{"id":314,"date":"2010-10-04T18:04:20","date_gmt":"2010-10-04T17:04:20","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/10\/04\/os-despedimentos-em-cuba-e-algumas-reaccoes-da-esquerda-portuguesa\/"},"modified":"2010-10-04T18:04:20","modified_gmt":"2010-10-04T17:04:20","slug":"os-despedimentos-em-cuba-e-algumas-reaccoes-da-esquerda-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/10\/04\/os-despedimentos-em-cuba-e-algumas-reaccoes-da-esquerda-portuguesa\/","title":{"rendered":"Os despedimentos em Cuba e algumas reac\u00e7\u00f5es da esquerda portuguesa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-313\" style=\"margin: 10px 10px 2px; float: left;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/raulcastro.jpg?w=300\"  srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/raulcastro.jpg?w=512 512w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/raulcastro.jpg?resize=300%2C189 300w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/raulcastro.jpg?resize=480%2C303 480w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/>Em Agosto deste ano, o dirigente cubano Ra\u00fal Castro anunciou o despedimento de mais de 1 milh\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, isto \u00e9, entre 25% a 30% dos trabalhadores do pa\u00eds. Castro justificou a medida como fazendo parte de &#8220;importantes decis\u00f5es que constituem em si mesmas uma mudan\u00e7a estrutural e de conceito com o objectivo de preservar e desenvolver o nosso sistema social e faz\u00ea-lo sustent\u00e1vel no futuro&#8221; (<em>Granma<\/em>, 2\/8). E acrescentou: &#8220;\u00c9 preciso acabar para sempre com a no\u00e7\u00e3o de que Cuba \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo em que se pode viver sem trabalhar&#8221;.<\/p>\n<p \/>  <!--more-->  Na verdade, o que o governo do Partido Comunista est\u00e1 a fazer em Cuba \u00e9 muito parecido com o que os demais governos capitalistas est\u00e3o a fazer no mundo inteiro: descarregar a crise econ\u00f3mica nos ombros dos trabalhadores, com especial \u00eanfase no funcionalismo p\u00fablico. O trabalhador cubano \u00e9 dos mais mal pagos do mundo, com sal\u00e1rios que variam de 10 a 15 d\u00f3lares. Por isso, mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o depende das remessas enviadas pelos seus familiares que emigraram para o estrangeiro.<\/p>\n<p>O governo do Partido Comunista alega que os trabalhadores despedidos poder\u00e3o encontrar trabalho em outros sectores ou trabalhar por conta pr\u00f3pria, como se fosse poss\u00edvel, com a crise econ\u00f3mica existente, ou mesmo sem ela, recolocar cerca de \u00bc da popula\u00e7\u00e3o economicamente activa. Al\u00e9m disso, o governo cubano, cientificamente, reduziu o subs\u00eddio de desemprego para apenas seis semanas. &#8220;Em Janeiro deste ano, o governo cubano anunciou a elimina\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio desemprego dizendo que em troca ofereceria &#8216;um trabalho produtivo&#8217;. Agora, Raul Castro diz que &#8216;n\u00e3o se trata de encarregar o Estado de colocar cada um em v\u00e1rias ofertas de trabalho. Os primeiros interessados em encontrar um trabalho socialmente \u00fatil devem ser os pr\u00f3prios cidad\u00e3os&#8217;. Falando sem rodeios: que se virem!&#8221; (<em>Correio Internacional<\/em>, Maio de 2010)<\/p>\n<p><strong>Estado capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Para os que insistem que Cuba continua a ser um Estado socialista, como os partidos comunistas, entre eles o Partido Comunista Portugu\u00eas, esta medida deveria servir de li\u00e7\u00e3o. Assim como a supress\u00e3o de 24.700 refeit\u00f3rios oper\u00e1rios nos quais comiam diariamente 3,5 milh\u00f5es de trabalhadores; ou a crescente falta de moradia e o aumento da desigualdade social. Mas n\u00e3o, continuam em coro a defender o pretenso socialismo cubano e a negar a realidade. Em nota \u00e0 imprensa de 17 de Setembro, o PCP rejeita a ideia de que v\u00e1 haver despedimentos em Cuba, mas sim uma &#8220;reorienta\u00e7\u00e3o laboral de trabalhadores para outros postos de trabalho&#8221;. Digamos que nem S\u00f3crates teria sido t\u00e3o criativo.