{"id":3168,"date":"2019-06-28T19:44:13","date_gmt":"2019-06-28T18:44:13","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/06\/28\/stonewall-50-anos-nos-vamos-vencer\/"},"modified":"2019-06-28T19:44:13","modified_gmt":"2019-06-28T18:44:13","slug":"stonewall-50-anos-nos-vamos-vencer","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/06\/28\/stonewall-50-anos-nos-vamos-vencer\/","title":{"rendered":"Stonewall 50 anos: \u201cN\u00f3s vamos vencer!\u201d"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>\u201cN\u00f3s vamos vencer. Oh! Do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, eu acredito\u201d. Assim diz um dos versos da m\u00fasica, talvez mais emblem\u00e1tica, abra\u00e7ada pela gera\u00e7\u00e3o que se levantou pelos direitos civis nos EUA, \u201cWe Shall Overcome\u201d (n\u00f3s vamos vencer). Negros e negras, mulheres do movimento feminista e LGBTI+ fizeram dela um hino nos EUA dos anos de 1960. Algumas dizem at\u00e9 que foi cantada pela multid\u00e3o que se juntou na noite do dia 28 de junho de 1969, em frente ao pequeno bar conhecido por ser o \u00fanico aberto \u00e0 diversidade de Nova York, o famoso Stonewall Inn.<\/p>\n<p>  <!--more-->  A rebeli\u00e3o de Stonewall, como ficou conhecida a onda de subvers\u00e3o frente \u00e0s recorrentes investidas violentas da pol\u00edcia contra as pessoas LGBTI+, ocorrida inesperadamente, mas n\u00e3o inexplicavelmente, em junho de 1969, mudou a hist\u00f3ria e marcou, para sempre, o movimento LGBTI+. <\/p>\n<p>At\u00e9 o final dos anos de 1960, apenas no estado de Illinois a homossexualidade n\u00e3o era criminalizada nos EUA. At\u00e9 a promulga\u00e7\u00e3o da Lei dos Direitos Civis (1964) e da Lei dos Direitos de Voto (1965) nos Estados Unidos, as \u201cleis de Jim Crow\u201d legalizavam as mais bizarras e criminosas pol\u00edticas de segrega\u00e7\u00e3o racial, o conhecido por American Apartheid.<\/p>\n<p>As d\u00e9cadas de 60 e 70 do s\u00e9culo passado foram marcadas por in\u00fameras revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais que tomaram conta do cen\u00e1rio mundial, como o movimento hippie, as manifesta\u00e7\u00f5es estudantis, o maio de 68 franc\u00eas, os manifestos contra a guerra do Vietn\u00e3, e, na Am\u00e9rica Latina, os movimentos de resist\u00eancia contra as Ditaduras Militares.<\/p>\n<p>Nos EUA, uma s\u00e9rie de lutas que mobilizaram negros e negras e o movimento feminista mudaram o curso da hist\u00f3ria. E antes do final da d\u00e9cada de 1960, viu-se acrescida pelo levante em movimento, o moderno movimento LGBTI+, dando uma grande demonstra\u00e7\u00e3o de rebeldia e for\u00e7a. A Rebeli\u00e3o de Stonewall n\u00e3o foi a primeira e n\u00e3o foi o in\u00edcio do movimento LGBTI+ (ou movimento gay\/homossexual como era denominado na \u00e9poca), mas sem d\u00favidas, foi o mais emblem\u00e1tica e inaugurou o modo de protesto por direitos iguais: a rebeldia do orgulho.<\/p>\n<p>Portanto, sem menosprezar o papel, principalmente das drags, das travestis, das trans, gays e bis \u00e0 frente da Rebeli\u00e3o de Stonewall, a madrugada do dia 28 de junho \u00e9 produto de uma gera\u00e7\u00e3o e seu resultado \u00e9 a nossa bandeira.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Quem diria?<\/strong><\/p>\n<p>Cinquenta anos depois, o ano de 2019 se iniciou parecendo que a hist\u00f3ria havia andado para tr\u00e1s. A elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro abateu os sonhos e esperan\u00e7as de milhares que, de alguma forma, acreditavam que est\u00e1vamos, mesmo que em passos t\u00edmidos, no caminho por cada vez mais direitos para as pessoas LGBTI+.