{"id":3253,"date":"2019-11-13T19:39:18","date_gmt":"2019-11-13T18:39:18","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/11\/13\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/"},"modified":"2019-11-13T19:39:18","modified_gmt":"2019-11-13T18:39:18","slug":"breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/11\/13\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/","title":{"rendered":"Breves notas sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica boliviana"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p style=\"clear: both;\">A amea\u00e7a golpista na Bol\u00edvia, a extrema direita e o governo Evo Morales<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"clear: both;\">O que de fato est\u00e1 ocorrendo na  Bol\u00edvia? Por que as interpreta\u00e7\u00f5es dos recentes acontecimentos t\u00eam  gerado tantas confus\u00f5es e controv\u00e9rsias entre os setores progressistas e  a esquerda latino-americana? O que est\u00e1 por tr\u00e1s destas mobiliza\u00e7\u00f5es  pela derrubada de Evo Morales? Se tratam de mobiliza\u00e7\u00f5es progressistas  em defesa da \u201cdemocracia e contra a fraude eleitoral\u201d, como anunciam os  grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o internacional? Qual o car\u00e1ter e a natureza  de classe destas mobiliza\u00e7\u00f5es? Quais indiv\u00edduos, grupos, movimentos e  partidos est\u00e3o impulsionando e financiando estas mobiliza\u00e7\u00f5es? O que  levou uma parcela importante da juventude e das classes m\u00e9dias  bolivianas a unir-se a um movimento claramente reacion\u00e1rio e dirigido  pela extrema direita? E o governo Evo Morales, pode ser definido como  uma \u201c<strong>narco ditadura castro chavista<\/strong>\u201d como afirmam Carlos Sanchez Berzain<a name=\"_ftnref1\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn1\">[1]<\/a> e Branko Marinkovic?<a name=\"_ftnref2\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Para  responder algumas destas quest\u00f5es e d\u00favidas acerca do recente processo  pol\u00edtico boliviano e o impasse aberto com o resultado das elei\u00e7\u00f5es,  precisamos retomar o debate program\u00e1tico sobre o car\u00e1ter e a natureza de  classe do Governo Evo Morales, o papel das For\u00e7as Armadas e, por fim, a  estrat\u00e9gia da extrema direita boliviana e latino-americana para  derrubar Evo Morales.<\/p>\n<h3><strong>Para onde vai a Bol\u00edvia?<\/strong><strong> <\/strong><\/h3>\n<p>Nos  \u00faltimos 14 anos, sob a gest\u00e3o de Evo Morales, a Bol\u00edvia passou de uma  economia arruinada pelas pol\u00edticas neoliberais, a um dos pa\u00edses  latino-americanos mais resilientes aos impactos da crise econ\u00f4mica  mundial. Desde 2008, o pa\u00eds alcan\u00e7ou um crescimento m\u00e9dio de 5% ao ano.  Em informe recente, a CEPAL, anunciou que a Bolivia vai liderar o  crescimento econ\u00f4mico na Am\u00e9rica do Sul em 2019, com 4%, a mesma  proje\u00e7\u00e3o apontada pelo FMI e o Banco Mundial. A infla\u00e7\u00e3o em 2018 chegou a  1,5%, uma das menores da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O governo Evo Morales  adotou uma pol\u00edtica econ\u00f4mica, marcada pela nacionaliza\u00e7\u00e3o de setores  estrat\u00e9gicos (g\u00e1s, petr\u00f3leo e telecomunica\u00e7\u00f5es), a desdolariza\u00e7\u00e3o da  economia, um forte investimento estatal em infraestrutura e a  implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais que diminu\u00edram significativamente a  extrema pobreza, o desemprego e a mortalidade infantil. &nbsp;A expans\u00e3o do  mercado interno e o aumento do poder de compra das fam\u00edlias mais pobres e  da \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d gerou uma sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar e satisfa\u00e7\u00e3o da  popula\u00e7\u00e3o, in\u00e9dita na hist\u00f3ria recente da Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio  econ\u00f4mico parecia contrabalan\u00e7ar o crescente desgaste pol\u00edtico que se  gestava desde 2010 (Gasolinazo, a forte repress\u00e3o na Marcha pelo TIPNIS e  o resultado do plebiscito onde a maioria da popula\u00e7\u00e3o votou contra  postula\u00e7\u00e3o de Evo Morales para mais um mandato presidencial). Estas  contradi\u00e7\u00f5es acumuladas vieram \u00e0 tona durante as elei\u00e7\u00f5es presidenciais  de 20 de outubro de 2019 e destaparam uma crise pol\u00edtica sem  precedentes.