<\/p>\n<p>A seguir, na mesma nota classifica as medidas tomadas \u2013 al\u00e9m dos despedimentos, o governo cubano anunciou tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de mais 16 campos de golfe com capitais internacionais, o descongelamento da venda de casas a estrangeiros e a redu\u00e7\u00e3o das reten\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias \u00e0s empresas multinacionais \u2013 de &#8220;actualiza\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f3mico em vigor, num momento em que o mundo \u00e9 sacudido por uma violenta crise do capitalismo&#8221;. E conclui com a tradicional declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 no socialismo cubano e den\u00fancia do bloqueio dos EUA.<br \/>De facto, Cuba vem enfrentando graves problemas na sua economia desde 2008 (mas de 2003 a 2008 foi uma das economias que mais cresceram na Am\u00e9rica Latina) em fun\u00e7\u00e3o da crise capitalista, com a queda das receitas do turismo e do pre\u00e7o do n\u00edquel. Mas o problema \u00e9 mais profundo e come\u00e7a em 1982, quando o governo cubano come\u00e7ou a abrir as portas ao investimento estrangeiro directo em Cuba e a restaurar o capitalismo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em Cuba, apesar da propaganda cosm\u00e9tica do socialismo, a maior parte da produ\u00e7\u00e3o, dos servi\u00e7os e do turismo s\u00e3o privados, constituindo empresas mistas, em que o capital estrangeiro (espanhol, canadiano, chin\u00eas, russo, brasileiro e venezuelano) se associa ao Estado cubano, fornecedor de m\u00e3o de obra qualificada e super-explorada. &#8220;Cuba deixou de ser regida pelo plano de produ\u00e7\u00e3o central e passou a faz\u00ea-lo pelo crit\u00e9rio fundamental do mercado (produ\u00e7\u00e3o para o lucro), ao mesmo tempo em que p\u00f4s um fim ao monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior.&#8221; (CI, Maio de 2010) Isto \u00e9, no chamado &#8220;socialismo&#8221; cubano a propriedade \u00e9 privada, n\u00e3o h\u00e1 economia planificada nem monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior. Que &#8220;socialismo&#8221; \u00e9 esse?<\/p>\n<p>Quanto ao bloqueio americano, apresentado como uma das raz\u00f5es centrais a explicar o desastre da economia cubana, a verdade \u00e9 que este bloqueio \u00e9 parcial (os EUA j\u00e1 s\u00e3o o quinto s\u00f3cio comercial de Cuba) e n\u00e3o h\u00e1 qualquer bloqueio por parte das demais pot\u00eancias imperialistas, como as europeias e o Canad\u00e1.<br \/>&#8220;A campanha em &#8216;defesa de Cuba&#8217; \u00e9 hoje o apoio incondicional a um governo e a um regime no qual as For\u00e7as Armadas dirigem a seguran\u00e7a, controlam o Partido Comunista (PCC) e comandam a economia. Elas concentram sob seu controle o chamado Grupo de Administra\u00e7\u00e3o Empresarial (GAESA), dirigido por um general, que agrupa os principais sectores estrat\u00e9gicos da economia cubana. Foram os militares que desenvolveram o chamado Sistema de Aperfei\u00e7oamento Empresarial e controlavam, em 2007, as 322 maiores empresas do pa\u00eds, respons\u00e1veis por 89% das exporta\u00e7\u00f5es e 60% do PIB. \u00c9 sobre essa situa\u00e7\u00e3o e desde esse regime pol\u00edtico que o &#8216;plano de ajuste&#8217; anunciado por Ra\u00fal Castro ser\u00e1 aplicado sobre os trabalhadores e o povo cubano&#8221; (<em>CI<\/em>, Maio de 2010).