{"id":3130,"date":"2019-04-24T11:42:15","date_gmt":"2019-04-24T10:42:15","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2019\/04\/24\/25-de-abril-a-revolucao-portuguesa-2\/"},"modified":"2019-04-24T11:42:15","modified_gmt":"2019-04-24T10:42:15","slug":"25-de-abril-a-revolucao-portuguesa-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2019\/04\/24\/25-de-abril-a-revolucao-portuguesa-2\/","title":{"rendered":"25 de abril: a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa (2)"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"clear: both;\" \/>\u201cO \u00eaxito f\u00e1cil demais do 25 de novembro, que \u00e9 sua principal originalidade, obriga a examinar com mais aten\u00e7\u00e3o a pol\u00edtica seguida pelo PCP, pela ala esquerda do MFA e pelos grupos da esquerda revolucion\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>  <!--more-->  (Francisco Martins Rodrigues, alias, Chico Martins.)\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftn1\">[1]<\/a> <\/p>\n<p>Em 1972, o general Ant\u00f4nio Sp\u00ednola publicou o livro\u00a0Portugal e o Futuro. O Governo de Marcelo Caetano autorizou a publica\u00e7\u00e3o do livro. O parecer favor\u00e1vel foi feito por ningu\u00e9m menos que o general Costa Gomes.<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftn2\">[2]<\/a> A guerra nas col\u00f4nias mergulhou Portugal em uma crise cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds de dez milh\u00f5es habitantes, acentuadamente defasado da prosperidade europ\u00e9ia dos anos sessenta, sangrando pela emigra\u00e7\u00e3o da juventude que fugia do servi\u00e7o militar e da pobreza, n\u00e3o podia continuar mantendo um ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o de dezenas de milhares de homens, indefinidamente, em uma guerra africana. O que n\u00e3o se sabia, ent\u00e3o, era que o livro de Sp\u00ednola era somente a ponta de um iceberg e que, clandestinamente, na oficialidade m\u00e9dia, j\u00e1 estava se articulando o Movimento das For\u00e7as Armadas, o MFA. A fraqueza do governo Marcelo Caetano era t\u00e3o grande que cairia como uma fruta podre, em horas. A na\u00e7\u00e3o estava exaurida pela guerra. Pela porta aberta pela revolu\u00e7\u00e3o antiimperialista nas col\u00f4nias, iria entrar a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social na metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o colonial<\/strong><\/p>\n<p>O servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio era de assombrosos quatro anos, dos quais pelo menos dois eram cumpridos no ultramar. Mais de dez mil mortos, sem contar os feridos e mutilados, na escala de dezenas de milhares. Foi do interior desse ex\u00e9rcito de alistamento obrigat\u00f3rio que surgiu um dos sujeitos pol\u00edticos decisivos do processo revolucion\u00e1rio, o MFA. Respondendo \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias da metr\u00f3pole e, tamb\u00e9m, \u00e0 press\u00e3o da classe trabalhadora na qual uma parcela dessa oficialidade m\u00e9dia tinha sua origem de classe, cansados da guerra, e ansiosos por liberdades, rompiam com o regime.<\/p>\n<p>Estas press\u00f5es sociais explicam, tamb\u00e9m, os limites pol\u00edticos do pr\u00f3prio MFA, e ajudam a compreender porque, depois de derrubar Caetano, entregaram o poder a Sp\u00ednola. O pr\u00f3prio Otelo, defensor, a partir do 11 de Mar\u00e7o, do projeto de transformar o MFA em movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional, \u00e0 maneira de movimentos militares em pa\u00edses da periferia, como no Peru do in\u00edcio dos anos setenta, fez o balan\u00e7o com uma franqueza desconcertante: \u201cEste sentimento arraigado de subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 hierarquia, da necessidade de um chefe que, por cima de n\u00f3s, nos orientasse no \u201cbom\u201d caminho, nos perseguiria at\u00e9 o final\u201d.