<\/p>\n<p>A Bolivia volta a ser um palco fundamental da  polariza\u00e7\u00e3o social e da luta classes na Am\u00e9rica Latina. Diferente de  setembro 2008, quando as for\u00e7as progressistas e os movimentos sociais  derrotaram nas ruas e nas elei\u00e7\u00f5es a ofensiva da extrema direita, desta  vez, o cen\u00e1rio n\u00e3o parece t\u00e3o promissor. Lamentavelmente, o golpe em  curso contra Evo Morales conta com o apoio de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o e  da juventude nas grandes cidades.<\/p>\n<p>No entanto, a velocidade e o  desenlace dos acontecimentos exigem uma pol\u00edtica justa frente \u00e0s  mobiliza\u00e7\u00f5es e a ofensiva golpista. Este \u00e9 um debate fundamental para a  esquerda latino-americana e os movimentos sociais, sobretudo em um  contexto de retomada das lutas populares contra o neoliberalismo e seus  operadores pol\u00edticos no Equador, Chile, Argentina e Haiti.<\/p>\n<h3><strong>A vit\u00f3ria eleitoral e o impasse pol\u00edtico<\/strong><\/h3>\n<p>A  relativa \u201cestabilidade pol\u00edtica\u201d e o \u201cpacto social\u201d alcan\u00e7ados em  outubro de 2008, quando o governo e a oposi\u00e7\u00e3o de direita negociaram  mudan\u00e7as significativas no texto constru\u00eddo pela Assembleia Constituinte<a name=\"_ftnref3\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn3\">[3]<\/a>,  romperam-se. O fantasma da instabilidade, da crise de governabilidade e  da guerra civil voltam a assombrar o pa\u00eds. Utilizando a express\u00e3o de  Antonio Gramsci, a Bolivia volta a presenciar uma esp\u00e9cie de empate  catastr\u00f3fico<a name=\"_ftnref4\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>O  resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais revelou uma profunda divis\u00e3o e  polariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e da sociedade boliviana. A vit\u00f3ria de Evo Morales  no primeiro turno com 47,08%<a name=\"_ftnref5\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn5\">[5]<\/a>,  vem sendo questionada nas ruas por distintos setores sociais. Pela  primeira vez, desde que Evo Morales foi eleito presidente em 2005, a  oposi\u00e7\u00e3o de direita conseguiu formar um amplo e heterog\u00eaneo bloco de  for\u00e7as pol\u00edticas com dimens\u00e3o nacional, capaz de disputar nas ruas o  destino do pa\u00eds e fraturar a hegemonia pol\u00edtica e eleitoral de Evo  Morales e do MAS.<\/p>\n<h3><strong>O car\u00e1ter e a natureza de classe das mobiliza\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>O  car\u00e1ter destas manifesta\u00e7\u00f5es tem provocado in\u00fameras controv\u00e9rsias e  debates. Muitos setores honestos da esquerda boliviana, ativistas e  intelectuais progressistas, tem ido \u00e0s ruas, de m\u00e3os dadas com antigos  representantes da direita e extrema direita boliviana para exigir novas  elei\u00e7\u00f5es e a \u201cren\u00fancia de Evo\u201d.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es que sacudiram o  pa\u00eds logo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es apresentam caracter\u00edsticas in\u00e9ditas, se  analisarmos a hist\u00f3ria recente da Bolivia. &nbsp;Um amplo leque de alian\u00e7as  que re\u00fane jovens universit\u00e1rios, classes medias urbanas, empres\u00e1rios e  comit\u00eas c\u00edvicos. As mobiliza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m contam com a presen\u00e7a de  pequenos grupos de intelectuais progressistas (outrora apoiadores do  governo Evo Morales, como Pablo S\u00f3lon, Waldo Albaracin, Alejandro  Almaraz, entre outros.) e partidos de extrema esquerda (como o POR).  