomposi\u00e7\u00e3o, outros cientistas afirmam que o pl\u00e1stico \u00e9 eterno. S\u00f3 recentemente nos apercebemos da exist\u00eancia de part\u00edculas de micropl\u00e1stico. Estas part\u00edculas, de tamanho inferior a 5 mil\u00edme\u00adtros, s\u00e3o o resultado da fragmenta\u00e7\u00e3o dos detritos de pl\u00e1stico, n\u00e3o s\u00f3 pela ac\u00e7\u00e3o do sol e das v\u00e1rias formas de atrito, mas sobretudo pela sua tritura\u00e7\u00e3o pelo zoopl\u00e2ncton, pepinos do mar e Anf\u00edpodes, crust\u00e1ceos de tamanho microsc\u00f3pico que procurando alimentar-se do limo microbiano que se acumula na superf\u00edcie do pl\u00e1stico, acabam por devorar o pl\u00e1stico, triturando-o, sem, no entanto, o digerir. Desfeito em milh\u00f5es de min\u00fasculos peda\u00e7os de pl\u00e1stico, este acaba por ser defecado ou cuspido.<\/p>\n<p>Encontraremos micropl\u00e1sticos em todas as profundidades dos v\u00e1rios oceanos, assim como no tracto gastrointestinal de toda a fauna mar\u00edtima global. Toda a cadeia alimentar, em que n\u00f3s nos inclu\u00edmos, acaba por ser envenenada por este cocktail qu\u00edmico.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m produzimos os nossos pr\u00f3prios micropl\u00e1sticos propositadamente. Na ind\u00fastria cosm\u00e9tica, por exemplo, exfoliantes naturais s\u00e3o, muitas vezes, substitu\u00eddos por micro-esferas de polietileno ou nylon. Mesmo que as centrais de tratamento de \u00e1guas residuais tenham, hoje, tecnologia suficiente para tratar este tipo de detritos, os 5% que acabam por escapar ainda representam 8 mil milh\u00f5es de part\u00edculas. As fibras sint\u00e9ticas de que s\u00e3o feitas as nossas roupas, os granulados de pl\u00e1sticos e material de pescas, entre o qual, as redes de nylon, tamb\u00e9m contribuem para a polui\u00e7\u00e3o por micropl\u00e1sticos. Hoje calculam-se que no oceano possam existir mais de 236.000 toneladas de detritos micropl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Embora a investiga\u00e7\u00e3o seja incipiente, sabemos que estas part\u00edculas est\u00e3o presentes na \u00e1gua, no solo e no ar que respiramos.Para al\u00e9m do envenenamento da vida animal pela polui\u00e7\u00e3o por pl\u00e1sticos, o sistema capitalista, a sua forma de produ\u00e7\u00e3o e consumo, criou outras armadilhas nos v\u00e1rios ecossistemas globais. Todos os anos s\u00e3o abandonadas mais de 640.000 toneladas de equipamento de pesca que acaba por asfixiar baleias, focas, tartarugas, tubar\u00f5es e outras formas de vida animal marinha.<\/p>\n<p>Palhinhas introduzidas nos orif\u00edcios de animais, estrangula\u00e7\u00e3o com an\u00e9is pl\u00e1sticos de bebidas enlatadas, est\u00f4magos que rebentam com detritos, intestinos perfurados, falsa saciedade com pl\u00e1sticos confundidos com alimentos, fome cr\u00f3nica e morte por inani\u00e7\u00e3o, peixes que consomem inadvertidamente pl\u00e1stico por este estar coberto das algas que constituem a sua dieta, s\u00e3o algumas das formas como o pl\u00e1stico mata animais marinhos.<\/p>\n<p>Foram registadas mais de 700 esp\u00e9cies de ani\u00admais feridas ou mortas por detritos de pl\u00e1stico, incluindo as sete esp\u00e9cies de tartarugas marinhas, mais de metade de todos os mam\u00edferos marinhos e 33% das aves aqu\u00e1ticas. Mais de 10% de todas as esp\u00e9cies mortas, por pl\u00e1stico, est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. Mais de 66% de todo o peixe no oceano j\u00e1 ingeriu pl\u00e1stico e todos os anos, pelo menos, mais de cem mil animais s\u00e3o v\u00edtimas da polui\u00e7\u00e3o por detritos de pl\u00e1stico. Mais de 80% de todas as esp\u00e9cies de aves aqu\u00e1ticas j\u00e1 ingeriram pl\u00e1sticos. Esp\u00e9cies de corais morrem com os seus tractos digestivos bloqueados por pl\u00e1stico ou asfixiados e privados de luz solar por sacos de pl\u00e1sticos em que ficam cobertos.<\/p>\n<p>Lembremo-nos que o pl\u00e1stico pode ser eterno e um mesmo fragmento poder\u00e1 matar incont\u00e1veis animais por incont\u00e1veis anos. E n\u00e3o fica pelo ambiente aqu\u00e1tico, com a expans\u00e3o de aglomerados urbanos e a sua press\u00e3o sobre ecossistemas em todo o globo, muito do pl\u00e1stico que abandonamos nas ruas, em lixeiras ou em rios, vitimar\u00e1 uma infinidade de esp\u00e9cies, hoje for\u00e7adas a partilhar connosco o espa\u00e7o que outrora fora o seu habitat.