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Esta confiss\u00e3o permanece uma das chaves de interpreta\u00e7\u00e3o do que ficou conhecido como o PREC (processo revolucion\u00e1rio em curso), ou seja, os doze meses em que Vasco Gon\u00e7alves esteve \u00e0 frente do II, III, IV e V governos provis\u00f3rios. Ironicamente, assim como muitos capit\u00e3es se inclinavam a depositar excessiva confian\u00e7a nos generais, uma parcela da esquerda entregava aos capit\u00e3es, ou \u00e0 f\u00f3rmula unidade do povo com o MFA, defendida pelo PCP, a lideran\u00e7a do processo.<\/p>\n<p>Diz-se que, em situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, os seres humanos excedem-se ou se elevam, entregando-se na melhor medida de si pr\u00f3prios. Aparece, ent\u00e3o, o que t\u00eam de melhor e pior. Sp\u00ednola, en\u00e9rgico e perspicaz, era um reacion\u00e1rio pomposo, com poses de general german\u00f3filo, com seu incr\u00edvel mon\u00f3culo do s\u00e9culo XIX. Costa Gomes, sutil e astuto, era, como um camale\u00e3o, um homem da oportunidade. Do MFA surgiram as lideran\u00e7as de Salgueiro Maia ou Dinis de Almeida, valentes e honrados, mas sem educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; de Otelo, o chefe do COPCON, uma personalidade entre um Ch\u00e1vez e um Capit\u00e3o Lamarca, ou seja, entre o hero\u00edsmo da organiza\u00e7\u00e3o do levante, e o disparatado das posteriores rela\u00e7\u00f5es com a L\u00edbia e as FP-25 de abril; de Vasco Louren\u00e7o, de origem social popular, como Otelo, atrevido e arrogante, mas tortuoso; de Melo Antunes, instru\u00eddo e sinuoso, o homem chave do grupo dos nove, o feiticeiro que termina prisioneiro de suas manipula\u00e7\u00f5es; de Varela Gomes, o homem da esquerda militar, discreto e digno; de Vasco Gon\u00e7alves, menos tr\u00e1gico que Allende, mas, tamb\u00e9m, menos buf\u00e3o que Daniel Ortega. Foi da tropa, tamb\u00e9m, que surgiu o \u201cBonaparte\u201d, Ramalho Eanes, sinistro, que enterrou o MFA.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>A economia portuguesa, pouco internacionalizada, mas j\u00e1 razoavelmente industrializada, se estruturava na divis\u00e3o internacional do trabalho em dois \u201cnichos\u201d, os dois pilares empresariais do regime, a explora\u00e7\u00e3o colonial e a atividade exportadora. Sete grandes grupos controlavam quase tudo. Ramificavam-se em 300 empresas que tinham 80% dos servi\u00e7os banc\u00e1rios, 50% dos seguros, 8 das 10 maiores ind\u00fastrias, 5 das 7 maiores exportadoras. Os monop\u00f3lios comandavam, mas a din\u00e2mica de crescimento era oscilante. O pa\u00eds permaneceu, comparativamente, estagnado, enquanto a economia europ\u00e9ia vivia o boom do p\u00f3s-guerra. Em Portugal, n\u00e3o houve al\u00edvio social. A superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho manual se manteve, agravada pelas seq\u00fcelas sociais da guerra colonial. A ordem salazarista se manteve depois da morte do ditador, com um implac\u00e1vel bra\u00e7o armado \u2013 a PIDE \u2013 20.000 informantes, mais de dois mil agentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, \u00e9 certo, um sism\u00f3grafo de situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Ainda na manh\u00e3 dia 25 de Abril, ao ouvir pelo r\u00e1dio a comunica\u00e7\u00e3o do levante militar do MFA, uma multid\u00e3o de milhares de pessoas saiu \u00e1s ruas e se dirigiu \u00e0 baixa de Lisboa, cercando o Quartel da GNR (Guarda Nacional Republicana) no Largo do Carmo, onde Marcelo Caetano se refugiara, e negociava com Salgueiro Maia os termos da rendi\u00e7\u00e3o, exigindo a presen\u00e7a de Sp\u00ednola. Algumas centenas de pides \u2013 Pol\u00edcia Internacional de Defesa do Estado \u2013 entrincheirados na sede, disparam sobre a massa popular. No Porto, milhares de pessoas cercaram os policiais no edif\u00edcio da C\u00e2mara, e estes responderam atirando sobre a popula\u00e7\u00e3o. E foi s\u00f3 isso a for\u00e7a da resist\u00eancia. Deixaram quatro mortos.