Todos estes grupos e setores foram as ruas sob a bandeira de defesa da  \u201cdemocracia\u201d e do \u201cvoto\u201d contra as supostas \u201cirregularidades\u201d e  \u201cfraudes\u201d cometidas no processo eleitoral. At\u00e9 mesmo a velha direita  racista e olig\u00e1rquica de Santa Cruz abra\u00e7ou a defesa da \u201cdemocracia\u201d e  dos \u201cdireitos humanos\u201d contra a suposta \u201c<em>narco ditadura castro chavista<\/em>\u201d de Evo Morales.<\/p>\n<p>A  justa insatisfa\u00e7\u00e3o e desconfian\u00e7a da juventude e das classes m\u00e9dias  bolivianas com o governo teve um salto qualitativo quando o presidente  Evo Morales desconheceu os resultados do referendo de 21 de fevereiro de  2016 que proibia sua candidatura para mais uma reelei\u00e7\u00e3o e conseguiu no  Tribunal de Justi\u00e7a o direito a candidatar-se novamente nas elei\u00e7\u00f5es de  20 de outubro de 2019. O desgaste e a insatisfa\u00e7\u00e3o, sobretudo nos  grandes centros urbanos foi capitalizado pela direita e a extrema  direita que retomou a iniciativa das ruas e mobiliza\u00e7\u00f5es, perdida desde  outubro de 2008. Nenhuma vit\u00f3ria eleitoral de Evo Morales no primeiro  turno seria aceita e reconhecida.<\/p>\n<h3><strong>A consolida\u00e7\u00e3o da via golpista para derrubar Evo Morales<\/strong><\/h3>\n<p>Nos  dias que antecederam a elei\u00e7\u00e3o, gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es e atos foram  realizados, denunciando a suposta fraude eleitoral, supostamente  preparada pelo governo e o Tribunal Eleitoral para evitar o segundo  turno.&nbsp; A suspens\u00e3o da transmiss\u00e3o dos resultados eleitorais provis\u00f3rios  (TREP) foi a justificativa perfeita para a narrativa de fraude  eleitoral constru\u00edda pela direita tradicional e grupos de extrema  direita. O processo eleitoral que havia transcorrido no dia 20 de  outubro de maneira tranquila e pac\u00edfica, terminou em violentos  enfrentamento e queima dos tribunais eleitorais por apoiadores de Carlos  Mesa, o segundo colocado com 36,<\/p>\n<p>A viol\u00eancia toma conta das ruas.  Os enfrentamentos entre apoiadores e opositores \u00e0 Evo Morales j\u00e1  provocou centenas de feridos e tr\u00eas mortos. O pa\u00eds est\u00e1 \u00e0 beira da  guerra civil. A oposi\u00e7\u00e3o convocou as for\u00e7as armadas e a pol\u00edcia para  somarem-se \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es pela derrubada de Evo Morales. J\u00e1 foram  identificados motins policiais nos departamentos de Santa Cruz,  Chuquisaca e Cochabamba. Um processo que se assemelha \u00e0 estrat\u00e9gia do  imperialismo norte americano na Venezuela contra o governo de Nicolas  Maduro.<strong> <\/strong><\/p>\n<h3><strong>Sobre os limites e contradi\u00e7\u00f5es dos governos Evo Morales<\/strong><strong> <\/strong><\/h3>\n<p>O  triunfo eleitoral de Evo Morales, em dezembro de 2005, foi a m\u00e1xima  express\u00e3o da emerg\u00eancia de novos sujeitos pol\u00edticos e sociais e do  crescente processo de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as dos setores populares,  ind\u00edgenas e camponeses que se desenvolvia na Bolivia, desde o in\u00edcio dos  anos 90. Nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de dezembro de 2005, a chapa  presidencial Evo Morales\/ \u00c1lvaro Garcia Linera obteve a ampla maioria  dos votos, consolidando pela pri\u00admeira vez na hist\u00f3ria do pa\u00eds a chegada  de uma lideran\u00e7a ind\u00edgena e camponesa \u00e0 presid\u00eancia da Bol\u00edvia. A  elei\u00e7\u00e3o de Evo Morales, com 53,74% dos votos \u2013 a maior vota\u00e7\u00e3o de um  presidente desde a Revolu\u00e7\u00e3o Nacional de 1952 \u2013 ocorreu ap\u00f3s um ciclo de  rebeli\u00f5es populares, que marcaram a hist\u00f3ria recente da Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>A  vit\u00f3ria eleitoral de Evo Morales representou uma derrota dos partidos  