<\/p>\n<p>Toda esta situa\u00e7\u00e3o exige medidas e solu\u00e7\u00f5es que, al\u00e9m de urgentes, precisam ser globais. Isto \u00e9, n\u00e3o basta pensar um dia de cada vez&#8230;palhinha a palhinha.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, alguns pa\u00edses, individualmente, t\u00eam tomado medidas contra a polui\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica, mas essas medidas pecam, em geral, por serem insuficientes. A proibi\u00e7\u00e3o do uso de pl\u00e1stico descart\u00e1vel em eventos em Munique ou a proibi\u00e7\u00e3o de lou\u00e7a pl\u00e1stica em Fran\u00e7a, s\u00e3o disso exemplos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio sistema econ\u00f3mico boicota tais medidas. Na \u00cdndia, onde foram tomadas algumas medidas para reduzir o uso de pl\u00e1sticos, no seu Estado de Maharashtra, essas medidas acabaram por ser aligeiradas ap\u00f3s o governo local sofrer press\u00e3o por parte das empresas industriais que t\u00eam a sua actividade extremamente ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Perante esta cat\u00e1strofe pl\u00e1stica, qual a solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Embora o trabalho individual tenha a sua import\u00e2ncia, quanto mais n\u00e3o seja na cria\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia generalizada do problema, \u00e9 um pequeno passo para ajudar a melhorar a situa\u00e7\u00e3o, perante a gravidade do problema.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o responsabilizarmos os diversos governos, de todos os pa\u00edses do mundo, enquanto n\u00e3o combatermos o lobby das empresas produtoras e consumidoras de pl\u00e1sticos, obrigando-as a utilizarem outros materiais, enquanto n\u00e3o alterarmos os h\u00e1bitos de consumo da sociedade capitalista em que vivemos, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sofrer\u00e1 altera\u00e7\u00f5es. Apenas se agravar\u00e1, envenenando o ambiente e as esp\u00e9cies que habitam este planeta.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 longo e sinuoso e passa acima de tudo por&nbsp; nos mobilizarmos nas ruas e fazer exi\u00adg\u00eancias aos diversos governos e empresas, exi\u00adg\u00eancias essas que passam ou podem passar por solu\u00e7\u00f5es tais como:<\/p>\n<p>&#8211; Desinvestimento em mat\u00e9rias-primas f\u00f3sseis;<\/p>\n<p>&#8211; Financiamento da investiga\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es alternativas ao pl\u00e1stico e de tratamento do pl\u00e1stico existente;<\/p>\n<p>&#8211; Institui\u00e7\u00e3o do sistema de tara nos produtos pl\u00e1sticos (com custo da tara para quem produz);<\/p>\n<p>&#8211; Imposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 industria do pl\u00e1stico, o uso de materiais alternativos, biodegrad\u00e1veis e recicl\u00e1veis, nas embalagens que hoje utilizamos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Gon\u00e7alo Fonseca e Rafael Santos<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Publicado na revista Ruptura n\u00ba153 de Outubro, Novembro e Dezembro 2018<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os primeiros pl\u00e1sticos foram feitos a partir de celulose e surgiram como alternativa a objectos fabri\u00adcados em marfim, um material que se foi tornando cada vez mais escasso e custoso.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3269,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[105],"tags":[116,214,114,115,1747,624,1746,1127,117],"class_list":["post-3270","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ambiente","tag-alternativa","tag-ambiente","tag-mas","tag-movimento","tag-oceanos","tag-petroleo","tag-plastico","tag-poluicao","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/mandy_cinza_plastico.png?fit=630%2C426","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3270","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3270"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3270\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3269"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3270"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}