<\/p>\n<p>Toda revolu\u00e7\u00e3o tem o seu pitoresco. Nunca saberemos ao certo da veracidade maior ou menor dos pequenos epis\u00f3dios. Ma si non \u00e9 vero, \u00e9 bene trovato. Nas primeiras horas da manh\u00e3, quando uma coluna de carros militares descia a Avenida da Liberdade em dire\u00e7\u00e3o ao Terreiro do Pa\u00e7o, as floristas do Parque Mayer lhes perguntam o que estava acontecendo, e os soldados respondem que vieram derrubar a ditadura. Elas, na sua simplicidade, de t\u00e3o felizes, lhes oferecem cravos vermelhos e assim, sem o saber, batizaram a revolu\u00e7\u00e3o com o nome de uma flor.<\/p>\n<p>Recordemos que uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve se confundir com o triunfo de um levante militar, mesmo quando se trata de uma insurrei\u00e7\u00e3o com apoio popular.\u00a0N\u00e3o \u00e9 incomum que golpes militares ou rebeli\u00f5es de quartel funcionem, historicamente, como um sinal de que uma tormenta muito maior se aproxima. As opera\u00e7\u00f5es palacianas podem \u201cabrir uma janela\u201d por onde ir\u00e1 entrar o vento da revolu\u00e7\u00e3o que estava contido. Em Portugal, o processo da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica transbordou, como na R\u00fassia de 1917, porque o ex\u00e9rcito tinha sido dilacerado pela guerra. Quando no primeiro de Maio de 1974 centenas de milhares de pessoas desfilaram durante horas at\u00e9 o est\u00e1dio de Alvalade, carregando milhares de bandeiras vermelhas para recepcionar os que voltavam do ex\u00edlio, e abra\u00e7ar os que sa\u00edram das pris\u00f5es, estavam marchando em dire\u00e7\u00e3o aos seus sonhos de uma sociedade mais justa. Descobriam, surpresas, a for\u00e7a social de sua mobiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 dessa experi\u00eancia pr\u00e1tica compartilhada por milh\u00f5es que s\u00e3o feitas as revolu\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A \u00faltima revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o portuguesa foi a \u00faltima revolu\u00e7\u00e3o social na Europa Ocidental do final do s\u00e9culo XX. Ainda que interrompida, a din\u00e2mica de revolu\u00e7\u00e3o social anticapitalista foi um dos seus tra\u00e7os chave. O conte\u00fado social do processo que veio no ano e meio que sucedeu o 25 de abril foi determinado em um contexto complexo: a revolu\u00e7\u00e3o tinha tarefas pendentes \u2013 fim da guerra colonial, independ\u00eancia das col\u00f4nias, reforma agr\u00e1ria, trabalho para todos, eleva\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, acesso \u00e0 moradia, direito ao ensino p\u00fablico \u2013 que n\u00e3o se resumiam \u00e0 derrubada da ditadura. O que determinou o seu vigor foi uma combina\u00e7\u00e3o de fatores sociais e pol\u00edticos, mas o mais importante foi a entrada em cena da mobiliza\u00e7\u00e3o das classes populares com uma disposi\u00e7\u00e3o de luta revolucion\u00e1ria que n\u00e3o podia ser contida pela repress\u00e3o, e n\u00e3o a presen\u00e7a de um dos Partidos Comunistas mais poderosos da Europa. Ao contr\u00e1rio, a presen\u00e7a de um forte PCP foi um elemento de conten\u00e7\u00e3o da luta social.