tradi\u00adcionais que governaram a Bol\u00edvia desde o fim da ditadura militar,  em 1982, marcando um fim do sistema pol\u00edtico, conhecido como \u201cDemocracia  Pactuada\u201d, no qual os quatro tradicionais partidos da direita boliviana  (NFR, MNR, ADN e MIR) alternavam-se no poder, por meio de esp\u00farios  acordos no congresso. A vit\u00f3ria do MAS foi identificada pela ampla  maioria da popula\u00e7\u00e3o boliviana como a chegada ao poder de um aut\u00eantico  representante dos povos ind\u00edgenas e da popula\u00e7\u00e3o pobre dos grandes  centros urbanos. Ao mesmo tempo, Evo Morales foi reconhecido por amplos  setores da sociedade civil (classe m\u00e9dia e pequenos propriet\u00e1rios) como a  \u00fanica alternativa pol\u00edtica capaz de resolver a crise insti\u00adtucional,  social e econ\u00f4mica que o pa\u00eds atravessava entre os anos 2000 e 2005.<\/p>\n<p>A  elei\u00e7\u00e3o de Evo Morales n\u00e3o foi suficiente para conter a crise pol\u00edtica e  o aumento da polariza\u00e7\u00e3o social. O governo deparou-se com a press\u00e3o das  classes populares (ind\u00edgenas, camponeses e oper\u00e1rios), organizadas em  distintos grupos e movimentos sociais, que haviam sido protagonistas das  rebeli\u00f5es populares de 2000, 2003 e 2005. A principal demanda desses  grupos era a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e a convoca\u00e7\u00e3o de uma  Assembleia Constituinte para refundar o Estado boliviano.<\/p>\n<p>Os  movimentos sociais e sindicais que haviam impulsionado a candi\u00addatura de  Evo Morales n\u00e3o estavam dispostos a esperar pacientemente o  cum\u00adprimento de suas principais reivindica\u00e7\u00f5es. Por outro lado, o novo  governo enfrentou uma forte oposi\u00e7\u00e3o das elites econ\u00f4micas e pol\u00edticas  regionais que governavam as prov\u00edncias mais ricas do pa\u00eds, onde se  encontram as maiores reservas de g\u00e1s e petr\u00f3leo, e importantes setores  vinculados ao agroneg\u00f3cio e \u00e0s grandes propriedades de terra.<\/p>\n<h3><strong> <\/strong><strong>O pacto social e a \u201cModerniza\u00e7\u00e3o\u201d do Estado boliviano<\/strong><\/h3>\n<p>As  classes dominantes, concentradas no Oriente do pa\u00eds, representadas por  fazendeiros e latifundi\u00e1rios, produtores de soja e gado, temiam os  efeitos da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d e do \u201cProceso de Cambio\u201d, dirigidos  pelo presidente Evo Morales e o MAS. A burguesia agroindustrial de Santa  Cruz temia, sobretudo, a possibilidade de uma ampla e profunda reforma  agraria, que reduziria as bases do seu tradicional poder pol\u00edtico e  econ\u00f4mico, baseado no monop\u00f3lio e controle da terra.<\/p>\n<p>Diante do  cen\u00e1rio de polariza\u00e7\u00e3o social e instabilidade pol\u00edtica, o governo buscou  uma sa\u00edda pactuada, apresentando como alternativa uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o  pac\u00edfica\u201d, respeitando a democracia e a propriedade privada. A pol\u00edtica  do governo buscava conciliar os interesses das distintas fra\u00e7\u00f5es das  classes domi\u00adnantes (empres\u00e1rios, latifundi\u00e1rios e o capital financeiro)  com as reivindica\u00e7\u00f5es das classes subalternas (povos ind\u00edgenas,  camponeses e oper\u00e1rios).<\/p>\n<h3><strong>O \u201cNacionalismo Ind\u00edgena\u201d no poder<\/strong><\/h3>\n<p>O  discurso \u201cnacionalista\u201d do MAS, herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica anterior,  sobretudo aquela representada no programa inicial do Movimento  Nacionalista Revolucion\u00e1rio (MNR), apontava a necessidade de \u201c<em>desenvolver o capitalismo<\/em>\u201d, criar uma \u201c<em>burguesia nacional<\/em>\u201d e \u201c<em>industrializar o pa\u00eds<\/em>\u201d,  por meio de um modelo de capitalismo de Estado, desenvolvimentista e  intervencionista, denominado pelo vice presidente, Alvaro Garcia Linera,  como a fase transit\u00f3ria e necess\u00e1ria do Capitalismo