<\/p>\n<p><strong>Ditadura a servi\u00e7o da restaura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 correcto afirmar, como o faz o coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Lou\u00e7\u00e3, em artigo de opini\u00e3o sobre o an\u00fancio dos despedimentos em Cuba, publicado a 26 de Setembro no esquerda.net, que &#8220;Em todo o lugar, em todo o tempo, s\u00e3o precisos sindicatos que falem livremente pelos trabalhadores e que lutem pelos seus interesses, sem se subordinar aos Estados&#8221;. \u00c9 verdade que tanto no Estados burgueses como nos Estados oper\u00e1rios \u00e9 preciso lutar pela democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em Cuba, as liberdades democr\u00e1ticas conquistadas com a derrubada revolucion\u00e1ria do regime de Batista foram suprimidas com a consolida\u00e7\u00e3o do estado oper\u00e1rio vinculado \u00e0 ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E essa aus\u00eancia de democracia oper\u00e1ria mant\u00e9m-se desde ent\u00e3o. O que mudou em Cuba n\u00e3o foi o regime ditatorial que imperava na ilha, mas o Estado, que de oper\u00e1rio se tornou capitalista.<br \/>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista em Cuba d\u00e1-se, como nos demais ex-estados oper\u00e1rios burocratizados, com a inestim\u00e1vel ajuda de um regime ditatorial, onde n\u00e3o existe direito de greve, nem liberdade sindical e pol\u00edtica. Os burocratas, civis e militares, s\u00e3o o candidatos a burgueses, assim como ocorreu na China, R\u00fassia, etc. Os que criticam o regime s\u00e3o chamados de contra-revolucion\u00e1rios pelos mesmo que, desde o governo, destru\u00edram as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a aus\u00eancia de liberdade sindical e pol\u00edtica fragiliza e dificulta a reac\u00e7\u00e3o dos trabalhadores cubanos \u00e0s medidas de austeridade na ilha e, neste aspecto, est\u00e3o em desvantagem frente aos seus companheiros de classe dos regimes democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Portanto, resulta incompreens\u00edvel a frase, do mesmo artigo, que diz: &#8220;Anos depois, Cuba vive a dificuldade das escolhas. E estes epis\u00f3dios recentes sublinham essa dificuldade&#8221;. A que escolhas o artigo se refere? \u00c0 escolha da expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e da constru\u00e7\u00e3o de um Estado oper\u00e1rio? \u00c0 escolha de restaurar o capitalismo? \u00c0 escolha de impedir a democracia oper\u00e1ria?<\/p>\n<p>A seguir, o mesmo artigo afirma que &#8220;\u00c9 compreens\u00edvel que um Estado n\u00e3o possa ter todos os trabalhadores como funcion\u00e1rios p\u00fablicos&#8221;. Mas a que Estado o artigo se refere? Se for a um Estado oper\u00e1rio, em que n\u00e3o haja propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, todos os trabalhadores ser\u00e3o &#8220;funcion\u00e1rios p\u00fablicos&#8221;, como, ali\u00e1s, acontecia em Cuba h\u00e1 at\u00e9 bem pouco tempo. E um Estado oper\u00e1rio tem o dever de manter o pleno emprego ou, em caso de dificuldades, falar a verdade aos trabalhadores. Mas, se for a um Estado capitalista, tamb\u00e9m n\u00e3o caberia ao coordenador pol\u00edtico do BE este tipo de &#8220;compreens\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Resulta, sim, completamente imposs\u00edvel, a partir desse artigo, desvendar a sua opini\u00e3o sobre o car\u00e1cter do Estado cubano hoje. E esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de menor import\u00e2ncia, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 fundamental. N\u00e3o para justificar a falta de democracia em Cuba, como faz o PCP, mas para demonstrar que a aus\u00eancia de democracia oper\u00e1ria nos Estados oper\u00e1rios, isto \u00e9, a sua burocratiza\u00e7\u00e3o, denunciada por Trotsky e pelos trotskistas, conduzem, inevitavelmente \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cristina Portella<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Agosto deste ano, o dirigente cubano Ra\u00fal Castro anunciou o despedimento de mais de 1 milh\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, isto \u00e9, entre 25% a 30% dos trabalhadores do pa\u00eds. Castro justificou a medida como fazendo parte de &#8220;importantes decis\u00f5es que constituem em si mesmas uma mudan\u00e7a estrutural e de conceito com o objectivo de preservar e desenvolver o nosso sistema social e faz\u00ea-lo sustent\u00e1vel no futuro&#8221; (Granma, 2\/8). 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