<\/p>\n<p>H\u00e1 seis meses, naquele triste dia 1\u00ba de janeiro, quando assistimos revoltadas, mas com efetivo medo, a posse do Bolsonaro, quem diria que hoje estar\u00edamos comemorando, depois de colocarmos 3 milh\u00f5es de pessoas nas ruas de SP, na maior Parada do Orgulho LGBTI+ do mundo, a criminaliza\u00e7\u00e3o da LGBTIfobia?<\/p>\n<p>Pela dor, estamos reaprendendo que as condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o conquistadas na luta. E em como todo jogo, antes que se d\u00ea por finalizado, pode-se ganhar, pode-se perder. Hoje, mais uma vez a humanidade \u00e9 atormentada pelos dem\u00f4nios do obscurantismo, da ignor\u00e2ncia tosca e bo\u00e7al. Mais uma vez, as trevas reacion\u00e1rias se erguem sobre o horizonte, famintas por engolir a ci\u00eancia o colorido da diversidade.<\/p>\n<p>Mas assim como n\u00e3o h\u00e1 caminho reto para a vit\u00f3ria, n\u00e3o o h\u00e1 para a derrota. As tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas, na maior manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do mundo, foram \u00e0s ruas dizer que n\u00e3o voltaremos para os arm\u00e1rios e n\u00e3o baixaremos a cabe\u00e7a. Como bem disse Madonna em seu novo \u00e1lbum: They are so naive \/ They think we are not aware of their crimes \/We know, but we are just not ready to act (Eles s\u00e3o t\u00e3o ing\u00eanuos \/ Eles acham que n\u00e3o estamos cientes de seus crimes \/N\u00f3s sabemos, s\u00f3 n\u00e3o estamos prontos ainda para agir).<\/p>\n<p>A mais nova conquista do movimento LGBTI+, a criminaliza\u00e7\u00e3o da LGBTfobia, mesmo estando muito longe do que precisamos e merecemos, evidencia uma vit\u00f3ria muito maior. Uma das testemunhas da segunda noite da rebeli\u00e3o de Stonewall, o poeta norte-americano Allen Ginsberg, gay e uma das mais ativas vozes pela causa, um grande nome da gera\u00e7\u00e3o beat que visitou ent\u00e3o o Stonewall, relatou da seguinte forma o que viu l\u00e1: \u201cVoc\u00ea sabe, os caras l\u00e1 estavam t\u00e3o lindos. Eles perderam esse olhar de medo que todas as bichas tinham h\u00e1 10 anos\u201d. A elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro trouxe uma d\u00favida: n\u00f3s l\u00e9sbicas, bissexuais, travestis, transexuais, interssexuais e todas as demais express\u00f5es diversas de g\u00eanero e sexualidade, voltaremos a ter esse olhar de medo? Hoje podemos afirmar: n\u00e3o, n\u00e3o mais!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Fa\u00e7amos dois, tr\u00eas, muitos Stonewalls<\/strong><\/p>\n<p>Cedo ou tarde a humanidade ser\u00e1 julgada por seus crimes. No j\u00fari estar\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de vida das que vir\u00e3o e do planeta, o ar, a longevidade da maioria da nossa esp\u00e9cie, a quantidade de saberes e descobertas acumuladas, a capacidade de sermos felizes. Seremos julgadas por conseguirmos seguir sendo humanas e aproveitando da nossa humanidade ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A diversidade, seja de g\u00eaneros m\u00faltiplos, orienta\u00e7\u00f5es sexuais, constru\u00e7\u00f5es culturais, cores das peles, tipos de peles, aspectos \u00e9tnico-raciais, formas de vida etc, s\u00e3o caracter\u00edsticas fundamentais da pr\u00f3pria humanidade. A madrugada do dia 28 de junho de 1969 foi, sen\u00e3o, a pr\u00f3pria humanidade se defendendo dos inimigos das suas belezas.