Andino-Amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>Do  ponto de vista econ\u00f4mico, o nacionalismo ind\u00edgena representado por Evo  Morales \u00e9, sobretudo, ret\u00f3rico e pragm\u00e1tico. Isso se deve \u00e0 alian\u00e7a  estrat\u00e9gica do governo com as grandes empresas estrangeiras (vinculadas \u00e0  explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e min\u00e9rios) e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o do modelo  extrativista. A vit\u00f3ria eleitoral de Evo Morales provocou, em um  contexto de crise org\u00e2nica (2000-2005), uma profunda transforma\u00e7\u00e3o nas  formas estatais de domina\u00e7\u00e3o e hegemonia pol\u00edtica no pa\u00eds andino.<\/p>\n<h3><strong>O \u201cNovo\u201d Estado Plurinacional<\/strong><strong> <\/strong><\/h3>\n<p>O  aspecto original e singular do processo pol\u00edtico boliviano \u00e9 a  emer\u00adg\u00eancia e incorpora\u00e7\u00e3o no campo pol\u00edtico e institucional, do  elemento \u00e9tnico. Essa particularidade se expressa, ainda que formal e  discursivamente, na inclus\u00e3o e reconhecimento das na\u00e7\u00f5es e povos  ind\u00edgenas no arcabou\u00e7o insti\u00adtucional do novo Estado Plurinacional da  Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>A Assembleia Constituinte, convocada em 2006, foi uma das  principais demandas dos povos ind\u00edgenas e transformou-se no cen\u00e1rio de  disputas, con\u00adflitos e acordos entre o governo e a oposi\u00e7\u00e3o de direita. O  governo Evo Morales amparou-se nos movimentos sociais para aplicar um  conjunto de reformas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e constitucionais sem romper  com o regime de pro\u00adpriedade capitalista.<\/p>\n<p>O novo Estado  Plurinacional boliviano \u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e pol\u00edtica de um  processo de moderniza\u00e7\u00e3o do Estado mediante uma s\u00e9rie de reformas. A  reforma do Estado e do regime pol\u00edtico boliviano teve sua m\u00e1xima  express\u00e3o pol\u00edtica e simb\u00f3lica com a aprova\u00e7\u00e3o da Nova Constitui\u00e7\u00e3o  Pol\u00edtica do Estado, em janeiro de 2009. O referendo para aprova\u00e7\u00e3o da  nova Carta Magma obteve o apoio de 64% da popula\u00e7\u00e3o. O grande respaldo \u00e0  nova CPE, explica-se pela incorpora\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito jur\u00eddico-pol\u00edtico do  Estado boliviano de um conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas e culturais  dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A luta por um Estado Plurinacional na Bol\u00edvia  insere-se em uma pers\u00adpectiva hist\u00f3rica de longa dura\u00e7\u00e3o e resulta de  um processo de acumula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, cultural e simb\u00f3lica dos movimentos  sociais ind\u00edgenas bolivianos (um pa\u00eds multinacional e multi\u00e9tnico, onde  existem aproximadamente 36 na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas (aymaras, qu\u00e9chuas e  guaranis). Segundo dados do Instituto Nacional de Estat\u00edsticas,  aproximada\u00admente 70% da popula\u00e7\u00e3o pertence a algum povo ind\u00edgena. Esses  setores, majorit\u00e1rios na sociedade boliviana, foram, historicamente,  marginalizados e discriminados pela elite local, nacional e  internacional. Com a Nova Consti\u00adtui\u00e7\u00e3o; os povos ind\u00edgenas foram  formalmente incorporados e reconhecidos pelo novo Estado Plurinacional.<\/p>\n<h3><strong>O fim de um ciclo e os limites de uma estrat\u00e9gia reformista<\/strong><\/h3>\n<p>Apesar  da ret\u00f3rica da Plurinacionalidade do Estado, a nova consti\u00adtui\u00e7\u00e3o  legitima a antiga estrutura econ\u00f4mica hegem\u00f4nica, cujo bloco domi\u00adnante  segue representado pelos grandes industriais e latifundi\u00e1rios do Oriente  Boliviano. As empresas privadas, nacionais e transnacionais seguem  controlando \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como a Minera\u00e7\u00e3o e os hidrocarbonetos.  