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>A queda do regime foi o ato inaugural de uma etapa pol\u00edtica de radicaliza\u00e7\u00e3o popular incomparavelmente mais profunda \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u2013 em que foram sendo constru\u00eddas as experi\u00eancias de auto-organiza\u00e7\u00e3o. No 1 de maio, uma semana depois da queda de Caetano, uma manifesta\u00e7\u00e3o gigantesca em Lisboa, demonstra que uma irrup\u00e7\u00e3o de massas j\u00e1 come\u00e7ou. Comemora-se a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos, soltos em Caxias e Peniche, assim como no famigerado Tarrafal, em Cabo Verde. \u00c1lvaro Cunhal e M\u00e1rio Soares chegam do ex\u00edlio e, pela primeira vez, discursam. Soares faz exig\u00eancia p\u00fablica ao MFA e a Sp\u00ednola, indicado presidente, defendendo que o PS e o PCP, nas suas palavras, os dois partidos mais representativos da classe oper\u00e1ria, deveriam ser o n\u00facleo do governo.<\/p>\n<p>J\u00e1 no 28 de abril, os moradores de barracas da Boavista em Lisboa ocuparam casas vazias de um bairro social \u2013 constru\u00e7\u00f5es feitas pelo Estado \u2013 e se recusaram a sair, mesmo quando cercados pela pol\u00edcia e por tropas, sob o comando do MFA, realizando a primeira ocupa\u00e7\u00e3o. No dia 30 de abril, a primeira assembl\u00e9ia universit\u00e1ria de Lisboa re\u00fane mais de 10.000 estudantes no T\u00e9cnico, a faculdade de engenharia. No dia 2 de Maio \u00e9 autorizado o regresso de todos os exilados. Desertores e refrat\u00e1rios do Ex\u00e9rcito s\u00e3o anistiados. No dia 3 de Maio generaliza-se uma onda de ocupa\u00e7\u00f5es de casas desocupadas na periferia de Lisboa, com forte iniciativa de militantes de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de extrema-esquerda. O embarque de uma unidade militar para \u00c1frica \u00e9 impedido. Em 5 de Maio, trabalhadores dos TLP (telef\u00f4nicos), Caixa de previd\u00eancia de Faro, Hospital do Porto, re\u00fanem-se para exigir a demiss\u00e3o das chefias. Em \u00c9vora, os trabalhadores transformam as Casas do Povo em sindicatos agr\u00edcolas. Uma vaga de greves come\u00e7a, encabe\u00e7ada pelas grandes concentra\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, como na Lisnave e na Sider\u00fargica Nacional, exigindo a reintegra\u00e7\u00e3o dos demitidos, desde o in\u00edcio do ano, e sal\u00e1rios. Trabalhadores do Di\u00e1rio de Not\u00edcias, o principal matutino, ocupam o Jornal, e impedem a entrada dos administradores, que s\u00e3o depois demitidos. Meia d\u00fazia de exemplos que s\u00e3o apenas uma ilustra\u00e7\u00e3o de que ainda antes de completar um m\u00eas do fim da ditadura, a revolu\u00e7\u00e3o invadia todas as esferas da vida social e ocupava, al\u00e9m das ruas, as empresas, escolas, universidades, hospitais, oficinas, sindicatos, jornais, r\u00e1dios, e at\u00e9 as casas.<\/p>\n<p>Podemos periodizar o processo em tr\u00eas conjunturas: (a) de abril de 1974 at\u00e9 o 11 de mar\u00e7o de 1975, abre-se uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria semelhante \u00e0 do Fevereiro russo\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftn5\">[5]<\/a>: uma ampla frente social que une pequenas fra\u00e7\u00f5es dissidentes da burguesia, exasperada com a in\u00e9rcia da ditadura, com a ampla maioria das classes m\u00e9dias urbanas,\u00a0 cansadas com o arca\u00edsmo e obtusidade do regime, e as massas trabalhadoras, desesperadas pela guerra e pela pobreza. Nesses meses se garantiram as ampl\u00edssimas liberdades democr\u00e1ticas, inclusive nos locais de trabalho e o cessar-fogo em \u00c1frica, derrotando duas tentativas de quarteladas e o projeto de consolida\u00e7\u00e3o de um regime presidencialista forte. Predomina um forte sentimento de unidade entre os trabalhadores e a maioria dos setores m\u00e9dios, um apoio esmagador ao MFA, um sentimento a favor da unidade do PS e do PCP e contra Sp\u00ednola. A sociedade gira vertiginosamente \u00e0 esquerda; (b) entre o 11 de Mar\u00e7o e Julho de 1975, uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria semelhante \u00e0 que precedeu o Outubro russo: os de cima j\u00e1 n\u00e3o podem e os debaixo j\u00e1 n\u00e3o querem mais ser governados