<\/p>\n<p>Hoje, mais do que antes, \u00e9 preciso resgatar a hist\u00f3ria de luta do movimento LGBTI+, nos espelhar nos exemplos daquela rebeli\u00e3o. Diferente do que tenta fazer parecer o mercado pink, Stonewall n\u00e3o foi feito por \u201cpadr\u00f5ezinhos\u201d, foram as bichas pobres e pretas, as travestis das ruas, aquelas e aqueles por quem o mercado n\u00e3o se interessava e n\u00e3o o faz at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Essa, e os esp\u00edritos de combatividade e insubordina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as duas grandes li\u00e7\u00f5es ao movimento LGBTI+ de hoje, t\u00e3o importante, mas t\u00e3o cooptado pelo mercado e pelas tentativas de apassivamento. N\u00e3o se trata de n\u00e3o celebrar ou de perder um dos nossos grandes trunfos, a alegria, se trata de levantar bandeiras, n\u00e3o pela inclus\u00e3o de nossos corpos no mercado, mas da transforma\u00e7\u00e3o de toda a sociedade e, junto dessa, o nosso direito de sermos o que somos e de vivermos da forma como bem queiramos e mere\u00e7amos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Venceremos, eventualmente<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 a hist\u00f3ria da luta pela pr\u00f3pria humanidade, pela luta do desenvolvimento das suas potencialidades. As diversidades de orienta\u00e7\u00e3o sexual e g\u00eaneros sempre existiram e sempre ir\u00e3o existir.<\/p>\n<p>Nosso mundo \u00e9 estruturado pelas desigualdades sociais por classe, etnia\/ra\u00e7a, g\u00eanero, origem\/nacionalidade e orienta\u00e7\u00e3o sexual. Essas desigualdades existem para fazer com que alguns poucos dominem o que muitos produzem. Vale lembrar que 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta. Para justificar esse crime contra a humanidade, eles, os donos do poder, utilizam de falsas ideias para dizer que alguns grupos s\u00e3o merecedores de mais, enquanto outros merecem menos. Transformam diferen\u00e7as em desigualdades de oportunidades e direitos. \u00c9 assim que as ideologias do machismo, do racismo, da LGBTIfobia, e tantas outras, se perpetuam, pois elas s\u00e3o rent\u00e1veis aos donos do mundo. A luta LGBTI+ deve ser para os 99 % da popula\u00e7\u00e3o. Para vencer, \u00e9 preciso saber contra quem estamos lutando.<\/p>\n<p>Bolsonaro foi eleito por uma s\u00e9rie de fatores. Um deles, e do tipo mais importante, se deveu \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o dos afetos reprimidos, das vontades sufocadas, da vingan\u00e7a e da inveja, do medo da liberdade\u2026 E \u00e9 assim que mentiram sobre a \u201cmamadeira de piroka\u201d, o \u201ckit gay\u201d. O nosso orgulho resiliente \u00e9 o medo deles, o p\u00e2nico deles.<\/p>\n<p>Passados alguns meses desde o momento mais cr\u00edtico da situa\u00e7\u00e3o brasileira nos \u00faltimos anos, a gigante Parada de S\u00e3o Paulo nos disse: olhemos em nossos olhos. Neles veremos coragem e n\u00e3o o medo; resili\u00eancia e n\u00e3o fraqueza; amor e n\u00e3o o \u00f3dio; resist\u00eancia e n\u00e3o des\u00e2nimo; alegria e n\u00e3o tristezas. Para eles, isso \u00e9 insuport\u00e1vel. E n\u00f3s, n\u00f3s n\u00e3o estamos nem a\u00ed. N\u00f3s sabemos, no fundo dos nossos cora\u00e7\u00f5es, que vamos vencer, lembrando nosso querido Jean Wyllys, exilado pol\u00edtico do governo Bolsonaro: \u201cdurmam com essa, canalhas\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Editorial do Esquerda Online &#8211; 28 de Junho de 2019<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00f3s vamos vencer. Oh! 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