Por outro lado, as ins\u00adtitui\u00e7\u00f5es \u201cplurinacionais\u201d da democracia liberal,  como o parlamento, a justi\u00e7a e as for\u00e7as armadas bolivianas, apesar das  novas simbologias, foram fortalecidas e s\u00e3o hierarquicamente dominantes  em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formas de auto\u00adnomia e autogoverno ind\u00edgena.<\/p>\n<p>O  \u201cnacionalismo ind\u00edgena\u201d, sobretudo, no primeiro mandato, teve um car\u00e1ter  \u201cmoderado e pragm\u00e1tico\u201d como res\u00adposta \u00e0 press\u00e3o popular e dos  movimentos sociais. Durante os 14 anos do governo Evo Morales n\u00e3o houve  uma mudan\u00e7a estrutural do modelo econ\u00f4mico e pol\u00edtico dominante na  Bol\u00edvia. O projeto do MAS aspirava uma reforma do Estado na perspectiva  da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade capitalista \u201cmoderna\u201d. A crise e o perigo  real de golpe promovidos pela extrema direita expressam de maneira  dram\u00e1tica o esgotamento e os limites de uma estrat\u00e9gia reformista e de  concilia\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<h3><strong>Mobiliza\u00e7\u00e3o permanente para derrotar a extrema direita golpista nas ruas<\/strong><\/h3>\n<p>Os  pr\u00f3ximos dias e horas ser\u00e3o decisivos. O governo encontra-se acuado. A  situa\u00e7\u00e3o caminha para um desfecho perigoso. H\u00e1 sintomas de crise e  divis\u00e3o nas For\u00e7as Armadas e na Pol\u00edcia, o que aumenta a possibilidade  real de vit\u00f3ria das for\u00e7as golpistas e a derrubada de Evo Morales. Os  conflitos e enfrentamentos nas principais cidades do pa\u00eds tendem a  agudizar-se nas pr\u00f3ximas horas. O principal representante da extrema  direita e a cara p\u00fablica do golpe, Luis Fernando Camacho<a name=\"_ftnref6\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn6\">[6]<\/a>, se encontra na cidade de La Paz.<\/p>\n<p>Os  momentos decisivos se aproximam e exigem uma resposta r\u00e1pida e  imediata. As tentativas de di\u00e1logo e media\u00e7\u00e3o parecem esgotar-se. N\u00e3o  haver\u00e1 um final feliz, a menos que a ofensiva golpista em curso na  Bolivia seja derrotada nas ruas com a mobiliza\u00e7\u00e3o permanente e a unidade  dos movimentos sociais, dos trabalhadores mineiros, dos povos ind\u00edgenas  e dos camponeses. Est\u00e1 em jogo na Bolivia uma partida importante para o  conjunto da Am\u00e9rica Latina. Nesta luta, temos um lado e precisamos ter  clareza sobre quem s\u00e3o os nossos inimigos imediatos. Somos  intransigentemente contr\u00e1rios \u00e0 derrubada de Evo Morales por uma extrema  direita reacion\u00e1ria e fascista, mesmo que esta, possua apoio de massas e  se esconda atr\u00e1s de um discurso \u201cdemocr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Artigo de <a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Joallan Rocha, Salvador, Brasil no EsquerdaOnline.com.br<\/a><br \/><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Publicado como no original, em portugu\u00e8s do Brasil<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><br \/><\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"_ftn1\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftnref1\">[1]<\/a>.  Foi ministro da Defesa durante o governo de Gonzalo Sanchez de Lozada, e  um dos principais respons\u00e1veis pela repress\u00e3o que matou mais de 80  pessoas durantes as mobiliza\u00e7\u00f5es de outubro de 2003. Atualmente se  encontra exilado nos EUA, onde \u00e9 o diretor executivo do Instituto  Interamericano para Democracia.<\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"_ftn2\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Principal l\u00edder c\u00edvico da extrema direita Boliviana durante os anos de  2005 e 2009. Foi presidente do Comit\u00ea C\u00edvico Pro-Santa Cruz e um dos  principais articuladores da tentativa de golpe contra Evo Morales em  setembro de 2008, al\u00e9m de estimular ataques contra camponeses e  ind\u00edgenas na cidade de Santa Cruz. Atualmente encontra-se exilado no  Brasil. Recentemente participou como convidado da C\u00fapula Conservadora  organizada por Eduardo Bolsonaro.