como antes. A fuga do pa\u00eds de uma parte consider\u00e1vel da burguesia, a nacionaliza\u00e7\u00e3o de parte das grandes empresas, o reconhecimento das independ\u00eancias \u2013 menos Angola \u2013 e a generaliza\u00e7\u00e3o de um processo de auto-organiza\u00e7\u00e3o de massas nos locais de trabalho, estudo e, sobretudo, nas For\u00e7as Armadas, mas sem que a dualidade de poder encontrasse uma via de centraliza\u00e7\u00e3o; (c) finalmente, a crise revolucion\u00e1ria, entre julho e novembro de 1975, com a cis\u00e3o do MFA, a independ\u00eancia de Angola, a radicaliza\u00e7\u00e3o anticapitalista com rupturas de setores de massas da influ\u00eancia do PS e do PCP, a forma\u00e7\u00e3o dos SUV (auto-organiza\u00e7\u00e3o de soldados e marinheiros) e manifesta\u00e7\u00f5es armadas, ou seja, a ante-sala ou de um deslocamento revolucion\u00e1rio do Estado, ou um golpe contra-revolucion\u00e1rio. Um destes dois desenlaces se tornava inadi\u00e1vel.\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftn6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A contra-revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A primeira tentativa de golpe fracassa estrepitosamente em 28 de setembro, na forma de um chamado p\u00fablico de Sp\u00ednola\u00a0\u00e0 \u201cmaioria silenciosa\u201d, recurso ret\u00f3rico de um apelo \u00e0 contra-ofensiva dos grot\u00f5es mais reacion\u00e1rios de um Portugal rural profundo.<\/p>\n<p>No dia 26 de Setembro, Sp\u00ednola compareceu a uma tourada no Campo Pequeno e foi ovacionado por uma parte do p\u00fablico, mas confrontos ocorreram entre militantes de esquerda e direitistas. Lisboa acordou coberta de cartazes convocando a passeata. No dia seguinte, ativistas do PCP e das variadas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda mais radical levantaram barricadas para impedir a passagem dos manifestantes de direita que, se esperava, viriam de fora. Soldados se uniram, espontaneamente, \u00e0s barricadas. As sedes do\u00a0Bandarra,\u00a0do Partido Liberal e do Partido do Progresso foram invadidas \u2013 propaganda fascista encontrada \u2013 e saqueadas. No dia 28 de setembro, as barricadas ganharam mais participa\u00e7\u00e3o, e carros foram parados e revistados, prendendo-se os ocupantes quando traziam armas. Otelo afirmou ter estado detido no Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m por ordem de Sp\u00ednola. N\u00e3o houve ades\u00e3o de massas ao chamado de Sp\u00ednola. Cento e cinq\u00fcenta conspiradores foram presos durante o dia.<\/p>\n<p>Obrigado a renunciar, mas ileso, Sp\u00ednola entregou a presid\u00eancia ao general Costa Gomes. Assume, ent\u00e3o, o III Governo provis\u00f3rio, permanecendo Vasco Gon\u00e7alves como primeiro-ministro. As energias do projeto de neocolonialismo \u00e0 \u201cinglesa\u2019 n\u00e3o tinham, todavia, se esgotado. Tentar\u00e3o o putsch \u201ckorniloviano\u201d de novo no 11 de mar\u00e7o. Mais uma vez, as barricadas levaram muitos milhares \u00e0s ruas. O segundo golpe foi a \u00faltima e desesperada tentativa da fra\u00e7\u00e3o burguesa que se opunha \u00e0 independ\u00eancia imediata das col\u00f4nias e contou com a participa\u00e7\u00e3o da GNR (Guarda Nacional republicana). O RAL-1 (Regimento de Artilharia Ligeira) de Lisboa foi bombardeado e cercado por unidades de p\u00e1ra-quedistas, mas o golpe \u00e9 desbaratado. Um epis\u00f3dio de negocia\u00e7\u00e3o acontece, publicamente, diante das c\u00e2maras de televis\u00e3o da RTP (!!!) e sintetiza toda a turbul\u00eancia de uma quartelada improvisada e sem base sociais significativas.