<\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"_ftn3\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftnref3\">[3]<\/a> A exig\u00eancia de uma Assembleia Constituinte foi uma das principais  reivindica\u00e7\u00f5es presentes nas mobiliza\u00e7\u00f5es de 2003 e 2005. Com a chegada  de Evo Morales \u00e0 presid\u00eancia, a Assembleia constituinte foi convocada.  No entanto, foi sistematicamente boicotada pelos partidos tradicionais.  Depois de tr\u00eas anos de impasses e disputas, o novo texto constitucional  foi aprovado atrav\u00e9s de um plebiscito nacional, com o apoio de 64% da  popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"_ftn4\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftnref4\">[4]<\/a> Segundo Garcia Linera, \u201cToda crise estatal, ent\u00e3o, pode ser revers\u00edvel,  ou bem pode continuar. Se a crise continua, a etapa seguinte \u00e9 o empate  catastr\u00f3fico. Lenin falava de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria; Gramsci, ao  seu modo, falou do empate catastr\u00f3fico. Ambos se referem \u00e0 mesma coisa,  mas com linguagens diferentes. O empate catastr\u00f3fico \u00e9 uma etapa da  crise do Estado, se voc\u00eas querem, um segundo momento estrutural que se  caracteriza por tr\u00eas coisas: confronto de dois projetos pol\u00edticos  nacionais de pa\u00eds, dois horizontes de pa\u00eds com capacidade de  mobiliza\u00e7\u00e3o, de atra\u00e7\u00e3o e de sedu\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sociais; confronto no  \u00e2mbito institucional, pode ser no \u00e2mbito parlamentar e tamb\u00e9m no social,  de dois blocos sociais formados com desejo e ambi\u00e7\u00e3o de poder, o bloco  dominante e o social ascendente; e, em terceiro lugar, uma paralisia do  mando estatal e a irresolu\u00e7\u00e3o da paralisia. Este empate pode durar  semanas, meses, anos; mas chega o momento em que tem que ocorrer um  desempate, uma sa\u00edda\u201d.<\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"_ftn5\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftnref5\">[5]<\/a> vencendo em 6 dos oito departamentos, obtendo a maioria absoluta na  camara dos deputados e no senado (O MAS teve 68 deputados e 21 senadores  eleitos)<\/span><\/em><\/p>\n<p> <em><span style=\"font-size: 10pt;\"> <\/span><\/em> <\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a name=\"_ftn6\" href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2019\/11\/11\/breves-notas-sobre-a-situacao-politica-boliviana\/#_ftnref6\">[6]<\/a> Atualmente \u00e9 presidente do Comit\u00ea C\u00edvico de Santa Cruz, a mais  importante organiza\u00e7\u00e3o da extrema direita boliviana. Esta entidade re\u00fane  as principais lideran\u00e7as e grupos empresariais da Bolivia. Seu bra\u00e7o  pol\u00edtico entre os jovens \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o paramilitar e com tra\u00e7os  fascistas, a UJC (Uni\u00e3o Juvenil Crucenista), da qual, Camacho foi vice  presidente entre os anos 2002 e 2004.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A amea\u00e7a golpista na Bol\u00edvia, a extrema direita e o governo Evo Morales<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3252,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[36],"tags":[116,1728,1729,1382,1169,114,115,117],"class_list":["post-3253","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","tag-alternativa","tag-bolivia","tag-evo-morales","tag-extrema-direita","tag-golpe","tag-mas","tag-movimento","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/evomorales_renuncia.jpg?fit=620%2C380","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3253\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3252"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}