<\/p>\n<p>Desde o 25 de abril, esta foi a terceira vez em que militares se enfrentaram. A primeira foi a crise que op\u00f4s a Coordenadora do MFA e Sp\u00ednola, em busca de refor\u00e7o da autoridade presidencial, e levou \u00e0 queda de Palma Carlos e do I governo provis\u00f3rio. A segunda foi o no 28 de setembro quando Sp\u00ednola ordenou a ocupa\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio. Nas duas primeiras nenhum tiro foi disparado. No 11 de mar\u00e7o, o principal quartel de Lisboa foi bombardeado e cercado, e um soldado morre. Ningu\u00e9m tem mais ilus\u00f5es que grandes enfrentamentos est\u00e3o no horizonte. A mem\u00f3ria recente do golpe de Pinochet no Chile exerce uma forte press\u00e3o sobre a esquerda e sobre a oficialidade do MFA. Seguem-se dezenas de pris\u00f5es, articuladas pelo COPCON: os comandantes operacionais da for\u00e7a que atacou o RAL-1, e v\u00e1rias lideran\u00e7as burguesas tradicionais: v\u00e1rios Esp\u00edrito Santo, um Champalimaud, e um Ribeiro da Cunha<\/p>\n<p>Sp\u00ednola e outros oficiais comprometidos fogem para Espanha, onde Franco os recebe, e depois, muitos foram se refugiar no Brasil. Na seq\u00fc\u00eancia, os trabalhadores banc\u00e1rios entram em greve pol\u00edtica, e assumem o controle do sistema financeiro. O MFA cria o Conselho da Revolu\u00e7\u00e3o, e decreta a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos sete grupos banc\u00e1rios portugueses mais importantes. Muitas empresas s\u00e3o ocupadas pelos trabalhadores. A burguesia entra em p\u00e2nico e come\u00e7a a abandonar o pa\u00eds. Mans\u00f5es desabitadas s\u00e3o ocupadas, e nelas ser\u00e3o instaladas creches.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em>Val\u00e9rio Arcary &#8211; Esquerda Online<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><br \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftnref1\">[1]<\/a> RODRIGUES, Francisco Martins.\u00a0Abril Tra\u00eddo. Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es Dinossauro, 1999, p.12.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftnref2\">[2]<\/a> Marcelo Caetano, Depoimento, Rio de Janeiro, Record, 1974, p.194.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftnref3\">[3]<\/a> CARVALHO, Otelo Saraiva de,\u00a0Mem\u00f3rias de Abril, Los preparativos y el estallido de la revoluci\u00f3n portuguesa vistos por su principal protagonista, Barcelona, Iniciativas Editoriales El Viejo Topo, s\/data, p.163.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftnref4\">[4]<\/a> VARELA, Raquel.\u00a0A hist\u00f3ria do PCP na revolu\u00e7\u00e3o dos cravos. Bertrand Editora, Lisboa 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftnref5\">[5]<\/a> A discuss\u00e3o dos tempos da revolu\u00e7\u00e3o e dos crit\u00e9rios para aferi\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais de for\u00e7a pode ser encontrada no meu livro\u00a0As Esquinas Perigosas da Hist\u00f3ria, S\u00e3o Paulo, Xam\u00e3, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=2219#_ftnref6\">[6]<\/a> Lincoln Secco,\u00a0A Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos,\u00a0S\u00e3o Paulo, Alameda, 2004, p.153.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO \u00eaxito f\u00e1cil demais do 25 de novembro, que \u00e9 sua principal originalidade, obriga a examinar com mais aten\u00e7\u00e3o a pol\u00edtica seguida pelo PCP, pela ala esquerda do MFA e pelos grupos da esquerda revolucion\u00e1ria.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3129,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[31],"tags":[1644,116,114,115,2,117],"class_list":["post-3130","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional","tag-25-abril","tag-alternativa","tag-mas","tag-movimento","tag-revolucao","tag-socialista"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/revoluao_25abril.jpg?fit=500%2C281","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3130\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3129"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}